quero… desejo… vou de encontro… invado… devagar…
passos silentes sobre a areia e a pedra…
o meu corpo recebe em ondas as águas mornas do abraço marinho
desta manhã que se anuncia receptiva ela também me deseja
as águas se mostram aparentemente turbas rebeldes
consigo ler a sua dinâmica de mulher apaixonada fogo em forma aquosa
os meus membros a penetram como um cavaleiro de espada em riste
em uma batalha que já perdi sei desde o início mas guerreio
fardo de homem que ao oceano ama e por ele se derrama em sal
eu o decomponho e o absorvo em minha mente
de querer amoroso marolas se disfarçam de amantes
desfaço-me em pequenas porções de moléculas de oxigênio e hidrogênio
o meu ego apartado de mim é lançado no mar profundo
me entrego ao beijo da amada no amanhecer revelador
raios de sol por testemunha
de que sou seu amor morro para esta existência em gozo
transformado em milhões de gotas
a rebater na arrebentação junto às pedras do arpoador…
Etiqueta: vida
Comboio
C
carreadouro passeio de formiga rua de cafezal
corro por entre alamedas virgens de passos meus
violentadas pela indiferença com a qual inauguro mais uma visita
que terá de diferente nessas casas geminadas de famílias iguais?
o céu divisado por um olhar enviesado de sol inclemente
que invade janelas descortinadas e lambe portas fechadas
convidando ao não e ao talvez quem sabe haja
um mar particular quartos e histórias de dilúvios e aluviões
de minas auríferas platinas ou cristais
ou lama açude seco areia movediça pasto duro
salas de piso de antigos tacos que soltam e revelam relevos incongruentes
onde um dia crianças brincaram
indelicada a vida tripudia em vez de grandes planos urde mínimas ilusões
carrega no quengo concomitâncias com o sofrimento dos escravizados
o que era imposto antes agora não apenas é aceito
assim como é desejado – quero que me comprem – me consumam
um motivo para viver para beber para comer para querer para dever
porque eu não me basto como fogo me alastro e destruo o que vem
pelo caminho pelo desvio pelo sentido direção e chegada sem fim
permissão para fenecer expirar todo o ar dos pulmões enxarcados de vazios
desencarno os pés nas pedras hirsutas e candentes de sons inaudíveis
como vozes surdas e suspiros partidos intuo que perguntem
que será que sou
quem estou?
O
onde está que não responde?
dedicação de dez anos me usou fui útil agora passei
página virada curva fechada some no horizonte
o barulho das ondas na arrebentação parece se apequenar
em minha memória de sóis poentes e brisas mornas
areia macia pés de bailarina arcos impossíveis
manobras abissais nesses momentos dançávamos as mesmas notas
o último encontro únicos membros tantos quartos desocupados
eu dormia no catre ao som das trombetas de jéricó
d. pedro que levantava a espada e penetrava no âmago da liberdade
prazer que gemidos confirmavam eu ao telefone
enquanto me engolia edição de fotos que esbravejava
o golfinho como testemunha
mergulho abaixo às aguas transparentes da tarde que morria noite
a lua enluarava como se predissesse que não seria apenas o fim do mundo
mas também dos sonhos de eternidade amor em terna idade
houve momento em que pensou que iria morrer
a imensidão a cercando pouco a pouco como se o céu caísse em si
enquanto os seus olhos esverdeados se agigantavam
rompendo nuvens fendendo camadas alcançando
a derradeira circunferência de onde não mais voltaria
pedi para que lhe visse passar ao menos
tripudia de minha distância enquanto aumenta a dissensão
se transfere para outra dimensão e fico aqui
neste ponto em reticências…
M
mulher que bebeu de minhas melhores emoções refestelou-se
fui intenso fui imenso diante de seu corpo nu mais crescia
mais me apetecia jogar-me do alto do abismo
estive apaixonado uma vitória sobre minhas defesas ao chão
prendeu-me seu sorriso desbocado sem dentes naturais
feito prótese que o tempo tratou de compor mas amava
porque estava você a me beijar debruçada entre as minhas pernas
provando-me entre soluços de choro sentido estávamos finando
em cada tempo que imaginávamos recomeçar
foi como uma descida de um avião sem asas partidas em pleno voo
em dor espiral expirávamos em fogo e riso da lembrança do fauno
com os cascos sobre o balcão que disse: “ele está lá encima”
enquanto a banda marcial executava hinos pátrios
foi assim que adentrou ao átrio
com saltos altos que ouvia desde o corredor
eu a recebi à base de beijos línguas serpenteando seu hálito de cerveja
para tomar coragem de invadir a minha vida de vez
na segunda incursão do dia revelou o presente do primeiro encontro:
“eu amo você!” enquanto pensei ela não precisa de mim para chegar ao ápice
queria estar ali mesmo que somente como expectador
da performance da artista dedicada ao monólogo
o meu corpo como seu palco de atuação teatro moderno a plateia
como coator quase sempre contracenava sendo os outros que de mim saltavam
pelos poros em desespero de expressão como a gritarem – nós existimos!
comecei a sentir o poder do demiurgo
a corromper as minhas ações queria comer todo mundo
mas recuei me assustei como pode um ser empoderar tanto o outro assim?
B
benditos os que amam amar é radicalismo posto em prática
caminho sem volta quem amou um dia amará
para o todo o sempre congelado no tempo será a sua história
tão preciosa quanto dolorosa tão aguda quanto plana
tão simples quanto confusa tão extrema quanto definitiva
feito o ponto final posto na última palavra da última página
de um livro incompreensível que o cupim comeu
feito james joyce caminhando no chão forrado de carvão incandescente
como prova de humildade intelectual
apenas que não ocorre intervenção da mente na paixão é doença cerebral
obliteração dos sentidos os sentimentos invadindo as texturas
e fibras orgânicas as transformando em vetores sinergéticos
para entregar à oblação oferta em sacrifício no altar do gozo
tão fátuo quanto viciante desejo de voltar a ter
a mesma sensação da primeira vez viagem sem volta
mas talvez o esquecimento intervenha e venhamos a percebê-la
como cicatriz que coça de vez em quando mais ou menos
de tempos em tempos feito o sangue que passa pelo coração
percorre o corpo todo atinge o cérebro e repercute em algum ponto
da pele dedos cotovelos peito costas barriga coxas e entre as coxas
nada que uma das mãos não resolva…
O
ondas do mar invadem o meu peito atravessando as vértebras
e banham o meu coração de saudade ainda que não acredite nela
como algo que denota falta mas é presença na ausência
quando os meus pés ultrapassam as linhas aquosas fronteiras
entre as matérias me integro me entrego me torno água
perfuro fluo seguro o ar fecho os olhos as três dimensões se dissolvem
me santifico batizado pelo sal renovado as avarias lavadas retificadas
as pancadas silentes dormentes silenciosamente se curam
abençoadas pelo sol clemente beijando a minha tez indígena embranquecida
eu sou transfigurado pelo elementos desde a areia para a areia
não persigo mais a redenção pessoal sou redimido pela falta pelo vazio criativo
prestes a ser preenchido de nadinhas maiores e menores incisivas perfurantes
duras feito diamantes ainda a serem lapidados tudo me interessa
ninguém me acolhe me sinto só com o tudo a me costurar o mundo nas costas
carrego feito sísifo de quinta categoria o peso que rola a montanha abaixo
me cristianizo ofereço a outra face para que o sistema me esbofeteie
organizo a minha dor uma de cada vez em uma fila da qual não vejo o fim
porque redivivas sorriem como bebês satisfeitos após a mamada
espero que adormeçam para que continue a subir o morro
e morrerei curioso para encontrar a substância ou a escuridão abstrativa
isso é encontrar ou se desencontrar?
sei que irei para alguma cadeia molecular de carbono
ou que talvez integre átomos que se perfaça em flor
definitivamente serei deus…
I
independência não existe fome sim dependemos de nos alimentarmos
para sobrevivência isso nos torna fracos se dispersos egoístas
unidos podemos fazer tudo como destruir o mundo que nos nutri
mas criamos estratégias de dependência dos mais fracos a um sistema
abjetamente os despossuídos se integram ao paraíso como serviçais
tocam mas não podem possuir
cheiram mas não podem comer
veem mas não podem desfrutar
alcançam de forma indireta a fruição da possibilidade
isca lançada servem aos senhores dos meios e dos fins
a terra inteira destruída em nome do poder de alguns
até esses dependem de que a ilusão perdure para que continuem
a serem mandatários no entanto se todos tivessem os mesmos recursos
o planeta não suportaria tamanha pressão sete gaias não aguentaria
a demanda da podre riqueza feita de guerras messiânicas
acionadas de forma mecânica
para o aumento do fluxo sanguíneo que alimenta a sociedade organizada…
O
ocasional o meu futuro o meu presente é solidificado
sou o que sou ainda que não me conheça por inteiro
estou em construção e desmantelamento
agrupamento e dispersão
desencaminhado e perseguido por minhas dúvidas e questionamentos
continuo em contínua inconstância traço de causa consequência coerência
cansado de não perseverar não vejo saída a não ser prosseguir a ser
observador da vida que passa passo junto perpasso par e passo
sonhando ser pássaro em revoada mas fazendo parte de um comboio
acorrentado a vagos vagões viajando em trilhos sem rumo aparente
sabedor de minha nossa exiguidade não me sinto perdido
a não ser em mim sem sins jardins jasmins e festins
não sou enganado porque não estipulo cláusula pétrea para nada y nadie
mas carrego um traço de inocência que me deixa surpreso com muita coisa
coisa é algo incomensurável indizível coisada se acredito
acredito que a vida é um milagre seja sob que forma for
sem aforismos ou regras apenas fruição
se oro é para o deus mudança transformação transmutação
locomovido em locomotiva desgovernada maquinista despersonificado
me sinto como se fosse uma novidade no universo sem encarnações anteriores
mas com um fim consciente num tempo indeterminado pelo destino
se pudesse nomeá-lo que nome daria:
sorte de principiante?
Foto por Jalitha Hewage em Pexels.com
Vida Normal*
Dia de folga de um dezembro corrido. Passaram muito rápido todos os meses de 2017. Vou ao Correio, passo no supermercado, me desloco para uma visita técnica, levo um aparelho para o conserto.
Escritor em busca de temas que sou… por onde passo encontro personagens. O clima de final de ano de pinheiros e decorações típicas de tempo frio, se faz presente a cada quadra que caminho. É o assunto principal das pessoas nos ônibus e trens de Metrô.
No Correio, tenho que devolver um produto que veio com defeito. Pelos corredores e gôndolas do supermercado, cenas cotidianas igualmente explicam nossa triste realidade. Uma menina sentada no carrinho de compras, recebe de seu irmão um saco de salgadinhos. O menino, com idade suficiente para saber que fazia algo indevido, o abre com o cuidado necessário para não ser percebido. Um ato de amor… escuso. A mãe, ao lado, finge que não vê.
A caminho da reunião, uma mulher conversa ao celular. Explica ao interlocutor que não poderá encontrá-lo naquele dia porque “o seu amigo está desconfiadíssimo!”. Quem caça, às vezes, veste roupas claras, quase diáfanas.
Depois da visita técnica, me desloco à região da Santa Efigênia. Visito algumas lojas, enquanto espero o reparo do aparelho. Em uma delas, acredito reconhecer o senhor por detrás do balcão… um cantor tal de uma banda de sucesso anos antes — o próprio… levantou a cabeça, a olhar para um ponto indefinível, talvez o passado. Exibiu um sorriso enigmático. Soube que ganhou muito dinheiro, bateu muita cabeça, perdeu prestígio, deixou de ter visibilidade e voltou a trabalhar na loja do Seu Gaspar — onde teve o primeiro emprego. Ele ainda canta aos finais de semana, em um barzinho — voz e violão, público cativo, que sabe as letras de suas antigas canções. Percebo, no entanto, que não tem mais a ilusão do sucesso. O cumprimento e saio cantarolando uma de suas músicas.
A pé, vou encontrar minhas filhas e mulher, no bairro de Santa Cecília. Caminho pelas ruas do Centrão, pelo qual tenho paixão de viajante. A arquitetura variada, em épocas e formas, é como se fosse um palimpsesto em alto relevo. Presencio o entrechoque de identidades diversas. A mudança de paisagem humana é drástica, de um lugar para outro. Parece que há sempre um novo ângulo a ser explorado, personagens a serem encontradas, histórias a serem contadas.
Ao chegar ao apartamento de minha filha, levo para passear o cachorro de sua amiga que vez ou outra fica hospedado por lá. Toddy é carinhoso e alegre. Por algum motivo, lembro do Desinquieto, nome dado por um morador de rua do Centrão ao companheiro de jornada. Ele o carregava no carrinho e a pessoa de quatro patas agia como se fosse um marajá em sua liteira. A diferença entre os dois, Toddy e Desinquieto, era total, tanto em conformação física quanto em condição social. Porém, o olhar dos dois era a de seres que se sabiam amados, sendo amáveis. Toddy faz amizade por onde passa. Exceto por uma enciumada cadelinha de andar arrogante que quis lhe atacar.
Compro bolo de cenoura, tomo o chá da tarde com a família e percebo que tenho cumprido o mandamento pessoal de viver um dia de cada vez. Vivo o primeiro terço de um dezembro de um feliz ano velho, que foi intenso, pleno de acontecimentos, grandes e pequenos, que trouxeram a mim a certeza que a vida segue seus dramas, seus prazeres e dores, desafetos e amores independentemente das efemérides que promulguemos.
Em meu passeio com o Toddy, ouvi o trecho da conversa entre duas mulheres. Uma delas diz que odiava àquela época do ano e que não via a hora de janeiro chegar. Eu agradeço se puder viver apenas o próximo dia.
*Texto que compõe o Coletivo Feliz Ano Velho, de 2017, pela Scenarium Livros Artesanais.
APAIXONADA
ela é uma mulher apaixonada pela vida
e se apresenta apaixonada por mim
mas não sou toda a sua vida
e nem quero que seja
quero acrescentar não completar
duvido de mim eu não me sinto suficiente
ciente que estou de meus vazios
minhas faltas minhas incompletudes
mas com ela me sinto bem quase outro
esse outro é bem melhor
chego a sentir ciúme dele…
ainda que seja eu em pele
carne osso pensamentos perfil
estrada calçamento meio fio
do caminho que desejo trilhar
ainda que seja no meu terço final
quero alcançar o arco-íris
multicolorido feito casario colonial
navegar com os olhos pelas águas
da veneza tropical
submergir na cultura do lugar
meu coração ao compasso pulsante
em pífanos cantos violas enluaradas
maracatu caboclinhos coco-de-roda
ciranda samba afoxé frevo
caminhar por boa viagem
reconhecer a mim o que ama amante
aquele que se atreve a ser
e ao tê-la em meu braços
me ter…
#Blogvember / O Tempo
meu kairós em transcendência vida e morte (Obdulio Nuñes Ortega)

Por mais que especulemos sobre a sua natureza física, mecânica, para o comum dos homens o Tempo não existe fora da nossa percepção no final das contas. E dá-lhe fazer contas de mais e de menos para mensurar o quanto vivemos, a estabelecer tabelas com as quais programamos as nossas agendas de encontros e desencontros, trabalho, vacância, lazer, nascer, permanecer e morrer. Efemérides que falham em designar a qualidade do momento que vivemos, o minuto que passa ou Kairós.
Ontem, me reuni com pessoas que se moveram para estar juntas de vários pontos da cidade. Fizemos algo que quase nunca tenho a disponibilidade para fazer: conversar. Falamos sobre assuntos sérios, outros nem tanto. Discutimos sobre o clima, as chuvas, as secas – de territórios e de mentes – o frio e o aquecimento. Este é um mundo que está morrendo. Já ouvi dizer que os entendidos em mudanças climatológicos calculam que em três anos, veremos caravanas de pessoas se movendo para as áreas menos inóspitas em termos climáticos. Projetaram que a continuação do processo que ora se desenvolve resultará, em 2050, em várias faixas das áreas junto aos Oceanos inundadas, engrossando os números dos refugiados do clima. Questão de Tempo.
É triste perceber que as minhas visões juvenis de cataclismas mundiais esteja perto de se realizar. Eu sempre fui muito imaginativo, mas não era isso que gostaria que as minhas filhas venham a vivenciar num futuro próximo. Os meus textos de garoto amante de escritores de ficção científica – Julio Verne, Isaac Asimov, H.G.Wells, Jack Finney – primavam pela revolta da Natureza frente ao continuado ataque dos seres humanos. Eu me tornei abstêmio de carne buscando minimizar os efeitos de minha presença como típico predador pertencente ao topo da cadeia alimentar por isso, também. Não são poucas as vezes que penso em voltar a essa fase que durou dez anos. Não resolverá a questão, mas talvez diminua a minha culpa…
Previsões se baseiam na soma de sequência de fatos passados com a repetição de fatos presentes, resultando em consequências práticas. A experiência da Humanidade na Terra me induz a imaginar que no atual andamento dos eventos, chegaremos a um colapso global em menos tempo do que se esperava. O atual sistema de produção que desenvolvemos ao longo dos séculos, empreendeu um aceleramento que está precipitando em descontrole sistemático. É como se víssemos Cronos devorando os seus filhos. Não terei condições de experimentar o meu Kairós em transcendência de vida, mas sim de morte…
Participam: Mariana Gouveia / Lunna Guedes



