06 / 01 / 2025 / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Meus Melhores Momentos

Retrospectiva de trás para frente, ontem, a Fernandinha Torres recebeu um Globo de Ouro por “Eu Ainda Estou Aqui“, filme ao qual assisti no final de 2024, assim como em 1971. Na cena em que os meganhas da Repressão invadem a casa de Eunice Paiva, revi os mesmos sujeitos que entraram porta adentro da nossa casa, muito simples, em busca de provas do envolvimento de meu pai com terroristas. Dois deles o seguravam, um terceiro realizava uma busca. Nada foi encontrado. Fico imaginando o que deve ter acontecido em sua volta às celas do DOI-CODI. Lívia, minha filha mais nova, sentada ao meu lado no cinema, percebeu o aumento dos meus batimentos cardíacos e quando comecei a hiperventilar na cena em que um deles fechou as cortinas. Eu estava lá…

A atuação de Fernanda como Eunice foi bem diferente do que a minha mãe teve. Ela era uma mulher em que a emoção aflorava à pele por qualquer motivo. Eu havia cruzado com Eunice quando Eva Wilma a interpretou em “Feliz Ano Velho“, também baseado em livro de Marcelo Rubens Paiva, filme no qual fiz figuração, em 1986. A história de Eunice e da família Paiva, da Dona Madalena e da nossa família, de tantas outras mães, irmãs, esposas, familiares e amigos ocorreu e até hoje repercute na memória de quem a viveu, não sem algumas lágrimas que brotam intrusas no meio do vazio…

Esta foto mostra alguns componentes do grupo que participa de um dos cursos ministrado por Lunna Guedes, da Scenarium Livros Artesanais. Além de mim, do meu lado está Flávia Côrtes (Farfalla); acima, Roseli Pedroso, do lado dela, Antônia Damásio; acima dela, Lunna Guedes e ao seu lado esquerdo, Isabel Rupaud (Isabeau). Também participam Rozana Gastaldi, Nirlei de Oliveira, Heloisa Helena (HH) e, pontualmente, outras figuras. São pessoas que vibram no sentido da busca do aprimoramento da escrita pessoal, individualmente e no esforço de criação coletiva em algumas das propostas de lançamentos do selo Scenarium. Quando nos reunimos, sinto participar de um conjunto de pessoas que sintonizam a mesma frequência. Alguns dos encontros fizeram muitos dos bons momentos que vivi em 2024.

Algumas das melhores horas que vivo em meus dias têm a participação dos meu companheiros cães, seres também da família. Três deles aparecem nesta imagem — Alexandre, Bethânia e Arya. Todos foram resgatados, incluindo os outros três que não estão na imagem. Além do Bambino, meu neto, em visitas itinerantes, moram conosco minha outra neta, Lolla, Nego Véio e Dominic, a mais veterana. Com eles, aprendo sobre paciência, alegria pueril, humildade e amor.

É comum acontecer de encontrar o Sol nascente a pontuar no horizonte após o meu trabalho que é realizado mormente à noite. A Lua passeia por nossas noites muito mais vezes, mas é comum serem atrapalhadas pelo brilho das luzes da cidade. Em viagens por cidades próximas, a estrada oferece horizontes mais amplos, em cenários que me revigoram ainda que cansado da labuta. Quando tudo dá certo, aproveito para relaxar os olhos da balbúrdia urbana.

A imagem que coloco aqui parece muito com a de cima, não? Bem, a diferença é que foi produzida em um entardecer na minha Periferia. A luz solar tem esse poder de pintar de beleza os eventuais defeitos no perfil irregular das residências, colorindo de amarelo resplandecente onde toca. Fico muitas vezes a observar o crepúsculo até a Terra continuar o seu caminho pelo espaço e a girar sobre o seu eixo, em uma ininterrupta dança astral.

Esta imagem foi produzida hoje. É demonstrativa de momentos muito gostosos em que passo nesse perímetro que fica na parte da frente de casa. A Tânia costuma utilizar essa área também para o plantio de flores e outras plantas artesanais. Ali, temos dois tipos de bananeiras — a nanica e a prata –, mamoeiros, ora-pro-nóbis, ameixeira, limoeiro e um abacateiro em crescimento. Controlado por um vaso, evitará que se desenvolva para além do que o espaço permite. Estar feito um Tarzan periférico entre as plantas me energiza.

03/01/2025 / Seres Sencientes

Ainda cansado das atividades de final de ano, acordei cedo, fora do horário que gostaria, porque o Nego Véio, já resgatado cego e com problemas de locomoção, começou a latir sem parar. Com o tempo, comecei a interpretar os latidos de nossos companheiros à depender de entonação, modo de emissão (mais agudo ou grave) e frequência. É comum ele se deslocar pelo quintal em busca de algum espaço onde poderá evacuar ou fazer xixi. Em algumas ocasiões, as pernas traseiras, já sem tanta força, ficam travadas em alguma posição que o impossibilita de se levantar. Falei em voz alta de mim para mim que não havia cuidado do meu pai como que eu cuidava dele.

Eu o encaminhei até o local onde dormia — um pequeno banheiro do lado de fora — e após beber água na vasilha que dispomos na entrada, ele se ajeitou como sempre faz, puxando os panos com as patas dianteiras até entender que estão do jeito que quer. É um ritual seguido dele parar e descer lentamente o corpo velho até encontrar a base onde ficará quieto durante algum tempo.

Talvez, alguém venha a perguntar o significa a imagem das árvores depois do título. Respondo: o prefeito reeleito desta cidade colocou em resposta às alegações contra os seus projetos de remanejamento de pessoas de suas moradias e da extração de árvores cinquentenárias de uma via da cidade dizendo que haverá reposição dessas árvores em outros locais como compensação ambiental. Assim como as pessoas que moram em “favelas” — na verdade, casas simples de uma vila antiga — para um lugar “melhor”.

Onde será que árvores irão aportar para compensar a destruição de todo um ecossistema que inclui os habitantes das árvores arrancadas, além da eliminação do sistema de comunicação que há entre as árvores de um local onde as suas raízes se comunicam como um sistema nervoso central? Quantas “histórias” essas árvores presenciaram e agora se perderão na bruma do tempo à golpe de machadadas e serras elétricas? Esses seres antigos — tanto em idade de surgimento na Terra, como de tempo cronológico — não podem sequer protestar tamanha falta de sensibilidade por essa remoção.

E as pessoas? Que lugar melhor é esse em que os laços da antiga convivência se desvanecerão como por um encanto de um mago do mal? Será perto de onde estão? Manterão o contato de amizade reforçado em conversas de amigos sentados em cadeiras na porta de casa? Seus filhos continuarão a encontrar seus antigos vizinhos ou lhes será negada a oportunidade de crescerem nessa rede de afeto?

Essa história mal contada de melhorar a mobilidade de endinheirados da região passa por interesses outros ligados ao sistema em que beneficia poucos em detrimento de muitos. Está na lei da constituição do poder. Não deveríamos nos surpreender se no fim de todo esse processo, o dinheiro público se torne encampado por setores privados, em prejuízo da coletividade. Como serão… e assim caminhará a humanidade até a I.A. (então mais inteligentes que nós) perceber que ela só atrapalha a existência deste planeta e seremos transplantados para fora daqui…

Foto por Min An em Pexels.com

A Luz E O Tempo

Tirante o Pensamento, nada viaja mais rápido no Universo observável do que a Luz. Para nós, na Terra, a luminosidade do Sol nos atinge quase tão imediatamente quanto é produzida. As estrelas mais distantes são imagens do passado que admiramos durante anos mesmo depois de muitas terem se extinguido ou absorvidas por algum buraco negro. Tanto quanto o que vivemos tem como referências imagens que não mais são o que são, mas o resultado de experiências passadas de corpo presente… Assim como, a nossa imagem no espelho, microssegundos no Passado.

BEDA / Profissão: Brasileiro

Em Agosto de 2011, eu usei esta imagem acima, extraída de um grafite realizado num muro da minha região, como foto de perfil. Justifiquei desta forma: “Imagem de nossa identidade pública, por autor anônimo. Cá, para mim, a chamo de “Brasileiro, uma profissão”. Completei: “Usamos fantasias, jogamos jogos de azar, acendemos velas para falsos deuses, rimos sarcasticamente da nossa “má sorte” e empunhamos a bandeira nacional como um estandarte de guerra!”

Talvez eu já sentisse no ar a guerra surda nos bastidores do poder ou constatasse cabalmente que agíamos contra nós mesmos desde os lares mais simples até os mais glamourizados numa espécie de autossabotagem de nosso destino futuro — hoje. Industrialmente, pelejamos para derrubarmos as nossas melhores chances de melhorar a nossa qualidade de vida como um todo. Quem chegou ao patamar desejável de estabilidade parece ir contra quem queira alcançar esse status, como se não tivesse lugar para todos. Fruto do egoísmo, talvez, é uma opção burra em rumo ao nosso subdesenvolvimento permanente. E que foi transformado em projeto ideológico por parte da população.

Enquanto existem ilhas de bem-estar em vários setores sociais, há aquelas frequentemente açoitadas por tempestades e furacões. Não apenas no sentido figurado, mas igualmente literal, graças ao desequilíbrio ambiental, para qual estou atento há 50 anos, desde o começo da minha adolescência, com a produção de textos pessoais e redações escolares em que insistia mostrar a opção tenebrosa de trabalharmos contra a Natureza. É como se o fato de sermos “brasileiros” — atividade de extração do pau-brasil — se configurasse em um destino irreversível. Atualmente, já liquidamos com 1/3 da nossa cobertura vegetal original. Como fumantes inveterados, estamos queimando o nosso pulmão, a Amazônia. Ao mesmo tempo que reduzimos a cobertura aquática do Pantanal a 4% de antes (!).

Enquanto certos setores produtivos vinculados à produção de comodities jogam contra o patrimônio universal dos ricos biomas, respiramos um ar pior, seco e poluído. Vivemos um clima instável, em que somos impedidos de nos locomovermos por causa das enchentes. Isso, quando não perdemos a vida, simplesmente. Enfim, construímos o paraíso da barbárie na Terra. No chão e fora das cercas que impedem (aparentemente) que os moradores de condomínios sejam afetados, vivendo fora da realidade da maioria. Mas quando se aventuram fora da proteção ilusória, muitos acabam vítimas da violência por causa de suas próprias escolhas na manutenção do elitismo segregacionista, ainda que supostamente inconscientes.

Nunca fui tão pessimista num futuro incerto quanto à sanidade de nossa sociedade. Ainda que muitos de nós procuremos agir de maneira diferente, somos afetados pela produção avassaladora de um modelo de vida que nos levará à catástrofe. Só os loucos de pedra, sobreviverão…

BEDA / Ser, Sempre*

Eu coloco, especialmente em minhas postagens no Instagram, “hashtags” como #amanhãser #emtardeser e #anoiteser. Eu utilizo a mesma sonoridade de amanhecer, entardecer e anoitecer para reforçar o meu ideal de ser, sempre. No entanto, quando não somos? Eu digo que nem sempre. Na página da Ortega Luz & Som (https://www.facebook.com/ortegaluzesom) — #ortegaluzesom — anuncio: “Eu quero ser, além de ser, Ser!”… Com essa frase, eu tento demonstrar que diferencio simplesmente “ser” de “Ser”. O verbo Ser ou Estar é complexo em seu contexto do ponto de vista filosófico. É muito comum as pessoas confundirem ser com estar, especialmente na experiência de viver, a ter a condição de estado como descrição prática de ser. O meu objetivo primordial, desde que me dei conta de nosso estado físico transitório, e a crer que o espírito nos precede como repositório de nosso aprendizado realizado na Terra, é de Ser. Ainda que estejamos a viver no mundo material, Ser é o que pretendo ser.

*Texto de 2023