BEDA / A Amante Da Luz

MINHAS NOITES (6)

A amante
da Luz recebe em seu corpo
os oblíquos raios solares
desta manhã outonal…
Ela ama o calor que aquece
mas não queima…
Que preenche os seus lábios,
cabelos
e olhar
de amor luminar,
a escorrer por seu colo,

peito

e umbigo…

A amante
da Luz vive, também,
o Outono de sua vida…
Já foi Primavera,
Verão…
Os seus olhos já viram
muito mais do que verão…
A amante da Luz sabe,
e, mais do que isso,
deseja,
não ver chegar do Inverno,
a escuridão…

BEDA / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Minhas Noites

Não preciso da escuridão exterior para mergulhar em minhas próprias noites – sol posto, meias-noites, altas madrugadas. Vivendo na metrópole, mal se percebe o negrume pleno das noites fechadas, sem Lua a nos guiar. Já as vivenciei longe das luzes artificiais em algumas ocasiões, quando criança. Na Periferia, sem energia elétrica vez ou outra, sabíamos que estávamos em terra porque se contrapunha o céu estrelado. Quando as estrelas se moviam, logo percebíamos que eram vaga-lumes. Inicialmente assustadoras, as noites me traziam o conforto do útero materno. Até que amanhecesse e o encanto se desvanecesse em luz…

MINHAS NOITES (3)

A noite, ainda que iluminada artificialmente, provoca visões de outras dimensões. Nesses momentos, os olhos enganados sugerem formas e cores que a luz total não permitiria supor. O mundo se transforma em sombras e os detalhes não interessam. Partimos para explicar o inexplicável segundo nossas convenções. Na escuridão da caverna, os primeiros grupamentos humanos brincavam com os seus medos. Projeções provocadas pelo fogo de suas linhas contra as paredes os encantavam. Chego a imaginá-los alegremente temerosos viajando para outras esferas.

MINHAS NOITES (4)

Construções humanas surgem inesperadamente sutis quando confrontadas contra o cenário negro da noite. Mesmo uma antiga beneficiadora de café, palco passado de trabalho pesado, torna-se uma personagem luminosa em contraponto ao negrume. No tempo que foi erguida, criou riqueza. Hoje, inspira beleza.

MINHAS NOITES (5)

Ao passar por avenidas de feéricas luzes, passo por edifícios que parecem funcionar vinte quatro horas por dia. Se não, por que todas as luminárias acesas? Dentro de cada casulo de luz, a insana atividade humana para pagar o consumo daquilo que estimulará mais trabalho para consumir mais trabalho… Assim, estipulamos metas a alcançar, níveis a ultrapassar, desejos a serem criados. Qual o objetivo disso tudo?

MINHAS NOITES (2)
Elvinho Elvis Tribute Artist

Meu trabalho propicia que eu viaje para todas as épocas. A depender do tipo de evento que sonorize, as músicas passeiam dos Anos 50 a atualidade – momento em que os sons vibram em baixa frequência criativa. Casamentos, shows, bailes de salão, aniversários, inaugurações de pet shops, jantar de negócios, premiações – tudo que envolva motivos para celebração da vida humana, participo da produção através do som e da luz. No palco, não é incomum rever Elvis Presley entoando “Suspicious Minds”…

MINHAS NOITES (7)

A Lua, “criada para governar a noite”, nos revela seus segredos somente para nos propor outros. Havia o temor que a chegada do homem ao satélite da Terra pudesse tirar o seu encanto. “Poetas, seresteiros, namorados, correi / É chegada a hora de escrever e cantar / Talvez as derradeiras noites de luar…” – cantava Gil, em Lunik 9, há cinquenta anos. Porém, a Lua voltou a se impor como componente mágico de minhas/nossas noites. Sempre que posso, a fotografo, em todas as suas fases. Nunca deixo de me surpreender com o que me revela…

MINHAS NOITES (1)

Sou pedestre e passageiro. Percorro a cidade a pé e através de coletivos, trens e carros (como carona). O que dá ensejo de registrá-la por instantâneos. As imagens nem sempre causam interesse imediato. Mas muitas vezes acontecem descobertas ao segundo olhar. Este registro abaixo o tenho como emblemático por vários motivos. Eu surjo como um fantasma noturno a plasmar com o cenário da cidade, atravessando umas das pontes do Tietê – que une a Periferia ao Centro da cidade. Ação que é frequente, quase cotidiana. Poderia dizer que ela se torna praticamente uma declaração tácita do quanto Sampa faz parte de minha identidade.

Participaram também
Cilene Bonfim | Isabele Brum | Mariana Gouveia | Lunna Guedes

BEDA / Plugado

Plugado

Somos separados e unidos por nossas referências. Indicações de tempo, lugares, experiências e maneira como crescemos, por variados tipos de famílias, além de amizades, nacionalidades, condição socioeconômica, formação cultural e raça – quando isso se torna identificação coletiva e/ou pessoal a ser notada. Como tendemos a sermos gregários, buscamos nos reunir em tribos, tanto quanto antes na história da formação dos grupos humanos, então, para sobrevivermos; agora, através de traços comuns que nos conectam.

Lobos solitários sempre hão de existir e eu mesmo, durante parte da minha vida, fui um deles. Misantropo, tinha ojeriza a grupos, sentimento herdado de todos meus ascendentes que viajaram pelo espaço, sós, antes de mim. Por sorte, o futebol, pelo qual sentia grande paixão, fez com que me reunisse com os meus pares da escola, ruas e bairro para jogar onde tivesse espaço e oportunidade. Fora dele, os meus amigos mais próximos sempre foram esquisitos (me perdoem àqueles que me leem, mas nós éramos).

Passado o tempo de isolamento, porém, em algum momento, tive que me salvar de mim mesmo, e optei por conhecer as pessoas que viviam ao meu redor. Até que disfarçava bem a minha inépcia para isso, bem como a dor por não conseguir vencer as distâncias que separam a todos nós em ilhas físicas e mentais. As minhas referências eram, em sua maior parte, literárias, com praticidade quase zero para a referência de realidade que vivia. Os meus temas de conversação eram inadequados, as minhas projeções psicológicas, inverossímeis. Os choques entre as diferentes dimensões eram evidentes. Depois de tanto tempo, com muito esforço, posso até declarar que me tornei uma pessoa sociável. Cheguei a formar famílias – descendentes e amigos – que me puxam de dentro do buraco negro.

Atualmente, o fenômeno de auto isolamento é perceptível e se apresenta como padrão de comportamento coletivo. Estamos, socialmente, a nos separar uns dos outros por sistemas artificiais de conexão. Ao passarmos por praças com serviço de sinal aberto de Internet, veremos raros namorados a se beijarem ou pessoas a conversarem entre si. O mais comum será presenciarmos seres fisicamente acoplados aos seus aparelhos celulares, com as suas mentes a milhas distantes dali, a formarem tribos de pessoas sós.

Em alguns restaurantes já há anúncios que expressam os seguintes dizeres: “Senha de Wi-Fi só depois de 30 minutos de conversa”. Outros, aboliram ou pensam em abolir o fornecimento das senhas, pura e simplesmente. O proprietário de um local no qual trabalhei em um evento me disse que está a pensar em deixar de oferecer sinal porque, além da comida, o que ele gostaria de fornecer eram momentos de congraçamento em torno das mesas, um ambiente de interação para os frequentadores e demonstração de alegria por estarem na companhia de pessoas afins.

Quanto ao aspecto referencial, a realidade virtual tem se tornado tão mais atrativa pelo poder que apresenta de deslocamento de onde estamos e de quem somos, somado ao crescente desejo de fuga da realidade, que venho a crer que novas manifestações de alheamento público se tornarão cada vez mais progressivas, a vista da instituição de tecnologias que farão referências das referências das referências. A realidade será tão somente uma tênue base de sustentação, algo de quase improvável existência, uma intangível ficção. Seremos conduzidos pela ideia de que há algo para além do que experimentamos, um universo paralelo, uma espécie de paraíso perdido que, em um tempo passado, chegamos a chamar de vida.

Ao mesmo tempo que me sinto plugado às circunstâncias, percebo o quão é instável seu estado fugidio. Sem saber ao certo qual seria a base sobre a qual se sustenta, especulo que sem nos viabilizarmos como seres ligados a algo permanente, nos sentiremos morrer a cada instante. No entanto, ainda que soframos com nossa finitude, eu a concebo ser apenas aparente. Ainda que esteja enganado, essa possível ilusão me alimenta. Na soma de tudo, chamo a isso de “viver”, condição que experimento, no meu caso, em constante estado de assombro.

Ritos

Rito

Maria é feliz por ser mulher.
Crê que nasceu para sê-lo.
Cumprir as potencialidades,
abraçar as possibilidades,
viver as idades do viver…

Maria nasceu para amar
e para amar ser o que é,
em seus diferentes estados.
Sente-se tão confortável
em seu corpo feminino,
que apreende o mundo que a rodeia
como extensão de sua pele.

Passa as mãos por seus cabelos
matizados pelo tempo –
mais um rito de passagem –
que cumprirá sem regras.
Como se vê com serena
e fresca maturidade,
serão tingidos
da cor de sua percepção.
Ou não…

O espelho a devolve
nostálgica,
a se lembrar dos outros ritos
pelos quais passou:
aprender a ler,
explorar,
sair da casa – interior – soltar-se
do umbigo, o cordão.
E voltar…

Amou a primeira menstruação –
desejada como se fosse um presente divino.
Foi a última, entre irmãs e amigas,
a sentir a quentura do sangue
a descer da origem do mundo.

Mais tarde,
decidiu conhecer o sexo –
mais tarde do que quem a conhecia imaginasse –
por mais libertária que se mostrasse.
Queria que não fosse por acaso.
Ainda que amorosa,
não amava quem a fez conhecer
a saborosa dor do prazer.
Escolheu aquele que, depois,
a deixasse em paz…

Outro rito de passagem: trabalhar.
Tornar-se senhora de si.
Lutar por seus direitos e de outros.
Congregar,
unir,
entender as diferenças,
esvaziar as ofensas,
ultrapassar-se…

O rito definitivo
não foi se apaixonar
ainda que tenha sido intensa.
Nem mesmo casar,
apesar de importante.

Mas gerar –
receber em terreno fértil
a semente que plantou –
fecundar a vida,
multiplicar a força do existir,
vestir de roupa nova
um antigo espírito.
Embalar o pequeno corpo,
alimenta-lo,
vê-lo crescer,
ensinar o peso
e o significado das palavras.

Esse rito não representou a simplificação
do mundo material e do além-Terra,
nem a vaidosa reprodução
de vitórias e mazelas.
Mas a criação de nova realidade –
como mulher, possuir o Universo…

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Meus Ingredientes – Tortilha De Arroz

Quando executamos uma receita, daquelas que tem cheiro e gosto de saudade, viajamos para os lugares, os tempos, as circunstâncias e as companhias que a tornaram tão especial. É o caso da prosaica tortilha de arroz, que Dona Madalena lançava mão quando não tínhamos alternativas no cardápio, o que era comum acontecer na época de dificuldades financeiras da minha família – mãe lutadora, pai perseguido pela Ditadura e crianças alegremente ignorantes de tudo o que acontecia. Com o passar dos anos, mais do que algo que substituísse a falta, era motivo de alegria termos tortilha para o café da tarde ou almoço acompanhado de feijão.

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Tudo depende da quantidade de arroz – aquele que sobrou de um dia para outro ou até dias. Estando em bom estado, não importa quanto tempo foi feito. Acrescento farinha de trigo. Apenas uma porção, talvez 1/3 da quantidade de arroz. Salpico sal e cebola bem picada, para que possa se misturar na massa. Lembrando que o arroz já tem um pouco de sal, mas que deixa de ser tão efetivo devido ao acréscimo da cebola.

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A depender do gosto, pode ser acrescido queijo parmesão ralado, muçarela ou qualquer um que estiver à mão. Quanto mais salgados, menos sal deve-se colocar. No caso de hoje, como só havia queijo tipo padrão, o cortei em pequenos pedaços, que ajudam a compor uma textura interessante, em que o queijo fica derretido no meio da tortilha. Logo após, coloco ovos. Começo a misturar até conseguir obter uma massa, ainda um tanto “seca”, esfarelada.

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Acrescento leite aos poucos, o suficiente para deixar a massa homogênea, após a mistura. Na falta de leite, pode ser usado água. Era o que acontecia muitas vezes quando eu era garoto. A massa tem que ficar de tal maneira que possa ser separada por uma colher de sopa, que dará o tamanho ideal ao salgado.

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Esqueçam o regime quando quiserem comer a minha tortilha de arroz – ela é uma fritura. Hoje, uso um tipo de óleo melhor e tento usá-lo apenas uma vez. Menino, quando comecei a comê-las, a minha mãe não tinha alternativa a não ser reutilizar bastante o óleo com duas ou três frituras anteriores. Muitas vezes, isso as deixava com um gosto diferente – com toque de peixe, galinha ou carne bovina – o que era mais raro.

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Ao final de tudo, quando as faço, quase nunca deixo de perceber algo especial. Introduzi a tortilha no cardápio da família que formei com minha companheira. Minhas três meninas aprenderam a gostar delas e a pedir de vez em quando. Com as suas reações, devido às formas inusitadas que as tortilhas apresentavam após a fritura, revisitava meu próprio encantamento sonhador. Quando decidi fazê-las pela primeira vez, simplesmente compreendi como as heranças passam de uma geração para outra – assimilação empírica-emocional. Além dos ingredientes – alguns mágicos-invisíveis-palpáveis – as porções simplesmente não são calculadas em números, mas em “quantum” de amor…

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