BEDA / Lunna & Fellini*

Cine Café Fellini, na Rua Augusta

Boa noite, Lunna!

Esta missiva cumpre a função de ser um capítulo do meu Diário. Como passamos da meia-noite, tecnicamente, iniciamos um novo dia, mas psicologicamente, esta missiva pertence a ontem. Ou anteontem, quando a encontrei. Mas como você sabe, sou um “dono de casa” e as tarefas caseiras são tão simples quanto extensas. São como um videogame em que, ao se passar de fase, logo se apresenta outra, em que os movimentos repetitivos e bem executados resultam em satisfação apenas momentâneas. Meus bônus eu recebo a cada passada de vassoura pela casa ou quintal, a cada peça de “louça” ou panela que eu lavo, pois são “jogadas” que ocupam as minhas mãos, mas liberam a minha mente para passear pelos temas do dia.

Ontem, me ocupei de nossa reunião no Fellini. Esse nome… Eu sempre amei Federico… “Io me recordo” a Amarcord… Durante muito tempo, eu me encontrei no garoto de Rimini. Aquele pedaço da Itália que ele viveu-sonhou, tão longe da minha Periferia, durante muito tempo, foi o meu lugar. Quantas vezes não fugi para lá, quando a realidade daqui me alcançava com a sua dureza distraída? Encontrá-la, italiana e cidadã do mundo, paulistana de “cuore”, no Fellini, é como se eu fosse mais um ator dentro de um filme do mestre a ser apresentado logo ali, em uma das salas do Espaço

Sei que a minha crença de que nada seja por acaso possa até irritá-la. O fato de “sabê-la” como mais uma pessoa a qual estava destinado a encontrar já me faz imaginar, com certa diversão, a sua expressão de desdém, a pensar que não tem nada a ver com o que acredito. Que deve apenas se responsabilizar pelo meu progresso como escritor… Gosto de pensar que eu possa ser uma pessoa interessante para aquém do escritor. Um amigo que aceita que invada a minha vida com toda a sua força e fragilidade.

A busca da palavra perfeita, ainda que não tenha sido escrita por si, me comove. O Verbo, criador e criativo, faz parte de sua essência vital. A direção que nos conduz a todos da Scenarium é, ao mesmo tempo, um sonho e um fato da vida. Que eu faça parte do roteiro de sua arquitetura, me faz acreditar que essa seja a nova realidade que devo viver. Sou fá desse “neorrealismo”. E sei o quanto isso tem de alegoria, como a que Fellini soube tão belamente construir. Ao conviver consigo, sinto que volto a viver em Rimini… Agora, na São Paulo que nasci. É como me reencontrar onde sempre vivi…

*Texto escrito um dia ou dois depois de 11 de Julho de 2017, por ocasião do lançamento do Coletivo da Scenarium, no Cine Café Fellini.

Participam do BEDA: Lunna Guedes / Alê Helga / Mariana Gouveia / Cláudia Leonardi / Darlene Regina

BEDA / Amor Perdido

Amor Expresso, de Adriana Aneli, lançado pela Scenarium

Deu-se que perdi o Amor
Eu o procurei por toda a parte,
em cima e embaixo e nada
de encontrá-lo…
A Lua
me pediu: recita um pouquinho
dele para mim…
Fui célere a buscá-lo,
o Amor,
expresso das melhores maneiras que se pode dizer
e percebi que fugiu…
Ao lê-lo, pela primeira vez,
ficou com o seu gosto de café em minha boca
por tanto tempo,
que não sabia mais dizer se não fora eu mesmo
que o tivesse construído,
como cada um constrói a sua própria Primavera,
as estações
e os lugares que caminhamos.
Pensei: voltarei ao Amor sempre que possível…
Mas o perdi…
Ou perdeu-se, que Amor gosta de perder-se por aí,
em corações e mentes, filmes, canções e livros…
Gostei tanto desse Amor,
que um exemplar o presenteei a uma amiga querida…
Achei que seria a melhor dádiva para alguém.
Mas cria que tivesse mais Amor em minhas mãos,
para ler sempre que precisasse tomar,
como cada café da manhã,
doses de Ilusão,
a melhor que podemos exercitar,
assunto inesgotável… ou não…
Já que a Lua me fez perceber que já não o tenho mais,
ela que me dê a solução,
que sei que fez pacto com a Terra,
nossa Mãe,
para semear de palavras – de Amor e perdição –
a vida daqueles que buscam o seu brilho,
a iluminar as trilhas da expressão
de ser
Amor Expresso

Participam do BEDA:

Mariana Gouveia /

Darlene Regina /

Alê Helga

Claudia Leonardi /

Lunna Guedes

BEDA / Marido De Aluguel

O texto anterior acabou por me fazer refletir sobre o termo genérico de “dono de casa”, derivado do feminino “Dona de Casa“. Este, talvez tenha sido criado para dar um lustro de nobreza para designar uma atividade permanente, integral e desgastante de dar suporte à casa e atenção ao amo e à descendência. Merecia uma consideração mais profunda e sobre esse tema tratarei aqui. De forma correlata, a moderna atividade de “Marido de Aluguel” também suscita considerações nas quais não consigo deixar de perceber a ironia que carrega em todos os sentidos.

Eu vejo passar veículos com esse slogan que pressupõe a realização de tarefas que apenas o homem faria – conserto de torneiras danificadas, troca de chuveiros, restauro da fiação elétrica, colocação de parafusos e pregos, pintura, pequenas obras de alvenaria e, por aí, vai. Em casa, a Tânia realiza algumas dessas tarefas, filha de um homem que a ensinou, por exemplo, a erguer uma parede.

Eu não deixo de realizar outras tantas dessas atividades, mas não me sinto mais marido ou mais másculo por isso, como não me sinto mais feminino por lavar, estender e passar roupa, cozinhar, lavar panelas, talheres e louça, regar as plantas, cuidar dos bichos, varrer e passar um pano no chão ou arrumar a cama. Ajudante de minha mãe quando garoto, declarava a ela que queria me tornar um “homem total”. A pequena análise que faço diz respeito a como o Patriarcado exerce sobre nós, homens e mulheres uma dominação absurda.

Emprestando da matriz patriarcal determinadas formulações, fico a imaginar se o termo “Marido de Aluguel” não ensejaria interpretações dúbias e piadas de bar feitas por homens e mulheres que atuam sobre a égide do Patriarcado, que perpassa todas as ações sociais de adultos que não conseguem escapar ao seu domínio. Sempre se aventou entre os deveres da esposa o de atender sexualmente ao marido, assim como a do marido em “comparecer” ao ato como a comprovar a sua masculinidade. Em conversas de botequim a função do profissional poderá ser tratada mais extensivamente, bem como se dizia em tempos idos dos filhos gerados na visita de leiteiros ou padeiros.

O que para o homem significaria carregar a peja de marido enganado, para a mulher talvez fosse como uma válvula de escape da dominação machista imposta por casamentos arranjados, sem conexão de gostos ou pelo abandono em vida por um companheiro que a considera apenas a parideira de seus filhos e que muitas vezes instituíam lares ou relações paralelas. Num texto curto como este, que é mais provocativo do que elucidativo, as questões do nosso envolvimento com as consequências da máster cultural distorcida por milênios de abusos de um gênero por outro, simplesmente por carregar maior força física não são resolvidas, somente são testemunhadas.

E me incomodam…

Participam do BEDA:
Claudia Leonardi / Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Darlene Regina

BEDA / Dono De Casa

Sobre esta imagem de 2014, legendei: “Dia de ‘Dono de Casa’ – fazer a feira, varrer o quintal e a casa, alimentar os animais, cuidar das plantas, lavar a louça e fazer o jantar. E não é que eu gosto?”

Em 2020, a respeito da foto que surgiu como lembrança, comentei: “Continuo gostando da atividade, mas atualmente para mim, todo dia é dia de ‘dono de casa’. Estávamos vivendo a plena Pandemia de Covid-19 em seu início que apenas especulávamos a duração, profundidade e extensão temporal e mortalidade. Tenebrosamente, o Governo Central relutava a aceitar o que os cientistas, epidemiologistas e órgãos nacionais e internacionais de Saúde alertavam sobre o que o titular da cadeira presidencial chamou de “gripezinha”.

Tudo parece tão distante, como se fosse outra vida e para seiscentos e cinquenta mil pessoas – em números oficiais – a “outra vida” é uma realidade. Até agora, são cerca de trinta milhões de casos contabilizados, diversos com severas sequelas. Então, estar à época como apenas como um “dono de casa” não era o pior dos mundos. Mas a continuidade do processo de ausência de atividade profissional gradativamente começou a pesar. O desgoverno e a pequenez ética apresentada pelos asseclas no poder colaboravam para que tudo ficasse pior.

Fazer atividades caseiras nunca foi algo que me desestimulasse. Ao contrário, varrer sempre foi uma tarefa prazerosa em que os pensamentos passeavam a cada varrição. Criei vários bons textos enquanto retirava a sujeira do piso da casa ou do quintal. Lavar louça é um processo terapêutico para mim. Fico relaxado ouvindo música ou “assistindo” algum programa na TV. Limpar os móveis, organizar a bagunça da sala (se bem que o escritório viva de pernas pro ar), recolher o lixo ou fazer o almoço e o jantar me fazem bem. O problema é quando tudo se transforma em exercício “permanente”, sem prazo para acabar, as devidas repetições cotidianas. Na Pandemia, isso pareceu não ter prazo para terminar.

Atualmente, as coisas tendem a melhorar, sempre tendo a possibilidade do surgimento de variantes mais virulentas de SARS-COV que voltem a nos assombrar no futuro, em que o meu setor de atividade – prestação de serviços em eventos – que propicia a aglomeração, seja considerado uma “ação terrorista”. Como consequência, voltarei a exercer uma função fundamental, rotineira, trabalhosa, que aprecio, mas que é pouco valorada. Que seja apenas por prazer e não por obrigação que possa continuar a exercê-la.

BEDA / O Burrinho

Meu caro, Burrinho

Durante o meu café da manhã, o tipo me olha de frente e me adverte:

– Tu és muito burro, meu caro!

Sem me ater ao fato de que quem se dirigia a mim era um mero enfeite de jardim, promovido a adorno caseiro, respondo de forma abrupta e ressentida:

– Eu sou caro, mas você é muito baratinho! 
Rapidamente, o topetudo respondeu, sem pestanejar (e como conseguiria?):

– Sou baratinho, mas o maior burro entre nós dois, aqui, és tu!

Lembrando do que aconteceu no dia anterior, não pude deixar de concordar. Ainda surpreso pelo Burrinho usar da segunda pessoa para se expressar, acabei por me lembrar que foi comprado, baratinho, em terras fluminenses.

O bichinho feito barro e consciência, apenas externou um sentimento que me corroía por dentro. Fora franco e firme, evidenciando um erro que queria jogar para baixo do tapete  Agiu como um amigo sincero. Com certeza, da próxima vez que vier a falar com ele (ou ele comigo), serei eu a chamá-lo de “meu caro”…

Participam do BEDA: Darlene Regina / Cláudia Leonardi / Lunna Guedes / Mariana Gouveia