BEDA / A FACILIDADE DO FASCISMO

Mesmo depois de levar o mundo à guerra mundial, a propagação do Fascismo continua a se espalhar por todas as sociedades. Num planeta em que quase nenhum lugar está incólume de receber influência do totalitarismo digital através dos meios de comunicação,, a facilidade de um sistema simplificador em que normalmente não há reflexão sobre os assuntos costuma-se utilizar as chamadas “soluções simples”, que equaliza pela média as questões mais complexas em pauta na Sociedade. É a ditadura da simplificação que não atende as minorias, mas satisfaz os medíocres. Ouvi um filósofo dizer que o Fascismo é a falência do Abstrato e da Abstração, quando conseguimos ultrapassar o básico e atravessar os limites da simplificação, que busca padrões esquemáticos.

Muitas vezes, as soluções simples são as ideais, mas tomar qualquer atividade humana de maneira padronizada sob os auspícios do que é mais elementar, contando com a anuência daqueles que não suportam inovações ou diferenciações, elegendo modelos esquemáticos que acabam por ser impostos pelo poder vigente. No modelo democrático, busca-se o consenso, mas quando se estabelece o poder pelo uso das armas, observa-se que o poder de decidir entre a vida e a morte de segmentos inteiros de populações divididas em estamentos em que os menos aquinhoados de poder econômico, por exemplo, se tornam párias dentro do contrato social.

As raízes do Fascismo é antiga, mas com o crescimento de múltiplas influências dentro das estruturas de Poder Político que desenvolve mecanismos que impedem o crescimento da equanimidade de oportunidades de desenvolvimento positivo entre os cidadãos numa determinada localidade — País, Estado, Continente, Hemisfério — vemos crescer a violência como imposição natural do status quo. Falimos, quando isso acontece, como sociedade emancipada para além do que é padronizado, gerando estagnação intelectual e pobreza de recursos de ideias que poderiam auxiliar na melhora das relações sociais. A figura de uma parede branca bem poderia representar essa situação.

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BEDA / O Ciclo Do Amor

Os sentimentos humanos são características supostamente restritas ao Homo sapiens. Mas a relação que desenvolvemos ao longo de milênios de interação com os outros animais demonstra que a energia criada pela interação entre nós e outras espécies gera relacionamentos em que o amor que sentimos ultrapassa as fronteiras interespécies. Ao longo dos anos, estabeleci a crença que assim como nós, seres humanos, os outros seres estão em desenvolvimento da autoconsciência. Quando retornei do afastamento dos meus companheiros não humanos, percebi o quanto sofreram. A Bethânia, com a qual tenho uma conexão mais íntima, começou a me vigiar com os olhos por onde ia. Já foi tema de uma das crônicas de REALidade, um dos meus livros, em que discorro sobre o seu Ciúme. Amar seres supostamente mais simples diz mais sobre nós do que sobre eles. Mas creio que amá-los os ajudam a se desenvolverem na senda mais complexa da Vida. E não duvido que se torna um ciclo virtuoso que também nos ajuda a nos tornarmos seres mais evoluídos.

Nesta imagem acima, realizada em 2021, se deu o reencontro com a Bethânia, uma das minhas filhas de quatro patas após as quatro Luas de Fevereiro daquele ano. Estive fora para ajudar uma amiga das minhas filhas num projeto de alimentos leves. Participei entregando as encomendas com uma bicicleta — já que não dirijo automóveis — o que me ajudou bastante na recuperação da crise de ansiedade que desenvolvi naquela época. A minha atividade profissional, ligada a eventos, foi a mais prejudicada naquela época em foram suspensas todos as reuniões de pessoas em ambientes fechados. Foi uma medida necessária  a qual apoiei. Mas isso não evitou que tivesse uma sensação em que eu adoeceria como havia acontecido outras vezes. Sou uma pessoa que desde pequeno, somatiza. Foram vários eventos em que joguei para o corpo as dores mentais. Percebi que o fato da falta da atividade profissional, para além da cessação de ganho econômico, enfrentava um contexto político em que via a revelação de um País que me agrediu a consciência tornou todo o contexto que vivíamos então uma espécie de pesadelo. Sabe-se agora que os 700.000 mortos foram subnotificados. Provavelmente, ocorreu o triplo de casos mortais. Fora a questão política em que o Negacionismo representou um retrocesso como se voltássemos para mais de um século antes em que houve a Revolta da Vacina, em 1904. O choque que adveio com tal quadro de recuo histórico só não foi pior em consequências piores para mim porque pude escrever um livro em que expunha as circunstâncias do que ocorria — Curso De Rio, Caminho o Mar — que representou um suporte terapêutico.

BEDA / Vidas*

Em minha vida, vivi muitas vidas… E morri, outras tantas vezes… E não é incomum, mesmo tento a idade que tenho, viver todas as minhas idades ao mesmo tempo. Em muitas ocasiões, eu tenho que tomar cuidado para que o homem maduro não venha a retroagir cinquenta anos e se veja desamparado diante de algumas situações, como se novas fossem. Em contrapartida, acontecimentos que me surpreenderiam pelo ineditismo assumem feições de déjà-vu, como se ouvisse um disco arranhado. Bem, esta última imagem já denuncia a minha experiência no atual formato.

Diante dessas sensações, o nome que assumo – Obdulio – carrega um traço em comum – a saudade – tanto do que passou, quanto de um futuro irrealizado. Entre o menino sorridente que brincava na praça e aquele que se vê no espelho, fotografado por um moderno aparelho de (in)comunicação, se passaram cinquenta anos pela face do homem. O corpo se modificou tantas vezes – cresceu, engordou, emagreceu, adoeceu – enfim, sofreu as intempéries físicas e mentais a que somos submetidos ao nos vestirmos de uma identidade humana.

Ainda que as alternativas não vividas prometessem múltiplas e promissoras perspectivas, eu me sinto muito bem com que se passou comigo. Seria injusto com quem compartilhou da minha vida (e comigo mesmo) que viesse a repudiar tudo o que vivi até hoje. Aprendi a estipular as minhas vivências como únicas e valorosas. O que sofri, sinto que foi para o meu bem. Contudo, o sofrimento de quem amo me é mais pesado do que se acontecesse comigo. Assim como não me sinto totalmente feliz diante das duras provas pelas quais passam tantas pessoas em minha volta, no meu bairro, na minha cidade, país e planeta. Mesmo assim, me sinto grato pelo papel que assumi como se fosse uma dádiva oferecida a mim pelo Diretor que dirige este incrível espetáculo universal no qual todos nós nos apresentamos.

*Texto de Julho de 2016

BEDA / Se Deus Quiser

“Se Deus quiser!” — ouvi pelo menos três vezes em pouco tempo. Fiquei a imaginar a que Deus essas pessoas se referem. Duas delas a proferiram olhando para o alto. O “Céu” supostamente é onde estaria o Paraíso e, nele, se sentaria um homem de imensas barbas num trono emitindo uma luz dourada. Eu já desacreditei há algum tempo nesse deus humanizado, feito Zeus, com sentimentos e inclinações humanas, como ira e sentimento de vingança. Desde os 16 anos fui me inclinando a “sentir” algo que escaparia a imagens bíblicas, de influência judaico-cristã. Percebi que as religiões ou filosofias orientais refletiam as minhas ideias mais conectadas à energia espiritual do que à materialidade.

No passado o Céu era interditado ao acesso humano. Com o advento dos veículos que nos levaram em direção às nuvens, passamos a perceber que a morada divina de fato passou a se estabelecer em lugar incógnito, a não ser para quem crê que tudo não passa de algo interpretativo. Para mim, em crendo na transcendência do espírito, os olhos físicos não alcançam a plenitude da energia cósmica. Todos nós, em se estabelecendo que a criação do Universo se deveu a uma explosão inicial (voluntária ou não) somos seres que, no mínimo fisicamente, temos uma origem comum. Em se considerando que desenvolvemos consciência sobre a vida e a vida sendo a medida que indica consciência de existirmos, estabelecemos um ciclo que se fundamenta na fluidez energética, em sua variabilidade universal.

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Apaixonada Pela Vida

quando a encontro fico na expectativa de voltar a mergulhar
em momentos de entrega e sedução
ela confessa que sem mim passeia de pés descalços
pelo chão da solidão
pede para que eu me deite e vem em minha direção
pronta para me abocanhar inteiro
ainda que seja apenas uma parte de mim primeiro
me deixa com o coração extasiado
meu pelo arrepiado
transcendo
e fico me sentindo sendo
mais do que sou
torno-me vivo aceso louco de paixão e desejo
quando a possuo
boca à procura da sua menina enveredo por caminhos
quentes vibrantes língua a bebê-la a sentindo plena
emoções profundas mas leves como uma pena
quando estou com ela permaneço fora do tempo
ainda que o meu relógio interno me chame para fora dela
porque provavelmente eu me perderia
e o meu espírito indeciso de mim se sentiria
em perigo de abandonar-me de vez para ir a norte de mim mesmo
e, por lá… ficar…

Foto por Polina Tankilevitch em Pexels.com