“A Lua e a Estrela, anel de turquesa…” — Trem das Cores (Caetano Veloso).
Sônia Braga interferiu no cancioneiro nacional através de duas composições: Tigresa e Trem das Cores. E, sabe-se lá, talvez muitas outras do mesmo autor. Fosse eu o compositor, certamente não deixaria de me inspirar em tamanha força da Natureza feito a atriz intensa e talentosa. Eu cheguei a escrever um conto chamado Tigresa em homenagem a ela. A Tânia não gostou dele porque achou o narrador um tanto capacho demais. Falo de um homem totalmente preso à sua irresistível paixão em que somente algumas migalhas de carinho bastavam para enternecê-lo. Libertária, a minha Tigresa passava como um trator por cima dos homens e assim como alguém já disse em uma conversa solta, “não passava vontade”. Enfim, uma mulher digna de inspirar o melhor dos homens a melhorar o mundo com poesia da maior qualidade.
Foto de Sônia Braga por Jean-Pagliuso-Photography-Inc
Eu tenho pés com duas personalidades entre si. Certamente há diferença entre as partes do nosso corpo, principalmente entre os membros e suas terminações — braços, mãos, dedos, pernas e pés. Quando era adolescente, naquela fase de desenvolvimento em que tudo está descontrolado, desde o crescimento dos membros, a definição do feitio do rosto, o aparecimento dos primeiros pelos, além das emoções em ebulição e os sentimentos conflitantes, o desejo sexual, os primeiros amores, normalmente platônicos, o que era comum para mim e assim permaneci durante quase a metade da minha vida, bati a cabeça algumas vezes, metafórica e literalmente, cultivando cicatrizes que surgiam a toda vez que raspava a cabeça. O que eu fazia de vez em quando para mudar o visual. Aos 17, quando me tornei vegetariano, emagreci bastante. Adepto das filosofias orientais, comecei direto a raspar a cabeça e assim deixá-la. Vivíamos os anos do advento do AIDS. Muita gente começou a achar que estava com essa síndrome, o virgem.
Antes dessa época eu tinha muito cabelo e o deixava se expressar da maneira que quisesse. Se bem sendo fã de música negra, cheguei a lavá-lo com sabão de coco — o que o deixava endurecido — e o penteava com garfo de metal, daqueles especiais para cabelos crespos. Logo, eles baixavam, o que me deixava chateado. Mas consegui pelo menos uma vez tirar uma foto que se perdeu no tempo, mas talvez esteja nas caixas de fotos da minha mãe que estão com a minha irmã. Mas voltando ao título deste texto, como gostava de jogar bola, enfrentava todos os terrenos onde havia um grupo de meninos correndo atrás de uma bola.
Em certa ocasião provavelmente quebrei o dedão esquerdo numa dividida. Continuei a jogar mesmo com dor. Com o tempo, os dedões foram se tornando diferentes um do outro. Como prova de solidariedade, ambos tem as unhas encravadas. Eu os trato diuturnamente. A Milena, minha podóloga, garante que fiquem domados. No mais, os dois pés pelo menos caminham lado a lado, graças a Deus!
veio à terrena luz… foi difícil durou horas… a porta não se abria criaram um outro caminho chegou chorou nos fez sorrir dias depois novas possibilidades novos olhares algumas dores o serzinho de boca pequena desejante de vida plena se amamenta da mama da mamãe conexão com a existência que será difícil árdua complicada mas ela é voraz abocanha o mundo profícua em imaginação luta se desloca para o antigo mundo caminha como se lá tivesse nascido faz amigos sangue antigo o mesmo que lhe traz perigos mas não deixa de alcançar abrigos leoa na estepe do viver se recusa a morrer mas se isso acontecer não deixará de a si mesmo vencer em conversa com as luzes percebeu que estará em paz com seu novo corpo de frequências fugazes sem consistência e espessura apenas alma pura viajante pelo universo finalmente liberta e aberta para a Vida desperta…
Tentei me lembrar do dia seguinte em que pela primeira vez estive com uma mulher, a própria mulher com a qual vim me casar. Ocorreu há 38 anos antes e estava a dois meses de completar 27 anos. Certamente sou um caso raro de homem que se preservou até encontrar alguém com quem quisesse ficar. A história por trás de ter deixado de ter experiências sexuais anteriores é plena de oportunidades que evitei que acontecesse. Os motivos foram tantos quanto subjetivos, alguns que até esqueci, mas o maior era o medo que eu tinha de me envolver e envolver outra pessoa com todas as minhas idiossincrasias, devidamente consideradas fora do comum. No dia seguinte estava frustrado com o meu desempenho na ação propriamente dita. O que buscaria resolver com uma maior assiduidade na prática. Claro que isso acabou por desencadear na notícia da gravidez da Tânia. Usávamos a chamada Tabelinha, que deu certo por três meses.
A minha expressão pessoal era avessa à realidade imediata das pessoas com as quais convivia. Tinha comportamentos esquisitos, ouvia músicas incomuns como Jazz ou instrumental clássico e menos fora do comum como a MPB de Caetano, Chico, Gil, Jards Macalé, Ivan Lins, Djavan e outros tantos alijados da realidade da Periferia. Tinha o hábito da leitura compulsiva. Fazia o Curso de História, na USP, mas planejava passar para o de Português já de olho na possibilidade de me tornar escritor. Certamente seria Professor, mas ao mesmo tempo vivia em choque com o Sistema que impõe um “jogo de cartas marcadas” no qual que não queria ingressar. Mas como já disse Vinícius: “a vida tem sempre razão”.
Em três meses, a minha vida tomou um rumo diverso do que havia imaginado, mas que hoje abençoo. Aliás, se há uma postura que não adoto é do jogo do “Se“. Se isso ou aquilo tivesse acontecido deixo apenas para as histórias que crio como escritor, somente como expediente no desenvolvimento de temas mais intricados, dadas as “realidades” possíveis. Cheguei a este quadrante satisfeito com o rumo que acabou por encetar a minha vida.
O mês de Agosto é um dos meus favoritos. Quase fim de Inverno, auspícios da Primavera e mês que foi decisivo para mim de várias maneiras. Neste dia, há 37 anos, a Tânia e eu começamos a namorar. No dia 12 do ano seguinte, em 1989, nascia a Romy, a primeira das três filhas que tivemos. Optou-se por ser feita uma cesariana, já que não havia dilatação suficiente para que nascesse a criança. A Tânia, insatisfeita com o hospital em que nasceu a nossa menina, pediu para ir para a casa, com 14 horas de operada. Na imagem acima, lá está a Romy sendo cuidada pela mãe e por mim, que não queria deixar de participar desse evento que é cuidar da prole.
Eram experiências que sequer havia imaginado viver um ano antes e que mudou decisivamente a minha vida, justamente perto do Dia dos Pais. Esse não era o caminho que eu queria ter escolhido, antes. Mas abençoo que tenha tomado o rumo que tomei, totalmente diverso. Essa foto foi colocada no grupo da família, gerando comentários graciosos como o da própria Romy que disse que estava sendo cuidada pela caçula, Lívia, muito parecida com a mãe. As três mulheres são unidas entre si e cuidam umas das outras.
Nesse aspecto, apesar de todas as tribulações pelas quais passamos, sou um homem realizado. Ser pai quase me define como ser humano.