entre um segundo e outro há um espaço transitório um micro momento de tempo suspenso um nada entre pontos decorrentes um elo vazio que formam correntes onde impera o silêncio absoluto e sombrio um corpo sem sol sem sombra escuridão na luz feito mancha na estrela espaço sem peso que existe sem existir passado presente e futuro que acontecem no mesmo passo trôpego despegado de ato e ação consequência sequência inconsequente espera dança suspensa a incerteza do abismo na planície cismo na crosta terrestre uma pausa em que há possibilidade de tudo nunca se realizar uma noite sem mestre sem dor amor cansaço prazer emoção até o próximo marco paradoxo que é viver.
nesta manhã de domingo de ressaca – no meu caso, por ficar horas insone – a Primavera mostrou sua faceta inconstante. Saí para ir a pé ao supermercado próximo e tomei pela cara agulhadas do ar frio invernal, digna da estação que acabou de morrer. Voltei com o Sol a banhar-me de luz quente. Suando, estava a escrever na cabeça a missiva que lhe envio. Agora que passo para a tela do computador, sinto o ar refrescar demais. 18ºC. Lembrei o quanto não gosta do calor excessivo e talvez nem do frio extremado. Não é incomum imaginá-la com um cachecol em volta do pescoço. Nem sei se usava um quando da primeira vez que a vi, mas na minha idealização, sim. Abri a porta para alguém que não parecia a nenhuma outra que conhecera antes. Impressão que perdura até hoje. Apesar de anos de convivência, ainda é um enigma difícil de decifrar. Não que queira. Sou daqueles que acredita que mistérios existem para serem vividos, não explicados. Dá ensejo que passeemos sobre “possibilidades impossíveis” e clareiem contradições que não são poucas, nos ajudando na criação.
Desde aquele longínquo de 2015, a sua influência na minha vida foi direta e desejada. Como em qualquer relação íntima, você me conhece por minhas palavras enviesadas – mentiras verdadeiras que me denunciam. Há variações de humor e choques de opiniões. No último texto que lhe enviei, o que eu supus ser um conto, perguntou o que havia acontecido comigo: “não é um conto, não uma narrativa, nem mesmo uma história. O que houve?”. Respondi que era um texto antigo, de 2014 (antes da sua intervenção, portanto), o qual não havia alterado, apenas limpado. Queria que fosse seco. Rindo, só pude dizer que se não era uma coisa, nem outra, poderia ser uma receita de bolo. Fiquei a imaginá-la vociferando mentalmente contra o seu autor “rebelde”. A minha reação com você nunca é equilibrada. Fico desconcertado com a sua franqueza, mas não deixo de louvá-la. Estranhamente, me sinto distinguido. Como daquela vez que, ligado no “piloto automático”, eu enviava textos-padrão e perguntou “cadê o meu autor?”, me instigando a buscar desafiar-me, o que acabei por fazê-lo. Outro dia, cheguei a dizer que escrevia, em última instância, para você. Sinal de extrema confiança.
O que surge diante de mim é o de uma mulher em constante mutação, ainda que apresente uma identidade reconhecível de menina pelo olhar sapeca e humor afiado de sagitariana. Tendo dois terços da minha idade, já deve ter lido o dobro ou mais do que eu. Colecionadora de livros que vez ou outra doa, coleciona palavras que joga ao mundo através de páginas costuradas e escritores que põe de lado se não quiser mantê-los no elenco da Scenarium. Quando me perguntam se escrevo livros ou compareço com textos para as edições especiais – Plural ou coletâneas – por algum motivo especial, respondo que escrevo para me tornar o melhor escritor possível dentro das minhas limitações. Nesse momento é que a Lunna editora comparece para me pressionar para expandir meus horizontes literários, buscar soluções inéditas, soltar os meus demônios.
Eu já disse antes que nós, humanos, somos sós. Em última instância, diante do mundo, estamos isolados. Você é uma daquelas pessoas que viveu entre dois continentes e realidades durante algum tempo e ouso dizer que continua a viver. Qualquer ser que especula sobre o mundo, sente-se dividido entre dentro e fora de si. Sente-se abrigado em ambientes seguros e em outros inóspitos. Está no Presente e no Passado ou um dentro do outro. Oriundos de vários países e “oriundi” formaram a nação brasileira. Você, um deles. São Paulo, carrega todas as nações desta nação. E aqui você encontrou uma identificação que demonstra a sua pluralidade. Enquanto descerra o véu que expõe aspectos que a torna mais misteriosa, contradizendo a ideia de que o conhecimento se dá á luz à do olhar.
Eu espero que continuemos a nossa interação por muito tempo. Sob sua condução, buscarei fazer jus à sua atenção e estímulo. Eu me sinto como que escolhido para aceitar devassar as minhas incoerências e inspirar-me a prosseguir neste caminho estranho e belo da criação da palavra perfeita, da frase sonora, do parágrafo instigante. Sono grato di far parte del mondo lunare per tutto il tempo che voglio…
Estamos em época de crisântemos Que florescem como loucos pelos campos Em tempo de crisálidas soltos pelos cantos Em troca frenética de roupas em desencanto
Na temporada de cantos de pássaros enamorados De shakespearianos namorados encantados Período de sol e de girassóis que se beijam Era de mudanças externas e interiores
Mutações profundas e avassaladoras De mundos novos criados Mundos novos vencendo velhos mundos Estrondosa e silenciosamente, grande e miudamente Destemperada, cuidadosa e minuciosamente
Estamos em época de novidades e de obviedades De antigas e permanentes novas idades De temperança, de esperança, de fazer diferença Em fase de viver o melhor tempo que há de vir Se assim viermos a permitir…
o médico intrigado diante da imagem da ressonância dá ares de magnética importância quem sabe estudo científico? revela que surgira uma flor na superfície do meu coração entre ventrículo e átrio esquerdos perguntei um tumor? não era mesmo uma flor margarida lírio rosa ou jasmim uma orquídea ou maria-sem-vergonha talvez? uma vitória-régia a boiar no rio da minha caixa torácica? não sou especialista em pétalas abertas em órgãos vitais vamos retirá-la decretou por que? perguntei retorquiu meu caro pode ser a primeira de muitas logo o seu coração ficará florido seu peito tomado de perfume e cor um verdadeiro jardim chegariam vespas abelhas beija-flores outros pássaros quero vê-lo curado respondi doutor deixe florir não tenho tremor febre ou dor sei o que aconteceu sol a raiar dia que nascia daqueles clichês para se apaixonar eu a vi pela janela de minh’alma pela primeira vez senti meu coração bater em fulgor natural que medrasse em flor antes isso do que ódio rancor carregado de medo temor de vingança revanche vazio de sangue e paixão entre viver gris prefiro morrer feliz escolho fertilizar amor e regar e amar…
A verdadeira medida de todas as coisas é a Inveja! Por sua percepção, sabemos o valor do que se deve querer… abrangendo o bem querer…
Pelo desejo de ter o que o outro tem: os objetos, os espaços, o ar, o respirar, os amores, os corpos, as vidas, as obras e as sobras.
Aquele que Inveja tem um objetivo a alcançar, um caminho a seguir, mesmo que seja o caminho de um outro que foi bem-sucedido antes.
O invejoso opera no ambiente de trabalho, na política, na escola, na família, nos relacionamentos pessoais… ele se alimenta do que deseja, e bebe a peçonha da competição com prazer, a defecar escárnios pelas pequenas conquistas alheias…
A Inveja mede o talento, afere o conhecimento, fere o discernimento, se apropria do avanço, copia o desempenho, favorece o sistema, valida o progresso material.
Sermos invejosos nos torna iguais… Nos abastece de fervor pela Pátria, pela terra, pelo valor de sermos maiores em bundas, em mamas, em caralhos, em dinheiro…
A Inveja nos beija a boca todos os dias… Esconde-se em nossas casas, nas salas, nos quartos, na arquitetura social… a Inveja se oferece em propagandas e pelas esquinas… Na arte, Na filosofia, No pensamento…
Para o nosso bem, somos criados invejosos. Crescemos estimulados a sermos outros. Somos instados a idolatrar o ter. Para nunca buscarmos a plenitude do Ser. A viver a sensação de estarmos em haver. Buscamos a Inveja para ser nosso patrão. Tornamos a Inveja o nosso melhor padrão. Invejamos a Inveja e ao outro a nos invejar…