BEDA / Amor Próprio

Ouvi uma canção em que o refrão o cantor expressa: “Eu gosto mais de você do que de mim”. Às vezes, eu entro nessa seara de analisar frases soltas, situações que se desenvolvem diante de mim como se tentasse entender como funcionam as relações humanas. Eu fiquei afastado voluntariamente das pessoas durante alguns anos. Favoreceu esse comportamento por causa de circunstâncias em que passei temporadas sozinho em casa na adolescência porque a minha mãe estava cuidando da madrasta do meu pai e após o seu falecimento, meus irmãos foram morar com ela na casa distante 2Km de onde vivia. Durante esse período mergulhei fundo nas filosofias orientais e desenvolvi alguns sintomas que se assemelharam à síndrome do pânico. A minha timidez ficou mais profunda e foi com muito esforço que consegui sair desse processo penoso isolacionista.

Nessa época, fui desenvolvendo uma autocrítica em que só via defeitos em minha personalidade. Afora um sentimento de inadequação que me impediria de que eu viesse um dia a ter algum relacionamento amoroso. Cheguei a flertar com a vida monástica, ainda que não fosse católico. Mas era cristão e franciscano, desejei ser frei. Acabei por começar a acalentar a ideia de me jogar na vida através do encontro com uma mulher. Com ela, formei uma família e fico feliz por amá-la como algo que apesar de ter nascido de mim, é bem melhor do que eu poderia desejar. Mas o meu amor próprio ainda enfrenta percalços se bem que defenda os meus defeitos com bravura de quem precisa deles para se reconhecer. Nesse caso, minha autoestima considero um tanto precária e percebo que gosto mais das minhas meninas do que eu de mim.

Mas sei que se eu não me dedicar à minha melhora como pessoa, não conseguirei ser amoroso comigo mesmo o suficiente para que o meu amor pelos outros seja valorizado. Amar é uma dádiva tanto para quem ama como para quem recebe esse amor. E deve ser cultivado para que floresça tanta interna com externamente, não importando as variações quanto a questão de gêneros.

Foto por Katerina Holmes em Pexels.com

12 / 05 / 2025 / Um Menino*

Conheci um menino que, por volta dos oito ou nove anos, recebeu a informação, por coleguinhas mais velhos, que a maneira mais comum de fazer amor com uma mulher, seria frente a frente. A principal preocupação do menino passou a consistir no fato de que teria que fazer algo tão íntimo olhando nos olhos da pessoa que viesse a namorar.

Aquela possível futura situação realmente o deixou estarrecido. Percebeu que não teria condições psicológicas de realizar aquela proeza. Seria tão fácil, pensou, se fosse apenas como os cachorros fazem, que era o modo que conhecia, pelo que via nas ruas…

Aliás, olhar nos olhos de outra pessoa era a coisa mais difícil de sua vida. Como igualmente enrubescia com a ideia de que alguém estivesse o observando. Tentou sempre ficar nos fundos ou nos cantos das salas de aula que frequentou. Essa atitude o favoreceu como um observador dos movimentos humanos e passou a sentir prazer em desenvolver esse talento materializando-o no papel. Tentava passar despercebido de todos, mas cedo percebeu que algumas de suas habilidades, passava a posicioná-lo no centro das atenções. Logo, passou a disfarçá-las, para melhor se esconder.

Lidar com as meninas, então, era o pior dos mundos. Elas o fascinavam ao mesmo tempo em que o deixavam paralisado. Gostava tanto delas, que preferia colocá-las na segurança de um pedestal, idealizadas como modelos de perfeição. O menino lembrou-se de quando começou a se apaixonar, à mesma época da descoberta sobre o intercurso frontal entre as espécies.

Primeiro, se apaixonou pela menina mais bonita da escola, depois pela mais desengonçada que, no entanto, gostava de seu melhor amigo. Aliviado por não ser o alvo daquela paixão, serviu alegremente de pombo-correio entre os dois. Mais um pouco, percebia que dava preferência às meninas comprometidas. Isso, o impedia de vir a querer se aproximar delas com intenções amorosas, já que seguia a rígida etiqueta da amizade entre os homens – “poderá até cobiçar a namoradinha do próximo, mas nunca deverá convidá-la para sair”.

No decorrer dos anos, o menino que conheci conseguiu, paulatinamente, mas com muito esforço e sofrimento, superar a sua mórbida timidez. Casou, teve filhas, mas apesar disso, nunca chegou a entender inteiramente as mulheres, mesmo as tendo constantemente por perto. Ou até por isso mesmo… Em suma, elas continuavam a fasciná-lo enormemente.

Se ele me pedisse um aconselhamento e se ele não estivesse tão longe no tempo, pediria covardemente que nunca se aproximasse das meninas, nunca se envolvesse emocionalmente, nunca se apaixonasse completamente por elas. Porém, advertiria também que ele perderia o melhor da viagem. Os altos e baixos do relevo, as curvas perigosas da estrada e a paisagem sempre inesperada. Diria ainda que podemos morrer por elas, no entanto é por elas que devemos viver.

*Texto de 2020

27 / 04 / 2025 / BEDA / Frida Calada*

Frida
fala pelos olhos…
Nasceu ressabiada de gestos bruscos,
como se trouxesse abusos
de vidas passadas…
Passou a se aproximar aos poucos,
a vencer a timidez,
a se colocar embaixo de mesas,
em cantos de sofás,
junto aos nossos pés…
Hoje, perdeu de vez as travas…
Sentiu o frio chegar
e arranhou a porta para entrar…
Frida, outrora calada,
vive agora a deitar falas
com o seu olhar…

*Poemeto de 2016. A Frida anos depois se encantou… arranhou a porta do Paraíso e entrou…

#Blogvember / Desesperado

… adiei o máximo que pudesse o momento-sensação de desespero (Obdulio Nuñes Ortega)

Foto por Spencer Selover em Pexels.com

Não lembro de me desesperar de forma descontrolada em nenhuma situação extrema. Quando me encontro em situações limites, parece que é acionado um mecanismo de compensação que faz com que eu veja tudo em “câmera lenta”. Quase como me ausentasse. Já passei por assalto no ônibus que estava. Dois indivíduos passaram por mim como se não me vissem. Em outra oportunidade, quando percebi que dois rapazes nos olhavam carregando o equipamento de trabalho, rebati com um olhar fixo. Um deles, se sentindo desafiado, com uma espécie de escopeta atirou em nossa direção. O tiro rebateu no chão. Meu irmão e o motorista do transporte saíram correndo. Os sujeitos se movimentaram para longe. Na primeira viagem de avião que fiz, permaneci impassível durante uma turbulência, como se fosse um veterano, observando o alvoroço dos outros passageiros.

Essas ocasiões nunca se compararam ao sofrimento de inadequação e quase paralisia física que o adolescente que fui enfrentava aos eventuais contatos com as moças. Naturalmente, não era um comportamento normal, ao que eu chamaria de “timidez mórbida”. Hoje, eu tenho por mim que falar com elas era difícil porque estaria evidente que todo o meu corpo demonstraria que as idolatrasse. As minhas passadas não concatenavam. Os pés hesitavam, como se evitasse tropeçar em pedras invisíveis. Não sabia o que fazer com as mãos e o meu sorriso era como se estivessem me arrancando um dente, de tanta timidez.

Apenas bem mais tarde, quando me senti numa espécie de encruzilhada entre continuar em não ter contato (físico) com as mulheres e começar a minha vida sexual, mudei. Decidi que o caminho anterior já conhecia e sofria muito para manter. Contra todos os mecanismos de defesa que montei durante anos, me movi no sentido de encontrar alguém que pudesse entender o homem que era – desarticulado, oscilante, mas confiável – interessado em fazer com que um relacionamento desse certo.

Escolhida a “vítima” da minha primeira incursão, tudo foi muito rápido. Uma precipitação meteorológica num dia quente. Chuva de verão. Adiei o máximo que pudesse o momento-sensação de desespero da ejaculação. Não consegui. Não foi tão bom quanto eu desejava, acabei esfolado. Mas disposto a aprender, com o tempo progredimos no envolvimento tanto em intimidade quanto em prazer. Ela e eu, mantemos um casamento de 35 anos.

Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes

BEDA / Violento

A minha amiga Tatiana e eu nos tempos da caderneta de entrada e saída do colégio.

Quando eu era garoto e o meu apelido era “Nanico“, pois era menor que os outros meninos, as agressões para impor a sua presença, percebi que para me defender se eu tomava a iniciativa e dava o primeiro soco, garantia que eu vencesse a briga, porque eu surpreendia o oponente pela iniciativa e agressividade. Com o tempo, mais notadamente a partir dos 12 anos, fui mudando essa forma de agir. Percebi que aquilo me machucava mais do que machucava aos outros.

De extrovertido, caminhei para o caminho inverso. Fui avançando cada vez mais para dentro de mim e me tornei um sujeito muito tímido. Tinha abertura o suficiente apenas para interagir com os outros garotos para jogar futebol. Como companheiros mais assíduos, só tipos esquisitos como eu. Mas amava as meninas de tal forma que as mantinha distanciadas para que não percebessem o quanto era difícil de lhe dar. O que demonstra um tanto de vaidade nessa atitude, algo que tento vencer ainda… e talvez sempre.

Avesso a registros fotográficos, a imagem que é mostrada acima foi “roubada”. Nessa época, eu estava tentando desesperadamente me libertar das amarras que havia tecido pouco a pouco, desde que decidi conscientemente mudar a minha postura agressiva diante do mundo imediato que me cercava. Inviscerado de tal forma, nem me embebedando conseguia me soltar. Essas bebedeiras serviram apenas para me afastar da bebida. Por dois anos, eu não podia sentir cheiro de álcool que já ficava enjoado.

No momento que vi a imagem acima, de dezembro de 1980, quando recém havia completado 19 anos, vejo um garoto que mal parecia ter chegado aos 15. As suas ações pareciam ser a de um adolescente. A sua timidez, de avassaladora altivez. O seu olhar baixo, de alguém que não se sentia à vontade para enfrentar o seu entorno. Em uma outra, dessa mesma época, apareço abraçado a livros do lado de professores. Dos livros, eu obtinha a sustentação das muralhas que construí para me proteger. Eu lembro que o meu mundo interior era bem rico, pleno de imaginação. Talvez até tivesse zelo em protegê-lo da invasão de outras pessoas. Apenas oito anos depois, abri os portões para alguém entrar…

Texto participante do BEDA: Blog Every Day August

Denise Gals Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Bob F / Suzana Martins Cláudia Leonardi