#Blogvember / Planar

Planos e projetos que não saem do papel (Lua Souza)

Foto por Thu00e9o Peltier em Pexels.com

eu
como os urubus
plano altivo junto às nuvens
perfurando os ares
voo em grupo a coreografia da liberdade
dos úteis carniceiros
enquanto divago
faço planos e projetos que não saem do papel
propositalmente antecipo o fracasso de desejos
natimortos
exercício de mistérios que adoçam
a minha mente carregada de entulhos
concluo que não nasci para planificar
mas para descer comer restos limpar o lixão
e planar
ultrapassar os mais baixos instintos
para cada vez mais profundamente
rumar ao centro da terra
sem costume e sem regra
me abastecer de indigesta e abjeta iguaria
e voltar altaneiro para o céu
donde observo os seres enganados de si
que se acham melhor do que aves de rapina
que deveras somos…

Participam: Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Suzana Martins

#Blogvember / Ondulante

Sombras dançarinas ondulavam pelas paredes (Obdulio Nuñes Ortega)

Foto por cottonbro studio em Pexels.com

São Paulo sofreu com a tempestade da semana passada. Árvores (malcuidadas) desabaram sobre a rede elétrica, deixando vários bairros sem luz. Retornei a minha lembrança de quando a Rua Oscar Freire, de grande circulação de bem possuídos, teve a sua fiação elétrica aterrada, modelo que seria colocado em prática para o resto da cidade. Essa foi a promessa.

A regra vigente era a colocação dos feios postes de vinte metros de altura por vinte de distância, com crucifixos na ponta, como se fôssemos pregar neles quantos Messias aparecessem. Estes se intercalavam com árvores supostamente bem regradas que não cresceriam além do devido, tecendo a trama que se exporia logo mais no tempo adiante como drama.

O alcaide municipal, preocupado com as eleições de daqui a um ano, desviou a verba para a construção de ônibus municipais para a “restauração” de vias asfálticas em vários pontos da cidade, causando transtorno que, supôs, seria esquecido ao longo dos meses, garantindo que o resultado ao longo do tempo lhe traria a visibilidade necessária para ser reeleito. Mas parece que o sujeito não combinou com a Natureza desgovernada que tratou de lhe mostrar que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa” – como já disse uma vez o grande filósofo nacional, Tim Maia.

Com o modelo de concessão à iniciativa privada – que, como sabemos, visam o lucro – de serviços fundamentais para o funcionamento regular da cidade, a concessionária responsável pelo fornecimento de energia que, estranhamente tem boa parte de suas ações nas mãos do Governo italiano, portanto estatal, entrou em parafuso, deixando milhões de consumidores sem luz por vários dias. Em plena maior cidade da América Latina, com os prejuízos óbvios advindos pelo descongelamento de alimentos, paralização de aparelhos eletrônicos, máquinas de suporte vital e falta d’água por falta de energia para as bombas, entre tantas outras repercussões.

E lá vimos os governantes que colocam o viés ideológico na estruturação de resolução de necessidades básicas do cidadão com caras de tacho, se postando atrás, dando a palavra para os porta-vozes das concessionárias. Para mim, pareceu óbvio que quem manda são eles. Quando falam, atacam a pobre da Natureza, o El Niño, o aquecimento global, o escambau!

Talvez nem se lembrem ou se lembram, “esquecem” de citar que o programa e de seus aliados que os elegeram propõe a devastação ambiental para a busca de ouro, feito modernos Bandeirantes ambiciosos, sem se importarem com o mundo que deixarão para os filhos e netos. E que o planejamento de uma cidade pressupõe a zeladoria para prevenir que situações como a que ocorreu não aconteçam com a gravidade que ocorreram.

Nossa cidade se ergueu sobre uma bacia de rios, riachos e córregos que se comunicam entre tributários e principais, sendo o principal deles, o Tietê – o mesmo que levaram os Bandeirantes interior adentro. Se lhes faltava a capacidade de perceberem o mal que faziam ao matarem gentios da terra ou escravizá-los, fundarem cidades nos moldes de estranhas culturas invasoras, imporem o seu estilo de vida, em contrapartida, se amoldaram ao ambiente. A existência de aglomerações como é a cidade de São Paulo não é saudável. Mas ao fim de tudo, é lucrativa para vários grupos que se locupletam com o abuso de convivências forçadas com a precariedade.

Quando nos mudamos, minha família e eu, então com sete anos de idade, para a Periferia da Zona Norte, numa área praticamente rural que foi loteada, tive que aprender a conviver com a falta dos serviços básicos ao qual estava acostumado. Mas sendo criança, não me lembro de ter sido tão traumático. Puxar água do poço, colocar bacias para esquentar ao Sol para o banho de canequinha, ter como companhia cavalos, sapos, galinhas, patos, vacas, lagartixas (que passei a amar), aranhas (fascinantes) e excepcionalmente cobras, foram experiências que me lembro com carinho. Mas a minha situação era comum à maioria e os recursos, poucos.

A luz faltava frequentemente. Nosso estoque de velas era grande e variado. Algumas delas eram afeitas a rituais religiosos. A cada semana, a minha mãe colocava sete velas brancas para “as almas”. Ficavam protegidas do vento e da chuva, numa espécie de altar. Outras velas ficavam estrategicamente espalhadas pela casa, para quando faltasse luz. Quando isso acontecia, eu ficava fascinado com o bruxulear das velas e as sombras dançarinas que ondulavam pelas paredes. Chego a ter saudade desse tempo e lugar oníricos. É como se estivesse sonhando com o futuro e o ondular dançarino de um corpo que pontua a minha mente…

Participam: Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Suzana Martins / Lunna Guedes

#Blogvember / Viagem Interrompida

Entre sucessivos solavancos projetam veias de anil (Rozana Gastaldi Cominal)

Foto por Aliaksandr Shyliayeu em Pexels.com

busco me encontrar em você
que está onde?
onde eu me encontro em você?
observo às formigas que se reúnem em torno
de sua saliva que despencou da boca molhada
sou como elas tentando beber de suas afluências carnais
sou como a paleta do pintor plena de cores de meu pincel a jorrar
na tela entre sucessivos solavancos que projetam veias de anil
como se pollock incontrolável fosse a aspergir sêmen colorido
em seu corpo de ente ser pessoa mulher em fuga de mim em si
momento sentimento emoção violenta que lhe abençoa a existência
de fêmea senhora de si em mim a perfurar rasgar-me feito faca cega
que me mata me renova em revolucionários movimentos de subversão
múltiplas versões de nós espelhares — tesão
teso peso uso confuso escuso difuso intruso abuso de poder vil
sem saídas apenas entradas e bandeiras morte de etnias da terra nova
dominação e danação em invasões de tabas arrasadas
não é amor é horror de querer tanto que se quer partir e partir-se
em pedaços e espaços onde você ocuparia toda a extensão
de vazios e nadas por onde descaminho
perdido em viagem interrompida
pela via láctea derramada de flores florestas
de estrelas frias e solidão…

Participam: Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Suzana Martins

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Geometrias / Aparências

De início, Geometria é a parte da matemática que estuda rigorosamente o espaço e as formas (figuras e corpos) que nele podem estar. Porém, as suas variadas expressões nos induzem que usar o termo Geometrias não seja contraditório, mas complementar – analítica, plana, descritiva, cotada, elementar, euclidiana, não-euclidiana, espacial ou a de n dimensões. De maneira generalizante, a maioria das pessoas pouco dá importância às questões geométricas, apesar de seus corpos viverem num determinado espaço geometricamente quantificado.

Essa desconexão não as impede de continuar respirando, mas dá bem a dimensão da ignorância que graça entre nós no sentido de entendermos como pouco estamos ligados à beleza matemática da Vida. Todos nós praticamos ações intermediadas pelos elementos geométricos. Apesar de não possuir definição, dão base para eles a reta, o ponto, o plano e o espaço. São noções primitivas de funcionalidade. Dado tantos fatores que estabelecem a nossa vivência em continentes e mares, florestas e montanhas, a vibração vital é modulada através dos corpos incongruentes dos seres vivos geometricamente espalhados pela superfície da Terra – figura arredondada, apesar de opiniões ao contrário –, um dos muitos planetas presentes no Espaço infinito, entre estrelas, galáxias e buracos negros.

Dentre as questões matemáticas mais impressionantes que conheço estão a dos números fractais. São conhecidos como fractais as formas geométricas que se repetem infinitamente em diferentes tamanhos. Ou seja, ao observar-se um fractal em diferentes escalas, é possível perceber o mesmo padrão, ainda que tenha tamanhos diferentes. Esses padrões matemáticos infinitos são apelidados de “impressão digital de Deus”. Os fractais estão ligados a áreas da Física e da Matemática, chamadas Sistemas DinâmicosTeoria do Caos, porque suas equações são usadas para descrever fenômenos que, apesar de parecerem aleatórios, obedecem a certas regras – como o fluxo dos rios, o formato de uma montanha ou a formação dos galhos de uma árvore.

São Paulo contém tantas formas geométricas que poderia representar o exemplo típico de confusão visual que mais assusta do que acolhe. Para quem a ama, é atraente e desafiadora. Nesta imagem, colhida em dia de chuva, pela manhã, o caminho em linha reta sempre poderá ser obstruído por uma bela visão… ou por hordas de seres humanos deitados embaixo de alguma marquise, cobertos por panos puídos.

“Longe das cercas embandeiradas que separam quintais, no cume calmo do meu olho que vê, assenta a sombra sonora de um disco voador…”. Eu me mudei para esta região em 1969. No alto dos morros, apenas o verde imperava onde atualmente se observa construções de tijolos aparentes em sua maior parte. São como quadrados e retângulos alinhados em áreas em declive. Engenhos da arte da sobrevivência. Essa região pertencia a uma antiga fazenda loteada em terrenos de 250m², em média. Isso, na parte “plana” do vale, onde podemos ver as casas desta rua, na várzea do Rio Guaraú que em tempos idos inundava a região.

Essa é a Gertrudes, nossa Kombi (em registro de 2013) que, nos anos iniciais do Século XXI, serviu para transportar a nós e aos equipamentos da pequena empresa de locação de equipamentos de som que meu irmão e eu temos para as mais diversas localizações, dentro do Estado e para além da fronteira. Em Portugal, as Kombis são chamadas de Pães de Forma. Basicamente, é um veículo em forma retangular, nada anatômico do ponto de vista do conforto, mas tão funcional que a chamamos de “coração de mãe”, pois tudo cabe nela, se bem posicionado. Um enigma em termos matemáticos… como se fosse um universo paralelo.

O círculo de fogo “lá em cima” gera a energia que nos aquece. Sem o Sol, nenhuma forma de vida neste planeta existiria. A Terra está na distância exata para que não desfaçamos em pó ou nos enregelemos a ponto de sermos estilhaçados feito pedações de vidro. No céu, as nuvens navegam ao sabor do vento, se formam e se desformam ao “gosto” da pressão atmosférica. Carregam partículas que podem se precipitar em forma de gotas d’água. Tudo é forma, aparência, ainda que gasosa ou aquosa.

O Homem não inventou a roda. Apenas descobriu como utilizá-la para se locomover mais rapidamente e para carregar maiores pesos com o auxílio de animais como bois e cavalos, revolucionando a Civilização. Segundo Platão, a roda já existia no Mundo das Ideias, também chamada de Teoria das Formas. Mais cedo ou mais tarde, seria natural que se materializasse. A forma circular é utilizada para vários fins, desde arquitetônicos até mecânicos, além de comparecer como elemento essencial em vários esportes na forma da bola. Neste registro feito em movimento desde as Marginais do Rio Tietê, sugere mais uma pintura do que uma foto de uma roda gigante. Uma das maiores do Brasil, está localizada no Parque Villa Lobos, sendo uma atração turística recente na capital paulista.

Participam:


Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes