À caminho da academia, estava sempre a passar por ele. Desde que o vi pela primeira vez, simpatizei com o hominho de lata. Porém, passado algum tempo, algo mais aconteceu — lhe puseram óculos. Pronto! De imediato, me senti identificado! Eu “nasci” de óculos… Ou melhor, não me reconheço sem eles, figurativamente… A saber que as coisas mais intensas que faço são na penumbra, sem rejeitar a luz que se instaura…
Ali estava a mim mesmo, consubstanciado — homem que nasceu para ser nuvem, mas se tornou lata — enrijecido pelo tempos a fora em pose de quem carrega peso e a função de sorrir, ainda que o mundo lhe envergue as costas… Acreditei que foi boa sorte a minha de tê-lo como companheiro de percurso, a lembrar de minha pequenez de hominho de lata, em busca de um coração…
*Texto de 2016 — Atualmente, em 2020, tanto deixei de ir à academia por causa da Pandemia de Covid-19, quanto os valores dos combustíveis na placa do posto, estão o dobro ou mais…
Encomendei um produto pelo Mercado Livre e fiquei agradavelmente surpreso pela facilidade de trânsito entre as partes – o ML, como meio de venda e o produtor do item. A Internet é uma faca “de dois legumes”, como diria o filósofo Vicente Mateus, mas que bem utilizada, facilita as transações econômicas, principalmente em um mundo baseado no livre comércio, como até a China percebeu.
Contudo, todavia, mas, porém, como já cantou Rita Lee, estamos no Brasil. E estamos ainda enclausurados em feudos – coisa de Idade Média – que impedem que a Revolução Francesa traga os seus benefícios, ainda que já tenha se desenrolado há mais de duzentos anos. Vivemos em um sistema de castas e cartórios, localizados em marcos e condados. A nobreza (adquirida ou comprada) monopoliza setores inteiros no Brasil e ainda dita as normas nestes rincões.
Um desses monopólios são os Correios. O produto que solicitei foi disponibilizado dia 21, com a promessa de entrega entre 26 de outubro e 3 de novembro. Ou seja, tivemos que, aqui em casa, montar um sistema de revezamento na expectativa do recebimento do produto pago à vista. Como não havia chegado até a data prometida, rumamos para a central de distribuição da Zona Norte de Sampa, distante cerca de 12 Km da minha residência. Trabalho normalmente á noite e fui deitar às 4h30. Tive que acordar ás 8h, para poder chegar logo na abertura dos Correios, as 9h, com duas horas de funcionamento, no sábado, até às 11h.
Com o número de envio do produto em mãos, que eu soube ser necessário para quem mora onde eu moro, pude resgatar o item que comprei para incrementar o meu negócio. É um investimento para que possa melhorar o meu serviço. Durante a chamada crise, investi pesadamente em insumos para que pudesse continuar o meu trabalho, ainda que tenha que realizar um esforço triplicado para manter o mesmo nível de rendimento.
No guichê dos Correios, a funcionária, apesar de não solicitar, tinha uma desculpa na ponta da língua, quando percebeu que eu estava contrariado com aquele imbróglio. Informou que a entrega para a minha região era feita sob escolta de uma empresa de segurança. Respondi que sabia que morava em uma área de risco, que nem o Uber atendia, mas que nunca sofrera nada por lá, enquanto já fora quase assaltado no Morumbi. Ela retrucou que não era apenas isso. A escolta era necessária durante todo o percurso das mercadorias. Nesse caso, qualquer ponto do trajeto poderia ter o veículo interceptado e ter a sua carga roubada. Então, o problema deixava de ser de segurança pública em um ponto específico, mas em toda a cidade.
De qualquer forma, o fato de ser um serviço monopolizado, impede a agilidade de um setor fundamental para o incremento de negócios – pequenos, médios e grandes – a distribuição de mercadorias do produtor ao consumidor. Enquanto o crime se organiza, inclusive ocupando setores importantes da sociedade, via legislatura, judiciário e administração pública, ficamos atados por correias que emperram o nosso desenvolvimento. A sociedade está refém de um sistema que assalta por fora e por dentro. Afinal, até o Fundo de Pensões dos próprios Correios sofreu desvio de seus recursos por antigos administradores. Seus funcionários (que até outro dia estavam em greve), são obrigados a retirar uma porcentagem a mais de seus vencimentos para cobrir o rombo.
As correias, na mecânica, são cintas feitas de materiais flexíveis, normalmente camadas de lonas e borracha vulcanizada, que servem para transmitir a força e o movimento de polias ou engrenagens de um motor. No entanto, encripadas, impedem um motor de funcionar. Correios sem agilidade e correias sem função, palavras quase sinônimas, vêm a constituir alguns dos fatores do nosso atraso como País.
Termos um Pet significa que entregamos nossa dedicação e amor a um ser que, virtualmente, deverá viver menos do que nós. É um exercício de coragem, entrega e fortaleza. O termo “Pet” se popularizou no Brasil, a designar preferencialmente aos animais de estimação — cachorros, gatos, pássaros, roedores, répteis, peixes, ofídios , etc. O significado, em inglês seria o de animal ou, mais extensivamente, de animal favorito. Que “meus” cães e pássaros não me ouçam, mas não há como dizer que todos sejam favoritos. Ouso dizer que, como filhos ou netos, há um mais querido do que outro. Não direi quem seja o meu nem sob tortura.
Bethânia
A Bethânia é minha companheira do entardecer. Com ela, tenho passado os crepúsculos, quando eu observo o Sol se por e, ela, a fiscalizar o movimento da rua, enxerida que só, a latir para cada pessoa que passa. Chata! Seu ciúme já a fez merecer um capítulo em meu livro de crônicas — REALidade.
Dominic & Domitila
A Domitila é mãe da Dominic, mas cresceram separadas. Quando teve a sua única gestação, distribuímos os filhotes da Domitila e conosco ficou a Frida, de saudosa memória. A Dominic ficou com a minha irmã, minha vizinha. Quando a Frida ascendeu, sua irmã veio para o nosso lado. De início seu comportamento arredio foi se modificando e hoje é uma carinhosa companheira de todos os momentos, sempre procurando a presença humana.
Bambino
Bambino é meu neto, filho da Ingrid. Ele foi recolhido de um abrigo no interior que sofria ataques de uma onça. Sobrevivente, veio para a casa da família, a qual visita ocasionalmente. Atualmente, fica com a minha filha no apartamento onde mora, sendo tratado como um “Princeso“, seu apelido, paparicado por todos que vivem ou frequentam a “Prainha“.
Lolla Maria
Conosco há cinco anos, a Lolla, minha outra neta, filha da Lívia, é voraz e preguiçosa. De idade indefinida, já que foi resgatada como todas as outras, tirante a Dominic, a mocinha gosta de banana, mamão, abacaxi, mexerica e laranja, além da ração que lhe damos. Supomos que não seja tão nova. Surgiu uma mancha no olho direito, tinha maminhas intumescidas quando a recolhemos, sinal indireto de que tenha gestado. Tem a linguinha mais rápida da Zona Norte e rouba beijos de quem estiver desatento…
Arya
A guerreira Arya é a cachorra mais cremosa que existe. É tão fofa que todas querem agarrá-la e apertá-la. Apenas temos que tomar cuidado para não machucá-la, já que sente dores em virtude da Cinomose que foi detectada ainda cedo. O tratamento é constante e tem dado suporte a sobrevivência com qualidade, apesar dos sintomas progressivos. Entrou por nosso portão adentro e conquistou a todos quase imediatamente. Espero que fique conosco muito tempo ainda, enquanto tiver forças.
Dulce / Elton John & Kardashians
A Dulce tem cerca de doze anos, já. Com as patinhas um pouco atrofiadas, com o peitinho depenado, a recebemos para substituir outra calopsita da Romy. Ela teve dois companheiros. Um deles voou para “nunca mais” e o outro faleceu. É uma companheirinha ainda cheia de vida. Os ganizés Elton John e as Kardashians — Kim, Kendall e Kyllie — chegaram recentemente. Era um desejo antigo da Tânia e para receber essa turma, montamos um bom galinheiro no Yellow Brick Road Garden — meu projeto para esta Pandemia de Covid-19. A Kim, uma mistura com galinha normal, bota ovos azuis. Com essa criação estou revivendo meus tempos de granjeiro de duas décadas de vida.
O Sol e as estrelas Os navios e os barcos à vela As luas e os planetas A quinta dimensão e as quintas As bruxas e as profetisas Os mares e as brisas As musas e os poetas As lesmas e as borboletas Os asseclas e os obreiros Os pacíficos e os guerreiros Os práticos e os sonhadores As flores e as cores Os insetos e as bactérias Seres de todas as matérias Os sapos e as serpentes A Terra e as sementes As lembranças e os esquecimentos As tempestades e os bons ventos Os prazeres pequenos e os plenos As águas boas e os venenos Os homens e as pedras As igrejas e as cátedras As preces e os ditos definitivos Os remédios e os lenitivos As dores e as doenças A morte e a vida e as crenças Os amantes antigos e os modernos Os amores súbitos e os eternos Todo o bem e todo o mal Sob a abóbada celestial…
Há dois dias, enquanto limpava o meu quintal, na rua ouvi passar um veículo anunciando a venda de ovos. O alto-falante apregoava: – “Ovos, ovos fresquinhos, trinta ovos por R$ 10,00!”. O pregão completava: “Caso não tenha dinheiro, trocamos por Tele Senas!”… Apesar de lembrar que a minha mãe comprava muito, não estava a par do que se constituía a Tele Sena e pesquisei. Ela vem a ser vendida, na verdade, como um “titulo de capitalização”, com premiações eventuais em dinheiro para quem faz mais ou menos pontos, na “raspadinha”, no momento da compra ou até o prêmio de uma casa, em sorteios especiais. Ao final de um ano, mesmo que não ganhe nenhum prêmio, o portador recebe a metade do valor que “investiu”. Acrescentada à inflação, o retorno é, obviamente, um péssimo investimento.
Dadas essas características, o nome de título de capitalização se perde. Capitalizar, para mim, tem o condão de, pelo menos, preservar o poder de compra do dinheiro investido. A não ser que… A não ser que o portador seja um sortudo e que venha a ganhar um dos prêmios. O que, dado o universo de “investidores-jogadores”, tem uma chance muito pequena de acontecer. Fora o fato de ser um valor menor se tivesse, simplesmente o comprado diretamente, depois de economizar para isso. O componente do jogo faz com que aquele pedaço de papel adquira um poder mágico, proporcionado pela possibilidade de que seja sorteado para um dos prêmios.
Fiquei a imaginar no caso daquela pessoa que tem uma Tele Sena, ainda vigente e que não tem mais nenhum centavo em casa, além daquele papel e que esteja passando fome. Será que aquela pessoa viria a trocar os jogos por ovos? A possibilidade pela certeza? O “quem sabe?” pela omelete? O vazio no estômago pela satisfação? Para mim, a resposta é óbvia, se bem conheço o brasileiro. Eu não jogo, por isso, digo que ganho toda semana. Mas para quem tem o bichinho do vício no sangue, o embate íntimo ganharia proporções dramáticas e a troca da Tele Sena pelos ovos seria como uma tentação do Demo. Ao final, sei que aquele dia seria mais um dia de fome. O “quem sabe?” venceria…