BEDA / Namoramantes

Decidiram, os amantes, passar um dia de namorados. Amor impudico, ainda que vedado ao público, arrancavam momentos fugidios e inconstantes, a base do calendário das oportunidades. Por uma dessas, aquele sábado seria o dia – ambas as famílias a viajarem. Abriu-se a janela para namorarem ao ar livre: parque, almoço, passeio por ruas cheias de gente, cinema. Na noite anterior, no hotel, cumpriram o ritual de sexo viciante, com o inusitado sono relaxante, abraçados e cansados como quem tivesse dado a volta ao mundo em uma hora. Acordaram com a manhã, com beijos e amor sobre a mesinha ainda posta com café, pão, manteiga, geleia e frutas.

Ele vivia a trazer o olhar arregalado da primeira vez, após mais de vinte anos de casamento precipitado e comprometido de filhos, muito trabalho e rotina. Inesperadamente, sem procurar, veio a se envolver com uma mulher cheia de histórias intensas e passado exposto em conversas caladas por muitas pessoas. Ele, mais do que medo em enfrentar tanta bagagem, sentia-se encantado por poder dividir o amor com aquela que, entre outros tantos, o divisou para tê-lo como o seu homem.

Ela também mantinha um casamento. Misto de irmandade, além de sociedade comercial. Decidida a sossegar o coração, a paixão se revelou estranhamente engraçada ao fazê-la se interessar por aquele homem sisudo e aparentemente simples. O que a aproximou dele foi a palavra. Ou, por outra, a voz que entoava a palavra. Algo nela a confortava, ao mesmo tempo que a atordoava. Dada a chance de estarem juntos, o romance explodiu em paixão e sofreguidão.

Ao deixarem o hotel, ela lhe levou a um restaurante de comida japonesa, algo inédito para o paladar do sujeito acostumado com o alimento simples do campo. Disposto a experimentar os novos sabores que a vida lhe apresentava, degustou sushis, sashimis, temakis e tempuras. Aprovou o wakame e o mishoshiru com tofu. Apesar de pedir apenas um suco de laranja, sentiu certo torpor como se tivesse bebido uma boa pinga… Isso a divertiu tremendamente. Enxergava no homem de meia idade um menino a aflorar como se estivesse a tocar o peito da primeira namorada.

Ela conhecia aquela região como a palma de sua mão. No Baixo Augusta, vivera várias aventuras, as mais loucas possíveis em um tempo em que o amor ainda não havia sofrido as restrições de doenças oportunistas, filhas da gostosa inconsequência. Mulher de excelente memória, cada recanto era palco de lembranças marcantes, pela irreverência, prazer ou mágoa. Naquela parede, fez sexo com um namorado; naquela porta, funcionou uma badalada boate que frequentou com os seus amigos mais próximos e experimentou beijar outra mulher; naquele beco, fez xixi no chão em uma situação de extrema necessidade; sob aquela árvore, dentro de um carro, se entregou a um atraente desconhecido; na próxima esquina, terminou um romance conturbado.

Após a sessão de filme romântico, saíram tendo ainda resquícios da luz da tarde a invadir quase às oito horas da noite em horário de verão. Estavam alegres e destemidos, a ponto de tomarem um café em um local exposto, entre o amargor doce da bebida e sorrisos de cumplicidade. Estavam mais apaixonados do que nunca, longe das quatro paredes dos quartos alugados por três horas. Sentiam-se entregues um ao outro, os olhos desatentos, ainda que soubessem que um rosto conhecido pudesse cruzar os seus em um local tão frequentado.

Chegou o momento de voltarem para as suas outras vidas, entre declarações de amor e juramentos de bem querer. Enquanto subiam a rua, cruzaram por grupos de jovens que caminhavam para se reunirem ao local das saídas de um bloco carnavalesco, ali perto. Estavam, em sua maior parte, vestidos de cores e pinturas tribais, tendo alguns a carregarem fantasias mais rebuscadas. Intimamente, os amantes sabiam que estavam a viver a maior fantasia de todas – se amavam…

BEDA / Casa 6 — Rua 2

Casa 6
Antes-Da-Hora

O menino nasceu após sete meses de gestação. Desde cedo compensava a pouca estatura com agilidade. Foi um veloz atacante no time de futebol da escola e sonhou, como todo menino, pisar os melhores gramados da cidade. Tornou-se office-boy e aos dezoito decidiu ser motoboy — um Cachorro Louco.

Desenvolveu conhecimento de todos os atalhos da cidade. Tinha um mapa nos olhos e não perdia tempo. Ficou famoso por sua rapidez nas entregas. Ganhou prestígio-admiração-respeito. Era cumprimentado pelos iguais nos cruzamentos. Se tornou uma lenda do asfalto urbano e ganhou a alcunha de Antes-Da-Hora.

Conheceu Rita — menina de sorriso fácil-largo — no escritório dos motociclistas. Era ela quem lhe entregava o endereço de retirada-entrega das mercadorias. Ela o admirou assim que soube quem era. Se apaixonou pela lenda, ganhou capacete e carona para voltar para casa no final da tarde. Gostava de sentir o vento ao passear por entre os carros, romper o sinal antes-da-hora e chegar a casa na velocidade da luz.

Antes-Da-Hora traçou planos: constituir família com Rita. Sabia todos os caminhos que teria de percorrer. Passou a trabalhar cada vez mais para construir o melhor futuro para os dois.

Depois de fazer uma entrega, a última do dia e com tempo de sobra, voltou para buscar sua amada. Chegou antes da hora e a encontrou nos braços de Paulão, a escalá-lo em sobressaltos-sussurros-agudos. Antes-Da-Hora correu da cena. Subiu em sua moto e alcançou a Marginal, acessando a Pista Central, nunca usada. Costurou o trânsito, enfiou-se veloz entre duas carretas. Mais um Cachorro Louco perdeu a vida no asfalto da cidade, que sofreu mais um dia de caos.

CASA 6“, conto constante do livro de contos curtos “RUA 2“, lançado pela Scenarium Plural Livros Artesanais

Inconfidência: Perdão

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Ele

Olho em seus olhos e percebo que sorriem, brilhantes. Depois de todos esses anos, a vejo solta, gestual descontraído, muito à vontade em minha presença. De certa forma, me sinto bem por fazê-la crer que tudo ficou bem depois da sua revelação de dez anos antes. Após o choque inicial, demonstrei solidariedade, mas por dentro ocorria uma revolução. Fisicamente, senti como se estivesse caindo. Esse processo perdurou por alguns meses, até sentir o baque da queda, a dor excruciante de ver a minha ilusão desfeita, ainda que suspeitasse há muito que algo não se encaixasse… Consegui fazer com que parecesse solidário com o sofrimento que carregou por ocultar por tanto tempo que traiu. Aliás, busquei revalidar essa expressão – traição – uma tentativa em reverter o vazio que deixou: uma bomba de nêutrons – destruiu a vida, porém preservou a estrutura aparente.

Naquele dia, morri um pouco. O passado ganhou novas definições. Fatos indeterminados em significância se aclararam. Vislumbres circunstanciais se solidificaram como revelações. A verdade, tão bela quanto aguda, ganhou clareza filosófica. Em defesa de minha integridade emocional, acabei por desenvolver intimamente a concepção de que ninguém é de ninguém. Publicamente, aqui e ali, repetia que o prazer é pessoal e que ninguém tem o direito de interferir nessa questão… até mesmo, quem assumiu um compromisso de fidelidade. Mesmo porque, quem promete algo em um momento não será a mesma pessoa ali adiante. Assim como não será para aqueles com a qual se relaciona a promessa. Mudamos e nos mudamos. Literalmente, nos tornamos outras pessoas. Morremos e renascemos, estimulados pelas mútuas experiências, vivências internas e externas.

Eu já usara esses argumentos antes de saber o que soube. Você achava que fosse uma possível desculpa para alguma falta de minha parte. De certa maneira, intuitivamente eu sabia o que acontecera no começo de nosso relacionamento. Deixei passar porque a amava. Aceitei, de antemão, o possível peso do acontecido. Com o passar do tempo, cheguei a esquecer de minhas suspeitas. Quando finalmente me foi revelado, apesar do período passado, tudo foi como se fosse no presente…

Agora, neste momento que perdemos Ufo, nosso filho de quatro patas, preferi deixar tudo às claras. Não queria demonstrar diante dele a minha mágoa. Se bem que conversasse, em sua ausência, sobre o nosso relacionamento. Mas não se preocupe. Nunca falei nada sobre o segundo ano de casamento, quando tudo aconteceu… Ele se foi sem saber… Tanto, que sempre buscou nos unir, ainda que sempre ficasse na cama entre nossos corpos, atrapalhando nosso namoro.

Você se lembra como o encontramos. Depois da crise, que quase nos separou, o vimos jogado no meio-fio na rua… Tão pequenininho, sujo e abandonado, ainda com a placenta da mãe grudada no pelo. Parece que chegou para nos ajudar. Nos entreolhamos e, mesmo sem dizer palavra, sabíamos que tínhamos que cuidar dele. Trouxemos o seu pequeno corpo quase desfalecido para cá e aquele “objeto voador não identificado” voltou a nos unir.

Há três anos, você achava que eu tivesse interessado em outra pessoa e, talvez, até estivesse… Então, tirou da cartola o truque definitivo – me contou sobre o Carlos, justamente naquela época… Poxa, meu amigo, companheiro de futebol e cervejadas… Se livrou de um peso, dando para que eu o carregasse. Acho que fez isso porque talvez ainda me amasse – revelar que traiu para ser uma mulher melhor para mim, ser verdadeira, inteira… Deveria saber que a minha pretensão em parecer magnânimo me subjugaria… Ainda que soubesse estar sendo manipulado, aceitei caminhar com os pés cada vez mais afundados na lama… Hoje, revelo o que sinto – na verdade, eu nunca a perdoei…

Com o Carlos, ainda mantenho uma relação de amizade. Ele não sabe que eu sei… Quis manter essa postura para espezinhá-la também. Mas isso só piorou as coisas… Quis que você sofresse e vivia, disfarçadamente, a buscar os seus olhares sobre nós, quando nos reuníamos. Porém, odiava quando parecia não se importar. Ainda imaginava que fosse apenas simulação… Que você contou que me contou… Que talvez ainda se encontrasse com ele. Nesse caso, você terá sido muito mais cafajeste. O certo é que nunca se importou mesmo, né? Satisfeita que estava em continuar a usufruir de um relacionamento confortável e amável, sob os olhares externos. Adoraria lhe dizer que me vinguei a traindo com algumas de suas amigas, contudo, isso nunca aconteceu… E saiba que não foi porque elas não quisessem… Não vou dizer quais…

O nosso casamento… acabou… Não devemos nos enganar. Tudo o que aconteceu… não consegui superar… o meu rancor… Só decidi ficar junto consigo por causa do Ufo, principalmente depois que ele adoeceu. O mútuo sofrimento nos uniu, mas aquele casal acabou por morrer junto com ele. Não faça essa cara de espanto choroso… Eu diria que quase não me importo por não conseguir lhe perdoar… De fato, sinceramente, eu mesmo me peço perdão e o aceito…

Ela

Eu já o perdoei por outras coisas e vou perdoá-lo por isso, também… Tem razão, eu não me importava tanto quanto deveria com você. Ufo trouxe um novo alento à nossa união, mas Carlos fez muito mais… Em nosso segundo ano, você ainda não havia demonstrado que se importasse com alguém além de você mesmo. Estávamos juntos, porém você ia sempre a frente, gostava de ser o centro das atenções… Me puxava pela mão, mas me deixava logo depois, quando encontrávamos nossos amigos. Eu me ressenti bastante de sua ausência. Até que Carlos olhou pra mim… Lembra daquele churrasco na casa do Zé? Foi lá que ele me seguiu quando fui para o quarto da Leninha e do Fábio. Não disse nada. Por trás, me puxou pela cintura, beijou o meu pescoço, mordiscou as minhas orelhas, agarrou os meus cabelos e me beijou sedento, como se eu fosse o último copo d’água… Tão inesperado quanto intenso! Nós nos possuímos na cama do casal… Depois, nunca mais nos separamos. Conheci um homem, não um menino de trinta anos.

Com a chegada do Ufo, comecei a perceber algo mais em você, além do escritor narcisista. O meu olhar mudou. Carlos, como prova que me queria, continuou solteiro. Ele o ama, também, não queria magoá-lo… Quando soube que contei a você, ficou arrasado ao imaginar que se afastasse. Como continuou a encontrá-lo, sem reservas, apenas sentia certa melancolia por trair a sua confiança, sabendo (como me disse) que não conseguia deixar de me amar e de me desejar, igualmente. Eu o amo, muito… Se não fosse por ele, que sabia que eu servia de esteio para o seu equilíbrio emocional, nós já teríamos nos separado, mesmo com o Ufo vivo. Contar o meu caso de amor para você talvez resolvesse o imbróglio, mas o Ufo ficou doentinho… O tratamento para que permanecesse bem, mesmo sabendo que seria inútil para lhe dar sobrevida, impediu que eu saísse de casa. Quando ele começou a perder o seu lindo pelo por causa dos remédios, ainda assim você o acarinhava como se fosse o cão mais lindo do mundo! Voltei a me enternecer por você e ele precisava de nós… juntos…

Agora que se revelou tão rancoroso, me deixa satisfeita que tenha evoluído – expressar totalmente o que sente – e abriu caminho para me desvencilhar de nossa história. Quero que sofra, não por querer puni-lo. Quero que mergulhe verdadeiramente em si e não use os seus personagens como anteparo e sublimação. Nossa vida, a vivemos com os seus altos e baixos. Você disse que para se defender, começou a aceitar de que ninguém é de ninguém. Eu discordo dessa ideia. Eu pertenço ao Carlos e Carlos a mim. Vivemos a nossa humanidade. Não fugimos da nossa precariedade como seres. Gostamos muito dos prazeres que os nossos corpos nos proporcionam. A sua postura em se colocar acima das coisas mundanas só o torna pedante… Mesmo porque, a sua aspiração à elevação espiritual é posada… Não trepa e nem sai de cima…

Depois de algum tempo, como eu estava cada vez mais apaixonada por outro, comecei a desejar que você tivesse alguém mais. Sempre soube que algumas das minhas amigas o achavam interessante. Algumas sabem que estou com o Carlos. De certa maneira, até as incentivava que o assediassem. Talvez, fosse uma maneira de aliviar a sua atenção sobre mim, não sobre minha culpa. Mas você não aceitava as insinuações e não acho que fosse por princípios, mas por vaidade. Ainda que desejasse a outras mulheres, quis manter a pose de inacessível. Maldito ego, que o impede de usufruir dos bons prazeres da vida…

Ah, não cheguei a me emocionar por você jogar tanta merda sobre mim… Foi por pena, porque eu o amo, não da forma que você gostaria, mas apesar de tudo como companheiro de vida e pai do Ufo. Se não consegue me perdoar, sinto muito… por você… Quando vier a amar mais alguém além de você mesmo, um ser humano com o qual não queira competir em atenção, como amou ao Ufo, me compreenderá… Aceite que estes olhos brilhem, ainda que não seja por você…

Tigresa

Há tempos não encontrava Léo. Eu havia perdido o seu contato por todos os meios possíveis por dois anos. Porém na semana passada recebi um e-mail dele, informando que estaria em São Paulo por esta semana. Ficamos de nos encontrar na Paulista, em frente ao Reserva Cultural e passamos uma cálida tarde deste verão atípico a prosear, na Prainha. Amigo querido de faculdade de Jornalismo, éramos dois trintões ainda buscando espaço naquela atividade de destino incerto diante das novas plataformas da informação, “cada vez mais pontuada por opiniões pessoais e conspurcada por posicionamentos ideológicos deturpados…” – frisei, ao comentar sobre as dificuldades da profissão. “Não foi sempre assim?” – contrapôs Léo. Ele sempre foi muito mais cerebral do que eu e devia ter razão…

De início, perguntei por onde ele havia andado por todo aquele período. Respondeu que foi morar em Santa Catarina. Para explicar porque havia sumido das redes sociais, disse que havia se casado… quer dizer, se unido à uma jovem. “Essa circunstância o impediria de se comunicar com os amigos?” – retorqui. Léo baixou enigmaticamente a cabeça, fechou os olhos e quando os abriu, se passou a desfiar sua história recente.

Em uma viagem que fez para o Sul, disse, conheceu T…. “Era atriz e trabalhou no ‘Hair’…” brincou. Na verdade, T. era uma atriz que começava a se tornar conhecida por participar de uma novela global. Inicialmente, lhe dei os parabéns por estar com a bela “tigresa de unhas negras e íris cor de mel”.

“Meu amigo, foi paixão à primeira vista! Desbundei! Ela também gostou de mim! O fato de ser de outro lugar ou talvez por minha personalidade mais calada, diferente da maioria dos seus amigos de teatro, veio a trazer certo frescor aos relacionamentos que já havia tido. A sua postura agressivamente aberta, inversa a minha, imediatamente me cativou. Logo, estávamos a fazer planos para o futuro. Uma loucura!”

Conforme Léo falava, maior era a minha incredulidade. Aquele não parecia ser o cara que conheci na faculdade, controlado ao extremo. Um tipo que sempre evitou se apaixonar pelas colegas de classe, namoros gostosamente inconsequentes ou, minimamente, “amassos” inocentes com amigas mais próximas. Certamente, T. devia ser alguém muito especial…

Continuou: “Logo, conheci os seus outros namorados…”. Nesse trecho, derrubei a cerveja na mesa. “Fiquei amigo de quase todos, mas um deles se sentiu ameaçado em sua posição de primazia e tinha razão para isso, porque assumi esse posto, como acontece até hoje…”.

Léo olhou para mim com um sorriso de quem sabia que provocava um efeito tal qual uma singularidade no espaço-tempo. “Com T., apesar de ser mais nova do que eu, aprendi muita coisa sobre o amor (também o físico) que me transformou em outra pessoa. Aquele Léo que você conheceu, posso afirmar, morreu…

Quase chegava a ouvir a voz de Gal ou Caetano:

“Com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher
Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor
Espalhado muito prazer e muita dor…”.

Léo: “Em poucas semanas, estávamos morando juntos. Consegui trabalho no jornal local e, quase ao mesmo tempo, devido ao seu talento e à boa sorte que lhe dei, segundo ela diz, T. obteve um pequeno papel em um filme feito por lá, numa produção carioca. Os produtores e diretor, o A.W. a adoraram, não somente porque fosse realmente uma bela mulher, mas também, posso garantir, por ser muito talentosa…”.

Ao término da última sentença, me senti muito mal por um pensamento fugidio, fruto de puro preconceito, mas que não verbalizei para o amigo…

“A minha relação com a T. foi se aprofundando mais e mais, porque além de amante e amoroso companheiro, respeitava minha opinião, inclusive sobre o seu processo artístico. Igualmente, passou a estimular o meu desejo de escrever. No ano passado, cheguei a publicar alguns contos em cadernos literários… Quanto ao meu afastamento, foi uma opção pessoal, pois me sentia livre e decidi me desvencilhar dos liames que me prendiam ao antigo eu. Desculpe não ter entrado em contato antes, mas tudo foi tão rápido e impactante que não tive cabeça para mais nada… Atualmente, moramos no Rio, onde ela está gravando a novela. Ficaremos uns três dias em Sampa. Viemos analisar a oferta de sua participação em um filme”.

Tomou um longo gole de cerveja e, como a encerrar o seu relato, disse que estava feliz, amava a sua companheira e que estava atento aos possíveis novos amores de T. para que ela não se ferisse com pessoas que quisessem somente usá-la.

Pensei em perguntar tanta coisa ao Léo, mas qualquer questão que formulasse talvez o ofendesse de alguma maneira. Percebi que não estava preparado para lidar com um assunto tão delicado sem parecer preconceituoso e decidi apenas aproveitar a companhia do Léo que, por amor, transformou a sua visão de mundo, em que a tigresa podia mais do que um leão.

Passamos a conversar sobre antigos colegas e conhecidos, também sobre política, futebol e trabalho. Senti certo receio em relatar qualquer coisa que tivesse como tema relacionamentos interpessoais. Ele havia ultrapassado várias etapas as quais eu ainda estava preso.

Algo mais assombroso me incomodava – pelo brilho nos olhos do Léo quando falava de T., senti que também poderia me apaixonar por ela… Ah, como eu gostaria saber tocar um instrumento…

Madame

Madame

Don era chefe em uma repartição pública. Sempre simpático, era admirado por seus comandados. Todos apreciavam a sua habilidade em controlar situações adversas. Charmoso, conseguia com sorrisos obter melhores resultados do que a palavra dura usualmente utilizada como traço de comando. Chamava bastante a atenção das mulheres, mas nunca ultrapassou os limites da sociabilidade padrão. Muitas, buscavam atrair o seu olhar. Para Ana, justamente a mais discreta, reservava a sua palavra mais carinhosa. Não foi difícil misturarem as linhas de conexão e se apaixonarem. No entanto, ambos eram casados.

Ainda que não quisessem levar adiante uma aproximação mais íntima, o destino colaborou para um vínculo definitivo ao serem escolhidos para um congresso de gestão pública em Brasília. Longe de casa, o mútuo desejo se fez sentir feito fogo no Cerrado seco. Os dois se surpreenderam por serem absolutamente vorazes no sexo. Casaram seus corpos feito música romântica na voz de Roberto Carlos – o côncavo e o convexo. As jornadas de reuniões e palestras burocráticas eram compensadas por noites de entrega a fantasias sequer imaginadas quando estavam com seus parceiros habituais. Foram quatro dias que se encerraram com lágrimas, antes da viagem de volta.

Combinaram uma agenda de encontros para quando voltassem a São Paulo. Não conseguiriam ficar sem algo que não tinham antes, mas que se tornou absolutamente imprescindível. Descobriram-se maiores, expandidos para além de parâmetros conformes a que sempre obedeceram. O mais interessante é que seus respectivos companheiros também se beneficiaram em suas relações pessoais. A partir daquele momento em diante, os momentos de encontros íntimos ficaram mais prazerosos e aguardados com ardor. Durante os dias de semana, as horas de almoço e finais de expediente estavam reservados aos amantes.

Os bons gestores conseguiram levar adiante suas vidas duplas de maneira discreta, mas com afinco e prazer. Adão, o marido de Ana comemorava intimamente o fogo redivivo de início de matrimônio, sem vincular nenhum outro motivo do que uma fase oportunamente benfazeja. Já, Janaína, esposa de Don, desconfiou de tanta paixão no ato sexual. Gostou bastante da nova versão do homem sempre muito comedido, apesar de carinhoso. Porém, sabia que algo mais estava acontecendo. Nunca foi ciumenta, porém esperou um momento de distração para conseguir acessar o celular do marido e obter as informações que precisava para ter certeza das escapadas de Don.

Mulher bem informada e de opiniões fortes, a palavra “escapadas” formulada antes, seria contestada por ela. Advogada, não considerava a instituição do casamento uma prisão, mas apenas um contrato social, importante para assegurar direitos, apenas. Sabia que quando não houvesse mais condições de continuar um relacionamento sem as mínimas bases de sustentação, o melhor seria dissolver o acordo. Ainda assim, Janaína, carinhosamente chamada de “Madame” por Don, uma brincadeira em contraponto ao nome dele, o amava muito. Percebeu que o encontro dele com a nova parceira o deixara mais aberto e um homem melhor.

Madame deixou aflorar uma fantasia que teve o cuidado antecipar em sua mente antes de a revelar a Don. Não buscou explicação para ela. Somente queria realizá-la. Não sabia como o seu companheiro reagiria, todavia como parecia cada vez mais desenvolto em sua nova faceta, a pediria. Certa noite, Don chegou mais tarde. Exibia o sorriso novo que havia surgido nos últimos tempos, que o deixava ainda mais sedutor. Madame sabia que voltava de um encontro com a outra. Jantaram, e entre goles de vinho tinto, foi direto ao assunto. Disse que sabia que ele tinha um relacionamento com alguém da repartição (jogou verde). Imediatamente, o rosto de Don adquiriu feições que em questão de instantes ora pareciam de surpresa-espanto, ora de pura estupefação sobre a pele de cera.

Casal sem filhos, eram os melhores tios que existiam. O casamento havia chegado naquele ponto em que a estabilidade se confundia com mesmice, marcados por momentos festivos e tristezas pontuais. Madame era uma mulher firme e inteligente. Sua postura não comportava grandes arroubos e ele amava o porto seguro que representava. A chegada de Ana em sua vida, tornou tudo muito mais emocionante. E agora, isso… Sem sequer conseguir balbuciar palavra, olhava para Madame e tentava captar em seu olhar qual seria sua estratégia. Estaria armando uma vingança? Continuou mudo por mais alguns instantes, enquanto ela mantinha o rosto impassível. Don moveu sua mão em direção ao bolso do paletó e retirou o celular. Desbloqueou e o entregou à Madame.

Ela o apanhou e calmamente correu os arquivos de fotos. Percebeu uma pasta em que aparecia uma bela mulher de olhos claros e cabelos negros. “Muito interessante…” – balbuciou. “Nenhuma foto dela, nua?…”. “Para que?”. “Gostaria de saber se tem o corpo melhor que o meu…”. “Você sabe que não ligo para isso”. “Talvez… saberei se a ver nua.”. Don pediu o celular de volta e acessou os arquivos bloqueados. Abertos, entregou o aparelho de volta. Madame observou detidamente cada uma das fotos. Chegou a mordiscar os lábios algumas vezes. Desviou o olhar um instante em direção a Don, sorriu e desferiu: “Ela é linda!… Um dia quero conhecê-la mais de perto…”. Passado mais um minuto, devolveu o celular e completou: “Por enquanto, não. Quero ir com você nos mesmos lugares onde os dois se encontram. Se quiser continuar casado comigo somente lá e então transaremos. Se assim decidir, há outra condição – não diga nada a ela… qual o seu nome, mesmo?…”. “Ana…”. “Além disso, quero que seja vista mais vezes com você”.

Don não argumentou. Jantou calado e passou o resto da noite deitado no sofá, pensando, onde adormeceu. Pela manhã, perguntou a Madame se poderia ir de encontro a ele na hora do almoço. Ela respondeu afirmativamente. Já no escritório, mandou mensagem para Ana, informando que não poderiam estar juntos naquele dia, pois almoçaria com a esposa. Ao meio dia, desceu até o saguão do antigo prédio do centro da cidade, onde encontrou Madame. Saíram de carro e foram até um flat. Cumprimentou os funcionários que estranharam a presença da nova mulher. Já no apartamento, mal adentrou, Madame desceu o zíper da calça do marido e o chupou como nunca fez, muita excitada. Don respondeu com igual paixão e ali, junto à entrada, provavelmente tiveram a melhor foda desde o início do casamento.

A partir daquele dia, Don passou a alternar seus encontros sexuais entre Ana e Madame. Enquanto Madame sabia de Ana, Ana desconhecia que Don trazia sua esposa para o local que considerava só deles. Essa circunstância excitava muito a Madame. Verdadeiramente, se sentia a outra. Quando isso não fosse mais um estímulo, já havia lhe passado pela mente certas variações. Um dia, chegaria o momento de incorporar a presença do terceiro vórtice do triângulo no mesmo espaço. Porém, ainda não… Don ainda estava aprendendo a se libertar de certas amarras e se quisesse que desse tudo certo, conversaria com Ana antes. As mulheres saberiam se entender…