Seria também de nasceres-do-sol, mas não os encontro com frequência, visto que eles não tem coincidido com os meus turnos.
Nuvens são nuvens, mas nunca são as mesmas.
Visões do sol ocorrem todos os dias, mas nunca deixo de me encantar com a sua beleza.
Tenho a fascinação dos antigos bem antigos, nossos ancestrais, que perceberam que devemos a vida no planeta Terra por obra e graça do Sol, a face visível de Deus.
E desenharam nas paredes de suas imaginações monstros e deidades, bichos e pessoas. Nas tardes de hoje, os homens desenham cidades…
… “Você me fez sofrer, você me fez chorar…” – Teria eu levantado bem mais cedo, quando despertei às 7h da manhã, e poderia ter aberto as minhas janelas, ter sentido o gostoso ar frio matutino e ter ouvido os pássaros retardatários, que ainda não teriam saído para passear de seus galhos hospedeiros, enquanto ainda teria visto as árvores do meu quintal receberem a visita dos vizinhos alados da redondeza. No entanto, voltei a dormir, ainda cansado do trabalho do dia anterior, e acordei com a música urbana, produzida pelos humanos, três horas depois. Os meus vizinhos, em dois ou três pontos, reproduziam as canções de seus gostos. Que eles acreditem que todos ao seu redor também apreciem o que ouvem, é algo que não consigo entender…
“Você me fez sofrer, você me fez chorar…”. Mas, sou daqueles que tenta encontrar sempre um propósito em tudo, além de ter a horrível tendência em construir enredos para análises sociológicas em cada movimento dos seres da minha espécie biológica. Ainda garoto, pensava em me tornar um asceta, me refugiar em alguma montanha ou vale esquecido e fugir das pessoas, pois convictamente, me sentia um ET. Atualmente, vivo em um vale, cercado de morros, na Periferia de São Paulo, sei que sou um ser gregário, que estou no Mundo e que apenas na convivência entre nós, poderemos encontrar o meio termo onde reside a paz. É claro que isso em tese, porque há ocasiões que perco facilmente a estribeira. Enfim, estar equilibrado é um exercício permanente. Na guerra de sonoridades, o tema preferido girava em torno de amores mal realizados…
“Você me fez sofrer, você me fez chorar…”. Em uma época passada, o Brasil viveu uma fase de letras riquíssimas, mormente espraiadas em sambas-canções de melodias inesquecíveis (“Meu Mundo Caiu”, de Maysa, é uma delas, por exemplo) e até poderíamos dançar ao ouvi-la, acompanhando o seu compasso lento, de rostos e corpos colados, vivenciando a tristeza de uma maneira libertadora. Hoje, se isso acontece, será sempre através de músicas com andamento acelerado, em que as pessoas dançam alegremente com um sorriso no rosto, volteando em piruetas e saracoteios.
Igualmente, no samba, que inaugurou desde os seus primórdios da popularização da música brasileira essa tendência, muitas vezes ouvimos versos destilarem o sofrimento em passos em que os pés respondem com energia e alegria à revolta que sentimos pelo amor que nos feriu. Eu me lembro de que, quando menino, virgem de corpo e alma, adorava sofrer os amores que não havia ainda vivido e Lupicínio e Elis (meu gosto era anacrônico) me faziam companhia. Hoje em dia, as referências são outras, bem menos primorosas… “Você me fez sofrer, você me fez chorar…”.
Noite de calor, manhã morna Dormimos sem tirarmos os nossos fluidos Os seus do meu, os meus do seu corpo Acordo para a labuta E antes de sair percorro os meus olhos Pela pele que lhe recobre Tento compreender a magia que faz Com que me traga tantos e imensos prazeres Mesmo depois de tantos anos a percorrê-la Com a minha boca, mãos e pontas dos dedos A penetrá-la com a minha impetuosidade Saio do quarto sem beijá-la, sem tocá-la Quase fujo Para cumprir os compromissos do dia…
FASES Quando jovem, escrevi: “Pelo buraco que sou eu Passam luzes, sons E pessoas calçadas… Ah! Quem teria a sinceridade De passar por mim descalço?” Agora, jovem há mais tempo, Me pergunto se aguentaria uma relação com tanta franqueza assim…
INTRUSO Um dia, em direção ao Mont Blanc de Campos de Jordão de dez anos atrás, fotografei uma das belas casas da área. Quando revelei a foto, um elemento humano, bem ao canto, desequilibrou a harmonia austera da paisagem concreta. O que fazia aquele menino, posicionado para a foto de alguém que passasse naquele horário deserto?
VISTORIA Amanhece e a Lua como uma pequena mancha pontua o tecido azulado Borrão luminoso a ser prontamente varrido pela poluição antes e pelo Sol, logo mais.
PERA A pera sobre a pedra preta. Esfericidade ferida à espera de ser absorvida. A ideia de fruta madura torna-se absoluto conceito alimentar.
A BOMBA Pelas ondas do rádio recebemos por uma última vez as notícias que todos nós temíamos ouvir: ondas de radiação mortal propagavam-se desde o epicentro da explosão ao norte, varrendo toda a vida pelo caminho…
AUSCULTA Conectividade, mas artificial. Vozes, sons, sinais. Comunicação, mas interceptada. A cada conquista tecnológica, a cada antena instalada, um fosso se cria entre antenados e marginalizados, todos nós, colonizados. Celular ao ar.
POSSIBILIDADES Os meus óculos formam o escudo que me protege os olhos enquanto capto a luz do seu olhar. Sem eles, só vejo bem de perto, mas aí, eu me perco. Pelo caminho? Não, em seus olhos…
NAVEMÃE Do prédio do hospital até o estádio têm-se quinhentos metros. Do quarto 674, avisto a nave mãe. Centro de peregrinação, preces e emoção. Item alienígena na fé do cristão. Camisas de cores diferentes separam os seus tripulantes entre aqueles perdedores que pensam ser os vencedores e entre aqueles perdedores que se sentem os perdedores. De novo. Enquanto isso, flores da antiga árvore descem sobre o carro ferido. O ser aparentemente imóvel, mas vivo, joga a sua vingança colorida sobre aquele objeto móvel, que um dia já matou.
ORCAS Orquídeas florescem displicentemente no outono paulistano. Logo dormirão. Enquanto isso, dominam a nossa atenção. Ou: por ser ideias de orcas fluorescentes, decididamente lhe outorgam ser um bom plano viver belamente. Logo, dominarão a nossa imaginação.
*Textos e poemas de antes de 2010, que seriam postados no meu blogue que apenas foi inaugurado em 2017.