braços são berços para abraços nascerem evoluírem para intimidades maiores de almas de corpos de contatos de papos andar pelo mundo de braços dados implica em confiança confidências coincidências de passos par a par guardar o tempo nas mãos reduzir as distâncias entre corações em batimentos compassos andamentos sopra brisa pisa anda caminha passa sente fica volta torna retorna segura solta passado recente pressentido presente futuro aparente crescer efervescer dilatar-se voluntariar-se ilusões de bem estar estar bem com o outro tão próximo quanto preciso for para se entregar raridade em tempos desta humana idade que aconteça o contrário do que se espera que o querer se sobreponha ao poder da gravidade que estanca o movimento prende os pés no chão que de abraços dados voemos em dadas asas transformadas.
No balaio ancestral, carrego em meu DNA minhas avós, madonas nonagenárias! (Rozana Gastaldi Cominal)
Minha avó materna, Maria Manuela, em registro do final Anos 30.
Minhas avós, com elas não tive muita convivência. Ou melhor, a mãe do meu pai, que vivia na Argentina, encontrei poucas vezes quando lá íamos para visitá-la a cada quadriênio, até falecer. Antes, por volta dos meus seis anos, vivemos com ela, meus irmãos, eu e minha mãe – por uns dez meses, ocasião em que meu pai se refugiou da perseguição política do final dos Anos 60 no Brasil. Ocupamos um quarto na casa dela, mas tenho poucas lembranças de proximidade. Mais me impressionava o seu marido, um austero militar que mantinha o bigode preto à custa de tintura. Talvez tenha sido por esse motivo que meu pai voltou antes, por não se sentir à vontade com a presença do milico. Ou para continuar a luta infausta contra o Regime Militar.
Por uns meses, ficamos, literalmente, sós. Ao voltar ao Brasil, antes de completar os meus 7 anos, falava espanhol e português meio a meio. Já dado a estranhezas, usava poncho na época do frio, o que fazia com que parecesse mais inadaptado. Quanto à DonaDora, distante na quilometragem e na afeição, pouco tenho a dizer. A não ser pelo fato de ter sido uma mãe que não se esmerava no cuidado ao indiozinho, meu pai. A minha avó gostava de dançar e quando saía para os bailes, o deixava do lado de fora dos salões, advertindo: “si preguntan, no digas que es mi hijo”. Sei que essa falta de atenção carreou muita mágoa e talvez tenha gerado a aversão que ele demonstrava às mulheres, apesar da série de amantes que amealhou.
Quando tinha entre 5 e os 6 anos de idade, o meu avô Humberto o carregou do Paraguai para o Brasil. Registrou o menino como brasileiro em Foz do Iguaçu e o trouxe para São Paulo no final dos anos 30. Muito bonito, os seus olhos azuis conquistaram Dona Eloisa de família quatrocentona que o adotou como filho, lhe proporcionando as facilidades de um membro da classe abastada até a sua maioridade. Por responsabilidade do meu avô, a relação terminou em separação. Com isso, a Dona Eloisa também acabou por se afastar de meu pai.
Voltaram a se falar quando éramos bem novinhos e até acho que por nossa causa, decidiu ajudar o Sr. Ortega. Foi uma avó que não primava pela alegria, mas pelo olhar compassivo. Ficávamos calmos diante dela, comportados como poucas crianças naquela idade. Aliás, não éramos tão efusivos assim, pelo que eu me lembre. Ela não era daquelas avós que primavam pelo conhecimentos alquímicos de receitas culinárias pessoais. Tinha uma cuidadora que fazia as tarefas caseiras, incluindo as refeições. Desbravadora, Dona Eloisa foi uma das primeiras dentistas formadas no Brasil e em sua casa mantinha um consultório no qual atendia pessoas carentes.
Nossa terceira avó foi a última companheira de meu avô. Com ela, não tínhamos conexão nenhuma e se fosse para ser comparada a alguém, seria a de uma parente tão distante quanto a minha avó de sangue. O que não aconteceu com Dona Manuela. Ainda que não a tivesse conhecido fisicamente, pela devoção eterna que a minha mãe dedicava à sua mãe, eu a visualizava todas as vezes que se referia à mais importante referência de sua vida. Talvez nela se espelhasse para nos conduzir em nossa criação, apesar de tê-la perdido apenas aos 12 anos de idade. Dona Madalena tinha espírito de empreendedora, mas parece ter herdado dela o esmero da dona de casa das antigas que foi a minha avó.
Creio que a minha mãe reproduzia quase fielmente os saberes, gestos e as suas maneiras. Hoje, eu tenho consciência disso e se fosse para pinçar algo do balaio ancestral o DNA que me conduz, apostaria nos de Dona Manuela. Incluindo o processo de indução que me faz reproduzir receitas que minha mãe nos ofertava com o tempero que só a ancestralidade consegue legar…
estamos… colados você e eu frente e verso e versos nossos corpos a conversar intumescências a versar transpor limites penetrar âmagos nos engolirmos fazer vibrar estômagos liquefazer desejos salivares acessar berços estelares ultrapassar sistemas solares em viagens para além do passado voltar ao útero do nada antes de tudo penetrarmos em presentes possíveis conhecermos futuros acessíveis eu você nós urdidos em fibras transfigurarmos nossos somas sonharmos os sonhos dos deuses somarmos nossos prazeres inaugurarmos o tempo fecundar o solo da matéria criarmos planetas e satélites explodirmos e enfim adormecermos a vida…
Registro do casal de Outubro de 2021, em Paraty-RJ
Querida, falar do que é teu, não posso. O que te pertence, apenas tu saberás. Tento sempre me colocar no lugar das pessoas, interpretar sentimentos, emoções, senões, apesares… Contigo, é diferente. Mesmo depois de tanto tempo de convivência, tu és outra do que quando te vi pela primeira vez. E continua a te desenvolver. O que é bom. Vejo que evoluíste em tantas convicções, que não percebe-te uma pessoa parada no tempo.
Estamos há mais tempo juntos do que separados em nossas vidas íntimas. Nos transformamos mutuamente. Compartilhamos idades diversas, perrengues que já conheces, mas não divulgamos para que não recaiam sobre nós olhares de condolências ou invídia. Somos altivos, apartados de amizades com outros casais e até um pouco misantropos. Nossas atividades são díspares em significados, alcance e valorização. Sabes que te admiro como profissional e abençoo o dia em que escolhi me entregar à mais inteligente. Temos divergências, tantas quanto é possível dentro do limite aceitável para não joguemos fora as alianças (a minha está em lugar incógnito).
Sagitariana, guerreira, meio humana, meio animal, está sempre em movimento, ainda que saiba dormir como poucos. Mas mesmo adormecida, ao despertar relata sonhos que teve, estranhos, coincidentes com acontecimentos externos e vibrações internas. Intuitiva, resvala na verdade, mesmo sem querer. Descreve, como poucas pessoas, procedimentos técnicos de teu trabalho. Excelente, a exceder o normativo, cria viabilidades ao que já é conhecido. Eu, que te conheço (mais ou menos) de perto, não tenho expectativas aonde chegará, porque tu és surpreendente. Sei que crescerá para além de tuas próprias expectativas. Chegou a lugares que a menina do interior do Rio nunca imaginou chegar – ao Cabo da Boa Esperança – tanto física quanto metaforicamente.
Do Atlântico ao Índico e, mais recentemente ao Pacífico, vislumbraste diferentes águas de Oceanos. E isso é apenas um exemplo. Falar do que é meu, eu posso – o desejo que continue a ser autêntica – ainda que me irrite quando exageras na franqueza. Quero-te tão bem quanto desejaria a alguém que construiu uma vida inteira ao teu lado. Nossas bençãos não são materiais, mas estão materializadas nos frutos que geramos e cuidamos para que se tornassem as mulheres incríveis que são.
Meu irmão, Humberto e eu, idos de 1985, três anos antes de mudar o meu rumo…
Quando eu era adolescente, passei por todas as etapas possíveis que um jovem sofre nesse fase de desenvolvimento, de alto a baixo. Desci aos infernos da rejeição das outras pessoas que não entendiam as minhas escolhas, como a de me tornar vegetariano aos 16 anos de idade, se bem que foi aos 17 que me recordo mais claramente da inauguração desse estilo de viver. Era uma época que não havia muitos alimentos à disposição em supermercados para substituir com qualidade a alimentação tradicional. Lendo aqui e ali, fui montando a minha dieta.
Fui deixando aos poucos de me alimentar da carne dos outros animais, a começar por aves, considerada a mais saudável. Porém, como havia sido criador de galinhas, ligado emocionalmente a elas – do nascimento à fase adulta – entendi que deixar de consumi-las como alimento era o mais certo a fazer. Pouco a pouco, deixei de comer peixe, porco (saudade da Priscila – uma porquinha com a qual convivi na infância), boi e tudo que respirasse. Com o meu envolvimento com o Hinduísmo, havia lido que a liberação das substâncias ligadas ao estresse no organismo antes do abate, deixavam a carne impregnada daquela “energia ruim”.
Pensei em me tornar um asceta, mas os exemplos dos devotos de seitas hindus – os chamados “hare-krishnas” – que se espalhavam pelas ruas vendendo livretos de gurus que prometiam nos levar ao Nirvana não me seduziam. Aliás, desconfiava de movimentos religiosos “da moda”. Como já escrevi antes, vivia uma vida monge sem hábito. Em contraponto, o desejo pelas mulheres alcançava picos de transtornar o ser que pretendia um dia se tornar “santo” – são – em pecador contumaz… por pensamento. Dentro da estrutura que vivia, o caminho que se aproximava mais claramente da postura dos ascetas me parecia ser a de SãoFrancisco.
Decidi, apesar de não ser católico praticante, conhecer o Franciscanato de perto. Percebi que não sofreria tanto em fazer o Seminário, principalmente porque envolvia leitura e estudo constante, dando espaço para a prática de atividades esportivas. É como se ficasse confinado em lugar que daria ensejo fazer o que mais gostava. Foi o que constatei quando fui conhecer o Seminário de Agudos. Porém, o frei coordenador do Largo de São Francisco achava que eu não estava preparado para entrar. Já estava sendo chamado para enveredar por um outro caminho. Ainda que já passasse dos 20 anos, devido à minha usual postura afastada do pessoal da Faculdade de História e mesmo de familiares, de certa maneira o meu comportamento interno era o de um adolescente.
Com muito esforço saí daquela espiral sem fim nem começo, entrópico, perdido em mim. Perdidão. Cheguei até aqui ainda com muitas dúvidas em relação à vida. Aliás, com muito mais do que antes, em que simplificava demais as equações que me revelasse o que é viver. Mas agora acho isso revigorante. Continuo em busca de maiores e mais profundas perguntas…