BEDA / Quatro Anos Antes*

Há dois anos, postei imagens de um #TBT de *2020, quando fiquei “preso” na nossa casa da Praia Grande. Foi decretado o fechamento das estradas como as que a ligavam para São Paulo. Esse período de isolamento só não foi ideal porque o acesso às areias e o mar foi também interditado. Uma medida radical, visto que ainda não havíamos entendido completamente os efeitos do vírus, tão misterioso quanto letal. As praias foram retomadas por pássaros como gaivotas, garças e gaviões. Pude observar essa dinâmica durante as minhas caminhadas ou deslocamentos por bicicleta. Os pombos, muitos espertos, perceberam que não havia mais à disposição os restos alimentares dos seres humanos e migraram para o lado das moradias, continente adentro onde, como na minha casa, tinham a ração à disposição dos cães para se alimentarem. Por elas, era acordado pelo alvoroço ruidoso que faziam ao invadirem o comedouro do Fred e Marley, que passavam presos dentro de casa (se não o fizesse, a casa acordaria de pernas para o ar) às 6h da manhã, quando as minhas despertadoras entravam em ação. Para quem crê que os efeitos do que aconteceu há dois anos deixaram de repercutir na vida social, é só observar a baixa vacinação contra a Dengue entre crianças. Muitos dos pais embarcaram na ideia negacionista quanto aos avanços científicos. Para se ver que os vírus de várias cepas atacam de morte a estrutura social.

#TBT de dois antes, em 2020, pleno início da Pandemia de Covid-19 e dos pesadelos do negacionismo, desassistência institucional do Governo Federal e da mortandade que crescia em proporção assustadora. O sorriso da primeira foto escondia o temor da exposição a um vírus desconhecido que matou, até o final do ano passado, antes do advento da variante Ômicron, cerca de 6 milhões de pessoas no mundo todo. Segundo a revista científica Lancet, o número pode ser três vezes maior do que o apurado.

O Brasil, que gosta de ser grande em tudo, incluindo o do desequilíbrio social e econômico, perdeu para os Estudos Unidos da América o posto de maior possuidor de mortos pela doença causada pela Covid. 10% das mortes ocorreram por aqui. 30 milhões de casos deixaram vários acometidos com sequelas pelo o resto da vida. Há dois anos, mal sabíamos todo o sofrimento que se desenrolaria graças a uma confluência de fatores, incluindo a péssima administração do governo central, entremeado por corrupção acobertada por orçamentos secretos, atraso na compra de vacinas e orações para o deus dinheiro.

Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso / Bob F.

BEDA / No Azul*

Manhã de abril,
outono no hemisfério sul…
Na parede,
a refletir no teto,
um caminho azul…
Olhos cerrados
e desnudos de lentes —
miopia cativa
e imaginação ativa —
pronto!
A minha vida a se perder
nas primeiras horas do dia,
a invadir o azulado ponto…
Por ele avanço,
ultrapasso idades,
volto a ser infante,
ser desregrado,
beligerante…
pai ausente,
menino em busca do sagrado
da existência,
do amor, da paciência —
ciência da paz que cria
vir com a experiência…
Ainda que cansado,
continuo o percurso
de quem morre e revive
espantado…

*Adaptado de poeminha de 2017

Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso / Bob F.

BEDA / Meu Sol Particular

Comecei a reparar que um ponto luminoso surgiu de início pequeno. Depois, feito o Sol que se agiganta pouco a pouco a cada manhã de Verão, se instalou do lado direito de quem vê a tela do televisor. Nesta cena de Fallout, está lá o meu sol particular a fazer parte da paisagem apocalíptica, assim como na Inglaterra nublada de Pobres Criaturas ou em jogos da NBA ou da Premier League do Futebol inglês.

Procurei saber do que se tratava e descobri que é causado por um defeito resultado do descolamento de refletores que são posicionados na frente dos LEDs, criando esses pontos de luz na tela. Esses refletores tiveram algum problema no processo de colagem, caindo sozinhos, resultando nesse problema. Nada poético, portanto, tem a ver com o surgimento de meu solzinho, por enquanto sozinho no firmamento de minhas paisagens irreais ou reais.

Esse buraco branco luminoso acompanhará as minhas imagens televisivas por um bom tempo. Não vejo necessidade premente em trocar de aparelho ou mesmo “consertá-lo”, pois o processo é trabalhoso e nem sempre satisfatória a consequência. Ou mesmo que não fosse. Esse “sol-efeito-defeito” foi me dado inesperadamente e não consigo me desapegar dele, como a me lembrar que esse ponto que irrompe em minha tela talvez exista para manter a minha fé na imperfeição da Vida…

Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso / Bob F.

BEDA / Ver*

Como podemos perder a noção das coisas, estando na posição errada, apenas como observadores — no horizonte, o Sol parece apenas um pequeno corpo luminoso — quase sendo alcançado pelos urubus que volteiam próximos ao morro. No entanto, sabemos que essa estrela é milhões de vezes maior que o nosso planeta e é por seu calor que nos mantemos vivos na Terra. Creio, mais intensamente ainda, que o que é mais importante não nos é dado a ver através de nossos olhos de carne.

*Texto de 2015

Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso / Bob F.

BEDA / Último Pensamento

tudo poderia ficar para depois
mas as lembranças não adiam a estadia
enquanto os esquecimentos fazem morada permanente
não há mágoa mas há
para mim vivo não dias porém eternos minutos
passo a passo e em cada um deles para cada memória
aleatória
uma parte de sombra e perdas
porque não fui feito para interagir mal consigo
lhe dar comigo me olvido de mim
esqueço quem sou
para onde vou
não sei de onde vim
me sinto apartado do mundo mas nele vivo
quantas vezes no chuveiro olho para os meus pés
em contato com o piso alagado de reminiscências
que escoam pelo ralo
a água é meu elemento preferido principalmente a salina
nas ondas peito os enfrentamentos e afogo
meus desejos enquanto os afago
sim
eu os tenho sou movido por eles os refuto conscientemente
ainda que os concretize
na temporada junto ao mar chuvas constantes
raios que matam e ferem
após um dia em inquietude desejei ir para a areia
tarde em escuridão de nuvens carregadas
efeitos de zcas el niño la niña seres humanos
apesar disso entrei oceano adentro
me banhei de penitência pensando que talvez morresse
cercado de solidão a minha miopia imperante
meus últimos pensamentos na desconhecida
de todos
visão para outro estado de ser
talvez morresse naturalmente
fulminado por um raio
mas sobrevivi para continuar
a magoar…

Foto por cottonbro studio em Pexels.com

Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso / Bob F.