#Blogvember / Perdidão

PERDIDÃO

… eu estava perdido em mim sem fim nem começo (Obdulio Nuñes Ortega)

Meu irmão, Humberto e eu, idos de 1985, três anos antes de mudar o meu rumo…

Quando eu era adolescente, passei por todas as etapas possíveis que um jovem sofre nesse fase de desenvolvimento, de alto a baixo. Desci aos infernos da rejeição das outras pessoas que não entendiam as minhas escolhas, como a de me tornar vegetariano aos 16 anos de idade, se bem que foi aos 17 que me recordo mais claramente da inauguração desse estilo de viver. Era uma época que não havia muitos alimentos à disposição em supermercados para substituir com qualidade a alimentação tradicional. Lendo aqui e ali, fui montando a minha dieta.

Fui deixando aos poucos de me alimentar da carne dos outros animais, a começar por aves, considerada a mais saudável. Porém, como havia sido criador de galinhas, ligado emocionalmente a elas – do nascimento à fase adulta – entendi que deixar de consumi-las como alimento era o mais certo a fazer. Pouco a pouco, deixei de comer peixe, porco (saudade da Priscila – uma porquinha com a qual convivi na infância), boi e tudo que respirasse. Com o meu envolvimento com o Hinduísmo, havia lido que a liberação das substâncias ligadas ao estresse no organismo antes do abate, deixavam a carne impregnada daquela “energia ruim”.

Pensei em me tornar um asceta, mas os exemplos dos devotos de seitas hindus – os chamados “hare-krishnas” – que se espalhavam pelas ruas vendendo livretos de gurus que prometiam nos levar ao Nirvana não me seduziam. Aliás, desconfiava de movimentos religiosos “da moda”. Como já escrevi antes, vivia uma vida monge sem hábito. Em contraponto, o desejo pelas mulheres alcançava picos de transtornar o ser que pretendia um dia se tornar “santo” – são – em pecador contumaz… por pensamento. Dentro da estrutura que vivia, o caminho que se aproximava mais claramente da postura dos ascetas me parecia ser a de São Francisco.

Decidi, apesar de não ser católico praticante, conhecer o Franciscanato de perto. Percebi que não sofreria tanto em fazer o Seminário, principalmente porque envolvia leitura e estudo constante, dando espaço para a prática de atividades esportivas. É como se ficasse confinado em lugar que daria ensejo fazer o que mais gostava. Foi o que constatei quando fui conhecer o Seminário de Agudos. Porém, o frei coordenador do Largo de São Francisco achava que eu não estava preparado para entrar. Já estava sendo chamado para enveredar por um outro caminho. Ainda que já passasse dos 20 anos, devido à minha usual postura afastada do pessoal da Faculdade de História e mesmo de familiares, de certa maneira o meu comportamento interno era o de um adolescente.

Com muito esforço saí daquela espiral sem fim nem começo, entrópico, perdido em mim. Perdidão. Cheguei até aqui ainda com muitas dúvidas em relação à vida. Aliás, com muito mais do que antes, em que simplificava demais as equações que me revelasse o que é viver. Mas agora acho isso revigorante. Continuo em busca de maiores e mais profundas perguntas…

Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes

#Blogvember / O Braço Da Tarde

… levantar cedo e promover andanças por meu tempo de calma (Flávia Côrtes) 

O braço e a mão da tarde, registro de 2016

Tenho acordado cedo, apesar de estar indo dormir tarde. Mas logo inicio a fazer tarefas deixadas pelo dia anterior e outras que já estavam programadas. É uma rotina que de vez em quando apresenta variações, mas não deixam de ser previsíveis. Parte da manhã tenho costumado escrever. Durante o dia, faço outras coisas e volto a escrever depois da meia-noite, quando a noite normalmente está mais calma. Mas é durante a tarde, que procuro olhar para o horizonte e vivenciar as mudanças de cores e o jogo de impermanências – nuvens, luz e sombra – em movimento.

Algumas vezes, as formações se “humanizam” em figuras de rostos. Pedaços de corpos, pernas, braços, mãos, olhos. Há também os bichinhos – cães, gatos, girafas, elefantes, pássaros, borboletas… até aranhas e formigas. Plantas – árvores, flores – ou seja, o céu habitado por nossa imaginação. Levantar-me cedo e andar por meu tempo de calma não me é permitido. Compenso com as tardes de vacância. Fotografo, faço imagens em série, encontro uma trilha sonora, provoco uma lembrança que reverberará em futuras idades. Como quando surgiu diante de mim braço e mão da tarde crepuscular. Um prémio para o observador tardio.

Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes

#Blogvember / Começo… Fim

Teatro: artista que sou, prisioneira da vida, o que me resta senão representar? (Rozana Gastaldi Cominal)

Foto por Pixabay em Pexels.com

não acredito em fim…
nem em começo
a energia é circo é lar
circular
sessão após sessão
um nunca terminar
representar
o que me resta
senão ser artista
prisioneiro da vida
algo tão grande quanto pequena
porque tudo abarca
a barca
eterno navegar entre sóis
sós e totais
por galáxias e vazios plenos
ser marinheiro capitão
servidor do convés
carregar o timão e o temor
de não saber a rota
viajar em círculos concêntricos
excêntricos cada vez maiores
experimentar saberes e mentiras
ciclos
ultrapassar campos e núcleos
imersos uns nos outros
em busca de novos continentes
e formas
um lugar onde ficar
encontrar outros conviver
exterminar reproduzir assentar cruz e bandeira
de invasor predador criador mantenedor
ser pais mães filhos e avós
morte e vida…
matéria e além…

Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes

#Blogvember / Curso De Rio / Caminho do Mar (2021)

Que nasce na chuva — que a água molha — e poda os voos (Mariana Gouveia)

Em Janeiro de 2021, eu estava como que boiando solto no rio de asfalto paulistano, a ponto de ter mais uma crise de ansiedade de consequências funestas. Eu me conhecia. Já havia passado por isso antes. Em outras ocasiões, quase embarquei numa viagem sem volta. Cheguei a tocar o limite e vislumbrei quase ultrapassá-lo. Passado o primeiro mês, encontrei uma maneira de não afundar — parti para o Litoral Norte — o meu norte junto ao mar, onde busquei boiar no líquido amniótico marinho para renascer. Ao mesmo tempo, comecei a fazer um dos cursos de escrita da Scenarium, conduzido pela Lunna Guedes.

O sincronismo entre a necessidade de escrever sobre o que acontecia comigo e o curso voltado para a produção de crônicas, encontrou ensejo na união de uma linguagem íntima e a expressão do que acontecia ao meu redor. A visão pessoal sobre os acontecimentos, talvez fizesse com que superasse minha condição mental precária, ao reconhecê-la. O que via acontecer no País colaborava para o aprofundamento da minha natural melancolia — conduzindo a produção do texto. Como se fosse um antídoto obtido do veneno, o contato com o Mar foi paulatinamente resgatando meu equilíbrio no embate contra o movimento das ondas.

Curso De Rio, Caminho Do Mar foi o meu quarto livro pela Scenarium Plural — Livros Artesanais., o terceiro de crônicas, o segundo numa linha mais intimista. Páginas de papel enlaçadas com arte que me resgataram das turbulentas águas da realidade brasileira de então, buscando vieses alternativos ao vislumbrá-la. Em um momento em que precisávamos alimentar e curar o povo deixado à própria sorte, percebi de maneira clara a necessidade de também alimentar o espírito e curá-lo. Essa interdependência se provou indissociável para sobreviver ao assédio do neofascismo que grassava.

Naquele ano, as mudanças climáticas encontraram em minha volta para Sampa, um final de Verão chuvoso, nebuloso e um tanto frio. Foi uma viagem que nasceu na chuva — que a água molhava — e podou os voos, mas não a caminhada que completa neste final de Novembro, dois anos.

Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes

#Blogvember / Desesperado

… adiei o máximo que pudesse o momento-sensação de desespero (Obdulio Nuñes Ortega)

Foto por Spencer Selover em Pexels.com

Não lembro de me desesperar de forma descontrolada em nenhuma situação extrema. Quando me encontro em situações limites, parece que é acionado um mecanismo de compensação que faz com que eu veja tudo em “câmera lenta”. Quase como me ausentasse. Já passei por assalto no ônibus que estava. Dois indivíduos passaram por mim como se não me vissem. Em outra oportunidade, quando percebi que dois rapazes nos olhavam carregando o equipamento de trabalho, rebati com um olhar fixo. Um deles, se sentindo desafiado, com uma espécie de escopeta atirou em nossa direção. O tiro rebateu no chão. Meu irmão e o motorista do transporte saíram correndo. Os sujeitos se movimentaram para longe. Na primeira viagem de avião que fiz, permaneci impassível durante uma turbulência, como se fosse um veterano, observando o alvoroço dos outros passageiros.

Essas ocasiões nunca se compararam ao sofrimento de inadequação e quase paralisia física que o adolescente que fui enfrentava aos eventuais contatos com as moças. Naturalmente, não era um comportamento normal, ao que eu chamaria de “timidez mórbida”. Hoje, eu tenho por mim que falar com elas era difícil porque estaria evidente que todo o meu corpo demonstraria que as idolatrasse. As minhas passadas não concatenavam. Os pés hesitavam, como se evitasse tropeçar em pedras invisíveis. Não sabia o que fazer com as mãos e o meu sorriso era como se estivessem me arrancando um dente, de tanta timidez.

Apenas bem mais tarde, quando me senti numa espécie de encruzilhada entre continuar em não ter contato (físico) com as mulheres e começar a minha vida sexual, mudei. Decidi que o caminho anterior já conhecia e sofria muito para manter. Contra todos os mecanismos de defesa que montei durante anos, me movi no sentido de encontrar alguém que pudesse entender o homem que era – desarticulado, oscilante, mas confiável – interessado em fazer com que um relacionamento desse certo.

Escolhida a “vítima” da minha primeira incursão, tudo foi muito rápido. Uma precipitação meteorológica num dia quente. Chuva de verão. Adiei o máximo que pudesse o momento-sensação de desespero da ejaculação. Não consegui. Não foi tão bom quanto eu desejava, acabei esfolado. Mas disposto a aprender, com o tempo progredimos no envolvimento tanto em intimidade quanto em prazer. Ela e eu, mantemos um casamento de 35 anos.

Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes