03 / 02 / 2025 / Nota De Esclarecimento Fúnebre*

Em 02 de fevereiro de 2018*, escrevi:

“Não fui eu, Obdulio Nuñes Ortega, que desencarnou na madrugada de ontem. Mas sim o meu pai, quase um homônimo — Odulio Ortega. Morrer é um fenômeno natural, assim foi a ocorrência da Super Lua, de quarta para quinta. Um dia, morrerei. A vida só é enigmaticamente tão bela porque temos a morte a nos cortejar para um romance eterno, vida após vida. Quanto ao meu pai, ele foi um homem que viveu plenamente e se foi calmamente aos quase 86 anos de idade. Um abraço forte em todos que se preocuparam com a minha condição de órfão tardio ou defunto precoce.

02 / 02 / 2025 / As Deusas Das Águas

Hoje se comemora o dia da Rainha das Águas, Yemanjá. Em Pindorama, os originários da terra tinham Yara, como Mãe d’Água. Com a chegada forçada dos escravizados africanos, Yemanjá ganhou protagonismo, mesmo porque as lendas indígenas foram sendo obliteradas pouco a pouco com o genocídio das diversas tribos. Yara estava mais vinculada aos rios, lagos e lagoas no interior do continente, o que corresponde a várias lendas em todos os continentes no mundo todo.

Uma amiga que trabalha na China, em uma das suas publicações, mostrou o monumento de Guan Yin do Mar do Sul de Sanya, de incríveis 108 metros de altura. Essa entidade é venerada na China, Coreia, Vietnã e de Japão. O traço comum entre todas essas entidades ligadas à agua é o fato de serem femininas, normalmente ligadas à geração e proteção da vida. No sincretismo religioso brasileiro, Yemanjá foi associada à Santa Maria, mãe de Jesus, em suas várias denominações.

A orixá africana incorpora vários aspectos que a tornam uma das entidades mais populares. Na Bahia, é famosa a festa que a homenageia. Essa celebração tradicional chega aos 103 anos neste 2 de fevereiro de 2025. Celebrado por uma multidão de baianos e turistas em Salvador, o Dia de Iemanjá é marcado por fé, emoção e entrega de presentes à rainha do mar. Ela se iniciou quando durante a uma escassez severa de peixes, os pescadores oraram à Yemanjá e, naquele dia, voltaram carregados de pescados. Surgiu a tradição com cada vez maior participação popular.

Na minha relação com o mar, eu a comparo como se fosse o líquido amniótico, para onde volto sempre que posso. E sinto frequentemente que há “algo de mágico” nessa relação. Como se estivesse em meu elemento, brinco com as ondas e me torno um com as águas. Ciente que somos muito mais água do que qualquer outro elemento, me junto à bilhões de seres humanos que já caminharam pela Terra.

31 / 01 / 2025 / Gentrificação Urbana

Outro dia, fui até a região de Pinheiros e observei um processo comum em toda a São Paulo — a substituição gradativa de vilas de casas e ruas tranquilas pelo excesso de veículos em vias estreitas para a passagem de carros em asfaltos irregulares, resultado de ruas mais frequentadas pelo adensamento urbano.

A chamada Gentrificação Urbana faz com que as características de bairros em que a vizinhança que se conhece, que se frequenta, que monta quermesse na igreja ou na escola, que mantêm laços afetivos, geram namoros entre os moradores, integram times de futebol — a rua de cima contra a rua de baixo — o acompanhamento no crescimento das crianças, o conhecimento do vendedor de pipoca, da vendinha ou da mercearia, a solidariedade nos momentos mais difíceis. Tudo se esvai como areia na ampulheta…

A radical obliteração de estilos de vida mais leves e saudáveis por um estranhamento de pessoas que não se reconhecem mais torna-se praticamente irreversível. A pressão pela própria decadência da qualidade de vida, a alienação dos residentes uns dos outros, encastelados que acabam por ficar nos novos edifícios, configura uma tendência intrínseca ao formato esquemático de quadrados dentro de quadrados dentro de quadrados.

A urbanidade se perde em sentido inversamente proporcional à demolição dos antigos imóveis construídos ao gosto do morador. A não ser os mais aquinhoados de poder econômico, as celas com janelas para outras janelas se multiplicam como se devêssemos aceitar que um apartamento configure o símbolo máximo de status do cidadão. Normalmente, quem participa da construção de um edifício dificilmente terá condição de adquirir aquele imóvel.

Apesar disso, a construção participa da ocupação de uma volumosa mão-de-obra em todas as suas etapas. É interessante notar que além da consequente segregação socioespacial de quem adquire um imóvel, ocorre o afastamento de pessoas de orçamentos familiares menores contribuindo para a expansão da desigualdade econômica.

Eu me lembro que um dos objetivos de Oscar Niemeyer ao construir o COPAN ao colocar no mesmo andar apartamentos maiores e menores, contribuiria para pessoas mais pobres morassem ao lado de pessoas mais ricas. Não sei se isso chegou a acontecer em algum momento, mas com o tempo houve uma homogeneização das classes econômicas dos moradores. Isso se processou de uma maneira quase “natural”. O que talvez se distinguisse um pouco no agrupamento tradicional suplantado pela verticalização.

Enfim, existe uma planificação dirigida de fora para dentro tanto por parte dos empreendimentos em que a classificação econômica das pessoas é clara, obviamente com a participação do interessado em adquirir a propriedade. Um dos quadros mais interessantes do jornalismo versa sobre os direitos e deveres de moradores de condomínios. Os síndicos têm que se desdobrarem como se fossem administradores de uma pequena cidade para fazer reinar a boa convivência dos condôminos.

Viver em grupo não é fácil…

27 / 01 / 2025 / Faz 80 Anos…

O dia 27 de janeiro foi declarado Dia da Memória do Holocausto por uma resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas de 2005. Nesse dia, em 1945, soldados da União Soviética chegaram ao campo de concentração e trabalhos forçados que acabou por se tornar um símbolo do que um ser humano pode fazer com outro em termos de crueldade e frieza industrial. Sim, porque naquele local foi montada uma indústria de torturas, experiências “científicas” e finalmente, extermínio.

Ao ver os sobreviventes se lembrarem do episódio, não pude conter a emoção e comecei a chorar. Imagens cortadas mostravam as péssimas condições dos cerca de sete mil prisioneiros encontrados ainda “vivos”. Eu me lembro de uma situação relatada por um soldado que disse que ao alimentar as pessoas, muitas passaram mal e morreram. Famélicas que estavam, os seus organismos simplesmente não conseguiam processar os alimentos. Como se estivessem habituadas ao limbo, ao serem trazidas para a vida, morriam.

Os poucos sobreviventes entre os sobreviventes de oitenta anos antes já não são tantos. Fracos, parece que as suas vozes não são mais ouvidas. Há os que dizem não acreditar no Holocausto pelo tamanho do horror que foi a criação e o desenvolvimento de maneiras de aniquilar pessoas. Bastaria ver o que acontece todos os dias em guerras sequenciais e espalhadas pelo planeta para saber do que o ódio é capaz de conseguir contra quem se tornam seus alvos. Eu estou ficando desesperançado de um futuro em que a Paz impere. Mesmo porque a guerra é um negócio e tanto em todas as latitudes. E o mercado do ódio é promissor.

20 / 01 / 2025 / Cão Sem Dono

Ontem, no domingo, fui a um estabelecimento de produtos horti-fruti-granjeiros. Pelo caminho, vi um cãozinho caminhando aos saltos. As pernas traseiras estavam duras. Ele fez me lembrar do Nego Véio, um cachorro que já chegou em casa com dificuldades locomotoras. Um pouco mais à frente, parou junto a um ponto de ônibus, onde cheirou a ração posta para ele e outros possíveis cães de rua. Tomou um pouco de água e prosseguiu a sua caminhada. O Sol estava mostrando todo seu poder de fogo, beirando os 32ºC.

Quando cheguei à Horti-Fruti, lá estava ele, deitado num pequeno corredor, descansando. Dormia profundamente. A paz dos inocentes. Não fosse a voz de contrariedade da Tânia na minha cabeça: “Mais um?”. Os nossos seis amigos peludos que estão conosco não estão mais tão vigorosos. A Lolla, a Dominic, Alexandre (menos) e o Nego Véio têm problemas de saúde, mas continuam glutões.

Com a minha experiência de décadas no trato com os cães, sei que estão no termo final de suas vidas. Sempre digo que é uma tremenda coragem aceitarmos ter conosco seres que se fazem imprescindíveis enquanto vivem num tempo previsivelmente menor que o nosso. Sofremos por suas partidas e os relembramos vendo as suas fotos e filminhos como se filhos fossem. Porque, são filhos do coração…