O Humberto e eu encontramos o Beto pelo caminho e, junto a um muro, paramos para prosear um pouco. Um metro à frente, percebi um cão encostado a um pequeno portão . Parecia nos ouvir, interessado, como se sentisse falta da voz humana. Depois de algum tempo, comecei a conversar com ele que, com um olhar demasiado humano, agradecia a minha atenção, abanando o rabo. Olhei para o grande terreno em que morava e fiquei sem saber se era um espaço ocupado ou não. Terminada a conversa, nos despedimos, nós do Beto, e eu, também do cão solitário.
Já separado do meu irmão, na minha rua, um outro cachorro solitário começou a me acompanhar, para logo se adiantar. Ele sabia para onde ia, mas parava aqui e ali, sob a condução de seu faro em busca de algo interessante que o atraísse. Independente, livre de amarras e gradis, permanecia com o rabo empinado, confiante. Em casa, os “meus” cães (ou que moram conosco) me receberam com a festividade costumeira e, por algum motivo, senti vontade de me demorar um pouco mais nos afagos que lhes agradam tanto. Assim como a mim, que me identifico tanto com os solitários…
Dia de outono, frio e chuvoso. Quase sem querer, enquanto estava mexendo nos arquivos do Gmail, acabei parar no meu perfil do moribundo Orkut. Entre as curiosidades que lá encontro, está a apresentação que fiz do vídeo “Love Bizarre Triangle”, com a banda “Frente!“. Esta versão faz parte da minha lista de preferidos até hoje e quando o postei, em 2006, escrevi o seguinte: “Um cara dos Oitenta como eu, que curtiu a versão original dessa música com o New Order, quer demonstrar que não está engessado em formalidades e adota esta versão da banda australiana ‘Frente!‘ como a ser vista aqui. O vídeo vai bem com a gracinha Angie Hart, até que começam a aparecer os marmanjos do grupo. Percalços à parte, sobram a voz pequena e agradável do anjo, com a letra cortante desta canção de amor desencontrado” –
Alguém mais canta para os seus amigos em horas de descuido? Público silente e cativo, suporta a minha voz inapropriada e a recebe como um carinho — verdadeiro sintoma de amor — em desalinho com os tempos que vivemos…
aciono a máquina do tempo… ao mesmo tempo que ouço “Wuthering Heights” a voz aguda e precisa de Kate Bush me conduz à lembrança da moça de cabelos esvoaçantes ela dança em minha imaginação em preto e branco memória de garoto na antiga televisão enquanto um vento cálido e reconfortante embala meu corpo estanque no ponto do coletivo que me levará para longe dos morros de cães uivantes do meu norte que contam suas histórias: “estou preso, quero sair!”… “estou na rua, quero um lar!”… “estou só, quero meu humano amor!”… “sou amado, gosto de latir!”… a cápsula-transporte se aproxima embarco rumo ao sul… no concerto sem conserto da vida imprecisa deixo a ventania levar minha dor uivada para destino incerto talvez rumo ao sul do homem que fui…
*Poema de 2019. Abaixo, a bela e talentosa Kate Bush, em clipe de 1978.
Lunna Guedes propôs e um grupo de pessoas decidiu participar de uma maratona em publicaríamos textos todos os dias de Novembro – o #Blogvember – nos moldes de um BEDA fora de Abril e Agosto. A diferença consiste em que ela indica os temas sobre os quais versaremos a cada um dos trinta e um dias. O que promete facilitar a tarefa ou, a depender das circunstâncias, não. Depois da saudação ao mês corrente, no primeiro dia, La Lunna indicou linhas de Emily Dickson – uma poeta fora do tempo – para os três seguintes para compormos as nossas. O interessante que em sendo uma escritora atemporal, ela trabalha com a relação com às quais os seres humanos lidam – o estar, em sendo ou o ser, ao estar. O Tempo e o Silêncio são questões recorrentes na poética de Emily Dickson.
Ao comentar os textos de participantes do #Blogvember, recolhi as minhas respostas para pontuar o que entendo sobre o Tempo, quando a poeta cita, por exemplo: “Aqui não tem base as Épocas para o Tempo ser passado”. No da La Lunna – Catarina Voltou A Escrever –, coloquei: “Essa relação com o Tempo em que se acumulam fatos, acontecimentos é estranho para mim, assim como também a permanente sensação de estar sonhando a vida que vivo… ou que vivo a sonhar”.
Em resposta a La Lunna ao comentar aos meus versos, sobre o mesmo tema, respondi: “Essa confusão a qual aludiu é como me sinto muitas vezes quando percebo esse ‘buraco negro’ no Tempo: uma anomalia. No mesmo passo, não sinto passar o instante ao compasso dotic-tac do relógio. Ao qual nem uso”.
Sobre a entrada do novo mês, em “Aos Cuidados De Novembro”, respondi à Roseli Pedroso e seu texto – em Sacundindo as ideias – “Depois de anos de atitudes e posturas desconexas com a realidade ou, no mínimo, do bom senso, ainda haverá situações complicadas. É tudo tão sem sentido, que não há como entender o que passa pela cabeça dessa gente. O que deixa mais perplexo é que consigam criar enredos imaginativos de tal maneira, que deixam os meus temas no chinelo. Stephen King se sentiria homenageado! (Riso nervoso…)”. Ontem, foram registradas cenas em que crianças foram colocadas como escudo humano para as ações de retirada de bloqueios ilegais nas rodovias em protesto ao resultado das eleições. Em outro registro, um grupo grande canta o Hino Nacional, enquanto fazem a saudação nazista – claro sinal da interdependência entre a quem defendem às ideias fascistas que sempre promoveu. Realidade paralela que bem poderia fazer parte de um pesadelo distópico recheando a programação de canais de comunicação.
E é exatamente sobre isso que quero tratar – o diálogo entre as palavras (ideias) e as ações dos indivíduos. Ou o Silêncio, muitas vezes mais eloquente do que a declinação de verbos, locuções, exclamações, conjunções e orações assindéticas ou sindéticas. Acho importante que as ideias conversem entre si, mesmo que cheguem a conclusões diferentes. Se bem que conclusões possam ser mudadas, a depender da “maturação” de quem a profere. Palavras podem, assim como os átomos, colidirem umas com as outras, resultando em explosões criativas… ou destrutivas.
O Silêncio pode conter dentro de si todas as possibilidades. Pontua a respiração na fala, a Pausa nas orações, a cessação de controvérsias ou sua intensificação. Saber escrever o Silêncio é uma maestria que a poucos é reservada. Assim como na música, a pausa intervala uma bela sequência de notas e faz parte da canção tocada. A poeta Emily Dickson escreveu: “Grandes Ruas de Silêncio levam aos Arrabaldes da Pausa”. Nada mais precisa ser dito e podemos dormir tranquilos-inquietos sobre o colchão de uma frase perfeita. O que alguns poderiam conjecturar que ela fala da morte, para mim consubstancia o resumo de uma vida grandiloquente, apesar de silenciosa. Principalmente quando em outro poema canta que a Eloquência é o Coração ficar sem voz”. Porém, nada é tão belo quando proclama que “o Silêncio é Infinitude”.