O Poetinha E A Patriazinha

Em 2015, o desafio poético a que fui chamado no Facebook fez com que eu me colocasse diante de escolhas reducionistas, mas que, ao mesmo tempo, ampliaram a busca por mim mesmo, perdido por rotas antigas, tortuosas, memórias passadas e rotas. Alguns poemas revistos ganharam, em determinados momentos, uma importância inaudita, como este aqui, de Vinícius de Moraes. Em mais uma “Canção do Exílio”, tanto quanto a primeira, de Gonçalves Dias, o “Poetinha” chora pela saudade de sua terra natal, um Brasil que se reinventava-reinventa sempre o mesmo, como drama antigo, de trama tão clássica quanto canhestra. Este tempo que atualmente vivemos é, de certa forma, também um lugar distante. Nele, lembramos do País que não existe mais, e que, o sei muito bem, para o qual, se voltarmos, voltaremos como farsantes…
Ao pesquisar sobre “Pátria Minha”, encontrei esta informação:
“Feito na prensa particular de João Cabral de Melo Neto, em 1949, Pátria Minha é o que então se chamava de plaquete (ou plaqueta). A publicação é feita a partir de um único e longo poema de Vinicius. Amigos desde 1942, quando Vinicius visita Recife com Waldo Frank, os dois funcionários do Itamaraty se correspondiam com frequência nessa época. Era o período em que Vinicius ainda estava em Los Angeles e João Cabral, em Barcelona. Foi a partir do poema enviado para a leitura de João Cabral que ele teve o impulso de fazer os 50 exemplares do poema artesanalmente, na sua prensa e editora caseira conhecida sob o selo O Livro Inconsúntil. O livro foi uma surpresa para Vinicius, com quem Cabral deixou todos os exemplares. Em uma carta escrita em outubro de 1949, o poeta-editor diz em um P.S. para seu amigo carioca que: “Não distribuí o livro a ninguém. Faça-o a vontade. E me mande um com dedicatória”. – In: http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/poesia/livros/patria-minha
Em Fevereiro de 2015, eu ainda não havia conhecido a Scenarium Plural – Livros Artesanais – selo que carrega o mesmo teor de O Livro Inconsúltil em sua manufatura artesanal – de Cabral de Melo Neto, um dos maiores poetas do País, que nos presenteou ao trazer à luz esta expressão de brasilidade lírica de Vinícius de Moraes. Em meados daquele mesmo ano, Lunna Guedes, escritora-editora, apresentou a oportunidade de me expressar como escritor. Decidi adotar essa função-missão-querer como definição de meu ser social. Com relação ao Brasil, tenho o relacionamento dúbio de amor-e-ódio-torcedor-distorcedor, amante sem ser amado.
Pátria Minha
A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!
Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!
Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.
Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.
Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”

Meu Dia

MEU DIA A

Hoje, é o meu dia. Também. Antes que venham me dizer que sou um homem – talvez mais um a usurpar algo que não seja dele – peço espaço para demonstrar o porquê do meu argumento. Aliás, poderia perguntar: qual dia não seria da mulher?

Eu sou feito de mulher – fui gerado, educado, formado, influenciado por mulheres. Sou filho, pai, marido, irmão, amante das mulheres. Espero que igualmente seja amado por elas. Se não, buscarei aprimorar quem sou para ser digno desse amor.

Eu fico arrasado com as notícias de mulheres assediadas, aviltadas, tripudiadas, seviciadas, torturadas, estupradas e mortas por serem mulheres. Por homens que odeiam as mulheres por serem mulheres. Por serem autônomas, grandiosas, luminares, fortes. Para alguns, a mulher tem que ser derrotada, humilhada, colocada em seu lugar. Patrimônio do patriarcado, estertores de um sistema em vias de extinção.

O homem-macho ataca a mulher por ser diferente. O que o atrai nela – o apelo reprodutor – a torna marcada para exercer uma tarefa específica em torno do qual se constrói um corolário de leis e mandamentos do qual ela não deve se desviar. Para embaralhar mais as mentes mais simples, a personalidade construída no machismo, com a escusa de composição fisiológica, hormonal e mental diversas da feminina, se defende de qualquer viés que lembre que é, no mínimo, metade mulher.

Eu não sei se devido às reações irracionais ao processo de emancipação feminina, houve um aumento exponencial das violências (plural) contra as mulheres, culminando em feminicídios sequenciais. Ou talvez esteja havendo um maior número de notificações, a evidenciar algo tão antigo quanto a formação da sociedade brasileira. A grandíssima parte dos episódios envolvem companheiros, namorados ou conhecidos.

Ou seja, o inimigo dorme junto, é da família, mora ao lado, conhece ou tem contato visual constante com o objeto de ódio, muitas vezes mascarado de amor. De fato, quando o motivo é a rejeição, o único amor que sobressai é por ele mesmo ao avançar contra quem dizia amar. Quem ama verdadeiramente à mulher e a si mesmo não ataca, não vilipendia, não prende, não mata.

Eu, em meu dia, comemorado como Dia Internacional da Mulher, peço desculpas sinceras em nome do gênero sob qual nasci por tanto mal que fizemos, fazemos e faremos (espero que cada vez menos) a você, mulher.

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Bonapetito

Nos primórdios de sua existência, os grupamentos humanos – colhedores, pescadores e caçadores – encontraram, com a ajuda do fogo e temperos descobertos aqui e ali, maneiras de dar sabor aos seus alimentos. Com o desenvolvimento das civilizações, impérios surgiram e desapareceram baixo os mecanismos da oferta alimentar através da produção ou o controle de territórios que a produziam. A espécie humana cruzou oceanos em busca de especiarias e terras para a agricultura de grãos, legumes e frutas, inaugurando a globalização. Além de sustentar o indivíduo,  o alimento carrega vários outros significados. Em torno dele, as famílias se congregam. Agradecer a comida sobre a mesa tem caído cada vez mais em desuso, porém reverenciar o alimento que nos sustenta pode ser feito sem alarde – uma homenagem a quem trabalha para fornecê-lo e até ao próprio alimento, de origem animal ou vegetal.

Bonapetito (6)

Minha mãe, em época de restrições, complementava minhas mamadeiras de leite com café. Até os seis ou sete anos, usei mamadeira de manhã. Continuaria usando mais tempo, se o querido objeto não tivesse sumido. Ficou o gosto-vício pelo café. Não prescindo de tomá-lo, ainda que acorde tarde, quase na hora do almoço. O que ocorre frequentemente devido às minhas atividades profissionais. Hoje, tomar café virou motivo para encontros – sinônimo de prazer dividido por amantes da bebida, como eu. ‘Bora tomar café?

Bonapetito (7)

Às terças, faço a feira da semana com muito prazer. Gosto de apreciar as cores, os cheiros dos legumes, temperos, grãos e frutas. Gosto de ouvir os pregões, sempre criativos, entre outros tantos reprisados, mas sempre engraçados. A festa dos sentidos sempre termina com o tradicional pastel de feira. Um caldo de cana é um complemento doce-ideal desse tradicional petisco. Difícil de dispensar, não deve se considerar um paulistano típico quem não passou por esse rito de passagem.

Bonapetito (4)

Quando a falta de tempo nos impede de prepararmos um almoço ou jantar mais completo, um sanduíche vem sempre a calhar. A depender dos ingredientes, a qualidade alimentar, além da rapidez são fatores que compensam sua feitura. Neste, de pão de forma integral, com atum, alface, filetes de cenoura, beterraba e maionese, além de bonito, estava bastante saboroso.

Bonapetito

Não há como dispensar um tradicional arroz e feijão, mesmo quando estou fora de casa. É o meu prato favorito. Nesta imagem, como acompanhamento, além de farinha de mandioca, banana nanica à milanesa, abadejo, mandioca frita e legumes com maionese. Como sobremesa, sagu feito com vinho, romeu e julieta (queijo e goiabada) doce de banana e pudim de coco diets.

Bonapetito (8)

As minhas filhas me apresentaram a comida japonesa há alguns anos. Por puro preconceito, a evitei por outros tantos. Foi paixão à primeira palitada! Comecei a empunhar os hashis com habilidade insuspeita. Ainda não sei, como elas, os diversos tipos dos sashis, sashimis, as variedades de temakis, guiosas e lámens. Além das variações encontradas em cada casa de comida japonesa. Esta semana, mesmo, pedimos para o jantar.

Bonapetito (3)

Não só de alimentos que colocamos garganta adentro nos carrega de energia. Vistas, sensações físicas proporcionadas pela brisa vinda do oceano ou a água do mar na pele. Os pés na areia, o barulho das ondas a quebrar na praia, o horizonte infinito, a luz do sol a transpassar por barcos, banhistas e pássaros compõem um prato delicioso. Água de coco para refrescar…

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Alê Helga— Darlene Regina — Lunna Guedes
Isabelle Brum — Mariana Gouveia

Tempo

Tempo

Tempo, tempo, tempo…

Tentamos capturar o tempo nas mãos como se ele existisse…

Em nossa passagem pela Terra, sucessivas civilizações, nos quatro cantos do mundo, desenvolveram maneiras de programar eventos, prever plantios e colheitas ou até tentar adivinhar os seus destinos como pessoas ou nações. Alinhando as datações, estudiosos puderam sincronizar os movimentos naturais do planeta às ações humanas, criando a História.

Agora, após o Carnaval, quando começamos verdadeiramente o ano, como faziam os antigos romanos – uma tradição tão arraigada em nosso comportamento que o reproduzimos intuitivamente – tomamos consciência que a passagem do tempo é permeada por uma sensação aleatória e algo incomensurável de espanto. A sequência de fatos históricos datados nos dá a falsa impressão de marcha avante e, concomitantemente, de que voltamos à barbárie quando seres aparentemente civilizados cometem atrocidades.

Otimista, creio que o que acontece de ruim com as pessoas (produzido por outras pessoas) tem nos causado cada vez mais asco, porque estamos mais sensíveis. Talvez seja mais uma esperança do que uma constatação, mas prefiro acreditar nisso do que aceitar que o homem não tenha aprendido nada em sua permanência de milhões de estações na Terra.

Segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, estações, anos, décadas, séculos, milênios, eras… podemos enumerá-los, mas o importante mesmo seria constatarmos não como estamos e sim o que somos. No entanto, ao nos aceitarmos como seres mutantes, uma avaliação acaba por se sobrepor a outra e talvez jamais obtenhamos uma resposta plausível.

Marcar a passagem do tempo se equipara a reverenciar ao Tempo como Deus. De certa maneira, é uma de suas representações…

https://www.youtube.com/watch?v=HQap2igIhxA

Lavação

Lavação

Hoje, acordei ao som da chuva… Não era tão forte que trouxesse apreensão por não conseguir se esvair em redemoinhos em bocas de lobo e tampouco fraca o suficiente que não se fizesse notar, tal qual a fina garoa paulistana que umedece silenciosamente as nossas roupas e nos deixam com certo ar de gripados.

O tamborilar ritmado de gotas esparsas que caíam nas folhas das plantas e no piso do quintal, produzia um som gostoso. Vez ou outra, um ruído mais abafado ou mais estrondoso se fazia notar (eram as mangas maduras que desabavam ao chão ou na cobertura da garagem), ponteadas por silvos de pássaros que aguardavam a chuva diminuir para saírem em seus voos úmidos, compondo uma sinfonia natural.

Reservo uma área de escape para o fluir da água em direção ao solo, mas não creio que seja suficiente. Os nossos quintais normalmente estão impermeabilizados em toda a sua extensão e os caminhos que as correntes d’água percorrem será sempre em direção ao asfalto e aos seus escoadouros, que desaguarão no rio menor, que virão a desaguar no rio maior. Se o nosso maior rio aguentar tanta massa d´água, manterá o seu nível abaixo das linhas máximas das suas margens até chegar a algum ponto no meio do continente.

Esse rio, o Tietê, diferentemente da maioria dos rios, corre para o interior, até o Rio Paraná – que separa o Paraguay da Argentina –, que ao se unir ao Rio Uruguay, forma o Rio da Prata para, só então, chegar ao Oceano Atlântico. Fico a imaginar que aquela gota jogada ao léu pela chuva despejada em meu quintal, que não se direcionar para a terra do jardim, um dia chegará ao mar, bem ao sul, então eivada das indigências e dos pecados de nossa civilização.