Era uma vez… fizemos o caminho inverso. Ao contrário de estarmos voltando de um evento, estávamos, logo cedo, nos dirigindo ao trabalho, após poucas horas de sono. Foi quando a vi, à luz do domingo a clarear.
Por ser um dia espiritualmente diferente, eu e o meu irmão, sócios em nossa pequena empresa de locação de equipamentos de luz e som, sabemos que quase sempre podemos nos deparar com alguma cena inusitada – bêbados urrando contra a lua tardia, acidentes automobilísticos que, mesmo sem vítimas, nos surpreendem pelas posições adotadas pelos carros que se desentenderam com os seus condutores – estes, por algum motivo, parecem querer redefinir as leis da física e os carros, que segundo Platão, são perfeitos na ideia, acabam por não concordar…
Ondas de corredores de rua e ciclistas assumem as avenidas que, em dias “úteis”, estão ocupadas por filas de carros sempre mais lentos, encalacrados que ficam nos permanentes congestionamentos. Seres notívagos se encaminham para os seus caixões, carregando seus restos mortais após os desvarios cometidos sob as luzes artificiais ou às escuridões providenciais. Juntam-se aos moradores de rua, que vêem os seus espaços ocupados por iguais dissonantes.
Ocasionalmente, princesas, que sobrevivem à meia-noite e não voltam a virar gatas borralheiras, surgem nas esquinas vendo o movimento crescer em intensidade. Vestidas ainda com os trajes reais, posam ao lado de príncipe e súditos. Do veículo que estou, a saudei silenciosamente o seu momento ínfimo de imperatriz sob o nosso olhar reverente de pobres mortais.
Foi anunciado há alguns anos. Ocorrida há aproximadamente três milhões e duzentos mil anos, foi supostamente encontrada a “causa mortis” de Lucy. Diante de tantas mortes de todos os dias, causadas por homens-bombas, de suicidas que decidem levar mulher e filhos juntos, pelo trânsito criminoso, balas perdidas e por crimes, em suas múltiplas facetas, cometidos por uma sociedade “organizada” – essa morte me comoveu especialmente. Ou melhor dizendo, a suposta causa de sua morte me emocionou: Lucy teria morrido ao cair de uma árvore…
Lucy, um exemplar de Australopthecus aferensis, teve o fóssil de seu esqueleto descoberto, em 1974. Ele mostraria a passagem do chipanzé para um hominídeo mais desenvolvido, que já caminhava ereto. Lucy recebeu esse nome pela influência da música “Lucy In The Sky With Diamonds”, dos The Beatles, que à época tocava no acampamento dos arqueólogos. Informação transversa, de alguma forma, passa pelos Beatles a evolução de nossa expressão como seres sociais…
Lucy teria caído porque já era um ser que frequentaria mais o chão do que as árvores e talvez não conseguisse ser tão desenvolta quanto os seus antecessores. Por essa explicação ser óbvia, muitos especialistas duvidam da versão. Eu já a suponho mais plausível por ser exatamente corriqueira, ao mesmo tempo em que decisiva, por vários motivos, entre os quais por Lucy ser uma fêmea.
Há vários anos, li que uma das diferenças morfológicas básicas entre machos e fêmeas de nossa espécie – a quantidade de pelos – menor nelas do que neles, se daria porque as fêmeas, mais ousadas, frequentaram as águas para pescar, durante milhares de anos antes dos homens – uma atividade eminentemente de colheita, então. Pode ser que sim, pode ser que não, como todos os estudos sobre a nossa evolução como espécie, mas minha intuição com relação às mulheres, me faz acreditar que tenha tudo a ver.
Apesar da História oficial não apresentar a mulher como protagonista (porque eminentemente escrita por homens), a minha observação pessoal demonstra cabalmente que passa pela mulher a chave mestra de nossa evolução como “gente”. As fraturas que causaram a morte de Lucy demonstrariam que ela, ao cair, tentou cair de pé e se projetar para frente… Foi uma queda muito à frente de seu tempo…
Quando garoto, por volta dos sete ou oito anos, comecei a me apaixonar. Tornei-me um apaixonado em série. Quanto mais inacessível a menina, a moça ou a mulher, melhor. Aliás, todas eram absolutamente inalcançáveis, não apenas porque eu era um pirralho que acreditava que ninguém notava como também era portador de uma timidez atroz.
Nunca teria coragem para me aproximar de Marylin Monroe, por exemplo, e anunciar que gostava dela, se isso fosse possível… Como não aconteceu com a primeira professorinha, a Profª. Débora, sempre perfumada, com o cabelo louro arrumado e fixado a laquê; com a estranha Marília Pera, de “Uma Rosa Com Amor”; com a mulher mais bela do mundo, Tônia Carrero, de “Pigmalião 70”; com a Ingrid Berman, de “Por Quem Os Sinos Dobram?”; com a Regina Duarte, de “Véu de Noiva” ou com o amor maduro por Romy Schneider, dos filmes europeus que comecei a apreciar mais tarde.
A minha paixão também se estendia às presenças femininas próximas e contemporâneas – à Celinha dos olhos claros, do Parque Infantil; à Bete, igualmente da mesma época, que se enamorou de meu melhor amigo e para qual servia de pombo correio; à menina mais bela da minha classe no ginásio; às moças mais interessantes do colegial, para quais também reservei a minha admiração apaixonada e silente. Eu as usava como musas de versos, canções, contos e versões…
Eu me lembro que versei “Hey Jude”, dos Beatles, aos oito anos. Na verdade, como não soubesse inglês, criei uma letra para a melodia de Paul MacCartney, direcionada à uma Jude que criei em minha imaginação e por quem me apaixonei. Como me apaixonei e fiz um poema para a menina dos olhos verdes que vi num relance, ao abrir e fechar da porta do ônibus – ela, à espera, no ponto e, eu, sentado no banco de trás do coletivo.
Escrevi versos para a moça de pernas bem torneadas, que estava a esperar o carro em que eu estava passar, sentada no selim de sua bicicleta no cruzamento de uma estrada no interior. E para a mulher que percebi verter uma lágrima ao ler um livro sentada em um banco de praça.
O que eu não esperava é que, mesmo mortos o menino, o moço e o rapaz que vivenciaram essas paixões, elas estivessem tão presentes ainda hoje na memória do adulto… Poder-se-ia até dizer que os homens são mortais, mas as paixões… ah, essas, são eternas…
Hoje, o dia seguinte, amanheceu frio e nublado. Agosto é um mês de mutações térmicas drásticas. O dia anterior, iniciado quente e ensolarado, foi se transformando gradativamente, até se precipitar em água.
Val Guimarães e Roseane “Poesia”, primeiras a chegar
Trabalhei muito. O que me ajudou a não pensar frequentemente sobre minha paixão tornada confissão. Lunna soube bem identificar um dos significados da frase anunciada em rede social: “A loucura nos faz cometer paixões.”.
Cláudia Leonardi, a Mãe Literatura
Uma dessas paixões foi testificada por palavras e seria colocada em mãos e, eventualmente, decifrada pelos olhos de quem quisesse conhecê-la – criar-recriar-transformar a vida em cenas e vivências – por personagens que representam minha experiência nesta jornada de quem me lê e dela participa.
Maria Gonçalves, fã da Scenarium
Essa magia que é viver pode estar sempre por um fio. Feito Agosto. Repentinamente, podemos mudar de “estado”. Somos, mas estamos. Tento registrar essa dinâmica, como escritor.
Minhas filhas – Ingrid e Romy – e amigas
Espero ter alcançado, com Rua 2, sucesso nessa empreitada. Porque, sucesso, para mim, é isso – encontrar receptividade para o que tento mostrar. Ainda que seja por apenas uma pessoa. Ainda que a mensagem seja entendida de maneira totalmente particular.
Com Mariana Gouveia, que lançava “Corredores, Codinome: Loucura
Com um livro de contos, cada um deles é uma chance de sucesso e, naturalmente, de fracasso – incentivo na busca do aprimoramento.
Com outro autor da Scenarium, o poeta Marcelo Moro
O que chamo de “queda no precipício” foi acompanhada por muitas pessoas no ambiente do Café. Com certeza, perturbamos a rotina do local. Eu vestia uma camisa e carregava um chapéu em tons parecidos com o da capa de Rua 2.
Destaque para Maria C. Florêncio e Joaquim Antônio, poetas da Scenarium
Amigos, parentes e leitores seguidores da Scenarium, reunidos para um congraçamento em torno da literatura – um acontecimento cada vez mais estranho em um país em que as mídias visuais e sonoras preponderam. Diferentemente do “esforço” de ler.
Com Mister Scenarium – Marco Antônio Guedes
Foi uma noite prazerosa. Os sorrisos irradiavam sem querer. Risadas espocavam alvissareiras de encontros festivos. O encanto se estabelece simplesmente por todos estarem reunidos em torno de um projeto de vida – Lunna e Marco – seus mentores e anfitriões.
Com Adriana Elisa Bozzeto, autora de Verbo: Proibido
A artesã da palavra e das palavras transformadas em livros, editora de ideias transmutadas em projetos de vida. Vidas lançadas em embarcações sem destino, até chegarem ao coração de alguém – porto inseguro.
Lunna Guedes, escritora-editora da Scenarium
Acordei cedo. Prometi para mim mesmo colocar este texto no blogue por volta das 11h de Brasília. Consegui apenas às 16h, pois a vida nos solicita para além do escritor, realizar as tarefas cotidianas.
Frida, solicitando atenção…
Quem me lembra disso é a Frida, que pede atenção e comida. É hora do almoço. Interrompo a minha escrita e a alimento, como igualmente as outras meninas – Penélope, Lola, Betânia e Domitila.
Sempre quis saltar. Apenas não sabia que caminho tomar para chegar à borda. Escolhi escrever. Decidi me expor aos olhos dos possíveis leitores. Estar sob crivo alheio, além de si próprio. Não é um exercício agradável. Mas para quem quer se jogar, todas as consequências são dolorosas, apesar de aguardadas. Ser publicado é o salto. E há sempre gente disposta a ajudá-lo dar o passo sem chão. Um dia antes do lançamento de Rua 2, repasso mentalmente suas histórias em minha cabeça. Procuro não ter expectativas.
Sobrevivente de um primeiro salto, em “REALidade”, deveria estar preparado para um segundo. Nunca se estará. Outro projeto, outra vertigem. Quase certeza de que não se alcançará êxito em concluí-lo. Dúvidas sobre tudo. Sobretudo, incertezas, muitas. Salto no escuro. Para saltar no precipício, há um trabalho em equipe. Sem o que, o espaço, além de vazio, será sem sentido. Ouso dizer que é um trabalho realizado por muitas mãos, até chegar às mãos definitivas.
O livro, materializado, é a precipitação pensada. Vácuo vital. Chuva no deserto. Tinta seca a fecundar o papel branco. Palavras a ventar pelas mentes que as acolhem. De alguma forma, aconteço pelas páginas em sequência, em números embaralhados. Chegar ao coração vivo, matando e morrendo. Suportar todas as contradições, sendo coerentemente contraditório. Confuso, com fuso e difuso.
Hoje, logo mais, Rua 2 e outros projetos da Scenarium Plural – Livros Artesanais, estarão disponíveis para serem apreciados por leitores e amigos. Mariana Gouveia, caminha junto comigo através de “corredores, codinome: loucura”. O projeto “Sete Luas” nos ilumina com a participação de autoras do selo. A Revista Plural – “Clandestina” – porque escrever não deixa ser um ato quase ilegal. Todos convidados para testemunharem saltos no precipício. Regado a café e abraços. Dor em nos revelarmos. Prazer em recebermos e sermos recebidos.