BEDA / Não Envelhece, Não?*

A caminhar pela avenida Itaberaba, que desemboca no Largo do Japonês, ouço uma voz atrás de mim, vinda da parede, junto ao banco: “Não envelhece, não?”… Voltei-me e não reconheci o tal que parecia me conhecer. Era jovem, por volta dos seus vinte anos. Busquei no arquivo da memória alguém com seu perfil. Seria filho de algum amigo? Um rapaz que empreguei em algum serviço?

Eu sou daquelas pessoas que tem memória seletiva. As minhas lembranças mais escancaradas são dispersas pelo tempo, nem sempre de forma linear. Episódios e pessoas se misturam no caldeirão das reminiscências, de maneira atabalhoada. É comum imaginar ter sonhado algo que realmente aconteceu, assim como — perigosamente — o contrário.

Certa ocasião, fiquei um tempo sem conversar com uma pessoa, porque sonhara que brigara sério com ela. Quando me lembro da criatura, não recordo nossas criações e vice-versa. O parâmetro que a minha memória utiliza é heterodoxo. Os episódios e as pessoas podem até ser decisivas e importantes do ponto de vista formal… porém, o mais comum é me lembrar de detalhes aparentemente insignificantes — um olhar, um gesto, um sorriso, um choro, o gol perdido, a torção do meu pé, o Tarzan, a Fofinha, a Cloé e a Gita, meus cachorros quando era novo…

Contudo, não sou caso perdido. Por ocasião que decidi escrever um livro sobre a relação com meu pai, percebi que estava tudo guardado. Aos poucos, foram aflorando acontecimentos que me surpreendi ao resgatar. Em determinando momento, tive que parar. Eu me dei conta de que estava a sofrer demais… Decidi adiar por tempo indeterminado o projeto. Um dia, o completarei…

Cumprimentei o tal rapaz como se o conhecesse. Perguntei como ele estava. “Estou bem!” — respondeu — “Olha o que tenho para você!”. O moço de sorriso aberto sacou uma embalagem de perfume de dentro de uma caixa de papelão… e me ofereceu.

– Este perfume, pai, vai deixar a sua mulher louquinha!”…

Sorri e, intimamente, fiquei aliviado por não lembrar do tipo, que estava apenas a utilizar uma simpática estratégia de marketing ao me abordar… que consistia em criar certa intimidade ao parecer me conhecer — além de apelar para minha vaidade, ao anunciar que eu tinha a mesma feição depois de um tempo tão longo…

Sorri duplamente com a esperteza do jovem camelô. Quem sabe, um dia, ele poderia vir a se tornar um comunicador de renome, e um respeitável empresário do ramo de comunicação?

Eu me abstive da compra do perfume, de procedência duvidosa, com um argumento irrefutável: “A minha mulher é alérgica!”… E completei — mentalmente — que ela ficaria realmente louquinha com aquelas fortes fragrâncias. Adiante, a uns vinte metros, outro rapaz, junto a outra caixa de papelão, repetiu, a sorrir: “Não envelhece, não?”… Dessa vez, não detive os meus passos. O que na primeira vez pareceu um elogio, — que chegou a mexer com a minha vaidade por segundos —, na segunda, me pareceu ofensa.

*Texto de REALidade, lançado pela Scenarium em 2017.

Participam do BEDA: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Darlene Regina / Suzana Martins / Lunna Guedes

BEDA / Corpo Matutino

Noite de calor, manhã morna
Dormimos sem tirarmos os nossos fluidos
Os seus do meu, os meus do seu corpo
Acordo para a labuta
E antes de sair percorro os meus olhos
Pela pele que lhe recobre
Tento compreender a magia que faz
Com que me traga tantos e imensos prazeres
Mesmo depois de tantos anos a percorrê-la
Com a minha boca, mãos e pontas dos dedos
A penetrá-la com a minha impetuosidade
Saio do quarto sem beijá-la, sem tocá-la
Quase fujo
Para cumprir os compromissos do dia…

Foto por Angela Roma em Pexels.com

Participam do BEDA: Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Darlene Regina / Mariana Gouveia / Suzana Martins

BEDA / Colações Do Espaço*

FASES
Quando jovem, escrevi:
“Pelo buraco que sou eu
Passam luzes, sons
E pessoas calçadas…
Ah! Quem teria a sinceridade
De passar por mim descalço?”
Agora, jovem há mais tempo,
Me pergunto se aguentaria uma relação
com tanta franqueza assim…

INTRUSO
Um dia, em direção ao Mont Blanc de Campos de Jordão de dez anos atrás, fotografei uma das belas casas da área. Quando revelei a foto, um elemento humano, bem ao canto, desequilibrou a harmonia austera da paisagem concreta. O que fazia aquele menino, posicionado para a foto de alguém que passasse naquele horário deserto?

VISTORIA
Amanhece e a Lua
como uma pequena mancha pontua
o tecido azulado
Borrão luminoso a ser prontamente varrido
pela poluição antes
e pelo Sol, logo mais.

PERA
A pera sobre a pedra preta.
Esfericidade ferida à espera de ser absorvida.
A ideia de fruta madura torna-se absoluto conceito alimentar.

A BOMBA
Pelas ondas do rádio recebemos por uma última vez as notícias que todos nós temíamos ouvir: ondas de radiação mortal propagavam-se desde o epicentro da explosão ao norte,
varrendo toda a vida pelo caminho…

AUSCULTA
Conectividade, mas artificial.
Vozes, sons, sinais.
Comunicação, mas interceptada.
A cada conquista tecnológica,
a cada antena instalada,
um fosso se cria entre antenados
e marginalizados,
todos nós, colonizados.
Celular ao ar.

POSSIBILIDADES
Os meus óculos formam o escudo
que me protege os olhos
enquanto capto a luz do seu olhar.
Sem eles,
só vejo bem de perto,
mas aí, eu me perco.
Pelo caminho?
Não, em seus olhos…

NAVEMÃE
Do prédio do hospital até o estádio têm-se quinhentos metros. Do quarto 674, avisto a nave mãe. Centro de peregrinação, preces e emoção. Item alienígena na fé do cristão. Camisas de cores diferentes separam os seus tripulantes entre aqueles perdedores que pensam ser os vencedores e entre aqueles perdedores que se sentem os perdedores. De novo. Enquanto isso, flores da antiga árvore descem sobre o carro ferido. O ser aparentemente imóvel, mas vivo, joga a sua vingança colorida sobre aquele objeto móvel, que um dia já matou.  

ORCAS
Orquídeas florescem displicentemente
no outono paulistano.
Logo dormirão.
Enquanto isso, dominam a nossa atenção.
Ou: por ser ideias de orcas fluorescentes,
decididamente lhe outorgam
ser um bom plano viver belamente.
Logo, dominarão a nossa imaginação.

*Textos e poemas de antes de 2010, que seriam postados no meu blogue que apenas foi inaugurado em 2017.

Participam do BEDA: Lunna Guedes / Suzana Martins / Roseli Pedroso / Darlene Regina / Mariana Gouveia

BEDA / Meu Blogue

Reprodução de uma das fotos que tirava com celulares nos anos finais do século XX.

Lunna,

após dez dias em que atuei em doze eventos diferentes, sem tempo para escrever ou ler da maneira que queria, passei os olhos pelos textos das participantes do BEDA. A sua postagem de segunda-feira me estimulou a falar sobre como iniciei o meu périplo nesta plataforma. Aliás, foi você mesma que me ajudou a moldá-lo, sete anos depois de ter me inscrito no WordPress, sem fazer nenhuma publicação até então.

A minha intenção desde o início foi o de criar uma espécie de diário de bordo, com pequenos textos que buscassem interpretações alternativas sobre fatos prosaicos, como o de colocar no centro do meu olhar os óculos como o que aparecem na imagem. Não me lembro exatamente o que escrevi, mas parece que ao descrever o objeto que usava para ver melhor, eu o tornasse um personagem autônomo, com personalidade alternativa à minha.

Essa e outras “viagens” em torno do meu ego, uma visão de mundo pessoal, muitas vezes sem conexão com os dados verificáveis da realidade plausível, eu imaginava serem pertinentes e foram formuladas de forma esparsa, aqui e ali, em um período que havia me distanciado do exercício da escrita. Eram como se voltasse a um vício do qual queria me distanciar. Depois, com o surgimento das redes sociais como Orkut, Facebook e esta, percebi que me faltava justamente expressar as minhas expressões de mundo.

O problema é que não sabia a mecânica de como postá-las. O que creio até ter sido benéfico em termos, já que pude amadurecer o processo da feitura dos meus textos suficientemente sem ter o desejo de jogá-los fora. A sua chegada em minha jornada de escritor, até aceitar que eu fosse ser chamado como um, não foi apenas pelo lançamento de um livro que eu escrevi e você editou e lançou. Mas porque eu aceitei o ser.

O WordPress se tornou para mim uma espécie de Arca de Noé, onde os meus bichos são guardados, navegando por anos até aportar em terreno seco quando as águas baixarem… seja lá o que isso signifique. O mais certo que eu o considere uma Cápsula do Tempo onde guardo o que eu escrevo ou escrevi, de produção um tanto irregular em termos de qualidade, mas que determina o meu desenvolvimento – para melhor ou para pior – no meu caminho para me tornar o melhor escritor que eu possa ser.

O meu blogue – Serial Ser ¡Com licença, poética! – é a minha herança. Quando os meus próximos ou qualquer um tiverem curiosidade em me conhecer, um ser errático em constante ebulição, por amor a mim ou por curiosidade sobre mim, muito do que eu penso ou penso entender, evocará a lembrança do eu pensei ser e escrever…

Bacio!

Participam do BEDA: Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes / Darlene Regina / Mariana Gouveia