22 / 04 / 2025 / BEDA / Natureza No Asfalto*

Onde estou?… Em São Paulo, junto à Represa de Guarapiranga. Esta cidade é imensa e plural, onde podemos conviver com a decadência arquitetônica do Centro, por descuido dos administradores ou percorrer caminhos juntos à novos edifícios, construídos feitos Torres de Babel, nas marginais do Rio Pinheiros, poluído e mal cheiroso… ou apreciar a Natureza em todo o seu esplendor de força e beleza, como aqui pode se perceber — em Clube Atlético Indiano.

*Texto de 2013

20 / 04 / 2025 / BEDA / Ciclo*

Varrer o quintal pode ser uma tarefa enfadonha, mas a faço com o prazer. No chão, jaz restos de processos biológicos que, antes que pareçam vestígios da morte, perfazem uma etapa da vida, que sempre se renova!… Eu não sei se conseguiria viver em apartamento, por esse e por outros motivos. Varrer me ajuda a meditar. Limpar o jardim externo ou um quintal é como varrer o nosso jardim interno e retirar vestígios que nos atrapalham. Colocarei as folhagens em um local onde faremos um novo canteiro. De volta à terra, ciclo vivo. apenas de reposição de matéria orgânica natural. Eu, há muito tempo, li um livro chamado “A Vida Secreta das Plantas”, em que os autores, dois botânicos, inferiam, pela pesquisa que realizaram, que esses seres, aparentemente inertes e sem vontade, empregavam algum tipo de comunicação química ou sensorial entre eles e desenvolveram algo parecido com “emoções” ou “sentimentos”, aspectos que qualquer dona-de-casa que cuida com amor de suas flores ou jardineiro de longa data já perceberam.

*Postagem de 2011.

19 / 04 / 2025 / BEDA / Estrada

Por algum motivo obscuro, as minhas quartas-feiras caíram no vácuo. Na semana passada, esqueci que estava agendada a minha terapia, às 10h. Dormi até tarde, já que havia deitado às 5h. Nesta quarta, a mesma coisa – esqueci da sessão, novamente às 10h. Não percebo nenhuma correlação, mas talvez haja. Só que desta feita dormi às 2h e acordei às 6h30. Havia agendado com a minha podóloga às 8h. Costumo utilizar essas visitas para caminhar. São 6,5Km de onde eu moro até o Limão, onde fica a clínica. Demoro uma hora e quinze minutos para completá-la. Com a Milena, trato das minhas unhas encravadas uma vez por mês.

Na caminhada até a clínica, entre subidas e descidas, encontrei pessoas que de alguma forma me impressionaram. Passei por uma senhora de belos cabelos brancos que se sentara numa mureta para descansar, ladeada por seu cão tão velho quanto ela. Eu sorri quando o vi e ao olhar para ela, sorriu para mim porque eu sorri para ele. Comecei o meu dia com um momento de aproximação com pessoas (incluindo o cão) que talvez nunca mais voltasse a ver, mas registrado o sentimento de união, viverão para “sempre”. Considerando que “sempre” nunca é para sempre. Mais adiante, um rapaz com uma camiseta de futebol com o nome de Vinni Jr. no costado, jazia semiconsciente numa esquina à espera da abertura do bar. Reflexos da derrota brasileira em terras argentinas no dia anterior?

Hoje mesmo, botando o papo em dia numa intimidade que três ou quatro anos de tratamento construiu, disse à Milena que a doma das minhas recalcitrantes unhas dos dedões do pé, me levaram à conclusão há algum tempo que ao vivermos um estado de equilíbrio saudável, esquecemos com facilidade que um dia sofremos alguma dor ou ela deixou de ter relevância. Ao me falar sobre seu filho, Pedro, que estava fazendo terapia, lembrei que tinha a minha, mais tarde. Abdicaria da volta à pé, como era a minha intenção.

Com a Milena, gosto de conversar sobre o moço que vive a fase da adolescência de uma maneira que me é familiar. Talvez todos os adolescentes sejam iguais, mas há aqueles que são mais iguais do que outros. E com o Pedro, me identifico. As mesmas impressões, experiências (ou a falta delas com relação às meninas, por exemplo), as mesmas dúvidas aterrorizantes de quem está naquela fase de ebulição constante, vítima dos tais hormônios que nos regem o sofrimento de sermos meio meninos, meio moços, num mundo de homens adultos que estão a perder o rumo. É uma estrada tortuosa, cheia de atalhos que mal tomados pode significar muitos desprazeres.

Desses sofrimentos me lembro e percebo que de certa maneira ainda repercutem em mim. Eu fico compadecido daquele garoto que fui, tão confuso, ao mesmo tempo que carregava todas as certezas do mundo. Já, então, havia decidido escrever como o primordial meio de expressão. Há momentos que prefiro apenas escrever porque quando falo é comum não ser compreendido. O que pode ocorrer também ao ser lido. Mas verbalizar intimamente o que se passa comigo, faz com que eu me reconcilie com a minha trajetória e descortine o rumo que estou a tomar. Estabeleço uma linguagem cifrada que me vale de alguma coisa. No mais, percebo que repiso paisagens pelas quais encontro como se fossem déjà-vu, mas com o peso de novo acontecimento. É quando percebo que estou como a andar em círculos e especular: seria esse o meu destino para os dias que se seguem?

Foto por eberhard grossgasteiger em Pexels.com

17 / 04 / 2025 / BEDA / Quadratura

Eu descortinei um padrão no caos. Revelou que nós, paulistanos, de fora ou daqui, somos repetitivos — edificamos as nossas casas em imperfeitas linhas retas.  Quando erguemos a nossa imaginação do chão, será sempre em reta sobre reta, teto sobre teto, sempre mais alto, sempre mais raso. Mais do que seria conveniente, vemos ejacular por alguma antena de aço a simetria em distonia e a cor intrometida em berros pecaminosos. O elemento humano apenas constituirá a exceção à regra — o caminho é um papo reto! Vi demonstrado que a quadratura descobriu, por estas paragens, a sua cidadela.

Foto: autoral, da Avenida Paulista vista à partir de um apartamento de um edifício que avança um pouco sobre a calçada.

16 / 04 / 2025 / BEDA / Concretismo*

Quando vejo qualquer imagem, ouço qualquer palavra, experimento qualquer sabor, cheiro qualquer olor ou aprisiono em minhas mãos qualquer objeto, desenho na parede da minha imaginação a linha reta que desvirtua a realidade, aperfeiçoando-a ou a decupando. Traço o meu caminho colocando cada pedra devidamente plana em direção ao abismo. Homenageio o poeta que não sou e não serei, erijo a porta que não ultrapassarei. Existo e hesito em reconhecê-lo. No entanto, a expressão do que sinto insiste em se fazer presente, mesmo que seja o sol da manhã emparedado. Esta é a minha singela homenagem a Décio Pignatari, que ajudou a despertar em mim, com a sua obra, o gosto pela brincadeira de escrever.

*Texto escrito no dia 02 de Dezembro de 2012, por ocasião do passamento do poeta Décio Pignatari.