BEDA / Scenarium / Sofá Com Pimenta*

SOFÁ COM PIMENTA
Bethânia, a inocente

Qual o limite do amor? Ou, como prefiro expressar – o limite de amar? Uma das fronteiras que facilmente podemos averiguar ultrapassadas se dá visualmente em nosso sofá. Um sofá com pimenta… e rasgos.

Dado o fato que as “meninas” da casa, especialmente a Bethânia, começaram a morder os cantos do sofá, passamos a colocar pimenta para evitar que continuasse a rasgá-los. Pelo visto, Bethânia entendeu o condimento como se fosse um incentivo, porque outras partes do sofá começaram a ser devidamente abocanhados.

Quando a pegávamos no ato da transgressão, a admoestávamos, dávamos tapinhas de contrariedade, mas parece que a memória dela era menor do que a vontade imensa de deixar as suas marcas em um local tão frequentado por nós, seus humanos, com os nossos cheiros.

Afora os pelos deixados pela mais velha, Penélope, com 13 anos, que tem o privilégio de dormir dentro de casa apesar dessa tosquia involuntária, dos xixis esparsos, nós nos desdobramos para deixar a casa menos bagunçada e limpa. Em outros tempos, principalmente para a Tânia, seria motivo de desespero apenas a ideia de um pelinho no chão.

Podemos estar, aos olhos externos, menos asseados, mas creio que ganhamos em registro de fragrantes fulgurantes do amor. Por fim, apesar da precariedade e do desequilíbrio de conceitos, podemos ver crescer a apreciação que amar também é aceitação dos defeitos e das fraquezas de quem está conosco, humanos ou não.

*Desde esse texto de 2017, a degradação do sofá progrediu a ponto de não ser mais possível recuperá-lo. Não apenas esse, o maior, como os outros dois, individuais. Tivemos que comprar outros para substituí-los. Usados. Os atuais estão resistindo bravamente, muito devido ao fato de a Bethânia ter ficado mais velha e mudado o seu comportamento.

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BEDA / Scenarium / Desempregado

DESEMPREGADO

Estou desempregado. Dono de meu próprio negócio, não fui eu a me demitir. Porém estou impedido, por efeito do estabelecimento da Quarentena, de exercer a minha atividade – locação de equipamentos de som e luz para eventos: festas de casamento, aniversários, eventos empresariais e promocionais, bailes de salão, etc. Filmes e novelas interromperam as gravações. Peças deixaram de ser apresentadas. Músicos, bailarinos, artistas circenses, atores, diretores, técnicos, roadies, “maquinistas”, contrarregras e várias outros profissionais na área do congraçamento, entretenimento e da celebração da cultura, da vida e da arte, principalmente aqueles que atraem um grande público, também se encontram paralisados. Seus locais de atividade – teatros, casas de espetáculos, salões de clubes, hotéis, bares e restaurantes, estão fechados compulsoriamente por decreto. Seus funcionários – garçons, servidores diversos, do setor administrativo ao de serviços gerais, estão recolhidos. Ginásios e clubes, locais onde os diversos esportes, mormente os coletivos, que empregam atletas, massagistas, preparadores físicos, administradores, entre outros, igualmente adiaram sine die suas competições. A principal delas – as Olimpíadas de Tóquio 2020 – foi adiada para Julho de 2021.

Está proibido reunir pessoas em ambientes fechados ou mesmo abertos para comemorações. Foi estabelecido o chamado isolamento ou distanciamento social horizontal. Apesar do meu sofrimento psicológico e prejuízo financeiro, já que as contas não param de chegar, sou a favor da medida. Sua adoção refletirá na diminuição do número de infectados e da mortalidade causada pela doença provocada pela pandemia do Covid-19. Os governos mais sérios, orientados pela maioria dos infectologistas mais importantes, adotaram essa mesma norma. Quem não o fez a tempo, como a Itália e Espanha, contam os seus mortos aos milhares em pouco tempo, gerando caos no sistema de atendimento nos hospitais, com leitos insuficientes de UTI e desequipados dos respiradores necessários à sobrevivência dos casos mais graves.

Apostando contra a letalidade do surto, um governante surtado, apoiado por sua equipe de entendidos apenas em jogo sujo, desenvolve uma campanha espúria para contrapor-se àqueles que adotaram as medidas mais duras e corretas no contexto que se apresenta. Apoiado na propaganda de que tiraria o País da inércia e alardeando que propiciaria um rápido desenvolvimento econômico, as medidas que paralisaram diversos setores e provocou a diminuição da produção em muitos outros foi um duro golpe em seus planos para reeleger-se em 2022. Aliás, mal assumiu o seu posto de presidente da República, JMB iniciou a campanha eleitoral para o próximo mandato. Suas ações dúbias em muitas ocasiões e claramente obtusas em outras, escudadas por declarações cada vez mais desvinculadas do mínimo bom senso, beirando a requintes de psicopatia, incrivelmente ainda encontra defensores “encantados” – na repetição de um comportamento-espelho de uma parcela da população que referendou atitudes temerárias dos governos anteriores a este.

Quando o atual quadro se aclarar e pudermos ter uma visão mais ampla do processo pelo qual estamos passando, espero estar vivo – sendo diabético, faço parte do grupo de risco – para poder contar mais histórias. Desejo que a ficção que eu produza não seja tão sem nexo quanto a realidade que se apresenta – canhestra e inconvincente. Que nos libertaremos de quem seja incapaz de empatia-solidariedade humana e se apraz em agir contra seus semelhantes por pura mesquinharia. Devemos provar que, juntos, agindo coletivamente, podemos superar estes momentos cruciais da nossa História.

Beda Scenarium

BEDA / Scenarium / Varredura

Varredura

Em ciclos que se repetem, nós vivemos nossas precariedades íntimas ou públicas. Muitas vezes, coletivamente como ocorre no caso de doenças endêmicas. O relato a seguir completou, em março, cinco anos de seu início. E, até hoje, me afeta com repercussões maiores e menores no corpo. Assim como repercute as nossas decisões pessoais e coletivas em nosso cotidiano anos a fio.

“Hoje, estou em um quase inusitado dia de folga neste mês de março. É certo que tive uma vacância um pouco maior na semana retrasada, mas quase não conta, já que passei pelo pior período da dengue que me assolou. Vivemos uma situação de epidemia dessa doença em minha região, que fica na Zona Norte de São Paulo. De manhã, fui à UBS do meu bairro levando os exames de sorologia que comprovavam o contato com a dengue. O que fiz é o procedimento necessário para a notificação da mesma e soube, pela enfermeira que me atendeu, que já temos 180 casos relatados oficialmente por aqui.

Nunca pensei que, mesmo morando na periferia, vivesse uma situação tão precária na área da Saúde. Afinal, estamos na maior e mais rica cidade da América Latina, a de maior desenvolvimento econômico do Hemisfério Sul. Não estou aqui a acusar especificamente nenhum governo em particular. Somos todos responsáveis pela situação que ora se apresenta. Mesmo porque somos nós que elegemos os nossos representantes legislativos e executivos. E uma condição como a que passamos não se estabelece de um dia para o outro. É um longo processo que devemos saber resolver, mais cedo ou mais tarde, através da conscientização coletiva.

Neste meu dia de folga, limpei o meu quintal, verifiquei possíveis focos de reprodução de mosquitos e resolvi problemas burocráticos da minha pequena empresa. Em determinado momento, deixei de varrer para atender telefonemas, responder e-mails e comer alguma coisa. E adivinhem? Quando voltei, fiquei surpreso com o fato de que a sujeira que eu estava a varrer… continuava no mesmo lugar.

Sim! Nada acontece magicamente! Se não terminarmos nossas tarefas, elas não se resolverão por si só. Continuei a varrer-conjecturar e não deixei de lembrar que a símbolo da vassoura é muito forte para designar um movimento. Estudioso de História e Filosofia, sei que a vassoura já foi muito utilizada para se chegar ao Poder e de que qualquer boa intenção é normalmente manipulada pelos espertos de plantão.

Percebo que o efeito da simbologia sobre a consciência dos Homens é tão poderoso que os manipuladores (nem sempre os mais sábios, mas sim os mais práticos) conseguem tornar até mesmo as pessoas mais bem-pensantes em títeres na busca pelo Poder. Limpar nossas ideias de falsos pressupostos e deixar de nos envolver por sofistas é um trabalho constante.

Bem, vou continuar a varrer…”.

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O Preço da Saudade

O Preço da Saudade

Um dia depois de retornarmos de viagem, no Natal do ano passado, fui limpar o piso do quintal dos resíduos habituais: poeira, cocô dos peludos, seus pelos, folhas, ramos, muitas mangas – inteiras ou chupadas. Quem não viu um cão chupando manga, se sentirá decepcionado, principalmente se for um que se deixa levar por preconceitos. Talvez pinte até certa inveja ao perceber o quanto é hábil no mister de deixá-la limpa até o caroço.

Em uma das casinhas, encontrei um dos meus sapatos devidamente “customizado” por algum dos cães, dos quatro que ficaram em casa – Bambino, Domitila, Dominic e Arya. Lolla ficou com a “avó” e Bethânia foi conosco. Além do sofrimento normal de ser apegada a nós, ela fica transtornada com os fogos que insistem em espocar em uma data que deveria ser de silêncio e reflexão – utopia minha.

O par de sapatos foram deixados em uma mureta para serem limpos na cobertura onde fica a lavanderia. Encontrados, foram usados para brincar, acalmar os nervos e, eventualmente, mitigar a saudade. Por eliminação, suponho que tenha sido um dos mais novos – Arya ou Bambino – eles têm folha corrida de antecedentes. Domitila não tem esse costume e a preferência da Dominic é roer panos e cobertores. Ela chega a retirá-los todos das casinhas e roê-los com gosto até ser advertida. Porém, não é o caso de encontrarmos um “culpado”.

Todas as vezes que nos ausentamos por mais tempo, temos que montar uma rede de assistência para que os bichos sintam o menos possível a nossa ausência. Nesta oportunidade, foi o meu irmão, Humberto, que os alimentou e cuidou para que tivessem atenção e a presença humana. Na noite de Natal, pedi para que deixasse a porta da sala aberta para que se sentissem mais abrigados e confortáveis. Bambino, que tem histórico de refugiado, segundo o Humberto, tremia inteiro a cada rojão estourado. Domitila também sofreu bastante. Em jogos de futebol, é comum ela associar o som do locutor a gritar “goool” a fogos explodido e começar a arranhar a porta para entrar.

Nós, da parte humana da família, nos sentimos responsáveis pelo bem-estar dos nossos cães. Qualquer afastamento tem que ser programado e ponderado de modo que não inflija tanto desgaste. É o preço a se pagar ao nos tornarmos cuidadores desses seres inigualáveis. Quanto ao valor do sapato, por maior que seja o prejuízo material ou o dinheiro gasto, será amplamente compensado pelos ensinamentos que nos proporcionam de fidelidade, para além das demonstrações de amor e carinho.

O Poetinha E A Patriazinha

Em 2015, o desafio poético a que fui chamado no Facebook fez com que eu me colocasse diante de escolhas reducionistas, mas que, ao mesmo tempo, ampliaram a busca por mim mesmo, perdido por rotas antigas, tortuosas, memórias passadas e rotas. Alguns poemas revistos ganharam, em determinados momentos, uma importância inaudita, como este aqui, de Vinícius de Moraes. Em mais uma “Canção do Exílio”, tanto quanto a primeira, de Gonçalves Dias, o “Poetinha” chora pela saudade de sua terra natal, um Brasil que se reinventava-reinventa sempre o mesmo, como drama antigo, de trama tão clássica quanto canhestra. Este tempo que atualmente vivemos é, de certa forma, também um lugar distante. Nele, lembramos do País que não existe mais, e que, o sei muito bem, para o qual, se voltarmos, voltaremos como farsantes…
Ao pesquisar sobre “Pátria Minha”, encontrei esta informação:
Feito na prensa particular de João Cabral de Melo Neto, em 1949, Pátria Minha é o que então se chamava de plaquete (ou plaqueta). A publicação é feita a partir de um único e longo poema de Vinicius. Amigos desde 1942, quando Vinicius visita Recife com Waldo Frank, os dois funcionários do Itamaraty se correspondiam com frequência nessa época. Era o período em que Vinicius ainda estava em Los Angeles e João Cabral, em Barcelona. Foi a partir do poema enviado para a leitura de João Cabral que ele teve o impulso de fazer os 50 exemplares do poema artesanalmente, na sua prensa e editora caseira conhecida sob o selo O Livro Inconsúntil. O livro foi uma surpresa para Vinicius, com quem Cabral deixou todos os exemplares. Em uma carta escrita em outubro de 1949, o poeta-editor diz em um P.S. para seu amigo carioca que: “Não distribuí o livro a ninguém. Faça-o a vontade. E me mande um com dedicatória”. – In: http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/poesia/livros/patria-minha
Em Fevereiro de 2015, eu ainda não havia conhecido a Scenarium Plural – Livros Artesanais – selo que carrega o mesmo teor de O Livro Inconsúltil em sua manufatura artesanal – de Cabral de Melo Neto, um dos maiores poetas do País, que nos presenteou ao trazer à luz esta expressão de brasilidade lírica de Vinícius de Moraes. Em meados daquele mesmo ano, Lunna Guedes, escritora-editora, apresentou a oportunidade de me expressar como escritor. Decidi adotar essa função-missão-querer como definição de meu ser social. Com relação ao Brasil, tenho o relacionamento dúbio de amor-e-ódio-torcedor-distorcedor, amante sem ser amado.
Pátria Minha
A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!
Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!
Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.
Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.
Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”