Noite Branca

foi assim…
ela disse fica bem
respondi fica com deus
eu, que nem nele acredito
despedida marcada
sem uma palavra de adeus
se houvesse mensagens
as ignoraria com sórdido prazer
era uma noite branca
lua cheia por trás da nebulosidade
primavera em outubro rosa
veias cortadas sem sangue
olhos que não se viam
vozes que não se falavam
bocas sem beijos
mãos que não se tocavam
separados pela distância
unidos na mágoa
o frio que se impunha
termômetro nos 25 graus
sete invernos e uma pandemia
talvez já tivesse acabado no solstício
feneceu no equinócio
mas você não mudou, disse ela
você não me ama mais, disse eu
os prédios pintados de tarde
o escuro protetor
das noites nunca alcançadas
ficou para trás nas avenidas centrais.



O Terceiro Filho

Humberto, primeiro, à esquerda, em raro momento de toda a família unida na mesma imagem.

Outro dia, no supermercado, esperava na fila do caixa enquanto, à minha frente, se encontrava uma mulher razoavelmente jovem com uma criança pequena no colo e mais duas grudadas à sua saia. Deviam ter cerca de um ano de idade de diferença entre uma e outra. O meu primeiro pensamento foi o de lamentar pelo futuro incerto dessa família tão típica de nossa Periferia. Era bem possível que o pai das crianças estivesse trabalhando. É muito provável que não participasse das vidas deles. Algo tão comum de nossa Periferia, que é o mundo todo. De agora e de todos os tempos. Quase imediatamente deixei o primeiro pensamento de lado e viajei para antes na minha própria história.

Olhei para as crianças novamente. Eu seria aquela curiosa, que olha tudo ao redor com os olhos de novidade. Observa a mãe conversando com a caixa, acarinha os pés do irmãozinho no colo dela, sorri um sorriso tímido quando vê passar o único pacote de bolacha além das outras poucas compras. Apesar de pequeno, será ele a carregar com dificuldade, orgulho e coragem de homem da casa as sacolas até a sua casa, com a mãe, a irmãzinha do lado querendo ajudar e o terceiro-filho-segundo-irmão no colo, três anos mais novo.

Festejando com Dona Madalena o momento que ela mais gostava – o Natal.

Com as ausências constantes de meu pai, minha mãe decidiu não ter mais filhos, normalmente fertilizados nos retornos eventuais do marido à casa. O que era a sua família diante da importância da admirável luta pela redenção do povo pela revolução (que nunca houve)? Diriam que seria um motivo muito melhor do que simplesmente sair pela porta e nunca mais voltar como era uma quase regra do abandono parental, além de outros menos incisivos. Volta e meia, choro por meus irmãos que nunca vieram à luz, enquanto me solidarizo com a mulher sem saída melhor do que recorrer ao desparto sequencial.

Nos primeiros anos da Ortega Luz & Som, com o Sr. Edison, nosso transportador e amigo.

O terceiro filho de nossa família, meu irmão Humberto, hoje completa mais um ano de vida. O último dos três filhos vivos de Dona Maria Madalena e Sr. Odulio Ortega. Somos sócios na Ortega Luz & Som há uns 30 anos e entres brigas e concordâncias percorremos unidos a caminhos paralelos. Temos personalidades e gostos diferentes e mútua admiração pelo que nos tornamos — pais imperfeitos, mas presentes; irmãos discordantes, mas solidários; homens comuns, mas que tentam avançar na compreensão do mundo; filhos reverentes à mãe Natureza e que dão valor à vida. Eu sou mais intelectualizado (uma forma de desvio do racionalismo), enquanto ele é mais prático. Enquanto eu dou voltas em torno da Terra, ele vai direto de um ponto ao outro. Enquanto me encanto com versos de Pessoa, ele lê e destrincha um diagrama eletrônico como se fosse uma simples sequência de números naturais. Enquanto eu faço as relações públicas e contatos da Ortega, ele é o que faz as coisas acontecerem. Enquanto ele cultua um drama, eu os roteirizo e transformo em contos dramáticos. Foi o meu primeiro leitor e passei a escrever mais assiduamente para vê-lo encantado pelo que eu criava.

No trabalho, na Festa da Associação de São Vito, há oito anos.

Enfim, estamos juntos quase há quase 60 anos e apesar das provectas idades, somos chamados de “meninos do som” por muitos. Talvez reconheçam a juventude em nossos corações ou porque só conseguem entender que apenas jovens possam carregar, montar e operar a quantidade de equipamentos de som e iluminação levados ao segundo andar de buffets, salões de clubes e outros espaços horas antes. Para depois ficarmos acordados até de manhã para voltarmos à lida algumas horas após. Além da necessidade de trabalhar, gostamos do que fazemos. Porque vivemos enquanto trabalhamos. E sobrevivemos. Passamos pela Pandemia até agora e esperamos retomar o nosso caminho nos cuidando, por nós e por quem amamos.

Em 2021…

Pelo tempo que nos for permitido pela boa sorte, pelos homens e por Deus, estaremos juntos, Humberto! Parabéns por seu dia!

Coleção “As Idades” / As Chaves / 53 E 60

Mestre Yoda, ajudando a me concentrar…

“Tenho tido pequenos lapsos de memória. Tenho me dispersado frequentemente ao realizar tarefas básicas. Eventualmente, tenho até esquecido de comer. No entanto, a não ser que tenha sido levada por seres alienígenas ou tenha entrado por uma porta interdimensional, uma coisa eu garanto: as minhas chaves de casa estão em algum lugar sobre a face da Terra!” — 2014.

Escrito em 2014, no parágrafo acima descrevo uma circunstância comum na vida muita gente, de tal forma que as respostas dadas a ele relatava vários casos como esquecer o óculos de leitura na própria cabeça, trocar os itens de compra no supermercado por outros que já tinha em casa, deixar o celular perdido em algum ponto. Quando eu ainda tinha telefone fixo, uma das suas únicas utilidades (além de receber propagandas) era o de ligar para o celular para saber onde o havia deixado. Outros brincavam dizendo que era a idade que provocaria esses lapsos.

Pode até ser que estivesse piorando, mas o que sei é que sempre fui disperso. Isso me propiciava diversas situações embaraçosas que faziam com que me isolasse cada vez mais. Preferi evitar conviver mais de perto com as pessoas para não criar pretextos para discussões. Era usual eu me perder em divagações em meio a conversas com parentes e amigos. Na escola, buscava me concentrar o máximo possível e, no meu trabalho, descobri que conseguia manter a atenção redobrada, levando tudo a bom termo. Na escrita também fico tão envolvido que todas as experiências vividas ou intuídas fluem em prol da sua elaboração. Os textos, após ser entregues, os esqueço. Aos relê-los depois um tempo, muitos ressurgem como se fossem inéditos para mim, que os escreveu.

Minha dispersão é estimulada algumas vezes pelo encantamento por palavras ditas ou lidas a esmo, além de cacos de lembranças ou visões que me levam para longe — um efeito reverberante, inexplicável e imprevisível. Até provar para o meu interlocutor que minha desatenção não é proposital, o estrago já está feito. Ao mesmo tempo que saiba que isso possa ser prejudicial às minhas relações, eu receio que ao tentar reverter esse sintoma (seja lá de que forma for) que me ajuda na redação meus textos, eu perca a capacidade de captar esses estímulos, o que acaba por tornar-se quase uma dependência.

O isolamento provocado pela Pandemia de início propiciou o tempo necessário para escrever. Porém, a falta de contato com a vida em movimento foi reduzindo paulatinamente os estímulos que colaboravam para um melhor desenvolvimento de meus temas. Receber referências indiretas — por livros, filmes, músicas, artes plásticas — são desejáveis igualmente, mas sempre preferi beber na fonte do cotidiano humano que apreendia através da minha percepção. Passei por uma crise criativa, muito parecida por ocasião da doença e morte de meu pai, três anos antes.

Encontrar as chaves que possam deixar abertas as portas da minha percepção como escritor enquanto consiga conviver sem parecer alguém com sintomas escapistas inconciliáveis requer um esforço grande, mas necessário. Ainda que me sinta desconfortável em compartilhar minhas embaraçosas idiossincrasias pessoais, praticar a escrita ao revelá-la torna-se um duplo exercício de criação e auto perdão que me trazem prazer e certa redenção.

Amor Partido*

Deixei cair um pratinho que gostava muito. Espatifou-se. Ele servia para tampar um pequeno bule de chá do qual eu já havia quebrado a tampa original. Desde garoto, fui (sou) desajeitado. No caso do pratinho, ao quebrar-se, só então vim a perceber a palavra AMOR revelada e preservada. Só espero que não seja tão desajeitado que só perceba o amor depois de uma queda. Se bem que amar é como cair em si…

Coleção “As Idades” / Aos 60 – Paraty-RJ

Junto à praia de uma das ilhas da região de Paraty

Como presente aos meus 60 anos, minhas filhas nos ofertaram — a mim e á Tânia, minha companheira de 33 anos e mãe delas — uma ida à Paraty por quatro dias. Como está junto ao mar e sabedoras de minha paixão pela água e por História, criam (e acertaram) que ficaria feliz em passar alguns dias na histórica cidade do litoral sul-fluminense. Patrimônio da Humanidade, a colonial Paraty apresenta uma integração excepcional entre valores associados ao acervo cultural e ao natural; constituindo-se no primeiro sítio misto do Brasil.

A cidade vibra com suas histórias a percorrer suas ruas de pedra, mesmo para quem caminha por elas sem conhecê-las de antemão. Pensei em pesquisar antes sobre o que iria encontrar, mas preferi deixar me banhar de sua energia sem ter a cabeça preenchida por dados esparsos. Assim pude usufruir da energia que ultrapassava paredes, tão eloquentes quanto as belas conformações estruturais-arquitetônicas. Aos poucos, as histórias foram se apresentando através de imagens e informações aleatórias dadas por moradores.

Sozinho, saía para caminhar pela cidade vazia no início da manhã e via passar milhares de personagens invisíveis por sobre os calçamentos de pedras vivas. Ao passar por uma das esquinas, senti-me atraído a entrar por uma rua curta e estreita que, ao término, apresentava a placa Rua do Fogo. Imaginei que eventualmente em alguma época um incêndio tivesse se abatido em uma das velhas casas.

Após o passeio de escuna, parte da cidade junto ao cais estava inundada devido à maré cheia. Conhecedora de alternativas, uma das integrantes da tripulação nos acompanhou por terra até nos separarmos. Nesse momento, citei a rua que me impressionou pela qual passávamos então, e ela disse que o termo “fogo” se devia por ali ter existido uma zona de meretrício em tempos idos. Depois, soube que talvez ainda existisse aquele tipo de função. Essa informação confirmou que o meu radar vibracional-energético estava ativo. A calor do que ali ocorria ainda queimava.

Ainda que fosse um comércio de subjugação de pessoas (como quase sempre é) nas atividades que exercemos, se buscava o amor em sua expressão mais física, travestido em dominação. Bem como quando percorri caminhos em que o peso das pedras era mais opressor do que o habitual. Normalmente tratava-se de locais onde eram mercantilizados corpos de outra maneira — na compra e venda de gente escravizada. Janelas mínimas para deixarem um pouco de luz corromper a escuridão interna de mínima esperança.

Foram quatro dias intensos, em que que percorri por pés, mãos e mente fogosa terra, água e respirei o ar antigo de Paraty territorial e ilhas próximas, as quais acessei física e visualmente através de passeio de escuna. A cidade, fundada em 28 de fevereiro de 1647, teve seu apogeu quando foi por quase dois séculos um dos principais entrepostos do comércio de ouro vindo de Minas Gerais pela Estrada Real ou Caminho do Ouro. Com a abertura do Caminho Novo, o antigo caminho de indígenas calçado com pedras, passou a ser usado para o transporte de escravizados, de forma clandestina devido à proibição do tráfico no período regencial. Passei pelo antigo caminho quando fomos às cachoeiras por entre a vegetação exuberante da Serra da Bocaina.

Com o advento do plantio da cana-de-açúcar e o surgimento de centenas de engenhos artesanais, a produção de aguardente ganhou preponderância, sendo o nome Parati elevado a sinônimo desse destilado. Visitei uma das destilarias e pude apreciar os diversos tipos de aguardentes e licores. Porém isso não impediu a decadência da cidade desde o final do Século XIX. O que resultou numa espécie de congelamento de sua antiga conformação. O que poderia ser colocado como maldição pelo passado decadente, a união da beleza preservada da biodiversidade natural e a recuperação do conjunto arquitetônico propiciaram que o turismo se desenvolvesse, tornando-se sua principal fonte de renda de Paraty.

Graças a isso, pude usufruir do contato com a alma antiga dessa cidade que nos diz tanto através de suas características peculiares. Quem consegue se sensibilizar com o canto do vento, dos pássaros, da Natureza, das pedras, da História, quer voltar porque ainda que caminhemos reiteradamente por seus calçamentos, ainda é possível sentir no ar o mistério que se apenas advinha por trás de cada porta e janela, a nos surpreender com a sua magia feita de sabores tênues, sons surdos, visões esquivas, toques delicados e odores entremeados de maresia, ainda que o cheiro de esgoto vindo do Rio Perequê-açu que desemboca junto ao Cais na Praia do Pontal.