#Blogvember / Passo E Compasso

entre um segundo e outro há um espaço transitório
um micro momento de tempo suspenso
um nada entre pontos decorrentes
um elo vazio que formam correntes
onde impera o silêncio absoluto e sombrio
um corpo sem sol sem sombra
escuridão na luz feito mancha na estrela
espaço sem peso que existe sem existir
passado presente e futuro
que acontecem no mesmo passo
trôpego despegado de ato e ação consequência
sequência inconsequente espera dança suspensa
a incerteza do abismo na planície
cismo na crosta terrestre
uma pausa em que há possibilidade de tudo
nunca se realizar uma noite sem mestre
sem dor amor cansaço prazer emoção
até o próximo marco paradoxo que é viver.

Foto por Pixabay em Pexels.com

Participam os autores:
Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Suzana Martins / Roseli Pedroso

Missivas De Primavera / Só, Entre Dois Mundos

Lunna ed io…

Lunna,

nesta manhã de domingo de ressaca – no meu caso, por ficar horas insone – a Primavera mostrou sua faceta inconstante. Saí para ir a pé ao supermercado próximo e tomei pela cara agulhadas do ar frio invernal, digna da estação que acabou de morrer. Voltei com o Sol a banhar-me de luz quente. Suando, estava a escrever na cabeça a missiva que lhe envio. Agora que passo para a tela do computador, sinto o ar refrescar demais. 18ºC. Lembrei o quanto não gosta do calor excessivo e talvez nem do frio extremado. Não é incomum imaginá-la com um cachecol em volta do pescoço. Nem sei se usava um quando da primeira vez que a vi, mas na minha idealização, sim. Abri a porta para alguém que não parecia a nenhuma outra que conhecera antes. Impressão que perdura até hoje. Apesar de anos de convivência, ainda é um enigma difícil de decifrar. Não que queira. Sou daqueles que acredita que mistérios existem para serem vividos, não explicados. Dá ensejo que passeemos sobre “possibilidades impossíveis” e clareiem contradições que não são poucas, nos ajudando na criação.

Desde aquele longínquo de 2015, a sua influência na minha vida foi direta e desejada. Como em qualquer relação íntima, você me conhece por minhas palavras enviesadas – mentiras verdadeiras que me denunciam. Há variações de humor e choques de opiniões. No último texto que lhe enviei, o que eu supus ser um conto, perguntou o que havia acontecido comigo: “não é um conto, não uma narrativa, nem mesmo uma história. O que houve?”. Respondi que era um texto antigo, de 2014 (antes da sua intervenção, portanto), o qual não havia alterado, apenas limpado. Queria que fosse seco. Rindo, só pude dizer que se não era uma coisa, nem outra, poderia ser uma receita de bolo. Fiquei a imaginá-la vociferando mentalmente contra o seu autor “rebelde”. A minha reação com você nunca é equilibrada. Fico desconcertado com a sua franqueza, mas não deixo de louvá-la. Estranhamente, me sinto distinguido. Como daquela vez que, ligado no “piloto automático”, eu enviava textos-padrão e perguntou “cadê o meu autor?”, me instigando a buscar desafiar-me, o que acabei por fazê-lo. Outro dia, cheguei a dizer que escrevia, em última instância, para você. Sinal de extrema confiança.

O que surge diante de mim é o de uma mulher em constante mutação, ainda que apresente uma identidade reconhecível de menina pelo olhar sapeca e humor afiado de sagitariana. Tendo dois terços da minha idade, já deve ter lido o dobro ou mais do que eu. Colecionadora de livros que vez ou outra doa, coleciona palavras que joga ao mundo através de páginas costuradas e escritores que põe de lado se não quiser mantê-los no elenco da Scenarium. Quando me perguntam se escrevo livros ou compareço com textos para as edições especiais – Plural ou coletâneas – por algum motivo especial, respondo que escrevo para me tornar o melhor escritor possível dentro das minhas limitações. Nesse momento é que a Lunna editora comparece para me pressionar para expandir meus horizontes literários, buscar soluções inéditas, soltar os meus demônios.

Eu já disse antes que nós, humanos, somos sós. Em última instância, diante do mundo, estamos isolados. Você é uma daquelas pessoas que viveu entre dois continentes e realidades durante algum tempo e ouso dizer que continua a viver. Qualquer ser que especula sobre o mundo, sente-se dividido entre dentro e fora de si. Sente-se abrigado em ambientes seguros e em outros inóspitos. Está no Presente e no Passado ou um dentro do outro. Oriundos de vários países e “oriundi” formaram a nação brasileira. Você, um deles. São Paulo, carrega todas as nações desta nação. E aqui você encontrou uma identificação que demonstra a sua pluralidade. Enquanto descerra o véu que expõe aspectos que a torna mais misteriosa, contradizendo a ideia de que o conhecimento se dá á luz à do olhar.

Eu espero que continuemos a nossa interação por muito tempo. Sob sua condução, buscarei fazer jus à sua atenção e estímulo. Eu me sinto como que escolhido para aceitar devassar as minhas incoerências e inspirar-me a prosseguir neste caminho estranho e belo da criação da palavra perfeita, da frase sonora, do parágrafo instigante. Sono grato di far parte del mondo lunare per tutto il tempo che voglio…

Bacio, bambina!

                                                                                                     Obdulio

Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Suzana Martins

BEDA / ¿?

Estamos em época de crisântemos
Que florescem como loucos pelos campos
Em tempo de crisálidas soltos pelos cantos
Em troca frenética de roupas em desencanto

Na temporada de cantos de pássaros enamorados
De shakespearianos namorados encantados
Período de sol e de girassóis que se beijam
Era de mudanças externas e interiores

Mutações profundas e avassaladoras
De mundos novos criados
Mundos novos vencendo velhos mundos
Estrondosa e silenciosamente, grande e miudamente
Destemperada, cuidadosa e minuciosamente

Estamos em época de novidades e de obviedades
De antigas e permanentes novas idades
De temperança, de esperança, de fazer diferença
Em fase de viver o melhor tempo que há de vir
Se assim viermos a permitir…

Participam do BEDA: Darlene Regina / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Suzana Martins / Lunna Guedes

A Flor

o médico intrigado
diante da imagem da ressonância
dá ares de magnética importância
quem sabe estudo científico?
revela que surgira uma flor
na superfície do meu coração
entre ventrículo e átrio esquerdos
perguntei um tumor?
não
era mesmo uma flor
margarida lírio rosa ou jasmim
uma orquídea
ou maria-sem-vergonha talvez?
uma vitória-régia a boiar
no rio da minha caixa torácica?
não sou especialista
em pétalas abertas em órgãos vitais
vamos retirá-la decretou
por  que? perguntei
retorquiu
meu caro
pode ser a primeira de muitas
logo o seu coração ficará florido
seu peito tomado
de perfume e cor
um verdadeiro jardim
chegariam vespas abelhas
beija-flores outros pássaros
quero vê-lo curado
respondi doutor deixe florir
não tenho tremor
febre ou dor
sei o que aconteceu 
sol a raiar dia que nascia
daqueles clichês para se apaixonar
eu a vi pela janela de minh’alma
pela primeira vez
senti meu coração bater em fulgor
natural que medrasse em flor
antes isso do que ódio rancor
carregado de medo temor
de vingança revanche vazio
de sangue e paixão
entre viver gris
prefiro morrer feliz
escolho fertilizar amor 
e regar
e amar…

Foto por Asmau2019u Yusuf em Pexels.com

BEDA / A Medida De Todas As Coisas

A verdadeira medida de todas as coisas
é a Inveja!
Por sua percepção,
sabemos o valor do que se deve querer…
abrangendo o bem querer…

Pelo desejo de ter o que o outro tem: os objetos,
os espaços,
o ar,
o respirar,
os amores,
os corpos,
as vidas,
as obras
e as sobras.

Aquele que Inveja tem um objetivo a alcançar,
um caminho a seguir,
mesmo que seja o caminho de um outro
que foi bem-sucedido antes.

O invejoso opera no ambiente de trabalho,
na política,
na escola,
na família,
nos relacionamentos pessoais…
ele se alimenta do que deseja,
e bebe a peçonha da competição com prazer,
a defecar escárnios
pelas pequenas conquistas alheias…

A Inveja mede o talento,
afere o conhecimento,
fere o discernimento,
se apropria do avanço,
copia o desempenho,
favorece o sistema,
valida o progresso material.

Sermos invejosos nos torna iguais…
Nos abastece de fervor
pela Pátria,
pela terra,
pelo valor
de sermos maiores
em bundas,
em mamas,
em caralhos,
em dinheiro…

A Inveja nos beija a boca todos os dias…
Esconde-se em nossas casas,
nas salas,
nos quartos,
na arquitetura social…
a Inveja se oferece em propagandas e pelas esquinas…
Na arte,
Na filosofia,
No pensamento…

Para o nosso bem, somos criados invejosos.
Crescemos estimulados a sermos outros.
Somos instados a idolatrar o ter.
Para nunca buscarmos a plenitude do Ser.
A viver a sensação de estarmos em haver.
Buscamos a Inveja para ser nosso patrão.
Tornamos a Inveja o nosso melhor padrão.
Invejamos a Inveja e ao outro a nos invejar…

Imagem: Foto por Kulbir em Pexels.com

Participam do BEDA: Lunna Guedes / Alê Helga / Mariana Gouveia / 
Cláudia Leonardi / Darlene Regina