marcos do tempo
riscas de sombra
riscos de sobra
marcas ao cento
resta homenagear
a testemunha solar…
Etiqueta: tempo
‘Bora lá!*
Há pelo menos 30 anos, após o nascimento da minha primeira filha, consegui empreender o desejo de viver um dia de cada vez. Entendi que cada dia poderia ser o último e que não deveria ficar tão preso ao passado, apesar das cicatrizes coçarem vez ou outra. E nem esperar que o futuro simplesmente ocorresse naturalmente com a passagem inexorável do tempo. Compreendi que o futuro se faz principalmente no presente. Sem prescindir de planejamento, percebi que o imponderável também tem o seu lugar e que devemos estar preparados para o inesperado. Quando ocorrer o que não estava programado, imediatamente aplicar um plano B. O interessante é que estou quase sempre pronto para as coisas ruins, mas nem sempre para as boas. Eu tinha planejado ter um dia totalmente diferente, de atividade contínua. Porém, algo escapou ao controle (nunca conseguimos controlar tudo, aliás, nem devemos) e ganhei uma folga nesta imensa folga de mais de um ano de Pandemia (alguém além do Barack Obama a esperava?). A moça do tempo anunciou um dia nublado e eis que o sol se fez. Inesperado, apesar de bem vindo, nem sabia o que fazer. Agora mesmo, sairei para uma caminhada à esmo, como tenho feito neste primeiro semestre. Conversarei com a luz. Seguirei por caminhos abertos e sem aglomeração. Ruas vazias de Sol inclinado a alongarem sombras de gentes e árvores. ‘Bora lá!
*Texto de Junho de 2021
O DIA DE UMA MÃE
A minha mãe está presente, em mim. Tenho dificuldade de me lembrar exatamente o dia em que ela se foi fisicamente. Foi em 2010. Ou poderia dizer que se eternizou. Mas não estou aqui para falar sobre Dona Madalena. Seria como falar sobre mim. Quero exaltar a mãe mais próxima que eu conheço, a das nossas filhas, a Tânia.
A partir de 1989, com a chegada da Romy, começou a sua jornada mais intensa. Mas a gravidez já foi uma fase complicada. Os seguidos enjoos, dores articulares, pés inchados, se mostrou bastante desafiadora. Ainda assim, a Tânia encarou mais duas gestações. Com a chegada da Ingrid e da Lívia, completou-se o triunvirato de “crianças” de nossa família.
A Tânia é uma mulher múltipla. Ser mãe (também função no sentido que ocupa seu tempo mental) é apenas mais uma entre tantas. Profissional exemplar, aonde chega para assumir um cargo, o encara com maestria. O meu olhar externo, em conversas que temos, vejo que se afigura quase como missionária na saúde pública. Quer fazer a diferença e faz. Antes, no atendimento direto, agora, no setor administrativo, que abrange uma parcela maior da população.
Não apenas profissionalmente, a Tânia mulher também quer se fazer ativa. Está cada vez mais envolvida em atividades que a satisfazem, como a jardinagem, além de estar firme na dieta que aplaca as eventualidades mais difíceis da Menopausa. A saúde pessoal como prioridade. Essa fase apenas toca de leve no relacionamento que ela tem com o próprio corpo que a “ataca” com a variabilidade hormonal pela qual uma mulher normal passa.
Aparentemente, pelos efeitos externos que demonstra, tem superado com galhardia e coragem — outra característica sua — o presente que é o nosso tempo, também. A família a quer feliz, satisfeita, ao mínimo. Deseja a ela um presente melhor, um futuro mais promissor em termos pessoais. Feliz dia da Tânia!
BEDA / Penetrante
Quando, pela noite adentro, eu a penetro
Não sou eu, nem de longe, nem de perto
Eu sou outros, eu sou diversos, eu sou forte
É meu tempo, é cedo, é tarde, eu sou a morte
No corpo dela, eu me recordo, eu me visito
Estou em meu espaço, eu gozo, eu grito
Também sou eu, sou dela, eu suo, eu me sujo
É um mundo de pureza para qual eu fujo
Assim, eu, ser penetrante pela noite escura
Busco de peito aberto, a minha sorte futura
Por mim, para mim, com ela, por ela, para ela
Para, juntos, amarmos em realidade paralela…
Foto por Adalat Naghiyev em Pexels.com
Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso / Bob F.
BEDA / Meu Sol Particular

Comecei a reparar que um ponto luminoso surgiu de início pequeno. Depois, feito o Sol que se agiganta pouco a pouco a cada manhã de Verão, se instalou do lado direito de quem vê a tela do televisor. Nesta cena de Fallout, está lá o meu sol particular a fazer parte da paisagem apocalíptica, assim como na Inglaterra nublada de Pobres Criaturas ou em jogos da NBA ou da Premier League do Futebol inglês.
Procurei saber do que se tratava e descobri que é causado por um defeito resultado do descolamento de refletores que são posicionados na frente dos LEDs, criando esses pontos de luz na tela. Esses refletores tiveram algum problema no processo de colagem, caindo sozinhos, resultando nesse problema. Nada poético, portanto, tem a ver com o surgimento de meu solzinho, por enquanto sozinho no firmamento de minhas paisagens irreais ou reais.
Esse buraco branco luminoso acompanhará as minhas imagens televisivas por um bom tempo. Não vejo necessidade premente em trocar de aparelho ou mesmo “consertá-lo”, pois o processo é trabalhoso e nem sempre satisfatória a consequência. Ou mesmo que não fosse. Esse “sol-efeito-defeito” foi me dado inesperadamente e não consigo me desapegar dele, como a me lembrar que esse ponto que irrompe em minha tela talvez exista para manter a minha fé na imperfeição da Vida…
Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso / Bob F.



