sentado em meu trono me pergunto ora quem é o dono de meu destino aproveito para forçar a saída e em um segundo defino que é meu intestino evacuar definiu o caminho da humanidade civilizações que criaram meios de como recolher nossos dejetos e encaminhá-los para longe de nós se tornaram as mais desenvolvidas as mais aptas a dominar às outras por saber lidar com seu cocô o intestino que bem funciona impulsiona o poder mental de quem o carrega não há intriga não há dúvidas nem desvios o sorriso prevalece se sente feliz por poder evacuar com regularidade com o prazer de deixar marcas em barro por onde passa constato o que é claro o que sempre se soube quem é senhor de sua mente não desmente — sabe que tem o rei na barriga.
todos juntos acima do chão a caminho de buscar respostas guardadas no peito como pássaros que vão em direção ao por do sol além do horizonte as encontrarei? provavelmente não porque respostas não há se sabe que não são o fim em si em sim em mim…
A Lívia foi a última a chegar. Mas a não menos importante para compor a nossa família. Hoje, completa 30 anos (!). Parece que foi outro dia que eu ficava insistindo para comer um pouco mais enquanto ela fazia manha. Das três, foi a que aceitou fazer natação e treinar basquete porque o pai esportista gostaria que fosse eventualmente uma atleta. As três irmãs são muito unidas e eu, ingenuamente me surpreendi ao saber que criaram um grupo de mensagens entre elas em que os pais talvez sejam um dos tópicos ou nem tanto. Não sei o que é pior…
Há um ano ou menos — não sou afeito ao calendário factual — alugou com o namorado Pablo um apartamento em que ensaiam a vida de casados. Como acontece frequentemente, deixou a filha Lolla Mariaaos cuidados dos avós. Não porque não quisesse, mas porque ela não se adaptou ao espaço. Cheia de manias e de uma eterna fome, ficava latindo quando não encontrava seus humanos em casa.
Lolla Maria
O nome Lívia deriva de Liv Ullmman — atriz, diretora de cinema, além de escritora — por quem fui apaixonado quando jovem, assim como fui por Romy Sceneider e Ingrid Bergman, que deram nome às outras duas filhas. A minha paixão pelas mulheres não é apenas física, mas sou fascinado pelo poder que carregam e que os homens tentam de todas as maneiras obliterar. As mulheres que inspiraram a nomear as minhas filhas são exemplos de pessoas que marcaram seu tempo com comportamentos que fugiam ao estereótipo da mulher conformada com o papel tradicional da fêmea da espécie. Das três, apenas Liv vive e continua atuante como artista, depois de 60 anos de carreira.
Lívia & Pablo em seu apartamento
Talvez as minhas filhas sintam que eu esteja um tanto distantes delas, mas acho que devo dar espaço para que encontrem sem pressão os seus caminhos, façam as suas escolhas e tomem as suas decisões. Elas sabem que estarei sempre à disposição para apoiá-las no que quiserem. Eu desejo que a que encerra a fábrica Ortega alcance todos os seus propósitos, incluindo os artísticos, com a Elebonde, seu projeto de DJs com o Pablo. Quem sabe, um dia, não participem de um festival desses grandes por aí? De você, menina, eu não duvido de nada!
Eu sempre tive cães sob a minha guarda. Tarzan, Gita, Fofinha, Cloé, João foram alguns dos mais antigos e tantos e tantos outros. A minha mãe era cachorreira. Não podia ver um cãozinho perdido ou solto na vida que trazia para casa, mesmo quando não tínhamos tantos recursos. Dona Madalena pegava nos açougues carnes que seriam jogadas fora para que eu cortasse em pedaços e, misturadas a arroz com casca, então desprezado, fazer a comida da turma. O cheiro não era nada bom na grande panela e cortar bucho não era nada fácil. Mas como já era apaixonado por essas criaturas, não deixava de me esforçar para fazer a comida das crianças.
Como já realcei em outros textos, quem adota essas “pessoas”, sabe que terá um tempo menor de convivência devido a duração em anos menor delas. Então, é comum a tristeza nos abater vez ou outra diante das suas partidas. Mas vale a pena termos contato com esses seres especiais, verdadeiros educadores sentimentais. Com eles, aprendemos, mesmo nos pequenos gestos, olhares e comportamentos que podemos ser melhores do que somos. Como a homenagear a minha mãe, uma única vez resgatei um deles — o Alexandre. Já escrevi sobre ele. É o que aparece na primeira foto. Incialmente arredio, hoje me recebe de manhã ou quando volto pra casa com a alegria de quem é sabedor de que é amado. Com eles, me sinto uma pessoa melhor.