B.E.D.A. / Veredas

Há quem garimpe a vida toda
em busca da pedra preciosa
e nada consegue,
a não ser restolhos —
poeira sem peso, pedregulhos
e o espinho da rosa.

Há quem se perca pelo caminho
e encontra a curva perfeita,
a reta para o coração,
topa com a pepita na terra aflorada,
um beijo perfumado
da inesperada boca da amada.

Há quem beba da água mais limpa,
desconhece a insipidez do ódio,
a tibiez da voz monocórdica,
desfila sem saber o que é medo,
canta a alegria e recebe amor,
mas é infeliz…

Há quem consiga fazer correr o sangue,
sabe estimular a troca e a revolução
apaixonada a bandeiras despregadas.
Quaisquer cores são suas,
o trânsito em cada rua tumultua,
segue o fluxo descontínuo,
arremeda o certo com o incerto,
mente verdades e constrói sendas
e, entre incensos, insensato,
trapaceia.
Vence.
É herói.

As veredas da existência são insinuantes,
indeterminadas, cheias de vieses
feito terminações nervosas,
crescentes na infância e na juventude,
esclerosadas na velhice.
Viver é bom. É ruim.
Como doença progressiva no coração da Terra,
somos bestiais seres da guerra.
Matamos e morremos.
No meio de tudo isso, vivemos…

Participam do B.E.D.A.:
Adriana Aneli
Cláudia Leonardi
Darlene Regina
Lunna Guedes
Mariana Gouveia
Roseli Pedroso

B.E.D.A. / Romaria

Interpretação de Romaria por Elis Regina, no show Transversal do Tempo, gravado ao vivo em 1978.

Eu tive a oportunidade de ouvir Romaria em sua primeira audição e senti uma comoção tão grande, que me vi na pele daquele romeiro da canção de Renato Teixeira. Foi por ocasião de um programa radiofônico da Jovem Pan*, chamado O Fino da Música, de 1977, interpretada por Elis Regina, que já era a minha cantora favorita, então. Foi uma verdadeira comunhão.

Quase ao final da apresentação, ao ressoar retumbante de um prato, no belo arranjo de César Camargo Mariano, já não podia controlar a minha emoção e verti algumas lágrimas sentidas. Assim, desbragadamente. Ali, também estava eu, ajoelhado e, da mesma forma não sabendo rezar, tentava enternecer a Santa mostrando o “meu olhar, meu olhar, meu olhar”… Aliás, comecei a me envolver logo aos primeiros acordes: “É de sonho de pó, o destino de um só…” — em crescente comoção. Talvez fosse um sinal da mudança de sentido que se prenunciava — de minha postura abertamente cética à transcendência espiritual como visão de vida…

Elis cantou várias canções que embalaram a minha imaginação e me fizeram compreender o quanto a música pode transcender o fato de ser muito mais que composições de frequências vibratórias que mexem com a nossa estrutura física. As músicas também carregam mensagens que nos elevam a alma, que nos fazem transbordar sentimentos profundos ou emoções rasas. Muitas nos arrastam para o prazer ou para a dor sentida-imaginada, alcançando, enfim, os recônditos mais discretos de nosso ser.

Vinte e cinco anos após esse momento, mais ou menos, tive o imenso prazer de sonorizar uma apresentação do próprio Renato Teixeira em um show, no qual ele mesmo cantou Romaria. Na primeira ocasião, ele fazia a segunda voz no refrão — “Sou caipira Pirapora, Senhora de Aparecida…” — na composição que o elevou como compositor ao primeiro time da MPB pela voz da Elis. Ah, as voltas que o mundo dá, nesta eterna Romaria que vivemos…

Com a morte de Elis em 1982, criou-se um vácuo no lançamento de novos nomes na MPB. Apenas alguns compositores, em comparação ao período em que ela esteve viva, conseguiram emergir do anonimato. Por algum tempo, eu cheguei a ter raiva dela por ter morrido tão estupidamente. Hoje, sabemos que estava depressiva há tempos e nós, seus admiradores, não conseguíamos perceber sua condição. Só nos resta a saudade…

*Durante alguns anos, desde os 8 ou 9 até os 13 ou 14, eu tive um radinho de pilha japonês, com o qual ouvia programas de rádio aos finais de semana e durante a semana, logo de manhã e antes de dormir. A programação preferida se dividia entre a esportiva e a musical. Minha emissora favorita era a Rádio Panamericana AM, de São Paulo. No esporte, ouvia as narrações de Osmar Santos e Edemar Annuseck, com comentários de Orlando Duarte e Cláudio Carsughi; reportagens de Cândido Garcia e Fausto Silva (o hoje famoso apresentador dominical), além de outros nomes. O Show de Rádio, com os tipos criados por Estevam Bourroul Sangirardi e interpretados por ele e vários outros humoristas, como Serginho Leite. Na programação musical, aprendi muito com Zuza Homem de Mello e vibrei com o Fino da Música — shows com a participação de grandes nomes da MPB. Depois de cinquenta anos, o alinhamento da emissora com o atual (des)governo fez com que eu me afastasse de sua audiência. Um rompimento doloroso, porém necessário.

Participam do B.E.D.A.:
Cláudia Leonardi
Darlene Regina
Lunna Guedes
Roseli Pedroso
Adriana Aneli
Mariana Gouveia

B.E.D.A. / Professor

Professor acordou naquele sábado ainda com a angustiante lembrança de sua morte. Em sonho. Era tão forte a sensação que teve certeza que ocorreria no correr das próximas horas. Tomou o café da manhã com a filha, sem coragem para lhe falar que passaria desta para melhor. Sem muita certeza que a passagem fosse assim tão boa como se dizia — talvez algo dito para a consolação dos que ficavam. Homem culto, professor de Português em escola pública, conhecia inúmeros textos da morte versada em todas as suas possibilidades e expressões, em todos os tempos. Pouco religioso, preferia citar às mitologias egípcia e grega — Osíris, Hypnos e Morfeu — a santos que viessem a lhe dar alento.

Saber que morreria lhe trouxe certa paz e tranquilidade, sentimentos pouco comuns nos últimos anos. Na manhã invernal que se anunciava tépida, pediu para a filha um pouco de dinheiro. Disse que desejava comprar algumas frutas. O salário que recebia da pensão deixava todo para a sábia Sophia administrar, que fazia jus ao nome dado. Viúvo, ela era a luz de sua vida. Sentia-se responsável por ela nunca ter se casado. Intuía que fosse por sua causa, alcoólatra que não bebia há dez anos, mas que antes disso era motivo de preocupação. Uma diversão de final de semana — beber com amigos no Bar do Chico — tornou-se programa diário após a aposentadoria. Decidiu parar quando, embriagado e desconexo, caiu na frente dos ex-alunos em um evento comemorativo de uma antiga turma que o elegera como patrono.

De Professor Carlos, passou a ser chamado somente pelo título. Dos tempos que os alunos se levantavam quando entrava, sua força expressiva impunha esse ritual mesmo depois de cair em desuso nas escolas de relações modernizadas. Aposentado, homem esguio e elegante, preto de cabelo branquíssimo, sua figura lhe fazia parecer uma entidade. Ajudava a aumentar a fantasia em torno de si o uso da bengala, devido ao joelho vago e o chapéu branco — marca registrada dos tempos da escola — mesmo quando moço.

Ciente que morreria, Professor decidiu beber a isso. Ao contrário de tantas vezes em que apenas saudava aos frequentadores do Bar do Chico, quando passava em frente. Dessa vez, tornou seu corpo à esquerda e invadiu o espaço sagrado do balcão de madeira antigo e liso por milhares de passadas de mãos, braços e copos.

Chico, surpreso, o saudou incrédulo. Alguns de seus antigos companheiros de copo presentes tampouco criam que Professor estava sentado junto a eles. Incluindo os três jogadores de dominó na mesa de metal em sempiternas partidas. Chegaram a paralisar por instantes as suas jogadas. Como se há apenas uma semana antes bebesse entre eles, Chico perguntou:

— O de sempre?

— Sim, o de sempre!

Habilmente, Chico preparou em um copo especial — guardado há dez anos — privativo do Professor, a mistura com 50 ml de cachaça, 25 ml de vermute tinto, 25 ml de Cynar, com um twist de limão Taiti. Serviu com reverência ao professor de seus três filhos, homens de bem que o amavam como a um segundo pai. Sua luz desviou vários alunos do caminho do crime, tão comum na Periferia.

Após várias horas de rabos-de-galo, risadas e causos que sabia contar como ninguém — versões adaptadas por ele de histórias da Mitologia greco-romana e de Guimarães Rosa — Professor anunciou que era hora de partir. Desacostumado a sentir tanto prazer, embriagado de alegria, sentiu-se preparado para morrer. Ao puxar da carteira, Chico pediu para que a guardasse. Ressaltou que era um prazer servi-lo.

Ergueu-se como se não tivesse bebido nada, o que surpreendeu a todos. Tomou um último gole e deixou um restinho para o santo. Caminhou para a rua pela última vez, com o Sol declinante de agosto no horizonte a lhe conferir tons de âmbar na pele brilhante. Desapareceu no lusco-fusco sem deixar pistas.

Participam do B.E.D.A.:
Adriana Aneli
Mariana Gouveia
Lunna Guedes
Cláudia Leonardi
Roseli Pedroso
Darlene Regina

B.E.D.A. / Pai

Vou à padaria — prosaicos
pãezinhos recém-saídos do forno
iniciariam o meu dia na casa vazia.
Mesmo depois de acordar,
visualizar-responder às mensagens,
caminhar,
só me é dada à luz dos olhos
depois de um gole de café,
com pão e manteiga — homenagem
aos meus primeiros cinquenta
anos de vida com mamãe.
Seu rosto marcado e cabelos prateados
ainda passeiam por trás das minhas retinas
dez voltas em torno do sol depois
de cumprir a nossa sina…


No retorno aos muros de meu recolhimento,
um anónimo bêbado insone,
àquela hora da manhã
tropeça em si mesmo,
lata de cerveja à mão,
olha para todos os lados,
como se esperasse alguém chegar,
um abraço a lhe abraçar…
Seria a esposa,
um amigo,
irmão,
um filho,
ninguém?
Apenas o próximo fantasma a lhe assombrar?
Um pai sem filhos?
Um filho sem pai?
Um dia dos pais
sem paz,
sem par,
sem possibilidades-passos-pessoas
a lhe aguardar?…


Eu me projeto em sua condição.
Porém, só me embriago de sonhos.
Acordado, carrego à mão
o nada ser,
o nada a acontecer,
o nada gestar…
A não ser versos sem rima,
arrítmicos,
textos-tropeços em palavras tísicas,
quedas em si-abismo…


Mas sou pai…
num país de filhos
e pais mortos,
sem cerimônias de adeus…
Não consigo escapar ao presente
e ébrio de insensatez,
compadecido,
lanço ao desconhecido:
Bom dia, pai!
Ele sorri desdentado
e ainda que talvez tivéssemos
a mesma idade, responde:
Bom dia, filho!…

Participam do B.E.D.A.:

Lunna Guedes
Roseli Pedroso
Cláudia Leonardi
Darlene Regina
Mariana Gouveia
Adriana Aneli