25 / 12 / 2025 / Natal Na Estrada

O meu trabalho é da tradição do Circo. Sou locador e operador de equipamentos de sonorização e iluminação para eventos ao vivo, normalmente ligados a apresentações de bandas musicais. Como foi o caso da realizada da noite de 24 para 25, numa colônia de férias de Caraguatatuba. Foi um evento satisfatório, que agradou ao público presente. Cansativo, devido à distância e ao tempo de deslocamento. Caraguatatuba é uma cidade litorânea ao norte do Estado de São Paulo. A chegada a ela é preocupante caso as condições climáticas não estejam favoráveis, o que não ocorreu dessa vez. Mesmo assim, apresenta curvas fechadas, tendo a bela vista das encostas da Serra do Mar à disposição, o que suaviza a tensão.

Chegamos bem, dentro do horário previsto. Como tudo saiu de acordo com o nosso planejamento, deu até tempo para dar um mergulho no Mar. Após o evento, terminado à 1h da manhã, desmontamos com calma a estrutura e saímos por volta das 3h30 do local. Madrugada alta, conseguimos pegar o caminho de volta feito viajantes de um mundo paralelo. Duas horas depois fomos abençoados com a manhã natalina surgindo no horizonte alheia à marcação humana de efemérides ligadas às suas ilusões coletivas.

Em dia de Natal, apesar do clima amistoso e das boas vibrações e as pessoas não deixam de ser o que são. Já na Rodovia Ayrton Senna vimos uma ave de rapina, talvez um carcará, bem no meio da pista isenta de movimento. Cinquenta metros adiante, o motivo de seu pouso no asfalto: um pequeno cão, muito parecido com um Fox Paulistinha… morto. Talvez ainda carregasse uma coleira a demonstrar que alguém o deixou ali, no meio do nada em pleno Natal. O seu presente foi ser abandonado num imenso espaço sem referência de localização ou cheiro para seguir. Acabou atropelado na escuridão da madrugada. Fico a imaginar se algum remorso assomou à cabeça do criminoso. Mas não pretendo entrar em sua mente e perceber o deserto psicológico no qual vive a repugnante criatura. Apenas imagino que se esquecerá facilmente de que cometeu o abandono na eventual presunção de que o bichinho tenha sido resgatado. E, para ele ou ela, isso bastaria para aliviar a sua culpa… uma ilusão.

Transformação

A metamorfose se deu, de início,
pelo olhar…
O movimento dela o paralisou.
Como se fotografasse cada gesto,
aprisionou dentro de si a evolução
do casulo à borboleta –
da flor ao céu –
asas da imaginação…

Quis recuar quando suas vozes
ocuparam o mesmo ambiente –
palco de suas atuações…
Percebeu que fluíam sonoras
conversas de palavras
entrecortadas,
caladas…

As lacunas preenchidas de desejos
perfeitos em suas incompletudes.
Quebradas as barreiras –
distâncias de centímetros-quilômetros –
peles sem proteção,
mentes despertas,
liberta de atavismos
e consequências,
o imediato transformado em eterno,
se reconheceram outros,
os mesmos…

Ele,
transmutado
de Jekyll em Hyde,
de homem em lobo,
de mortal em vampiro,
de Clark em Superman
todos e ninguém,
vivia ausente de si…
Passou a respirar o vácuo
se não aspirasse o hálito da paixão…

Transformação
irremediável,
perigosa,
instável,
liberdade de viajante
encarcerado,
não trocaria o permanente desconforto
do atual caos da criação do mundo
pela antiga estabilidade da morte
em vida…