A Chegada Da Páscoa Ou Análise Do “Big Crunch” Pelo Efeito Comercial-Temporal Observável*

O Big Crunch não haverá! “O Big Crunch é uma teoria segundo a qual o Universo começará no futuro a contrair-se, devido à atração gravitacional, até entrar em colapso sobre si mesmo. Até 1998, pensava-se que a velocidade com a qual as galáxias se afastam deveria diminuir com o tempo, devido à atração gravitacional entre elas. A este princípio, alguns astrofísicos chamam de ‘memória elástica’ universal.” (Wikipédia).

A partir de 1998, através da observação de supernovas muito distantes, os cosmólogos descobriram que a velocidade da expansão universal está cada vez mais rápida e aparentemente não há condições de ser revertida. Estudos recentes tentam buscar explicação na implicação da matéria escura e energia escura.

De qualquer maneira, um possível efeito que podemos observar em nosso cotidiano é a sensação da passagem cada vez mais acelerada do Tempo, associado à estrutura espacial. Essa sensação é corroborada pelo apelo comercial que, com maior frequência, oferta-nos cada vez mais cedo campanhas publicitárias exaltando a próxima temporada de comemorações. Normalmente de origens religiosas, com o avanço do Capitalismo, ganharam contornos mercantis com o passar do Tempo. Aliás, a associação entre Fé e Comércio é tão antiga que, há mais de dois mil anos, um certo Profeta se revoltou contra isso e expulsou os vendilhões do Templo.

Nos supermercados — templos designados à outros deuses — já podemos observar a chegada dos ovos de Páscoa, enquanto sobras de panetones do Natal dividem espaço com os enfeites de Carnaval. Mais um pouco, os doces e temperos das Festas Juninas conviverão com os chocolates de Abril, enquanto as chamadas para o Dia das Crianças e do Halloween, estarão coladas a do Natal, com o indefectível Papai Noel à frente, a disputar espaço entre as gôndolas, em uma briga colossal, digna do Final dos Tempos.

Por essa e por outras, é que uma dona-de-casa ou qualquer outro cidadão comum, têm muito a ensinar a qualquer teórico físico quântico ou astrônomo que vive a observar galáxias distantes, sobre a aceleração da expansão do Tempo-Espaço…

*Texto de 2016

Foto por Foto por André Moura em Pexels.com

A Moça De Aquário

A Moça De Aquário e eu, antes da Pandemia, reunidos no lançamento de “Confissões”.

Eu vi uma foto sua postada em que o meu neto de quatro patas, o Bambino, está diante da velha entrada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, local onde você estudou e se formou em Direito. Respondi à postagem dizendo que nunca imaginei na época que fiz três ou quatro eventos musicais por lá, que um dia uma filha minha estudaria naquela prestigiada instituição. Já havia utilizado outras áreas do Campus, mas quando sonorizamos a apresentação de Os Demônios da Garoa no sagrado TUCA, o teatro que foi incendiado à época do regime de exceção, em 1968, além de sofrer dois outros incêndios em 1984, no aniversário do primeiro e dois meses depois senti uma forte emoção ao ver as paredes laterais crestadas, gritando a sua relevância. Foram tentativas de calar movimentos libertários nascidos no seio artístico e estudantil um marco de nossa História. Também nunca imaginei que reviveríamos as mesmas ameaças da época da Ditadura, com a arte sendo atacada da mesma forma. Hoje, devido à Pandemia de Covid-19, o Campus inteiro da PUC-SP se encontra fechado. A vida está fechada. Vivemos uma Quarta-Feira de Cinzas depois de um não-Carnaval. Vivemos tempos nebulosos, entregues à sanha de um dos cavaleiros do Apocalipse Peste, Fome, Morte e Guerra. Para quem revelou que o negócio dele é matar, não duvido que represente a Morte. A Peste, já a estamos vivendo. A Fome é nossa companheira constante, mas crescerá diante do atual quadro recessivo e a Guerra já não é um desejo tão secreto do sujeito ao qual me refiro.

Quando você se formou há seis anos, lhe disse que estávamos deixando uma pesada herança para quem viesse depois de nós. E que também que não acreditava que veria um País melhor antes que eu viesse a morrer. Mesmo não sendo tão otimista, não passava por minha mente sequer metade dos problemas que presenciamos hoje no Brasil. Porém, quando a vejo diante de mim e testemunho a sua força, determinação e preparo, alguma coisa se acende em mim. Não diria esperança, porque não sou do time dos esperançosos, muito talvez por ter visto tantas vezes os brasileiros ludibriados por seus representantes, que deixei que esse sentimento se esvaísse pelos bueiros de nossas cidades sujas. A Democracia a ser aviltada por usurpadores de direitos e que colocam os seus desejos pessoais à frente dos coletivos uma nação tão rica, mas tão desigual. O fenômeno que eclodiu como pústula em 2018 não é causa, porém consequência de nossa condição de indigentes éticos. Como nasceu com o signo que carrega o futuro nos olhos e por tudo que realizou em sua vida, acompanhada de amigos e amigas talentosos e lutadores, o destino deste país pode não estar totalmente perdido.

Ingrid, meu amor, como eu gostaria de lhe fazer votos de felicitações, de alegria e alento! E apenas isso! Contudo, a realidade se impõe e não gostaria de ser desonesto consigo se não me mostrasse como o faço agora, inteiro. Ainda que um tanto ácido. Este é o meu presente! Você sabe que eu não tenho como lhe dar, neste momento, nada de regalo material… Eu lhe desejo saúde, sim; paz, sem dúvida; amor, mais do que já tem, se isso for possível! Eu lhe desejo o melhor do mundo. Mas sei que, como eu, você gostaria que o mundo todo também tivesse o que lhe desejo. Por isso, além de amá-la, eu a admiro. Pois você, aquariana, acredita na redenção dos contraventores, na inocência dos despossuídos, punidos antes mesmo da pena imputada, condenados por apenas existirem. Você é uma mulher ímpar, um ser do Bem, alguém que é devotada ao outro, que ama, amável que é! Se errar, será por amar, o melhor motivo. Já disse algumas vezes que sonhei com vocês três em minha vida, ainda um garoto imberbe, antes que pudesse entender o que isso significava. Cria num Brasil emancipado, equânime e justo para vocês. Apesar de tudo ou por causa de tudo que passamos para chegarmos até aqui e agora, não desejaria outras pessoas ao meu lado. Vocês me fazem renascer todos os dias! Especialmente nos dias em que recordo os seus nascimentos. Mas hoje, os meus parabéns serão somente para você, meu amor!

Amor, Será Que Quero Ser Seu Amigo?*

Amigos?

Duas pessoas que se amam, juntas há muito tempo, têm que tomar certos cuidados um com o outro. Um deles, é manter acesa a chama do desejo recíproco. Muitos dirão que isso não é uma circunstância controlável. De certa forma, concordo parcialmente. Pessoalmente, no entanto, creio que além da boa sorte de continuar a sentir atração pelo parceiro de longa data, algo de base indefinível, deve haver um esforço de ambas as partes, caso queiram permanecer unidos no relacionamento.

No decorrer da vida em comum, devemos nos predispor a ouvir a companheira ou companheiro nos momentos mais cruciais da união; no surgimento das eventuais crises; nos episódios em que um dos dois venha a falhar no cumprimento dos acordos feitos. Nessas situações, devemos controlar o ímpeto para não cairmos nas acusações vazias de parte a parte apenas para ganharmos pontos na rixa. Cicatrizes incuráveis podem sobreviver pelas existências afora, ainda que o casal se separe. O trauma de um relacionamento mal resolvido muitas vezes impede que um ou outro, senão os dois, possam ser felizes em novas relações. Na verdade, isso vem a ser o desejo secreto de muitos.

Porém, outra questão pode ser colocada em pauta — como manter a paixão mútua e ainda ser amigo de sua parceira ou parceiro? Ouço e leio que certos ingredientes da paixão vêm a inviabilizar que a vida amorosa dê lugar ao entendimento e/ou compreensão das coisas mais simples. O ciúme seria um desses componentes. O ciúme é uma emoção que perpassa pela História humana, desde a Bíblia, como no episódio do assassinato de Abel por Caim, a passar pela construção habilidosa da trama de Otelo, por Shakespeare e até surgir como temas de canções populares pelo mundo a fora.

A ser algo tão poderoso, oblitera a visão de quem o sente e devemos tentar domá-lo para que um relacionamento com paixão não venha a desencadear em crimes passionais de menor ou maior gravidade, de corações partidos a peitos rasgados por facas. No entanto, tentar compreender o companheiro, entender as demandas de lado a lado, além de um exercício de engrandecimento espiritual dos pares pode propiciar uma consequência indevida. O tesão talvez seja prejudicado. Essa é uma ponderação polêmica, mas não menos real. Passar de apaixonados e amigos (além de cúmplices) para amiguinhos é uma questão de dosagem bem tênue. Como manter o fogo no olhar a cada encontro, manterem-se amantes impetuosos e enamorados, sem prejudicar a relação de irmandade familiar e vice-versa?

Concluo que essa experiência é pessoal e intransferível. Deve ser vivida sem regras pré-estipuladas e sem adjetivações prévias. É uma viagem que cada casal deve empreender sem medo de ser feliz; sem que um e outro perca a individualidade. Se casais decidem elaborar um estilo de vida que seja mais ameno e sem sobressaltos, que seja. Se desejam manter a flama incandescente de namorados, que consigam alcançar a compreensão do amor sem ferimentos graves. Sem humilhações e a morte de consciências. Caso contrário, não há química que os faça ficar unidos…

Foto por Allan Mas em Pexels.com
*Texto de 2017

Sobre Meninos E Homens*

Meninos jogando de bolinha de gude. Rio de Janeiro, 1940.

De antemão, já aviso que este texto pode parecer um tanto escatológico. No entanto, o que relatarei a seguir fala sobre algumas intimidades masculinas e, por extensão, sobre as nossas deficiências e eficiências em sermos tão patéticos.

Eu me lembro de meu pai dizendo que se surpreendera certa vez com um peido inesperado de minha mãe e exclamou: “Nossa! Pensei que as mulheres fossem divinas!”. Evidentemente, todos nós, como seres humanos normais, animais que somos, estamos sujeitos a arrotos e flatulências. Inclusive, é comum entre os garotos competições dos vários tipos de manifestações fisiológicas, além de cuspe ou esporro à distância, o que em último instância, demonstra admirável autocontrole.

Sim, mulheres — mães, namoradas, esposas e amigas de homens — nós somos nojentos. Nem todos, obviamente. Eu mesmo, nunca quis participar desse tipo de torneio ou mesmo de troca-troca. Mas não me deixava de sentir certa invejinha por não conseguir ser solto o suficiente para tanto. No máximo, jogava bolinha de gude na terra onde gatos e cães faziam as suas necessidades (o que me ajudou a aumentar a minha imunidade), porém eu não era tão bom assim em atingir as outras bolinhas de gude no triângulo ou emborcá-las no circuito de cinco buracos em “L”.

Eu adorava jogar futebol e apesar da minha inaptidão física e estilística, era esforçado e através de solitários e intensos treinamentos, melhorei bastante os meus fundamentos. O que me faz lembrar que o esporte favorito dos meninos quando descobrem a sexualidade é a masturbação. É uma prática costumeira, eu diria, costumeiríssima… E a prática leva à perfeição! Mães, se querem que os seus filhos não mintam, nunca perguntem porque o espinhento demora tanto no banheiro. Porém, se masturbar não se resume apenas à adolescência. Também é um costumeiro exercício masculino, mesmo entre os adultos — homens sozinhos ou já esposados. Mulheres, não achem que seja algo estranho. Aliás, não duvido que muitas não lancem mãos (ou dedos) da mesma ação. Saibam que isso garante a fidelidade de corpo aos respectivos cônjuges em muitíssimos casos. Já não posso garantir sobre a fidelidade na imaginação…

Tudo isso para dizer que há poucas diferenças entre meninos e homens. Talvez, o tamanho. Talvez, a perda da inocência. Talvez, a esperança de ser feliz como um passarinho quando voa, tal e qual foi na infância. Mas quem estiver atento, pode perceber o brilho no olhar do homem, como se fora um garoto, quando adquire um carro (brinquedo) novo, quando joga bola no domingo com os amigos ou quando recebe a benção de sua mãe. Muitas vezes, será por causa desse menino ainda existente no homem que uma mulher virá o amar…

Texto de 2015*

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Vitrines

Costumamos entender como vitrine um mostruário reservado a um canto ou logo de frente, normalmente envidraçado, para que o interior seja mostrado, mas não tocado. Pode conter peças de roupas, sapatos, peças, utensílios, mercadorias diversas, etc. São, basicamente, objetos de desejo do ser humano para ele ou para outrem próximo — uma amostra de possibilidades de estar (para alguns, ser) — de se mostrar como quer ser visto por ter ou utilizar. Expandindo para maiores possibilidades, o mostruário não precisaria estar fisicamente limitado por impedimentos ao toque do anseio.

Vale do Anhangabaú

Em uma das saídas do Metrô Anhangabaú, me deparei com o edifício a espelhar o passado através do prédio do lado oposto. Esse confronto de concepções temporais faz desta cidade a contradição em movimento constante. Uma imagem explica a outra, a divergem no mesmo instante. Um vale de lágrimas no meio.

Homem estátua em frente ao Mosteiro de São Bento

Sob o sol de 35ºC, um artista trabalha como estátua viva. Representa um suado guerreiro da Idade Média (talvez?) diante de uma das mais antigas construções de São Paulo. É um homem-vitrine deste tempo, de si e do País. Da minha carteira quase vazia, saquei os meus últimos 2 Reais, todo o dinheiro físico que eu tinha.

Manequins longilíneos

Este mostruário contém uma típica vitrine. Revelam roupas reais para corpos irreais. Longe dos biótipos brasileiros. Quem compra, compra a imagem, além do tecido e do corte. Sabe que não ficará como a vitrine adjetiva, mas como peixe que abocanha a minhoca, não resiste ao apelo.

Casa Mathilde — Doçaria Tradicional Portuguesa — Desde 1850

A Casa Mathilde inteira era a sua própria vitrine. Esta imagem me deixou muito triste. Frequentei algumas vezes este local e vivi por momentos a experiência de viajar a Portugal através de sua doçura feito pães de ló e queijadas, pastéis (de nata e de Belém), pudins e trouxas de ovos, entre outras delícias. Era apenas experimentação, como se fora coisa preciosa, que era, mesmo. Tanto devido ao preço quanto a Diabetes. Agora, não sei se voltará a reabrir tão cedo… ou nunca mais.

Vitrine de loja de instrumentos musicais e aparelhos de som

Esta vitrine contém sonhos. Trabalho com músicos e sei o quanto cada instrumento carrega, para além de seu corpo e suas cordas, a cadência, o andamento, a destreza, os “calos” nas mãos e na alma adquiridos em treinos e ensaios para um dia um artista se apresentar diante de uma plateia para alegrá-la, comovê-la, conduzi-la para outros lugares e sonhos. São os sonhadores a fazerem sonhar através de arte de iludir e enlevar — transporte para outros tempos e lugares. Que sonhemos… mas nunca será sem muito esforço.

Avenida Ipiranga, quase esquina com a Avenida Rio Branco

São Paulo, final de Janeiro. Eu caminhava em direção à Praça da República desde a Rua Santa Ephigênia e percebi que aquela seria uma imagem ideal que revela o contraste da vida paulistana entre a idealização e a realidade. Há um esforço grande para a revitalização do Centro. O edifício que apresenta uma pintura em que pessoas “descoladas” enfeitam sua parede lateral foi levantado com o objetivo de atrair moradores de um maior poder aquisitivo. É uma das vitrines do projeto. No entanto, as pichações já demonstram que a manutenção é complicada. Na calçada, encostados a essa mesma parede, sem-tetos observam a cavalaria policial passar. Quem quiser morar por ali, talvez não se sinta à vontade para conviver com a crueza abjeta do nosso estilo de vida.

Alê Helga — Mariana Gouveia — Lunna Guedes