desço os olhos para as linhas que desenham rostos e paisagens em fotos de décadas repassadas em cores e descores cumpro o destino da flecha atirada por Chronos personagens dos quais sou um e mais nenhum papai vovô irmãos sonhos em desvãos que nunca foram realizados os meus indecifráveis vivia fora do mundo aceitava sem sorrisos que cedo morreria quase obsessão aos 33 de Cristo aos 40 de John aos 27 de Morrison sempre haverá quem morra jovem em cada uma das idades aos borbotões a toda hora ainda não foi a minha agora se for antes dos 80 morrerei contente não sei de amanhã vivo o presente lembro que vovô me amava me achava inteligente antes de partir cuidei dele banhava o ajudava a comer caminhar pedi perdão porque sabia que não cumpriria as suas ambições não queria ser homem importante influente intendente industrial comerciante buscava ser simples despojado pés no chão me sentia desmembrado desmemoriado de um passado que sabia existir vidas passadas realidades não alcançadas já entendia que o futuro não contava mas ainda cultuava a esperança um país diferente múltiplo raças misturadas riqueza distribuída hoje morro todos os dias às vezes de hora em hora a grandeza desmesurou-se em sentido contrário nos apequenamos repugnantes ruminantes de mentiras e contradições dos templos ocupam-se os vendilhões crenças transformadas em crendices fé em feitiçarias em salões dourados em palácios de mandatários estamos nos finais dos tempos mais um tempo de finais no eterno ciclo de decadências e de mercados baratos na venda de consciências…
Meu pai, eu e meu irmão, em Foz do Iguaçu, à caminho de Missiones (Argentina), onde vivia a minha avó paterna (1985)
Fazia cerca de quatro anos que não ia ao dentista. Considerando o tempo fracionado em antes e depois da Pandemia, dois anos sem comparecer ao lugar onde já sofri muito. Mas não me lembro das dores que senti, então é como se eu fosse testemunhar algo que aconteceu com outra pessoa. Assim como me esqueço das dores de minhas unhas do pé encravadas (hoje, domadas), dores de cabeça (chatas, mas relevadas), de estômago (uma delas se tornou uma gastrite hemorrágica), contusões no futebol.
Aliás, parece que joguei futebol em outra vida. Parei quando os meus contemporâneos deixaram de jogar ou de me chamar para as peladas. Nós finais de semana, normalmente estava em atividades profissionais e nem sempre podia estar presente. Ainda sonho que jogo futebol, quando normalmente não consigo chutar, correr ou sequer fazer um passe correto. São quase pesadelos se eu não percebesse a tempo que fosse sonho e forçasse acordar para não sofrer mais. Tenho por mim que fomos “criados” – nós, seres humanos – para sermos felizes, tomando a mim mesmo como exemplo. A memória claudicante ajuda…
O incrível é que carrego uma melancolia da qual não quero me desfazer. Além de me martirizar por coisas que não posso controlar. Eu me pego muitas vezes surpreendido por circunstâncias que, de tão óbvias, até crianças percebem de antemão. Uma forma de ingenuidade doentia. Tento controlar minhas palavras e ações para que não diga ou faça algo que acabe por ferir alguém, mas acontece. E como dizia a minha mãe, o “Inferno está cheio de bem-intencionados”.
Outra faceta de meu comportamento é começar por um assunto e desmembrá-los por outros tantos. Tenho outras várias distorções de comportamento. Uma delas é de não avaliar ou julgar ninguém de antemão. Ainda que dê muito valor à minha intuição. Por presunção ou desejo, cada ser vivente que observo considero que tenha uma história para contar. Antes que possíveis personagens, são pessoas que merecem consideração como tais. Não importando o status aparente que carregam. Bem sabemos que fatores exteriores e aparência não definem caráter de quem quer que seja.
Estava contando que fui à dentista. Na avaliação feita pela Drª. Ana, além do dente quebrado no fundo de meu “bocão” (um siso, que decidi retirar), ela voltou a mencionar o meu dente de leite. Sim, vindo à luz em 1961, às 2h manhã de uma segunda-feira, portanto, completando hoje 61 anos fora do útero de Dona Madalena, carrego um firme e forte dente de leite, logo à frente da minha arcada dentária. Ao comentar sobre ele, aduzo que morrerá comigo. Como disse, costumo viajar por temas supostamente simples e comecei a especular se não seria eu a morrer com ele. Sei que os dentes e ossos resistem muito mais tempo materialmente, calcificados e sem vida.
Os dentes de leite ou decíduos fazem parte da primeira dentição e decididamente “nascem para cair”. A função é ocupar espaço na boca e ajudar a criança nas primeiras mastigações. Começam a cair por volta dos 6 anos de idade, ou seja, o meu dente de leite de estimação resiste há dez vezes mais anos do que o normal. A sua composição é menos mineralizada do que os dentes permanentes. Deveria não suportar estar em minha funérea arcada dentária por muito mais tempo. Isso, se não fosse a minha pretensão ser cremado. Mas como não estarei consciente para me auto incinerar e nem pretendo fazer uso do suicídio pelo fogo, talvez me façam juntar o meu corpo ao do meu pai (só dessa maneira para estar ao seu lado) no jazigo da família.
Para quem ache estranho a falar de morte de maneira tão natural é porque sei que sendo a medida real da natureza humana, a morte torna a vida minimamente suportável e intensamente misteriosa. Para quem versa sobre a existência como eu, não faço segredo do quanto a vida é um presente em que o Presente deva ser vivido com toda a força, apesar do Passado nos trazer surpresas todos os dias. Desejo viver plenamente meu último quarto de vida. O Futuro é hoje.
Eu e meu irmão, Humberto, em Matão, no início dos 80′.
Sempre fui uma pessoa passadista. Desde garoto, gostava de viajar por tempos idos, buscando e encontrando a minha identidade em outras épocas. Isso não me impedia que fosse para um futuro imaginado. H.G. Wells, Monteiro Lobato e Júlio Verne, entre outros, além de filmes de ficção científica, me descolocavam para outros lugares e idades imaginados.
Lendo muito, visitei versões de Grécias, Romas, Pérsias e Egitos. Decidi fazer o curso de História, ao mesmo tempo que era atraído por Filosofia, Psicologia e Sociedade. Definitivamente, eu era um sujeito de Humanas, ainda que os números me fascinassem. Apenas porque me eram incompreensíveis. Embora, perfeitos per si só.
O fato é que quase nunca estava no Presente e no mesmo Espaço do meu corpo. Ausente das pessoas, passeava distraído da minha própria presença, numa espécie de alienação que me custou lembranças apenas resgatáveis por imagens e relatos de terceiros. Como nesta foto em que estamos, meu irmão e eu, na praça central de Matão, para onde fomos para rever terras que foram da família adotiva de meu pai, no início dos Anos 80.
Os meus cabelos desgrenhados tentavam tanto refletir os ecos cada vez mais distantes do movimento Power Flower, como denotava a influência do movimento black. Eu era atraído pela Soul Music e o R&B norte-americanos, bem como pelo samba-rock, uma vertente brasileira do Funk de James Brown, que também apreciava. Chegava a usar garfos para pentear os meus fios, assim como no banho, os lavava com sabão de coco, baixava a cabeça e deixava a água cair para os deixar encaracolados.
Porém, outra utilidade da cabelereira era me proteger. Sentia-me normalmente desambientado e em contrapartida não fazia nenhuma questão de me entrosar. O que o futebol com os amigos e colegas de classe contrapunha para que não fosse uma situação mais grave. Ligado à espiritualidade oriental, o meu desejo sempre foi o de transcender em vida. Um erro, já que a minha evidente inexperiência se transformou em profunda inaptidão para a vida prática. Mas talvez por minha aparência alternativa, chamava a atenção. Os meus sempiternos óculos ajudavam a bloquear olhares que o manto peludo deixava apenas entrever.
Para evitar possíveis gozações, mantinha uma postura marrenta e um tanto distante. Enfim, um rapaz esquisito que amava as mulheres tanto quanto fazia questão de mantê-las afastadas. Sentia-me inseguro quanto ao que dizer e quando falava alguma coisa, receava que fosse inadequado por não usar o jargão cotidiano da turma. Afinal, Machado de Assis era o meu escritor favorito e volta e meia utilizava termos que os olhares denunciavam incompreensão ou estranhamento jocoso. Que fosse considerado estranho era menos doloroso do que me acharem doido ou, pior, causasse dó.
Consegui ultrapassar todas essas barreiras erguidas por mim mesmo e chego até aqui podendo versar sobre essa época em que estava sempre por um fio em minha sanidade. Não no sentido de loucura, mas de saúde mental mais prosaica – ansiedade – que descobri que tinha desde pequeno, além de “crises existenciais” seguidas por saber que não conseguiria me contrapor ao Sistema. Quando decidi abandonar o projeto de me tornar Frei Franciscano, empreendi o caminho de cumprir o destino de pai de família, microempreendedor e, finalmente, escritor. Pertenço ao Sistema ao qual sempre defenestrei, mas sei que com amor tudo pode ser diferente.
Voltava da votação de domingo quando, ao subir por uma ladeira, o vi claudicante em seus passos magros tentando escalar centímetro a centímetro o caminho tortuoso guiado por seu faro em busca de comida. Soube disso apenas depois ao passar por ele e seus olhos anuviados de cegueira provocada por catarata. Velho, ossudo, pernas muito compridas para seu corpo apequenado, quase foi atropelado por dois carros que subiram em curva. Duas crianças brincavam na calçada e uma delas, uma menina com roupa de igreja (saia comprida e justa), quase chutou o pequeno ser, exclamando: “sai daqui cachorro magrela e feioso!”.
Continuei a minha caminhada por alguns metros. Olhei para trás e o serzinho ficava rodeando um entulho de restos levados pela chuva até uma reentrância feito um apêndice supurado. Voltei, pequei o pequeno no colo, que mijou em mim, talvez de medo. Leve feito uma pluma, quando pensei em perguntar para as crianças se conheciam o “dono” da criatura, elas já tinham se afastado. Eu o coloquei de encontro ao meu peito que, protegido por uma jaqueta plástica, impedia que eu me molhasse, caso voltasse a fazer xixi. O Sol brilhava, mas o dia estava frio. O pequeno Alexandre, nome que surgiu como ele tivesse se anunciado, tremia.
Apesar de ter cachorras resgatadas em casa, tirante a Dominic, que nasceu da Domitila, que fora também resgatada, nunca fui eu a pegar um bicho na rua. Por que este? Por estar desnutrido? Por ser velhinho? Por ter sido quase chutado por uma “criança dedicada ao Evangelho”? Não sei. Não pensava em Francisco, nem que a data comemorativa do meu santo estivesse tão próxima. Havia dormido um pouco mais de quatro horas depois de ter trabalhado umas vinte. Outubro, apesar de ser o mês em que nasci, começou estranho para mim. É como se estivesse em outro País. Um que não tivesse sonhado nem em meus piores pesadelos. Um pesadelo redivivo, de décadas passadas – coturnos pisando em nossas mentes. Que eu tenha cometido essa ação de certa maneira foi um pedido de socorro que foi atendido. Não apenas dele para mim, mas de mim para ele.
Neste dia de São Francisco, em memória do rapaz que um dia quis ser frei franciscano, eu abençoo o bichinho que surgiu no asfalto íngreme como se fosse a subida para algo melhor. A minha irmã disse que eu deveria procurar os eventuais cuidadores. Ao observá-lo mais de perto, concordou que Alexandre, O Pequeno, estava há vários dias sem comer dada à magreza que permitia que seus ossos fossem contados. Devido à cegueira, maior em um dos olhos do que em outro, e às condições físicas, pode ter saído por um portão, caminhado à esmo ou fora abandonado. Quando cheguei em casa, ofereci um pouco de comida a qual devorou em poucos minutos. Logo em seguida, dei um banho que Alexandre aceitou relutantemente. Eu o sequei, o envolvi em uma toalha quente e ele adormeceu entre almofadinhas. Quando acordou, dei um pouco mais de comida. Chegou a rosnar baixinho quando cheguei perto. Estava melhor.
Ontem, enquanto a Lolla estava no quarto com a mãe e as outras meninas – Dominic, Bethânia e Arya – estavam presas em uma parte cercada, deixei que passeasse pelo quintal. Ousado, farejou por todos os cantos. O melhor procedimento é evitar que as outras tenham contato com ele, pelo menos por enquanto, mas quando se encontraram por um breve momento, trocaram cheiradas mútuas. Creio que se darão bem. Sei que terá relativamente pouco tempo de vida. De fato, ninguém sabe quanto tempo nós mesmos temos de existência neste plano. Terei paciência para que volte a receber um carinho sem que pareça uma agressão. O que eu desejo é que Alexandre, O Pequeno, meu salvador, seja atendido em suas necessidades básicas até o final de sua jornada. Quem não quer?
Haroldo, em uma das apresentações da Orquestra Tupy no Clube Piratininga
“Certa vez, lá pelos idos dos anos 60, na época da televisão ao vivo, fazíamos uma dupla de palhaços, eu e o meu irmão, Fran. Montamos um quadro em um programa infantil que custou o nosso emprego. Inventamos de encenar um par de palhaços ‘afetados’, com as devidas vozes, caretas e trejeitos. Fizemos os tipos tão bem que a emissora recebeu uma enxurrada de reclamações de pais indignados, que não houve jeito!…
Mais recentemente, promovi uma Noite do Clube das Mulheres que foi um grande sucesso! O único problema foi o Batman que quase foi, literalmente, devorado pelas boas senhoras que, ensandecidas, queriam agarrar o moço a todo custo. O Batman fugiu para o camarim e eu fui atrás dele, pedindo para voltar. Visivelmente assustado, o herói balançou a capa de um lado para o outro e respondeu: – Não volto, não. Tô com medo!”…
Soubemos, eu e meu irmão, Humberto, dois dias depois de ocorrido, do passamento de Haroldo Rodriguez, promotor de bailes de dança de salão da noite paulistana. Essas, e muitas outras histórias, nos foram passadas por ele. Nos últimos anos, o Haroldo promovia os bailes das quintas-feiras e dos domingos no tradicional Clube Piratininga. Há quase vinte anos, o conhecemos promovendo bailes no Clube Atlético Ypiranga, juntamente com o seu sócio, Dida. Fomos apresentados a eles pelo Osvaldo Sandoli, outro promotor e condutor de orquestra, que juntamente com o seu sócio, Décio, nos levou para trabalhar na S.E. Vila Maria, para a sonorização dos eventos de sábado, durante muitos anos.
Enfim, todos eles, foram eminentes figuras da noite que já não estão mais entre nós, encarnados. Configuravam um grupo saudoso de ativistas da alegria, que uniam abnegação e desprendimento para continuar a promover eventos que dependiam de vários fatores externos, muitos alheios às suas vontades, como bom clima, afluência do público interessado, boa escolha de bandas e orquestras, bom trabalho de técnicos, eficiente fornecimento de alimentos e bebidas, custo equilibrado da locação do salão, um time bem treinado de auxiliares de confiança e vários outros fatores, etc. Tudo para atrair a presença dos dançarinos.
No período de dois anos, perdemos o Francisco, pai e seu irmão, FranciscoFilho e, agora, ele. O último contato que tivemos se deu através do telefone, há duas semanas. Percebi que estava com a voz titubeante. Então, me informou que não estava tão bem, com certos problemas de saúde. Perguntou se estava tudo certo para o baile do dia 18 de agosto (passado), domingo, com a Orquestra Anos Dourados. Respondi que estaríamos lá e que na ocasião poderíamos conversar melhor. Já no Piratininga, soubemos que não viria para apresentar, como fazia costumeiramente, o evento.
Era um craque da comunicação e conduzia as coisas a tornar tudo mais estimulante, citando o nome de vários dançarinos, contando histórias inventadas, composta de retalhos de fatos verdadeiros, que apenas os iniciados conseguiam desvendar a origem. Perguntamos se o Fran faria as vezes de mestre de cerimônia e soubemos que ele havia falecido cinco meses antes. Ficamos chocados e, ao final do baile, o Humberto disse que, sem a presença do Haroldo, não sentiria mais tesão para trabalhar nesse tipo de evento, que não nos rendia tanto financeiramente, a não ser pela satisfação de rever velhos amigos.
O Haroldo era um artista visionário, que fazia um tipo de palhaço diferente, décadas antes da consagração do tipo pelo Cirque Du Soleil. Que apostava no surgimento de novas tendências, ao mesmo tempo em que prestigiava antigos nomes da música. Com ele, tivemos a oportunidade conhecermos e trabalharmos com as grandes orquestras – Sílvio Mazzucca, Maestro Zezinho, Tabajara, Osmar Milani… – com os nomes da velha Jovem Guarda – Os Incríveis, Renato & Seus Blue Caps, Golden Boys, Wanderléa… Igualmente com grandes cantores de antigas eras , como Jamelão, Moacyr Franco, Francisco Petrônio…
Além dos “anônimos” – uma grande massa de trabalhadores e músicos da noite paulistana, muitos, nossos amigos, um universo à parte. Uma brincadeira corrente que fazemos neste meio é sobre a possibilidade desse pessoal todo, que está indo à frente para a outra dimensão, nos chamar para desempenharmos os papéis que desempenhamos aqui na Terra. Agora que o Haroldo atravessou para o outro lado, tenho certeza que as coisas ficarão mais interessantes por lá. Ele, em chamando, verificaremos a disponibilidade de data e faremos o evento alegremente, quando o Grande Promotorde Eventos, Deus, permitir. Por enquanto… Até um dia, amigo!…