Super Luas

O interessante na ocorrência das Super Luas em Sampa, é quase nunca a percebemos. Simplesmente porque calha de haver sempre muita nebulosidade a nos impedir de senti-la em todo em seu esplendor. Aqui, coloco dois textos referentes a duas ocasiões diferentes…

Em 2015…

Sem Super Lua

Apenas superação…

A eterna ação

da Terra em movimento…

Em uma viagem de velocidade controlada em torno do Sol.

Bilhões de pessoas já viram céus

e astros mudarem de lugar quando,

em verdade, foram elas que se moveram

vida adentro, do nascimento à morte…

Essa é a nossa eterna sorte…

Nossa fraqueza…

E a nossa redenção…

Em 2018…

Nota De Esclarecimento

Não fui eu, Obdulio Nuñes Ortega, que desencarnou na madrugada de ontem. Mas sim meu pai, quase um homônimo – Odulio Ortega. Morrer é um fenômeno natural, assim foi a ocorrência da Super Lua, de quarta para quinta. Um dia, morrerei. A vida só é enigmaticamente tão bela porque temos a morte a nos cortejar num romance eterno, vida após vida. Quanto ao meu pai, ele foi um homem que viveu plenamente e se foi calmamente aos quase 86 anos de idade. Envio um abraço forte a todos que se preocuparam com a minha condição de órfão tardio ou defunto precoce.

Vou Pela Sombra

Dezembro caminha para cumprir o seu primeiro terço. Manhã quente, Sol pleno, o meu corpo jogado à rua, pede: “vá pela sombra”. Manhã de dia do jogo da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo. A nação veste verde e amarelo, azul, de vez em quando, se esquecendo do necessário branco. As moças ousam em vestimentas diminutas – revivendo um Carnaval de final de ano. A confiança é que o time vença como venceu a Coréia do Sul. Eu duvido. De certo modo, torcer é distorcer a realidade, os dados materiais, as perspectivas cabíveis.

A Croácia, o adversário, é o atual vice-campeão de futebol. Mais cerebral e taticamente bem treinada, está acostumada a enfrentar conjuntos mais habilidosos. Tem Modric, um real camisa 10, dos antigos, considerado um dos melhores do mundo. Um só jogador não faz diferença até… surgir uma oportunidade para decidir. Basta um lance. Jogar por uma bola é a estratégia de muitos. E ao final, nem é preciso vencer no tempo normal da partida. Após a possível prorrogação, poderá sobrevir a chamada loteria das penalidades máximas, fazendo com que o resultado esperado não ocorra. A Espanha “foi para a casa” dessa forma, diante de Marrocos.

No supermercado, as pessoas se abastecem para comemorar uma possível vitória. Eu apenas compro itens para fazer o almoço e o café da tarde. Ao passar pela caixa, constato o preço alto das mercadorias. Em tom de brincadeira chego a perguntar se caso a Seleção Brasileira vencer, o custo de vida baixará. A moça do caixa parece sorrir com o olhar. Usa máscara – em tempos de alta de vítimas da Covid-19 – num país que vive o drama da vida (e morte) real.

Volto para a casa, parto um pedaço de pão e alimento um cachorro de rua. Relembro os meus tempos de menino-torcedor que sofria e chorava como se um ente querido partisse a cada derrota. Mais maduro, voltando o meu olhar para as coisas mais “palpáveis” – as invisíveis – comecei a me guiar pela senda do autoconhecimento, um sentido sem volta. As circunstâncias externas, principalmente as que não podemos controlar, deixaram de ter importância.

Os comentários que utilizamos “se fizéssemos isso”, “se fizéssemos aquilo”, quando algo de ruim acontece deixou de ser o caminho para explicar a minha vida. Tornou-se apenas um mote para as minhas histórias. Os textos que produzo brincam com as possibilidades. Talvez sirvam um tanto como sublimação e muito como compreensão do transitório, na tentativa de superá-lo. Esta crônica publicarei depois do jogo. Não colocarei o resultado. Não importa. A vitória ou a derrota não evitarão que o combustível suba por conta da Guerra da Ucrânia, em que ninguém ganha. A vida tem sempre razão.

#Blogvember / Sem Arrependimentos

Adriana Aneli, em O Sol Tarde, nos revela que “me despi de tudo / desisti do arrependimento / faria tudo de novo”. Arrepender-se de algo implica em não gostar do resultado de uma ação e imaginar que se fosse feito de outra forma, as consequências seriam outras. Como numa operação matemática em que fatores diversos resultassem em um produto diferente. Bem sabemos que a vida não é assim. Entram em jogo movimentos invisíveis aos nossos olhos. As pessoas creem que as suas ações resultem em determinados efeitos, mas é comum que aconteça diferentemente do que se espera. Isso porque, apesar de boas intenções, as consequências são basicamente incontroláveis. Às vezes, uma gota d’água aleatória faz transbordar o copo cheio, desencadeando uma série de acontecimentos inesperados por mais que busquemos domá-los.

O SIM e o NÃO balizam as diretrizes que utilizamos como parâmetro. As opções que estabelecemos estão centradas em padrões que são apenas aparentemente claros. Aliás, principalmente para nós, envolvidos ideológica, moral, social, intelectual, material e afetivamente numa escolha. Cometemos frequentemente autoenganos por não sabemos com que roupa vestimos um ato disfarçado em outro. Não importa o viés pelo qual nos balizamos, sempre haverá perdas. Essa luta entre duas posições antagônicas e extremas não é resolvida se nos abstivermos de qual lado estaremos. Ficar em cima do muro implicará em algum momento em queda. A Lei da Gravidade é quase um “milagre” ao qual não temos como renunciar. E ela estabelecerá a escolha entre o preto e o branco. Mesmo porque, convenhamos, o cinza é estéril. Ainda que seja a cor padrão de nossa vida.

Em conversa com o meu irmão, eu lhe disse que pagamos por nossos pecados no momento que o cometemos. Essa imagem religiosa é bastante ilustrativa porque as Sociedades sempre se utilizaram da Religião para controlar os excessos que seriam cometidos sem a sua atuação. De certo, inviabilizariam as suas existências. Com promessas de fogo eterno no Inferno, a danação se daria em um lugar específico, localizado nas profundezas da Terra, então centro do Universo. Partindo dessa premissa anticientífica, a não ser que se acredite em relatos de homens supostamente guiados por Deus, a base de sustentação da expiação da culpa já não existiria. Não contesto mandamentos, apenas não acredito que possam ter o condão de condenarem automaticamente quem os contrarie.

Crer em algo é o esteio sobre o qual assentamos os nossos procedimentos. Mesmo que seja em Nada. Ao mesmo tempo, crenças implicam em erros por antepor o condicionamento mental e psicológico à visão clara e refletida de qualquer ocorrência. Em resposta, nossas ações põem em movimento processos no mesmo instante em que ocorrem. Não sendo visíveis de antemão, atuam como um moto-contínuo agindo de forma autônoma. As consequências são verificáveis à posteriori. Ainda assim, não são poucas as vezes que vermos surgir profetas de fatos acabados.

Eu decidi pessoalmente, depois de anos de relutância, me arrepender apenas do que fiz e não do que não fiz. É quase a mesma coisa que me despir de tudo que me levasse ao arrependimento. Algo como me conformar com os meus erros. E sim, faria tudo de novo. Nem que seja para me arrepender, realmente, mais tarde. Acho digno quando o arrependimento é consciente. Não podemos renunciar ao que somos. O outro, aquele em que estava me tornando, não era nada bonito. E este, mesmo feio, tem um certo estilo. E estilo é quase tudo.

Participam: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins

#Blogvember / O Limbo

conscientemente
sigo pelo caminho torto
cansado de enfrentar tanta gente de bem
vou seguindo a chuva que renova os meus passos
raios e trovões me animam a continuar
enceto em sentido da luz ofuscante
do rugido do ar rasgado pelo chicote
“em delírio me transporto ao limbo”
chegada a borda do universo
declamo canções de gil e caetano
teço loas à santa arte profana
permaneço em êxtase fora do eixo
enquanto sofro da dor do prazer
dualidade unida em um único sentir
me esfacelo em tiras sanguinolentas
cor de vermelho fogo
o calor transporte para o deserto
sem oásis me aprofundo na direção do cinza
de minha vida anódina em extinção
sem tempo nenhum a não ser passado
revivido ad eternum
elejo a minha sina muito melhor a escuridão
dos cegos ignorantes insensíveis dos absortos em si
radicalizo a minha opção pela morte
bem vinda amiga amada amante de toda a vida…

Imagem representando a selva escura do Inferno (Divina Comédia), de Dante Alighieri, Canto I

Participam: Suzana Martins / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes

#Blogvember / Muitas vezes Eu Findei Antes Do Fim

Antes de eu a conhecer – a über-poeta americana Emily Dickson – eu falei de minhas mortes em vida e dos consecutivos renascimentos. Creio que seja um processo comum a muita gente, tantas vezes não percebido, nem mencionado com tanto alarde. Eu mesmo só me dei conta dessas situações extremas como passagens bem delimitadas ao ser convocado a escrever uma minibiografia para a Scenarium por ocasião do lançamento de meu primeiro livro.

Porém, há muitas pequenas mortes no decorrer de nossa história – a de pessoas próximas e de outras – emblemáticas por seu simbolismo, e as íntimas, mais parecidas com cristais que se estilhaçam como a corações partidos. Uma das lições que tomei como parâmetro no curso de Educação Física (que decidi fazer depois de uma das minhas “mortes”) relatam os estágios do desenvolvimento físico em que as células se regeneram continuamente, cada vez mais adaptadas e aptas a suportarem maiores cargas. Feitos Fênix – imagem comum a diversas culturas – renascemos das cinzas e tornamos essas pequenas mortes anteparos para aprendizados pessoais. Ou, a depender das características das circunstâncias e condição mental, obstáculos para vivermos plenamente as próximas etapas da vida, com o surgimento de consequências difíceis de serem superadas.

Recentemente, em termos, descobri que sempre fui um menino ansioso. Um dos fatos que me fez perceber essa condição foi saber que a ansiedade pode levar uma pessoa a ter descontrole em seu desenvolvimento fisiológico. Fiz xixi na cama até aos sete ou oito anos de idade, o que muito me envergonhava. Mas era inevitável, até conseguir me esforçar para acordar antes de acontecer. Há situações mais graves que são quase definitivos, causando resultados permanentes, só tratáveis com medicação e tratamento psicológico constante. Como o transtorno do estresse pós-traumático. Um distúrbio de ansiedade exacerbada que é manifestada em decorrência do portador ter sofrido experiências de atos violentos ou de situações traumáticas. Seria como viver no limite entre a existência e a iminência de deixar de existir.

Quando Emily Dickson coloca em palavras temas que em sua época sequer eram especulados de forma tão eloquente em beleza e significados, percebe-se que podemos sublimar esses momentos e superá-los com arte e profundidade – Poesia, enfim. Tenho conseguido lhe dar com minhas perdas tentando transcender em vida, como se fosse alguém que sonha a vida que vive. Ou por perceber conscientemente que a sonha mesmo. Um sonho delirante, mas controlável… até irromper na triste realidade de existir.

Foto por Jeremy Bishop em Pexels.com

Participam: Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes / Mariana Gouveia