#Blogvember / Promessa Cumprida

“À beira das palavras… um gole de café… (Suzana Martins)

Foto por John-Mark Smith em Pexels.com

Querida,
antes de nos separarmos, com aquele abraço que relutei em dar porque talvez não quisesse me desvencilhar dele, eu sabia que seria difícil não pensar em você nos momentos em que meus olhos pousassem no vazio que se alargou a minha frente depois dele. Para não perceber que sinto a sua falta, não paro para nada. Continuo a fazer e a refazer tarefas que apenas me distraem um pouco.

Notícias da antiga guerra perderam protagonismo, apesar das mortes continuarem em escala pontual. A nova guerra, tão velha quanto é o mundo civilizado, é mais poderosa em referências, ocupando o espaço entre uma lembrança e outra de nossos momentos de entrega, prazer e dor, que se apequenam, envergonhados do imenso sofrimento em terras distantes e mais próximas.

Porém, quando amansa as horas do dia e olho para o Sol a perder-se no horizonte me perco viagens para o centro da Terra. Foram dez anos mesmo ou toda a eternidade? Tudo me faz recordar dos nossos encontros. São tantos os marcos por onde passeamos o nosso desejo de consumação impertinente que fica difícil não sorrir para depois morder os lábios na tentativa de me vingar da boca que me trai o sentimento de saudade.

Você cumpriu a sua promessa, quando lhe pedi: “me deixe ao menos lhe ver passar” – como cantou Roberto. Torço tanto por você encontrar a paz de espírito que buscava. Quis que não me odiasse por você me considerar um dos motivos de sua constante e incongruente desarmonia emocional, enquanto seu belo corpo bailava a beleza de ser artista no rosto luminoso. Como imaginava que também desejasse não mais me desejar, concordei com o fim…

Seremos velhos que, feito carvão encerraremos todo o amor em brasa que nos queimou durante a última década. Ou desfilaremos a nossa imaturidade de amantes perdidos em nós para todos verem, sem fugas e sem segredos, pelas esquinas da cidade? Frequentaremos restaurantes e cafeterias, à beira das palavras… um gole de café e um afago nas faces experientes? Acordo, sei que é apenas um sonho.

Cumprimos um ciclo – forte e tempestuoso. Tantos em sorrisos quanto em lágrimas. Agora apenas caberá nos deitarmos na rede das lembranças, descansarmos os nossos corpos alquebrados em novo ciclo, em que cada minuto será de gozo doloroso por não mais estarmos juntos, em peles encanecidas conflagradas na peleja do prazer…

Participam: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Suzana Martins / Roseli Pedroso

Liv, Aos 19*

Hoje, a minha caçula completa 28 anos. Dentre os vários textos que publiquei por oportunidade de seu aniversário, este aqui é de certa forma didático, por vários motivos. Pela origem de seu nome, pelos votos envolvendo temas recorrentes. Quando se fala de amor, fonte inesgotável, poderia repetir sem parecer igual todas as facetas que ele apresenta.

Hoje, às 15h15, há dezenove anos antes, nascia a Lívia. Filha escolhida e esperada para nascer. Brincando, a Tânia já disse a ela: “a camisinha estava ali do lado, no criado-mudo, mas seu pai não quis usá-la!”… Certamente, eu queria ter mais alguém na família e, assim, chegou a nossa caçula. Outro dia, brincando, ela chegou a me dizer que agradecia a minha decisão. Quanto ao seu nome, desde que tive contato com os trabalhos da Romy Schneider e da Ingrid Bergman, quis homenagear o meu gosto por atrizes do cinema europeu através das minhas filhas. No caso dela, a homenagem que quis prestar foi à Liv Ullmann, menos conhecida, mas não menos talentosa que as outras duas. A Tânia achou melhor latinizar o nome e Liv tornou-se Lívia.

Hoje, fomos ao médico juntos, na parte da manhã, e no prédio do consultório havia um canal de TV que reproduzia pequenas notas sobre vários assuntos. Uma delas, informava que fora descoberta uma bactéria alienígena em um fragmento de rocha espacial, que os cientistas confirmam como o primeiro ser extraterrestre registrado. Percebi que não dava para deixar para depois e aproveitei a oportunidade para confessar que ela era também filha de um extraterrestre. Para não deixá-la muito baratinada, disse que todos nós, seres humanos, não somos deste planeta. Como tivemos que nos despedir para os nossos respectivos compromissos, não pude completar que nós apenas tomamos a Terra emprestada e que devemos cuidar dela com todo o desvelo, se bem que não temos realizado uma boa tarefa.

Sendo assim, falando diretamente a você, minha etezinha, desejo que a sua vida neste planeta seja o mais belo possível, sabendo que os seus habitantes são muito inseguros, muito temerosos e, portanto, agem muitas vezes com raiva e violência. Mas também que este é um mundo cheio de oportunidades de crescimento, de beleza e amor. Que tudo é possível, desde que o amor seja exaltado e a vida valorizada. Espero que você, querida caçula, me agradeça por ter escolhido este mundo para viver! Parabéns, meu amor!

*Texto de 2014

O Reverso*

O reverso da medalha…

O outro lado da moeda…

O tempo que retorna…

O Clima que responde…

Aos efeitos reiterados

Dos delirantes

E alienados!

A Terra gira — se transforma!

Mas mantém a lei constante

De que tudo é inconstante

Incluindo o Homem

Que sobre ela pisa…

Volto no Tempo — transmudo

A noite em dia

Trago o Sol

Para mais perto da chuva

De ontem

Mais longe da água que verterá

Amanhã

Festejo o interregno

Que hoje faz descansar

A cidade de pedra…

*Poema publicado em 2015

Dia Do Homem

No dia 15 de Julho, há 12 anos, publiquei provocativamente no Facebook: “Salve o Dia do Homem! Minha homenagem a esse ser cada vez mais oprimido!”. Quis provocar uma discussão acerca de uma data comemorativa totalmente fora de propósito, já que no Brasil de então, o que continua acontecendo até hoje, todo dia, aliás, toda a hora é hora do homem. Tudo o que pensa, diz e faz é aceito muitas vezes sem contestação. Principalmente quando em confronto com o que pensa, diz e faz a mulher.

Aduzi nos comentários: “… sei de muitos homens que não se sentem confortáveis na nova condição que as representações modernas entre os gêneros assumiram na Sociedade atual. Com a ocasional inversão de papéis atribuídos a homens e mulheres, como os de comando, por exemplo, cada um dos gêneros tem que aprender a lidar com as novas situações que se apresentam. Mal podendo esconder o Machismo, homens se sentem oprimidos pelo sexo diverso (não gosto de ‘oposto’) nessas ocasiões”. Muitas mulheres não percebem que são vítimas, aceitando como inevitável a opressão. Pessoalmente, presenciei várias situações em casa que apenas mais tarde pude reconhecer o traço violento de meu pai com a minha mãe, principiando com o abuso psicológico, primeira etapa de um processo que pode acabar em fatalidade.

Como reação desproporcional aos novos parâmetros, o assassinato da mulher pelo homem transformou-se em epidemia comportamental. Ou, como quem lida com esse fato chama a atenção, a tipificação do Feminicídio gerou estatísticas que confirmaram esse tipo de violência como algo quase convencional, firmemente enraizado no Patriarcado e que já ocorria frequentemente antes. Um passo importante para diminuir o número de ocorrências, foi a promulgação da Lei 11.340, sancionada em 7 de agosto de 2006, que passou a ser chamada de Lei Maria da Penha, em homenagem à mulher cujo marido tentou matá-la duas vezes. Essa incrível mulher desde então se dedica à causa do combate à violência contra as mulheres.

Eu me identifico como homem, mas me identifico muito mais como Homem. Muitos de nós, de um modo e de outro, somos discriminados por assumirmos papéis não institucionalizados como eminentemente femininos. Mesmo as mulheres, algumas aplaudem ao saberem que faço tarefas caseiras; que cuidei das meninas enquanto a mãe delas fazia faculdade e trabalhava; que deixei de trabalhar para me dedicar a cuidar da mais velha, que apresenta um problema de saúde congênito. Outras, jocosamente, dizem que eu “tomei chá de calcinha” para me submeter a tal situação.

Como Homem, me identifico também com as outras espécies com as quais convivemos, muito oprimidas por nós todos reunidos numa Sociedade doente, abarcado por um Sistema espúrio – promotor de desequilíbrio nas relações humanas – acabando por gerar violência. Nesse contexto, quase chego a sentir compaixão pelo opressor, tão infeliz quanto àqueles que fazem sofrer. Enquanto não abrirmos os olhos para a necessidade de unirmos as nossas forças para interagirmos coletivamente para sobrevivência do planeta. Se assim não for, não chegaremos bem ao nosso destino. Morreremos todos, não sem antes levarmos nosso lar, a Terra, à extinção da Vida.

Foto por Kampus Production em Pexels.com

Pelos Anos… *

Estou verificando as minhas contas do Twitter, que não visitava há muito tempo, e lá encontro postagens do grandíssimo Millôr, falecido em 2012. O incrível é que suas charges e textos ecoam até hoje como atuais. Como este: “Coisa estranha é certos pobres-diabos terem orgulho da riqueza do patrão que lhe paga um salário”…

*Texto de 2020

“Paê, para onde está indo o Sol?”

“Filho, nem sempre as coisas são o que parecem ser… É a Terra que está a dar uma volta sobre si mesma, enquanto viaja no espaço em torno do Sol. E ele é apenas uma estrelinha entre milhões de outras na Via Láctea, em torno das quais giram outros tantos planetas como o nosso. E a nossa galáxia é apenas mais uma entre milhões de outras, neste canto do Universo… Sendo assim, somos muito pequenininhos…”.

“Pôxa, paê, isso eu sei… Sou o menor da escola…”.

*Texto de 2016

Bananas ao Sol

invernal na manhã

desta terça-feira

de feira.

Estão,

a manhã e as bananas,

vestidas lindas de viver

de amarelo de comer…

*Poema de 2015