#Blogvember / Eu Você Nós

Você e eu, frente e verso (Suzana Martins)

Foto por Harrison Haines em Pexels.com

estamos…
colados você e eu frente e verso
e versos
nossos corpos a conversar
intumescências a versar
transpor limites penetrar âmagos
nos engolirmos fazer vibrar estômagos
liquefazer desejos salivares
acessar berços estelares
ultrapassar sistemas solares
em viagens para além do passado
voltar ao útero do nada antes de tudo
penetrarmos em presentes possíveis
conhecermos futuros acessíveis
eu você nós urdidos em fibras
transfigurarmos nossos somas
sonharmos os sonhos dos deuses
somarmos nossos prazeres
inaugurarmos o tempo
fecundar o solo da matéria
criarmos planetas e satélites
explodirmos e enfim
adormecermos a vida…

Participam: Mariana Gouveia / Lunna Guedes




Graças

Qual a graça?
Estar grato por ser amado, eu, um sujeito tão ferido?
Contraditório desde o início,
que oscila entre a descrença no amor
e por chorar a cada canção de coração partido?
Por admirar a sua fala
ou quando cala, o seu sorriso?
Ou quando chora, se desmancha,
enquanto rio de tamanha candura?
Quando, mesmo no escuro, vejo o brilho
dos seus olhos faiscantes de desejo?
Sim, sou grato!
Grato por sentir o seu amor
e por amar estar consigo quando podemos
nos desnudarmos de vestes e do Tempo
Grato por me fazer sentir que importo
a uma mulher tão linda
por fora e por dentro
e plena de graça que me enleva
e me abraça…
Eu me lembro de seu corpo a pulsar
em contato com o meu e sorrio
para a parede como se observasse ali um quadro –
A Origem do Mundo.
Nosso mundo…
De conversas sobre o mundo,
nesses momentos, tão distante…
Ser gracioso, sou grato
por conhecê-la, por você oferecer
o seu encanto a mim,
suas palavras de apoio,
a advertência sincera e franca,
porque me ama
e agradeço por me apresentar o amor
que retribuo em pensamentos amorosos
que se espraia pelo campos e rios,
céus e vales,
montanhas e mares,
pela intimidade do Sol
de um sentimento tão ofuscante
quanto misterioso…

Imagem de A Origem Do Mundo (1866), de Gustave Coubet: AP Photo/Francois Mori

Sessenta E Dois Sóis

Numa segunda-feira como esta, às 2h da manhã, eu comecei a sonhar esta vida terrena. Aos 62 anos, continuo a sonhá-la, vivendo a carregar o fardo do passado, preparando o futuro, o presente como sentido. Vivê-lo é um presente que alguns poucos conseguem receber. Ele não nos é dado. Temos que buscá-lo. Mas não é fácil. Temos que contemplar o passado como experiência, o futuro como possibilidade que, só é viável se, no presente, o direcionarmos. Tudo é presente. Construído minuto a minuto. Ou desconstruído.

O Tempo não é passível de ser descontruído, a não ser os seus efeitos. Feito um impassível Kronos a observar com curiosidade a nossa passagem, somos nós que passamos por ele… até sermos devorados. É nossa prerrogativa empreendermos essa desconstrução. Somos nós, que navegamos o nosso corpo-identidade-mente, que devemos reverter as expectativas, mudar o nosso rumo dentro do Tempo, quantificado em números, aos quais nos referenciamos.

Para confirmá-lo, é comum registrarmos a nossa presença em imagens – algo que nos exterioriza – que nos coloca presentes no mundo, ao mesmo tempo que nos coloca no passado.  Ao contrário dos povos que temiam a fotografia por acreditarem que roubavam as suas almas, ela reafirma a nossa presença. A própria visão no espelho nos mostra milionésimos de segundo depois, entre o reflexo e a sua recepção.

O nosso corpo sofre a deterioração física, constantemente pressionado pela gravidade que nos puxa para o centro da Terra. Resta a nossa mente voar, quando não são através das máquinas que inventamos para fazê-lo. Certa vez, saltei de paraquedas. Sentir a vibração do corpo no abismo contra a resistência do ar, me permitiu perceber o quanto somos frágeis. Antes de abrir o paraquedas, contemplei a finitude. Mas me sentia feliz. Livre. Vivo.

Neste marcador temporal, convivo com a permanente sensação de queda no abismo. Diferente daquele salto, estou sem paraquedas. Porém, me sinto no controle da situação. O que não quer dizer que saiba quando pousarei no chão. A contradições existem, dão o tom, mas aprendi a conviver com elas. As balizas que uso para estabelecer certa normalidade se mostram cada vez mais instáveis, como se fossem feitas de areia junto ao mar.

Ser do dia 9 de Outubro é ter como companhia John Lennon e Mário de Andrade. Somente por esses dois nomes, a cota de gente proeminente já estaria preenchida. Mas não sou em vão e nem a minha vida, vã. Sei que importo para algumas pessoas. E graças a elas e por elas, oro. Orar é desejar o bem oralmente ou mentalmente. A oração é circular. Faz bem a quem pratica tanto quanto a quem é dirigida. Devolve boas energias em nosso entorno. Uma forma de amor.

Na contramão, sinto que a minha curiosidade está sendo suplantada pelo cansaço em ver tudo se repetir como novidade, ilusão criada através do uso das novas linguagens. Por mais que venha a rebuscar os termos, talvez esteja vivendo apenas uma crise de meia-idade. Ao pensar dessa forma, consigo até sorrir e esperar a chegada da liberdade da alma ao tempo do corpo fenecer como o sol que ao fim do dia vai repousar para além do horizonte. Mais uma ilusão que se desvanece…

Sob o guarda-sol da diversidade…

La Vie*

Quem é aquela jovem mulher que desce a escada?
Olho de novo e busco saber de onde a conheço
Busco a bela moça em minha memória escavada
Perco-me por dois segundos, desde o fim até o começo

Aquela parece ser minha filha menor, parece ser a caçula
Que desce do andar de cima com um novo andar
Que deitou menina pequena e acordou qual mulher de fábula
Transformada em novo ser, com um novo olhar e menear

Como ocorreu de maneira tão célere essa passagem?
De bebê à criança, à menina, à moça, até ser mulher?
Como se deu a consumação desses dias em voragem?
Qual o nome da força que mal consigo, por um instante, conter?

Será a vida, irrefreável e absoluta, que nos coloca o prumo?
Será o tempo, impassível e frio, como um rio a transbordar?
Já antevejo o dia em que a levarei ao altar, para um novo rumo
E o ciclo a se completar, tendo no colo o futuro a me recordar…

*Poema de 2013

Ode Aos Últimos Dias*

Não é pregação ou advertência —
algo têm que morrer,
ainda que na aparência,
para outro renascer.

Digo com o coração pleno de paz:
apenas os mais egoístas
dirão que o amor se desfaz
sem deixar marcas ou pistas.

Porque se há um sentimento
que seja eterno é o amor
porquanto não haja consentimento,
mesmo que surja o rancor.

Eu sei que o que sinto é infinito,
assim como os átomos que me compõe,
como é efêmero o corpo que habito,
como é perpétuo o universo-mãe.

Quebramos o espelho — foram sete anos de sorte,
o perfume que se perdeu o reencontramos no 102,
vivemos a entrega, as brigas, cortejamos a morte
porque nada poderia ser deixado para depois.

Eu a manterei na lembrança
ainda que sem as minúcias que tanto preza,
mesmo que não tenha mais esperança…
Vê-la mais uma vez, seria uma surpresa.

Porém você está em mim — sua voz, sua boca,
olhos de esmeralda que passeiam em minha mente,
sua linguagem pajubá, vertigem de leoa louca —
alma de loura, cabelo gris e corpo de serpente.

A memória da areia branca, o braço rumo ao céu,
a carta lida no metrô — que a fez perder a direção,
os toques dos saltos no corredor do hotel
e sapatos de naja — carinho por declarar sua paixão.

Quando você dizia que tudo terminaria, eu não previa,
tão apaixonado, tão absorto em centros alternativos,
que o tempo se esgarçaria, que o templo ruiria
na rua da marquesa onde nos tornávamos deuses redivivos.
 
O meu desejo lhe pertence — é dona de um rei…
Sinto pena que ele nunca mais possa colher da rosa
a cor, a dor, o mel, o prazer que nunca imaginei…
Já, o escritor, sei que nunca perderá a musa de verso e prosa.

*Poema-delírio de 2020 — tempo pandêmico
Imagem: Lilith, a primeira mulher, entidade de origem judáica-mesopotâmica.