Esta é a Quitéria ou Indie Janjão. E esta será a última imagem presencial que terei dela por muito tempo. Quem sabe a reencontre em breve? Talvez, não a veja tão cedo… Talvez… Bem, depois de ter sido resgatada pela Lívia das ruas bem pequenina, praticamente recém-nascida, em péssimas condições, ela se desenvolveu lindamente. É esperta, educada, arteira e alegre! Vai para o lar de pessoas que já a amam. Irá para longe. Ganhará a liberdade das praias de São Sebastião. Antes de ir para o trabalho, a abracei, beijei a sua testa, ela me lambeu, em retribuição e eu disse em sua orelha pendente: “Adeus, meu amor! Seja feliz!”…
*Texto de Março de 2017.
O nome enfim adotado para ela foi Indie. E vive feliz com seus cuidadores e outros irmãos peludos.
Desde que houve a decisão de que iria saltar, certa calma se apossou de mim. Talvez, antes, ficasse um tanto inquieto com a possibilidade, mas, depois, a decisão de descer do céu me pareceu tão natural quanto andar.
Voava muito quando criança, em sonhos recorrentes que eu tinha o poder de prolongar a meu bel prazer. Poder esse, pus a perder com o passar do tempo… deixei de dar rasantes rentes aos telhados das casas do bairro. Muitas outras coisas deixei para trás ao me tornar adulto. Passei a valorizar crescer, na ansiedade de alcançar algo que nos dizem ser o ideal como homem ou mulher.
Crescido, namorei, casei, constituí família, me fiz criança com as minhas crianças, sem muita chance de me aprofundar naquela ilusão, já que ganhar o sustento da casa era prioritário na escala das importâncias que devia atender.
Até que se chega a um momento na vida que os ciclos se completam e resgatar a capacidade de sonhar equivale a buscar o melhor de nós para continuar a viver. Quando menos se espera, o sonho torna-se possível de ser realizado e acabei por perceber que não era tão complicado executá-lo. Bastava dizer “sim” a mim mesmo!… Vamos?… Vamos!
E lá fui voltar a ser eu mesmo, menino, passarinho. Não mais com o poder de voar sem asas — planar, subir e mergulhar em movimentos de pássaro indômito. Agora, máquinas forjadas pelo poder inventivo do ser humano me auxiliariam alcançar a sensação de colocar os pés a quase quatro quilômetros do chão e voltar a colocá-los plantados no solo.
Foi feito um filme do salto. Nele, se mostra como foi o desenrolar dessa aventura. Fica evidente o seu entusiasmo. Bem mal, se pode ouvir o menino a declamar, em pleno ar, o poema mais antigo que se lembra de ter feito, ainda garoto:
“Ao longe As estrelas brilham Por perto As pessoas queimam”…
Acrescentando:
“Hoje, eu beijo as estrelas! Eu as possuo, em colchões de nuvens!”
E é desse matiz o voo que ele vem tentando realizar agora, apenas que mais perigoso — escrever é como saltar no escuro, porém sem paraquedas.
*Texto produzido em 13 de Abril de 2016, por ocasião do salto.
Fico sempre encantado quando subimos para o planalto ou descemos para o litoral, ao passarmos pela Serra do Mar, onde podemos encontrar ainda parte da Mata Atlântica preservada. Ao mesmo tempo, cresce meu assombro ao saber que, para alcançar o interior do País, Homens do passado venceram tremendos obstáculos em nome de viver uma vida nova… Um caminho feito de sangue, suor e lágrimas, heroísmos e covardias, amor e ódio, crimes e massacres, que o Tempo escondeu sob o azul celeste e o verde da mata.
Sim… agora eu sei que acabou… Tentamos, mas já não dói tão gostosamente… A ferida cicatrizou… Quis voltar a ser aquele que a amou (não que eu não a ame ainda), apenas sei que aquele amor já não me pertence mais… Sei que o meu egoísmo pôs tudo a perder…. Sei que ficarei a penar a eterna saudade de mim em você…
Aquele Eu que a amava daquela maneira, sentia-se confiante, sentia-se amoroso, sentia-se confidente, sentia-se poderoso, sentia-se como se o mundo lhe pertencesse… E o seu (meu) mundo era você…
Eu, aquele, sentia-se expandir para fora dele até abarcar toda a Vida e a Natureza… Deus supremo, ciente de seu poder, esqueceu-se da fonte que irradiava tamanha grandeza… Ele, Eu, aquele, esqueceu de você em si…
Então, algo se perdeu… Eu me perdi… Perdi você… Quando se afastou, vociferei, a tratei como uma rés que ferrei, propriedade minha, que não se compartilha… Que preferia ver morrer à mingua, de fome e de sede…
Preferi feri-la com a minha língua… a mesma língua que antes vivia a esquadrinhar a sua pele inteira… A ultrajá-la com a mesma boca que a beijava e lhe repetia palavras de amor… E aquele Eu mal entendia que o verdadeiro ato de possuir é um movimento de doação… Que eu antepunha a exauri-la com a minha paixão…
Talvez, um dia, eu a reencontre em mim… Porém sei que você não será mais a mesma, tanto quanto sei que não serei decerto aquele que então se sentiu total, que não se permitia saber que tanto amor, sem entrega e reciprocidade, torna-se pura masturbação, velada veleidade a causar imenso mal.
Noite feita, encontrei manequins presos em uma vitrine. Eu os achei um pouco tristes, a espera de serem libertados… Ilusão! No máximo, caso isso ocorresse, buscariam ir para trás de outras vitrines. São profissionais. Atuam assim a tanto tempo que não sabem fazer mais nada. É o preço que se paga por serem eternamente jovens e belos, corpos irretocáveis, firmes e lisos. Não se importam sequer que não tenham cabeças, alguns… São bem pagos por isso. Em roupas da moda.
As vitrines são atraentes, luminosas. Muitos creem que sejam o melhor lugar do mundo para se morar. A tristeza que apresentam, de início é falsa. Faz parte do padrão. Junto a um certo ar blasé. Tudo para atrair a atenção. Assim como seria falsa a alegria que expressassem. Depois, como ficam permanentemente engessados num mesmo esgar, desconhecem seus reais sentimentos. Perderam a sensibilidade emocional. Porém, como recompensa, recebem muitas curtidas. Vivem e estão mortos por isso.