BEDA / Sinais*

sinais são importantes

a eles devemos ficar

atentos

caetano

               perguntado se respeitava sinais disse

claro

          são sinais

                          pergunto

por que queremos desrespeitar

                                                  o que nos sinalizam?

propaganda de cremes anunciam

serem anti-sinais

como se quiséssemos

apagar

                                               a nossa trajetória

aos meus 14

                     uma senhora disse para seu filho

no ônibus

                 deixa o moço passar

fiquei espantado

                           eu me tornara um moço

barba branca no rosto

atendentes me chamam

                                      de moço

sei que é uma maneira

                                     de afagar a vaidade

estratégia de recepção ao cliente

mas o meu espanto persiste

sou velho demais

                             para ser chamado

                                                          de moço

cabelo rareado

                         redemoinho falhado

para suavizar discrepâncias

raspo a cabeça

                         cheia de mentais

                                                     reentrâncias

reafirmo a queda inevitável

palavras caducam?

tenho evitado escrever algumas…

sempre

              e

                 nunca

tenho as considerado definitivas demais

aliás

         tenho tentado evitar também

                                                        demais

aliás

         também

                       e aliás

e sempre

               é logo mais

o nunca

              nunca mais

porque viver nos ensina que marcar

coisas como definitivas

não pertence

                      ao nosso mundo

imediatista

                   impermanente

se me contradigo aqui

é por falta de opção

                                 como não há opção

para a morte do corpo

                                    como sei que a energia

é infinita

                enquanto este universo existir…

*Poema de 2022

Foto por Eduardo Soares em Pexels.com

BEDA / Se Deus Quiser

“Se Deus quiser!” — ouvi pelo menos três vezes em pouco tempo. Fiquei a imaginar a que Deus essas pessoas se referem. Duas delas a proferiram olhando para o alto. O “Céu” supostamente é onde estaria o Paraíso e, nele, se sentaria um homem de imensas barbas num trono emitindo uma luz dourada. Eu já desacreditei há algum tempo nesse deus humanizado, feito Zeus, com sentimentos e inclinações humanas, como ira e sentimento de vingança. Desde os 16 anos fui me inclinando a “sentir” algo que escaparia a imagens bíblicas, de influência judaico-cristã. Percebi que as religiões ou filosofias orientais refletiam as minhas ideias mais conectadas à energia espiritual do que à materialidade.

No passado o Céu era interditado ao acesso humano. Com o advento dos veículos que nos levaram em direção às nuvens, passamos a perceber que a morada divina de fato passou a se estabelecer em lugar incógnito, a não ser para quem crê que tudo não passa de algo interpretativo. Para mim, em crendo na transcendência do espírito, os olhos físicos não alcançam a plenitude da energia cósmica. Todos nós, em se estabelecendo que a criação do Universo se deveu a uma explosão inicial (voluntária ou não) somos seres que, no mínimo fisicamente, temos uma origem comum. Em se considerando que desenvolvemos consciência sobre a vida e a vida sendo a medida que indica consciência de existirmos, estabelecemos um ciclo que se fundamenta na fluidez energética, em sua variabilidade universal.

Foto por Gyu00f6rgy Lakatos em Pexels.com

07 / 11 / 2025 / Bologvember / Um Dia Se Despiu…

… para o sol e foi feliz!

sim
porque o sol é a razão da vida existir no planeta
e acredita o ser humano que seja singular no incomensurável universo
o único inteligente até mesmo na terra
e nisso erra
esquece de bichos que são sencientes de outra
maneira
que conseguem conviver com as forças naturais
que se adaptam até com as agressões daquele que está no topo
da cadeia alimentar que destrói em nome do poder
que detém o bicho homem a conceder
quem vive e quem morre
é tão triste o que ocorre
esse egocentrismo destempero desespero
por ser tão diminuto
sabendo que na eternidade vive apenas um minuto
que nos tempos estelares não passa de poeira cósmica
e que no grande teatro da metagaláxia
não passa de uma tragédia cômica…

Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia



10 / 03 / 2025 / Nego Véio

O Nego Véio se foi. No final do mês, iria completar dois anos conosco. Já um tanto debilitado pela idade que deveria passar dos 15 anos, sobreviveu a sua vida toda sendo um cachorro de rua. Vivia antes pelas ruas internas da Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha, onde a Tânia trabalhou por algum tempo. Acarinhado por muitos, recebia sempre um afago na cabeça e algum petisco para beliscar. Como ficara cego, pela catarata avançada, estava atrapalhando a circulação das pessoas e talvez não se apresentasse como exemplo de hóspede que o hospital acolhesse sem receber certa apreensão em quem não conhecia. Provavelmente veio da comunidade ao lado dele e acolhido de alguma forma pelos funcionários, tornou-se uma personagem do lugar. Magro, nos últimos dias, deixou de se alimentar e mais do que nunca passou a nos chamar para ser erguido de onde estivesse caído. Uma das coisas que o impelia a pedir ajuda era o de não querer urinar ou defecar onde dormia. Então, foi comum nas últimas semanas eu ficar vigilante até tarde da madrugada para impedir que se prolongasse os seus pedidos latidos.

A Tânia dormiu mal por vários dias, assim como eu. Nestes últimos dois, ele ficou na sala da TV, sendo acompanhado por mim que, depois de tantos anos tendo bichos, percebia que ele não resistiria muito mais tempo. Não conseguia mais andar, coisa da qual gostava, ainda que não enxergasse, mesmo que de forma claudicante. Percebemos que sentia dores através de seus lamentos e respiração ofegante. Começamos a medicá-lo para minimizar o seu sofrimento, até que na madrugada de 09 para 10 deixou de respirar em posição relaxada, deitado de lado, maneira que era rara, pois sempre apoiava a cabeça entre as patas, como se estivesse sempre alerta. Quando o trouxemos para casa, sabíamos que não viveria muito mais, porém a sua resiliência era dos bravos, daqueles que não se entregam tão facilmente. Queria tê-lo conhecido desde que nasceu, fico imaginando as suas tribulações e percalços de cão abandonado e acredito que fizemos a coisa certa ao recebê-lo. Que possa continuar a explorar como gostava todos os cantos do Universo, Nego Véio!

26 / 02 / 2025 / Deus*

Imagine a possibilidade de que o Universo todo tenha surgido de uma explosão a partir de um ponto infinitesimal, há incontáveis bilhões de anos “antes” a considerar “antes” e “depois” como dois momentos decorrentes desse início do tempo, se fôssemos criar uma linearidade. Sendo assim, todas as “leis” que regeriam a expansão do Universo desde então — formação de massas gasosas, elementos químicos, estrelas, planetas, asteroides, cometas, galáxias, buracos negros, as leis físicas conhecidas e as que ainda a serem descobertas, a Terra, as plantas, os homens e os outros animais, as mulheres (seres especiais), eu, você e toda a complexa história da existência humana no planeta, até a extinção dele e de toda a vida que nele caminha — teriam a mesma origem e comungaríamos da mesma “natureza energética”.

Ou seja, o Universo todo estaria conectado, mesmo que não queiramos aceitar. Se convencionarmos chamar a essa “Energia Una” de “Deus“, estaríamos errados? E se ao longo do desenvolvimento do Universo, a multiplicidade de fatores desencadeados pela força inicial tiver estimulado um processo de autoconsciência, mesmo que originalmente não houvesse tido essa característica, e que essa autoconsciência se tornasse o padrão de reconhecimento de uma espécie de “divindade de ser”, em que as supostas leis arbitrárias que aparentam a violência dos elementos demonstrasse apenas que existe um processo infinito de criação, conservação e destruição, em um ciclo eterno de desenvolvimento que muitos poderiam chamar de evolução? Isso é possível?

Eu acredito que sim, porque creio que se um deus existe, Ele/Ela é o/a deus(a) do possível e se permitiu que eu possa imaginar isso e/ou qualquer outra coisa, Se “apraz” que assim seja. Portanto, até duvidar de sua existência, eu posso. Livre do peso de precisar aceitá-lo(a) como imposição, consigo ter um relacionamento mais aberto com a divindade da vida. De resto, o que eu tenho visto, ao longo da História, é o Homem a criar deuses à sua semelhança e a matar em nome deles…

*Texto que compõe REALidade, livro de crônicas lançado em 2017, pela Scenarium Livros Artesanais

Foto por Yihan Wang em Pexels.com