Madame

Madame

Don era chefe em uma repartição pública. Sempre simpático, era admirado por seus comandados. Todos apreciavam a sua habilidade em controlar situações adversas. Charmoso, conseguia com sorrisos obter melhores resultados do que a palavra dura usualmente utilizada como traço de comando. Chamava bastante a atenção das mulheres, mas nunca ultrapassou os limites da sociabilidade padrão. Muitas, buscavam atrair o seu olhar. Para Ana, justamente a mais discreta, reservava a sua palavra mais carinhosa. Não foi difícil misturarem as linhas de conexão e se apaixonarem. No entanto, ambos eram casados.

Ainda que não quisessem levar adiante uma aproximação mais íntima, o destino colaborou para um vínculo definitivo ao serem escolhidos para um congresso de gestão pública em Brasília. Longe de casa, o mútuo desejo se fez sentir feito fogo no Cerrado seco. Os dois se surpreenderam por serem absolutamente vorazes no sexo. Casaram seus corpos feito música romântica na voz de Roberto Carlos – o côncavo e o convexo. As jornadas de reuniões e palestras burocráticas eram compensadas por noites de entrega a fantasias sequer imaginadas quando estavam com seus parceiros habituais. Foram quatro dias que se encerraram com lágrimas, antes da viagem de volta.

Combinaram uma agenda de encontros para quando voltassem a São Paulo. Não conseguiriam ficar sem algo que não tinham antes, mas que se tornou absolutamente imprescindível. Descobriram-se maiores, expandidos para além de parâmetros conformes a que sempre obedeceram. O mais interessante é que seus respectivos companheiros também se beneficiaram em suas relações pessoais. A partir daquele momento em diante, os momentos de encontros íntimos ficaram mais prazerosos e aguardados com ardor. Durante os dias de semana, as horas de almoço e finais de expediente estavam reservados aos amantes.

Os bons gestores conseguiram levar adiante suas vidas duplas de maneira discreta, mas com afinco e prazer. Adão, o marido de Ana comemorava intimamente o fogo redivivo de início de matrimônio, sem vincular nenhum outro motivo do que uma fase oportunamente benfazeja. Já, Janaína, esposa de Don, desconfiou de tanta paixão no ato sexual. Gostou bastante da nova versão do homem sempre muito comedido, apesar de carinhoso. Porém, sabia que algo mais estava acontecendo. Nunca foi ciumenta, porém esperou um momento de distração para conseguir acessar o celular do marido e obter as informações que precisava para ter certeza das escapadas de Don.

Mulher bem informada e de opiniões fortes, a palavra “escapadas” formulada antes, seria contestada por ela. Advogada, não considerava a instituição do casamento uma prisão, mas apenas um contrato social, importante para assegurar direitos, apenas. Sabia que quando não houvesse mais condições de continuar um relacionamento sem as mínimas bases de sustentação, o melhor seria dissolver o acordo. Ainda assim, Janaína, carinhosamente chamada de “Madame” por Don, uma brincadeira em contraponto ao nome dele, o amava muito. Percebeu que o encontro dele com a nova parceira o deixara mais aberto e um homem melhor.

Madame deixou aflorar uma fantasia que teve o cuidado antecipar em sua mente antes de a revelar a Don. Não buscou explicação para ela. Somente queria realizá-la. Não sabia como o seu companheiro reagiria, todavia como parecia cada vez mais desenvolto em sua nova faceta, a pediria. Certa noite, Don chegou mais tarde. Exibia o sorriso novo que havia surgido nos últimos tempos, que o deixava ainda mais sedutor. Madame sabia que voltava de um encontro com a outra. Jantaram, e entre goles de vinho tinto, foi direto ao assunto. Disse que sabia que ele tinha um relacionamento com alguém da repartição (jogou verde). Imediatamente, o rosto de Don adquiriu feições que em questão de instantes ora pareciam de surpresa-espanto, ora de pura estupefação sobre a pele de cera.

Casal sem filhos, eram os melhores tios que existiam. O casamento havia chegado naquele ponto em que a estabilidade se confundia com mesmice, marcados por momentos festivos e tristezas pontuais. Madame era uma mulher firme e inteligente. Sua postura não comportava grandes arroubos e ele amava o porto seguro que representava. A chegada de Ana em sua vida, tornou tudo muito mais emocionante. E agora, isso… Sem sequer conseguir balbuciar palavra, olhava para Madame e tentava captar em seu olhar qual seria sua estratégia. Estaria armando uma vingança? Continuou mudo por mais alguns instantes, enquanto ela mantinha o rosto impassível. Don moveu sua mão em direção ao bolso do paletó e retirou o celular. Desbloqueou e o entregou à Madame.

Ela o apanhou e calmamente correu os arquivos de fotos. Percebeu uma pasta em que aparecia uma bela mulher de olhos claros e cabelos negros. “Muito interessante…” – balbuciou. “Nenhuma foto dela, nua?…”. “Para que?”. “Gostaria de saber se tem o corpo melhor que o meu…”. “Você sabe que não ligo para isso”. “Talvez… saberei se a ver nua.”. Don pediu o celular de volta e acessou os arquivos bloqueados. Abertos, entregou o aparelho de volta. Madame observou detidamente cada uma das fotos. Chegou a mordiscar os lábios algumas vezes. Desviou o olhar um instante em direção a Don, sorriu e desferiu: “Ela é linda!… Um dia quero conhecê-la mais de perto…”. Passado mais um minuto, devolveu o celular e completou: “Por enquanto, não. Quero ir com você nos mesmos lugares onde os dois se encontram. Se quiser continuar casado comigo somente lá e então transaremos. Se assim decidir, há outra condição – não diga nada a ela… qual o seu nome, mesmo?…”. “Ana…”. “Além disso, quero que seja vista mais vezes com você”.

Don não argumentou. Jantou calado e passou o resto da noite deitado no sofá, pensando, onde adormeceu. Pela manhã, perguntou a Madame se poderia ir de encontro a ele na hora do almoço. Ela respondeu afirmativamente. Já no escritório, mandou mensagem para Ana, informando que não poderiam estar juntos naquele dia, pois almoçaria com a esposa. Ao meio dia, desceu até o saguão do antigo prédio do centro da cidade, onde encontrou Madame. Saíram de carro e foram até um flat. Cumprimentou os funcionários que estranharam a presença da nova mulher. Já no apartamento, mal adentrou, Madame desceu o zíper da calça do marido e o chupou como nunca fez, muita excitada. Don respondeu com igual paixão e ali, junto à entrada, provavelmente tiveram a melhor foda desde o início do casamento.

A partir daquele dia, Don passou a alternar seus encontros sexuais entre Ana e Madame. Enquanto Madame sabia de Ana, Ana desconhecia que Don trazia sua esposa para o local que considerava só deles. Essa circunstância excitava muito a Madame. Verdadeiramente, se sentia a outra. Quando isso não fosse mais um estímulo, já havia lhe passado pela mente certas variações. Um dia, chegaria o momento de incorporar a presença do terceiro vórtice do triângulo no mesmo espaço. Porém, ainda não… Don ainda estava aprendendo a se libertar de certas amarras e se quisesse que desse tudo certo, conversaria com Ana antes. As mulheres saberiam se entender…

Marimbondo, Deus

Marimbondo
Deus…

Dia desses, enquanto varria o quintal, Deus veio a se incorporar em um marimbondo adulto. Não estava elegantemente em pleno voo, mas praticamente debaixo de um pé humano que, no entanto, decidiu não O esmagar. O pé era o meu…

Um adendo – para desespero de minhas filhas e esposa, normalmente reluto em abater baratas voadoras e prefiro afastar pernilongos com o ventilador ligado ou repelente a persegui-los com armas como inseticidas, chinelos, panos ou até mesmo com as mãos nuas. Não desrespeito formigas, besouros e muito menos borboletas.

Porém, como já fui picado muitas vezes por marimbondos, vários tipos de vespas, além de abelhas (dói muito), decidi eliminá-lo. No entanto, ao ver àquele inseto a caminhar cambaleante pelo piso do quintal, sua situação precária fez com que o movimento da minha perna estancasse…

Naquele momento, pensei: “morremos todos…”. Para a minha surpresa, o marimbondo assim se revelou: “Oi! Sou Deus!” – Por mais que pareça absurdo, acreditei piamente…

A minha filosofia permite acreditar que Deus venha a se manifestar em todas as coisas viventes, como a compor peças de um intricado jogo de quebra-cabeças que nunca conseguiremos montar enquanto estivermos olhando apenas com os olhos de carne.

Dessa forma, pela poderosa conexão mental que se criou entre mim e o Marimbondo-Deus, perguntei o que fazia Ele reduzido ao corpo de um inseto.

– Vez ou outra, Eu, que vivo em tudo e em todos, dos neutrinos aos buracos negros, das bactérias ao multi-universos, faço uma viagem para dentro de um ser natural de qualquer dos bilhões de incontáveis planetas onde se manifesta a vontade vital. É um exercício de percepção.

– Mas, se eu O matasse?

– Não morreria. Não há morte. Cessado o funcionamento do sistema organizado a que chamam de vida, volto a Ser, vamos dizer assim, Senhor de Tudo. Em verdade, mesmo “encarnado”, não deixo de Ser Onisciente… Contudo, ao Me tornar tão profundamente vulnerável, mais amplo Me Sinto…

– Posso fazer uma pergunta, que O Senhor já deve saber qual é, Sendo Deus?

– A resposta é que você não ganhará nenhum prêmio por ter agido com compaixão em relação a um ser menor, mesmo Sendo Ele, Deus. Não se “ganha” o Paraíso como uma espécie de bonificação por agir bem…

Parece que o próprio Deus Vivo também gosta de pausas dramáticas, porque esperou um tempo longo demais para continuar, enquanto mal batia as asas rotas de marimbondo moribundo. Eu, aguardava pela resposta tenso como a vassoura em minha mão…

– … Você alcança o Paraíso Sendo Deus!…

Deus se arrastou um pouco mais e morreu… Não precisou da minha pisada para voltar a Ser Tudo plenamente. Não O deixei onde estava. Eu O varri, junto com os outros detritos no quintal e O joguei no lixo. Mais uma vez, no exercício da varredura, mergulhei na profundidade do Universo, ao recolher restos de folhas, cocôs das cachorras, poeira no chão e Deus…

Projeto Scenarium 6 Missivas | Setembro – 18 | Sem Destino

Manuscrita
Pessoal e intransferível

Esta carta não será enviada às mãos a quem é de direito. De antemão, sei que será impossível. Por trama do Destino ou desígnios da Deusa Lua, com a qual flerto com o lado escuro, estas palavras não chegarão a sua destinatária. Portanto, posso fazer confissões protegido dos olhos de quem não as lerá…

Começo por declarar que sim – eu a amo. Sei que também me ama. É um amor impuro – seria de outra maneira se permitíssemos jogarmos-nos em nós, se nos atirássemos do alto de nossos medos, enfrentássemos as nossas resistências. Mas, não. Estamos separados pela fidelidade. Somos fiéis aos nossos companheiros, infiéis aos nossos sentimentos. Estamos a perder a chance de nos sujarmos de prazer. Ganhamos a constância da sensaboria, no entanto, sem a limpidez da consciência.

Quando nos encontramos, envergamos sorrisos tímidos. Ladeados por nossos pares, lutamos contra a força magnética que nos impulsiona um a favor do outro, contra nossas vontades. Beijos protocolares nos rostos, roçar de peles que se pudessem ser visualizadas de perto testemunhariam pelos eriçados a se tocarem invisivelmente ponto a ponto. Por milésimos de segundo, sentimos dissolver nossos corpos um no outro.

Como para nós nosso amor pareça ser tão óbvio, tentamos passar tanta naturalidade quanto se a nossa vida dependesse disso. Sei que, como eu, idealiza fugir de tudo e de todos, da mesma forma que nos arrependemos, imediatamente após, daquele futuro imaginário em que ficaríamos sem nossas famílias, nossas casas e nossos amigos.

Sabemos de conhecidos que são amantes, que se divertem despreocupados com os seus desejos atendidos em momentos fugidios, em hora de almoço ou expedientes estendidos. Mas não seríamos nós, que nos sabemos amadores. Amamos nossos companheiros, nossa vidinha vulgar, nossas rotinas de férias programadas… Somos covardes?… Ou apenas sensatos mentirosos?… Provavelmente, um resumo de tudo isso.

Alguns diriam que isso não é amor. Que é somente vontade da carne, como o desejo de ir a uma temakeria de vez em outra – variar de sabor, sentir o gosto do proibido. Sei que não é simplesmente isso porque, se soubesse que morreria amanhã ou se soubesse que você partiria em hora marcada, seria ao seu lado que desejaria estar. Talvez, até partíssemos juntos, mártires da banalidade moral…

Projeto Scenarium 6 Missivas | Setembro – 18
Adriana Aneli| Maria Vitória | Mariana Gouveia | Lunna Guedes

A Convicção & O Convicto

Stones and shells pyramid
Pedras convictas

Um mestre e seu discípulo caminhavam junto a um lago, quando o homem de barbas brancas estacou o passo e pediu para que o moço ficasse há uns dois metros de onde estava. Junto aos dois, um montículo de pedras arredondadas, quase chegava a constituir uma pequena pirâmide. O sábio preceptor agarrou uma delas e pediu para que ele se posicionasse de costas, lateralmente ao lago.

– Rapaz, feche os olhos…

Logo, ouviu-se, a uns quatro metros, o som característico do choque da pedra contra a água do lago. Passados alguns segundos, o Mestre solicitou que o jovem se voltasse e olhasse para a linha d´água.

– O que você vê? – perguntou.

– Eu vejo círculos concêntricos a se espalhar do ponto onde o Mestre jogou a pedra…

– E se eu lhe dissesse que o que você supõe não corresponde à verdade? Que eu, na verdade, não arremessei a pedra em direção ao lago?…

– Eu ficaria surpreso, Mestre! O senhor pegou uma pedra do monte e, mesmo que não tenha visto, tudo indica que tenha arremessado em direção àquele ponto, pelo som que ouvi e pelo efeito visual que produziu… O que corresponde perfeitamente à experiência que já vivenciei outras vezes.

– Você confia em seu digno Mestre?

– Sim, eu confio, Reverendo…

– Então, acredite quando eu digo que não arremessei aquela pedra… Nem tudo o que nos indica a experiência condiz à veracidade dos fatos.

Meio a contragosto, o aluno aceitou o seu argumento. Pela tarde inteira, a mesma situação se repetiu, até que a pequena pirâmide se desfez completamente. O discípulo tinha plena convicção que o grande condutor do rebanho de seguidores, do qual ele fazia parte, atirara todas as pedras ao lago e desfizera a pirâmide. No entanto, a recusa do Mestre em confessar que cometera reiteradamente aquela ação talvez não significasse que o Mestre mentisse, como todos.

O discípulo confiava, como tantos, que aquele ser iluminado, que nascera para mudar o mundo, estava apenas a tentar demonstrar uma lição e um propósito, o qual ele não alcançara totalmente a acepção, e que, talvez, só o tempo revelasse. Ele começou a acreditar que havia um simbolismo. Eventualmente, a de que não importaria de que maneira, mas que o objetivo seria o de nivelar as bases, reduzir a pirâmide ao rés do chão… Tudo se justificaria, se assim fosse… Até mentir?

De toda a forma, o discípulo continuaria ao lado do Mestre, ainda que surgisse testemunhas que dissessem terem visto o supremo magistrado de destinos a jogar seixos no lago… Aliás, todas as provas do mundo não demonstrariam a verdade que tinha para si – a de que a crença era mais poderosa que a realidade…

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Maratona Setembrina | Supremacia

SUPREMACIA
Força feminina

De origem desconhecida, a chuva cósmica chegou à Terra inesperadamente, causando danos nos sistemas de comunicações e Internet.  O mundo todo sofreu desconforto, mas as consequências foram bem mais profundas do que interferências em comunicações importantes e atividades estratégicas, além de quedas nas transmissões de novelas da TV, interrupção nos bate-papos, impedimento de envio de fotos de glúteos avantajados e filmes de pegadinhas.

Antes que fosse globalmente detectada a transformação radical pela qual a humanidade passava, pequenos episódios em todos os cantos do mundo anteciparam suas repercussões fundamentais. Ana Maria, revoltada com os sopapos que levava do marido dia sim, dia não, decidiu revidar com um tapa. Só não esperava que seu golpe jogasse Joaquim do outro lado da sala. Em uma esquina escura, Belmira, cercada por um tipo que anunciou o assalto e insinuou algo mais, conseguiu jogar violentamente o oponente ao chão com um simples empurrão, o deixando desacordado. Na escola, a menina chamada de feia e magra, perseguida por garotos que não tinham mais o que fazer, decidiu a situação com um soco no estômago do maior, que ficou a se contorcer no chão, quase sem respirar. Os outros, correram. Uma amante, no momento máximo de excitação, quebrou as costelas do companheiro com uma chave de pernas. Acontecimentos semelhantes foram noticiados em progressão geométrica por todos os cantos da Terra.

Segundo pesquisas realizadas por cientistas ao redor do planeta, a onda de energia radioativa havia alterado drasticamente a fisiologia dos seres que carregavam cromossomos XX – as fêmeas da espécie humana – conferindo-lhes uma capacidade orgânica extraordinária, desenvolvimento de força e amplitude de movimentos muito maiores que os dos machos mais fortes atleticamente. Além de gerar maior impulsividade. Passado um ano, verificou-se que as meninas nascidas após o episódio, apresentavam as mesmas características. Ou seja, os novos parâmetros fisiológicos vieram para ficar.

No entanto, com o passar do tempo, constatou-se que, em profundidade, nada se modificou. Homens e mulheres mantiveram as conformações externas originais. A nova capacidade física feminina alterou as relações de poder, mas apenas trocaram-se os sinais e os gêneros dos envolvidos. Continuaram a ser cometidos os mesmos erros, os mesmos abusos, as mesmas distrações de caráter, por novos agentes. Ficou comprovado, enfim, que nunca houve diferença fundamental entre os sexos. Os comportamentos supostamente desviantes eram intrinsecamente humanos.

 

maratone-se