BEDA | Você Me Fez Chorar

Rádio
Ondas sonoras

… “Você me fez sofrer, você me fez chorar…” – Teria eu levantado bem mais cedo, quando despertei às sete horas da manhã, e poderia ter aberto as minhas janelas, ter sentido o gostoso ar frio matutino deste Agosto e ter ouvido os pássaros retardatários, que ainda não teriam saído de seus galhos hospedeiros para passear, enquanto ainda teria visto as árvores do meu quintal receberem a visita dos vizinhos alados da redondeza. No entanto, voltei a dormir, ainda cansado do trabalho do dia anterior, e acordei com a música urbana, produzida pelos humanos, três horas depois.

Os meus vizinhos, em dois ou três pontos, reproduziam as canções de seus gostos. Que eles acreditem que todos ao seu redor também apreciem o que ouvem, é algo que não consigo entender… “Você me fez sofrer, você me fez chorar…”. Mas, sou daqueles que tentam encontrar sempre um propósito em tudo, além de ter a horrível tendência em construir enredos para análises sociológicas em cada movimento dos seres da minha espécie biológica.

Ainda garoto, pensava em me tornar um asceta, me refugiar em alguma montanha ou vale esquecido e fugir das pessoas, pois convictamente, me sentia um E.T. Atualmente, vivo em um vale, cercado de morros, na periferia de São Paulo, e sei que sou um ser gregário, que estou no mundo e que apenas na convivência entre nós, humanos, poderemos encontrar o meio termo onde resida a paz. É claro que tudo isso em tese, porque há ocasiões que perco facilmente a estribeira.

Enfim, estar equilibrado é um exercício permanente! Na guerra de sonoridades, o tema preferido girava em torno de amores mal realizados… “Você me faz sofrer, você me faz chorar…”. Em uma época passada, o Brasil viveu uma fase de letras riquíssimas, mormente espraiadas em sambas-canções de melodias inesquecíveis (“Meu Mundo Caiu”, de Maysa, é uma delas, por exemplo) e até poderíamos dançar ao ouvi-la, acompanhando o seu compasso lento, de rostos e corpos colados, vivenciando a tristeza de uma maneira libertadora. Hoje, se isso acontece, será sempre através de músicas com andamento acelerado, em que as pessoas dançam alegremente com um sorriso no rosto, volteando em piruetas e saracoteios.

Igualmente, no samba, que inaugurou desde os seus primórdios essa tendência, muitas vezes ouvimos versos destilarem o sofrimento em passos em que os pés respondem com energia e alegria à revolta que sentimos pelo amor que nos feriu. Eu me lembro que, quando menino, virgem de corpo e alma, adorava sofrer os amores que não havia ainda vivido. Lupicínio e Elis me faziam companhia. Hoje em dia, as referências são outras… “Você me fará sofrer, você me fará chorar…”.

Participam do BEDA:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

 

BEDA | Caríssima

Caríssima
Cara Lua…

Em e-mail enviado a mim, no enunciado, sou chamado de “Caríssima” pela mensageira. Ainda que eventualmente tenha sido involuntário, gostei! Acho que cheguei em um ponto da vida que prescindo de ser chamado por pronomes ou vocativos masculinos apenas porque carrego um pênis. Sou mais do que isso.

Sendo pai de três meninas, 30 anos de casamento e sabendo do eu quero e gosto, não necessito ter avalizado por alguém da minha condição de gênero e preferência sexual. Por outro lado, aquilo me fez lembrar o quanto me senti irritado pelo aparecimento de neologismos para designar gêneros variantes ou diferenças opcionais de preferências sexuais, naturais ou refletidas. Não porque não as defenda, mas por pura questão de semântica. Nesse aspecto sou tradicionalista, ainda que Semiologia vá se encarregar de resolver essa questão.

É bem verdade que se não me importo de ser chamado por “ele” ou “ela”, talvez não devesse me importar por ser nomeado de outra maneira. Porém, mesmo para derrubarmos barreiras de todas as ordens, devemos partir de uma base. Anunciar que a letra “e” para o uso de gêneros indefinidos (na origem), de alguma maneira preconiza, igualmente, preconceito com outras condições. O politicamente correto acaba sendo uma prisão.

Nos dias de hoje, ficamos cheios de dedos para conversar com qualquer um. Na dúvida se ofendemos ou não alguém simplesmente porque a denominamos de uma forma prosaica baseada na aparência, tentamos adivinhar-prever-intuir com “quem” falamos. Não deveria ser problema para quem sabe o que sente ou o que é, se erramos sua titulação. Nessa situação, se um gênero alternativo quer brincar com a sua roupa, deve estar preparado para ser chamado por ele, ela, eles ou elas – os dois últimos, no caso dos que se sentem mais do que um…

Quando bem novo, pele lisa, rosto feminino, cabelo cumprido, gostava de parecer andrógino. David Bowie era meu ídolo. Ney Matogrosso, com Secos & Molhados, surgiam com ímpeto e, mesmo sendo bastante atraído por mulheres, decidi me abster de sexo. Era moderno? Não! Somente, a penas duras, fiz o que quis para experimentar – ou não experimentar – modos e comportamentos que pressupunham papéis diferentes dos que a Sociedade me impunha por ter nascido do gênero masculino, branco (com ascendência indígena) e pobre. Deveria me ater às essas condições?

Tanto quanto não fazia questão de casar porque a minha companheira estava grávida, sabendo que a aliança já estava sendo carregada em seu ventre, igualmente casar não indicaria uma relação permanente se não quisesse continuá-la. Contratos sociais dão segurança para quem os carrega, mas não são definitivos para indicar condições permanentes. Sejamos chamados de uma forma ou de outra, devemos viver acima das injunções feitas por outros e navegarmos acima da linha d’água que os afogam.

Participam:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

BEDA | Meus Anos 50

Anos 50
Rumo ao sétimo ano da quinta década…

Vivo meus anos 50. Mais um pouco, inaugurarei a sétima edição anual da década. Este decênio foi totalmente diferente do que idealizei. E completaria: graças a Deus! Ao final dos meus Anos 40, tive um episódio de saúde que modificou minha interação com a vida. Cinquenta anos em cinco – emblemática frase de Juscelino Kubistchek – apenas emprestava números ao desejo de fazer crescer o país dos Anos 50, cuja a inauguração de Brasília, no início dos 60, foi um marco. Nestes meus Anos 50 particular, esperarei ter crescido, ao final de tudo, cem anos em dez – a crise hiperglicêmica foi a minha marca inicial, em 2007.

Definir datas como pontos cardinais, com números redondos parece ser uma tentativa para justificar situações que teriam começo e fim, sem causas anteriores e repercussões posteriores – uma espécie de “Big Bang” histórico, assim como anuncia a frase: “nunca antes, neste País…”. O Brasil parece ser uma nação de ciclos, sempre a se repetir, rota sem saída para o mar, com o apoio luxuoso de nossa falta de memória. Tento manter a lembrança daquilo que me levou a enfrentar determinadas situações. Sem isso, não há como saber como cheguei onde estou. Adotei a imprudência de me arrepender apenas do que não fiz. No mais, apesar da tentação de deixar tudo ao “acaso”, se é que ele existe, sei do rumo que tomei. E das consequências que ele gerou.

O contexto em que vivo os meus Anos 50 tem sido incrível. É como se tivesse aberto os meus olhos apenas agora, nos meados do meu século de vida. Eu me deixei levar pela aventura de amar – dizem que o mocinho morre no final. Eu retomei os estudos, entre compromissos profissionais e pessoais. Lancei o meu primeiro livro e estou prestes a lançar o segundo, dia 25, antes que este Agosto se encerre*. Nunca me senti tão pleno, talvez viva o ápice que todos visitam, antes do fim.

Ainda aguardando as surpresas que me reservam esta era, já vislumbro as possibilidades dos Anos 60. A década histórica do século passado, na qual nasci, foi uma das mais importantes dos 1900. De alguma forma, aglutinou todos as potencialidades que vivemos depois. Marcou mudanças estruturais que ainda repercutem nos dias atuais. Guerras (frias e quentes), luta pelos direitos civis, emancipação da mulher, revoluções político-ideológicas e comportamentais, viagem à Lua e a propaganda da ideia do “País do Futuro”, entre tantos fatos possíveis.

Saúdo a todos e a todas que estão chegando aos seus próprios Anos 50. Saberão que a vida ganha frescor, com o início de novos e estimulantes formatos e término de antigos e infrutíferos projetos. Muitas vezes, com pesar, porém com convidativos e bem-vindos significados! Feliz nova década!

*O livro de contos curtos “RUA 2”, editado pela Scenarium Plural – Livros Artesanais (https://scenariumplural.wordpress.com/), será lançado dia 25 de Agosto de 2018, sábado, na Starbucks Brasil – R. Des. Eliseu Guilherme, 200 – Paraíso, São Paulo, a partir das 18h às 20h. Convido a todos!

Participam:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

BEDA | A Leoa

Fênix
A Fênix de olhar leonino…

Eu me lembro de agosto antes de você. Era o mês indeciso – por vezes úmido, outras vezes, seco; meio quente, meio frio; a luz inclinada a festejar as cores mais absurdas no entardecer. Mesmo os tons de cinza eram mutantes e se percebia o sol a brincar de esconde-esconde com quem quisesse vê-lo. Agosto forçava o reinício dos ciclos escolares e abertura do segundo semestre. Desde pequeno, demarcava a volta para o ambiente onde encontrava os meus desiguais. A minha vida de rapaz só tinha futuro, lá adiante, igualmente agostiniano – indefinível…

Anos passados por mim, noivei em agosto e, um ano após, aconteceu você. Era Dia dos Pais, então. Pré-anunciada meses antes, nomeada antes de vir à luz, Romy – a primeira dos Oliveira Ortega. Veio como tinha que vir, inesperada-esperada, carreando tanta energia que mudou tudo ao seu redor. Este mês, de remediado, se transformou em intenso. Passou a ser o primeiro do resto da minha existência terrena, aquele que me fez homem e pai.

Como é incrível perceber o quanto você cresceu, além de qualquer expectativa. Como é inimaginável saber que você sente, além dos nossos pobres sentidos, toda a dor do mundo. Como é extraordinário vê-la renascer, mergulho após mergulho na profundidade do organismo, no ser que é. Como é insólito conhecer um ente mitológico em plena modernidade – uma Fênix leonina. Como é um privilégio poder amá-la e testemunhar o amor a reverberar para além da linha do horizonte, sem obstáculo a lhe impedir. Como é bom ser o seu pai, ainda hoje, 28 anos depois…

Participam:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

BEDA | Fechado


Fechado
Vítima imóvel…

O dia cinza, frio e chuvoso, já me parecia triste o suficiente – às questões pessoais, somei o clima instável. Especialmente sensível, meu olhar denunciava amargor em cada rosto. Em cada pessoa, pressentia uma história desgostosa. Evidentemente, nem tudo deveria ser tão ruim. No entanto, não vislumbrei sorrisos, nem mesmo nos jovens que saíam da escola adiante, na rua que caminhava.

Em uma das esquinas, encontrei um restaurante fechado em plena hora do almoço. Provavelmente, mais uma vitima da crise. Não era o primeiro estabelecimento que via nessa condição. Por trás de cada janela fechada, a cada cortina baixada, a cada porta trancada – uma história de luta perdida e sonho acabado. Depois de tudo, o fim…

Viver não é fácil. Ganhar o pão de cada dia, implica em matar um leão por dia, caso contrário, ele o devora. Apenas talento para os negócios não basta. Há de se vencer a falta de planejamento dos administradores públicos – incompetência, descaso ou corrupção – que desce até a base. Lá, encontramos os achacadores – fiscais fisgadores de peixes grandes e pequenos – impostos, taxas e dificuldades para abrir e/ou fechar empresas.

A legislação é seguida, os documentos são regularizados, os empregados são registrados, os regulamentos são atendidos. Os fiscais sempre encontrarão uma brecha para solicitarem uma conversa fora das anotações oficiais, com consequentes notas-ações.

Além disso, a crise não ajuda em nada. Engendrada em gabinetes a milhares de quilômetros, planos econômicos estruturados para alimentar a máquina pública, atender a apaniguados, contemplar apoiadores, segurar a aliança de cúmplices. Dizem que é tudo dentro da lei. Lei feita por eles, para eles, contra todos nós…

A imagem do restaurante morto, ajudou a piorar o meu dia. Saber que trabalhadores perderam funções e sustentos, me derrubou. Mas confesso que ver a pequena rampa para cadeirantes, quase dispensável e, agora ineficiente, quebrou meu coração de vez…

Participam:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari