Projeto ®existir | Obdulio Nunes Ortega | Scenarium Plural Livros Artesanais

Resistir

PENSAR COMO UM LADRÃO

Certa vez, ouvi do Alemão, com o qual instalava um equipamento, a frase: “Ladrão! Ladrão!”. Perguntei: “Por que ladrão”. “Porque se não é ladrão, é roubado!”. Entendi, com seu jeito simples e direto de falar, que se referia à presteza com que deveria ser realizada uma tarefa.

A partir dessa premissa, conjecturei que agir fora das regras e leis vigentes nos garantiria vantagem sobre o próximo, que é, em suma, adversário na luta pela sobrevivência. No mínimo, assumimos mentalmente um comportamento similar. Por exemplo, ao estacionarmos o carro, tomamos todas as precauções possíveis para que o nosso bem móvel não seja removido para longe de nossos olhos e mãos – somos obrigados a pensar como um ladrão. Constato, mas não valido. De espírito, sou franciscano. Isto não impede que ainda que tenha a melhor das intenções, eu e muitos outros terminamos por trabalhar para que o Sistema se perpetue.

Agimos feito criminosos amadores. Corruptores, distribuímos agrados para sermos privilegiados em várias ocasiões. Pagamos planos de saúde – um extra para garantir melhor atendimento quando nossas vidas e a dos nossos familiares estão ameaçadas por acidentes ou doenças. Como também somos impelidos a pagar seguros de vida, a fim de dar segurança financeira aos nossos beneficiários, caso um dos acasos pelos quais passamos todos os dias nos levem a óbito – passamos a valer mais mortos do que vivos.

Reunidos em torno de uma sociedade que exalta como valor maior sobrepujar metas de produtividade e acumular bens em contraponto à expansão da consciência pessoal e social, a tendência é que desenvolvamos a visão que associe progresso material à profissão de fé. Religiosamente, todas as manhãs, levantamos e nos dirigimos em séquitos às igrejas patrimoniais. Nada que finais de semana – sextou! – regados à entorpecentes, futebol, festas ou orações não nos aliviem para que, às segundas-feiras, retornemos aos expedientes, semivivos, mas funcionais.

Para defender o status quo, vemos ações cada vez mais violentas dos combatentes aos elementos à margem, enquanto estes investem cada vez mais ferozmente contra os agentes da Matrix econômica: trabalhadores, inclusive. De muitas maneiras, enredados por uma doutrina que produz desarmonia humana e desequilíbrio social, fabricamos deserdados que, a ferro e fogo, não dão valor a vida de outrem. Alijados desde cedo de melhores perspectivas, se utilizam da moralidade de um ponto de vista básico – eles contra os botas – escudos a soldo, que matam em nosso nome. Há quem veja sinais de rebeldia contrarrevolucionária nas ações dos marginalizados, quando ao final de tudo, ficamos em meio ao fogo cruzado – os bem e os mal-intencionados.

Em álbuns antigos, ao rever imagens de minhas filhas pequenas, além da saudade, fiz um exercício sob o olhar do “politicamente correto”. Reavaliei cenas e situações naturais, mas que sob esse novo critério, poderiam ser consideradas duvidosas, como a em que estou a me divertir com as três meninas na grande banheira no, até então, único banheiro da casa. Era comum que todos nós nos víssemos nus, sem o puritanismo retrógrado em que a liberdade e a aceitação de nossas diferenças fossem vistas negativamente.

Sempre julguei que dar a elas a oportunidade de ver o corpo de um homem (no caso, o meu), seria bem mais educativo do que aplacar a curiosidade através de informações normalmente eivadas de preconceitos e ignorância. Minha esposa, sempre presente, agia da mesma forma. Profissional da saúde, nunca deixou de informá-las sobre as questões mais espinhosas com relação ao corpo feminino – o objeto primordial de culto e culpa da sociedade patriarcal. Se bem que formemos uma família tradicional, nunca apresentamos restrições àquelas formadas de maneiras diversas, como as homoafetivas, por exemplo. Aliás, ainda que todos nós apresentemos a heterossexualidade como orientação atual, vemos os outros de perfis diversos, acima de tudo, como pessoas.

De alguma maneira, vivemos um processo de “reeducação” através do olhar doente daqueles que sentem prazer obsceno à vista de imagens inicialmente cândidas, mas que se revertem em fetiche predatório. Ao mesmo tempo, há pessoas que não conseguem construir uma personalidade autônoma dos mandamentos postulados por falsos moralistas, atacando tudo que pareça diferente da normatividade propalada como ideal, enquanto vivemos uma guerra fratricida, estimulada pela atual estrutura social carcomida.

Vertente da criatividade humana que deveria avançar-provocar reflexões para além da mesmice, igualmente quaisquer manifestações artísticas são julgadas e condenadas com base na visão do cidadão médio. Ousadia, aquela apenas aparente, em canções populares de conotações duvidosas – voos rasos de moscas em torno do estrume.

O que vimos acontecer ultimamente foi um fenômeno revelador – a chamada maioria silenciosa, que de início reagia como manada-bando – repentinamente passou a agir como matilha-hoste armada de intolerância, racismo, xenofobia, homofobia, com pendores ditatoriais. Quem acredita, como eu, que o ser humano existe com um propósito maior do que servir a esquemas predeterminados e ao imediatismo funcional, deve, como coparticipante do concerto social, fazer ouvir nossas vozes de resistência ao retrocesso e ao processo de alienação. Dignamente, por nós e por todos, apesar deles, apesar de tudo, lutemos!


Obdulio Nuñes Ortega… nasceu a fórceps no começo de outubro de 1961, no centro de São Paulo. Ainda criança, começou a se mover para a Periferia, primeiro à Leste, depois ao Norte. Desde cedo, quis ser escritor.  Renasceu aos 17 anos, vegetariano e a crer. Aos 27, renasceu casado e pai. Escolheu trabalhar como peão e dono de seu próprio negócio. Budista, demorou a lucrar. Franciscano, aceitou com resignação ganhar o pão com o suor de seu rosto.
O escritor adormeceu e, sem ter como se expressar, aquele Obdulio morreu no final de outubro de 2007, diabético, por excesso de amargor. O atual renasceu a carregar a memória do antigo homem que escrevia, a enxergar o mundo com novos olhos… ainda que a herdar a miopia do outro. E chega até este quadrante a sentir redivivo… a cometer os erros dos novos, a renovar os seus ímpetos, a amar como um adolescente, a ser escritor, como sempre quis.


In: https://scenariumplural.wordpress.com/category/blogue/

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Dezembro Em Preto & Branco

Dezembro… luz do sol… calor… mês de festas… Preto no branco, quase não há o que comemorar, a não ser termos sobrevividos a um ano tão doloroso quanto um ferimento à faca. Em tempos em que cada termo ou imagem passa pelo escrutínio ideológico, essa metáfora, por mais inocente que pareça, indicaria pendores aleivosos. Pelo sim, pelo não, não precisa ser faca, então. Vamos dizer que tenha sido tão doloroso quanto o espancamento de um ser inocente com barra de ferro apenas para não tê-lo por perto. Este ano se encerra com dúvidas e incredulidade muito maiores do que quando começou. Fiz previsões para este ano da graça de Vinte Dezoito. Foram publicadas em uma das Revistas da Scenarium Plural – Livros Artesanais. Eu as reproduzirei aqui, até o seu final. Errei muito. Não queria acertar o que acertei.

Por hora, resta aludir às imagens em P&B – tema desta edição do “Projeto Fotográfico 6 On 6” – que consiste em postar seis imagens comentadas publicadas no sexto dia de cada mês, por autores convidados por Lunna Guedes. As fotos em preto e branco são, para mim, estranhamente mais atraentes que as coloridas. Talvez, uma influência direta do fato de ter assistido meus programas favoritos em TVs P&B até meados de 1982, quando minha mãe juntou o dinheiro que tinha e que não tinha para comprar uma TV Colorida para assistirmos a Copa da Espanha.

6 On 6 - P&B

Ao passar pelo Museu da Diversidade, instalado na Estação República do Metrô de São Paulo, encontrei essas palavras em um dos vários quadros com dizeres espalhados pela parede externa do pequeno e expressivo espaço de resistência da liberdade de ser. Traduz de forma exemplar como somos manipulados para viver por padrões que engessam nossa expressão humana. E como nossos sentidos – físicos e infra-ultra-físicos – se entregam à estereótipos confortáveis e padronizados para interpretar o mundo que nos rodeia.

6 On ¨- P&B (Devaneio)

A luz do sol inclinada na hora do crepúsculo, banha o vale e sua casas. Entre elas, a minha, que se sente calorosamente atravessada. Como o personagem de “Beleza Americana”, que assiste o passeio de um saco plástico ao sabor do vento, eu me perco em devaneios para formar imagens que se diluem em linhas costuradas pela imaginação. O registro fotográfico apenas arranha na superfície a viagem para o tudo ou nada do que vislumbro…

6 On 6 - P&B (Escuridão)

A imagem acima é um atestado do que coloquei acima, sobre preferir tons mais sombreados em contraste com a brancura dos corpos. Neste caso, de cravos vermelhos. O que eventualmente tenha se perdido em cor, ganhou em consistência – peso seria uma boa palavra – quase como se as delicadas pétalas fossem revestidas de ferro.

6 On 6 - P&B (Chuva Na Marginal)

Normalmente, voltamos de madrugada – eu, meu irmão e nosso auxiliar – dos eventos em trabalhamos na produção com nosso equipamento de som e luz – esta, idealmente colorida. Dia desses, quando choveu tanto em São Paulo que vários trechos da Marginal foram alagadas com as águas do Tietê, passamos transversalmente, a salvo por pontes do Corredor Norte-Sul. Registrei esta ilustração noturna que logo se configurou, como caçador de imagens, em uma das minhas favoritas desde sempre.

6 On 6 - PB (Portal)

Este portão de uma residência aparentemente abandonada é quase um portal do tempo. Não posso ver construções como essa sem reconstruí-las como à época de seus esplendores funcionais. Esta, acima, se localiza no início da Francisco Matarazzo e não duvido que tenha feito parte do patrimônio do próprio Comendador, como quase tudo no vale que a avenida que carrega seu nome, percorre. Esse portal dá entrada a uma pequena vila bastante descaracterizada, com linhas mais retas-modernas-pobres do que as belas-esféricas-sinuosas do passado. As primeiras, preferi cortar da foto.

6 On 6 - P&B (Idades)

De início, não via vinculação entre as duas imagens que estão expostas lado a lado. No entanto, a primeira, originalmente em P&B, representa um auto-retrato sem tanto apuro técnico, pois desenhava bem espaçadamente naquela época, ao contrário de anos antes, quando cheguei a me imaginar desenhista e até, pintor. Nada impede que possa me tornar um, algum tempo adiante. A segunda, devido à falta de luz, sombreou naturalmente. Contribuí com um pouco mais de escuridão. No desenho, o queixo é menos largo e o nariz menor do que se tornaram. O rosto, mais preenchido em suas linhas. O olhar, é de espanto. Espanto que carrego até hoje, talvez com os olhos espremidos de quem pensa demais. Além do que relacionei em comum, nos dois registros, uso óculos. Ao contrário do que diz a música, eu nasci de óculos, ainda que tenha começado a usá-los apenas a partir dos 12 anos…

Participam desse projeto:
Ana Claudia – Anália Boss – Claudia Leonardi – Fernanda Akemi – Luana de Sousa – Lunna Guedes – Mari de Castro – Mariana Gouveia – Maria Vitória – Isabelle Brum   

Projeto Scenarium 6 Missivas / Novembro-18 / Carta A Bento

Capitu
Maria Fernanda Cândido, como Capitu

Como vai, Bento? Você não me conhece, mas eu o conheço. Na verdade, muita gente o conhece, ainda que talvez não saiba. Culpa sua, que divulgou sua passagem pela Terra. Com o passar do tempo, no entanto, a sua figura acabou por se tornar secundária em sua própria história. Mais adiante, falarei sobre isso.

Já me disseram que pareço com você. Pode ser. Há algumas similaridades. Você fez seminário, eu flertei com a possibilidade de me tornar frei franciscano. O meu orientador voltou para a Bélgica e tive lhe dar com um novo que pediu mais tempo para me conhecer. Eu disse que não poderia esperar mais um ano. Conheci a minha futura esposa logo em seguida.

Nunca quis seguir Direito, que supostamente busca a justiça. A única equivalência possível é que nasci sob Balança, de pratos sempre desequilibrados. Passei por situações que o mau humor me afastou das pessoas – pura casmurrice. De certa forma, não me importava tanto assim se ficasse só. Hoje mudei. Busco contato, alcancei reputação de ser boa praça. Espero ter ultrapassado a condição de ser que viesse a morrer amargurado se soubesse (ou presumisse) que uma das “minhas” filhas não fosse minha. Eu as amo tanto…

Sabe o que conseguiu com tudo que nos passou com a sua desconfiança? Que Capitu se tornasse cada vez maior do que você. Por algum sortilégio de cigana ou porque Capitu tenha ultrapassado sua condição de mulher resignada a seu papel de esposa silente, ela alcançou status de ícone feminino. Seus olhos de ressaca atravessaram quase dois séculos e continuam a fazer sonhar homens e mulheres.

Ela não era dissimulada, era alguém que sabia o que queria e quis e fez. Para se defender, usou das armas a que muitas mulheres utilizavam à época e ainda hoje, quando supostamente têm maior liberdade. Desculpe, meu caro, mas Capitu não cabia na personagem que gostaria. Pelo menos, você, Bento, teve a capacidade de nos revelar a verdadeira identidade dela através de seus olhares. Não se engane, não era o mesmo que o de Sancha, por ocasião do velório. Era mais profundo…

Creio que com a morte inesperada de Escobar, ela sentiu que um modelo de homem que admirava também morria. Ainda que não tenha se envolvido tão profundamente a ponto de se relacionar sexualmente com o seu amigo, ela via nele a possibilidade de interação que deveria ter consigo. Que eventualmente se prenunciou quando eram crianças. No final, perdurou a sensação de anticlímax.

Enfim, teria uma pergunta a lhe fazer se soubesse que responderia com sinceridade: você realmente amava mais a ela ou a Escobar? O rosto que via em Ezequiel não seria a face que gostaria que lhe acompanhasse amorosamente durante toda a sua vida? No entanto, até seu filho você perdeu durante a trajetória que decidiu desenvolver.

Oh, Bento!… Tão auto enganado, tão digno de pena, tão enganado… Boa noite, oh, insone!

Simbologias

Simbologia

Indicada a direção do banheiro, estanco o passo diante de duas portas, frente a frente. De um lado, a letra M; de outro, a letra F. Por exclusão, supus que M quisesse dizer masculino, enquanto F, feminino. Caso quisesse descer à designação fisiológica genérica – macho e fêmea – de onde deriva a nomenclatura, seria admoestado por meu censor interno. Por algum motivo, apesar de sermos animais, a questão de gênero ganhou tantas conotações que fica impossível sermos bem vistos apenas porque usamos o termo correto. Mesmo porque, a conformação física vem a estipular quais e quais dispositivos devam estar presentes em ou outro banheiro, apesar de alguns itens de uso comum. Contudo, tenho a impressão que no banheiro os machos continuam sendo machos, enquanto as fêmeas ultrapassam à sua simples condição de gênero e são também mulheres, tendo o espelho como instrumento auxiliar de introspecção (ou expansão).

Se as letras estampadas nas portas fossem H e M – Homem e Mulher – identificaria construções mentais que designam não somente os gêneros sexuais básicos, mas também os papéis relativos a um e outro. Esse é um tema premente, bastante discutido por alguns que pensam a sociedade, na busca da reavaliação desses papéis incorporando mutações sociais na apreciação dos valores dos gêneros e derivantes. Bem mais malvistas por mim são as famosas figurinhas em que a porta do banheiro feminino mostra um corpo com triângulo na altura da cintura (a designar uma saia) e o masculino, reto, a fazer supor calças. Eu nunca gostei desses símbolos. Além de serem ultrapassados, não têm charme. São simplistas e eu me passa a sensação de emasculação, no caso do homem e de determinismo, no caso da mulher. Escuros, não sabemos se estão de frente ou de costas. Seriam mais interessantes os víssemos de lado, com eventuais contornos a brincar com suas formas. Há variações iconográficas interessantes, bem humoradas, restringidas a ambientes particulares, sem alcance do grande público, que talvez causassem confusão na identificação.

Além de “XY” e “XY” – representando os cromossomos sexuais masculinos e femininos – Ele e Ela são pronomes comumente utilizados para diferenciar banheiros para os usuários de ambos os sexos. Para respeitar as opções daqueles em que “ambos” os sexos possam estar juntos na mesma pessoa, surgiram em vários lugares os chamados banheiros unissex. Em 2008, o centro acadêmico da Universidade de Manchester – uma das maiores universidades da Grã-Bretanha – mudou as placas dos banheiros femininos para apenas “banheiros” e dos banheiros masculinos para “banheiros com mictório”, atendendo a pedidos de estudantes transexuais. Como era de se esperar, houve entrechoques entre os grupos defensores e contrários. Por aqui, a depender dos movimentos conservadores, a ganhar por hora cada vez mais espaço em nossa sociedade, as designações simbólicas tenderão a se tornar cada vez mais padronizadas, sem eleger variações sobre o tema da identidade sexual.

A simbologia aparente é que aparelhos urbanos de uso público para a realização de nossas necessidades fisiológicas excretam substâncias bem mais complexas que os resíduos fabricados por nossos corpos. Envolvem algo mais do que fazemos no privado e nas privadas. Temos dificuldade em lhe dar com nossos excrementos tanto físicos quanto mentais. Compreender a dinâmica de uma sociedade em desenvolvimento, incorporando preocupações e tendências que devam atender demandas justas de quem quer se colocar no mundo de maneira mais confortável é um sinal fundamental a demonstrar que estamos aprendendo a ser gente, para além de simples animais que defecam preconceitos.

O sistema de coleta e tratamento de esgoto é, simbolicamente, distintivo do grau de desenvolvimento de uma sociedade. As grandes civilizações do passado demonstraram seu progresso civilizatório justamente na construção de intricados sistemas de saneamento básico. Dado o subdesenvolvimento do Brasil nesse campo, não é de se admirar que não consigamos lhe dar igualmente com nossas indigências sociais malcheirosas.

Sentires

Sentires

Em determinado momento, ela diz que está com ciúmes de mim. Contraponho, um tanto sarcasticamente, que a palavra correta é “ciúme”. É um sentimento. Que não sentimos ódios de uma pessoa, apenas ódio. Ela refuta que, a depender de quem se trata, sente ódios, mesmo.

A sua última resposta me faz refletir sobre o que até então propunha como certo – a unicidade dos sentimentos. Logo, me vem à cabeça “ O Quereres”, de Caetano, cuja letra coloco como divisa de identidade, para desespero de quem gostaria que eu fosse assertivo como um machão e convicto como um louco. Quando, na verdade, sou apenas um macho convicto de minha loucura terçã…

Há pouco, ouvi de alguém: “ando com saudades…”. Foi algo tão doce que não refutei, mesmo porque já havia percebido que, contrariamente ao que pensava antes, é possível sentir ódios, felicidades, amores, alegrias, saudades, desprezos, ciúmes, esperanças…

De alguma maneira, cada um dos sentimentos apresenta gradações e dimensões. Sentimos maiores e menores felicidades, mais rasas e mais profundas alegrias, mais rasgados e mais brandos desprezos, muitas esperanças, ódios mais intensos e odiozinhos apenas pontuais, assim como existem amores e amores…

Seria interessante perguntar que tipo de ciúmes ela estava a sentir por mim: aquele pontiagudo, que fere o peito sem consolo, por sentir o objeto amoroso longe de seu raio de influência ou aquele protocolar, que surge ao ver a quem ama não pensar o tempo todo nela ou nele, manifestado quase como uma obrigação? Pode-se conjecturar que quaisquer ciúmes, o maior e o menor, dizem respeito a possessividade. Quem ama e é amado quer pertencer e ser pertencido a quem ama, em sua versão passional.

Saudades, então, sentimos tantas… maiores ou menores, longas – a caminhar conosco por toda nossa vida – ou breves, como lufadas de vento matinal que nos deixam melancólicos até o primeiro gole de café… Costumo dizer que saudade é como se fosse presença na ausência. Está lá no horizonte como paisagem a nos lembrar dos outros em nós a cada raiar do sol, a cada chuva no quintal de terra seca, a cada beijo da lua em nossa face cada vez mais envelhecida. Em muitos, a saudade é um sentimento tão pleno que cada hora a menos de vida é uma hora mais próxima de reencontrar quem ficou pelo caminho…

Nesse caso, há muito amor envolvido. Amor que ultrapassa tempos e vidas. Diferente de amores que sentimos eventualmente por seres que atravessam nossos olhos, a refletirem, na verdade, o amor que desejamos dar. Acabam por se tornarem tristezas, porque foram alegrias que se consumaram em cinzas – amores que sentimos um dia, mas que custamos a acreditar como amamos tanto…

Esperança… Como escapar de esperar que tudo seja melhor? Uma só esperança não basta. A maioria dos seres humanos só respira porque é feita de esperanças. Porque a cada momento que passa por uma frustração, renasce mais uma esperança. A esse mal, eu busco renunciar. Resolvi não ter mais esperança – simples assim. Não quero me desesperar – nem esperar. No entanto…

O mais triste – oh, tristezas! – é que esperamos ter certeza completa sobre os sentimentos dos outros por nós. Ou talvez isso faça parte de uma de nossas alegrias. Mesmo porque a dinâmica de nossos sentimentos é cambiante como foi o clima de outubro em São Paulo – além do natural, o mental, por causa das eleições. Ademais, a depender de como avaliamos nossos sentimentos, é comum nos enganarmos quanto a complexidade dos mesmos. Como quando dizemos que odiamos alguém – é quase como declarar que a amamos, de uma forma diferente – as homenageamos, no mínimo.

Dentro de nós misturam-se complexas gamas de sentimentos. A sinceridade em saber identificá-los é um caminho libertador. Nos tornamos melhores, admirações à parte. Ainda que eventualmente nos sintamos piores ao reconhecermos invejas, rancores, orgulhos, avarezas, possessividades a guiarem nosso comportamento. Aceitarmos nossos mais baixos sentires, ainda que a princípio os refutemos – é uma questão de fidelidade (sem plural) a nós mesmos.