BEDA / Vênus & Júpiter Em Nós*

Ontem, eu estava a trabalho na cidade de Santo André e, ao sair para exterior do salão onde sonorizávamos um evento, olhei para o oeste, onde o sol se escondia… Já um pouco mais escuro, percebi dois pontos luminosos distantes quase nada um do outro. Esses pontos se assemelhavam à estrelas, mas a luzinha de baixo dava a impressão que se deslocava em minha direção, enquanto a outra continuava no mesmo lugar. Passado algum tempo, com a permanência dos seus posicionamentos, concluí que se tratava de um balão meteorológico. O estranho é que seria um balão anômalo, com a parte de baixo maior que a de cima, que o sustentaria. Quase cheguei a “ver” uma linha que os unia… De qualquer forma, caçador de horizontes que sou, saquei uma imagem.

Hoje, ouvi falar que os planetas Vênus, que rege o meu signo (Libra) e Júpiter estão em alinhamento, algo tão raro que apenas se repetirá em 12 de fevereiro… de 2056! Daqui a 40 anos! Eu havia presenciado esse fenômeno. Para mim, esse recado dos céus foi claro — somos uns bostinhas, mas podemos viajar pelo Espaço em um piscar de olhos! Somos seres breves que podemos testemunhar a eternidade no encontro tão encantador quanto o de planetas inteiros na retina de nossos olhos. Somos míseros seres a caminhar pela superfície de um planetinha do Sistema Solar, mas podemos nos tornar infinitos tanto quanto do tamanho do Universo. Esta noite, que sejamos esses seres transcendentes e que olhemos para o Céu noturno. Nele, estará escrito que apesar de pequenos, somos universais…

*Texto de 27 de Agosto de 2016 — incluso em meu livro de crônicas REALidade, pela Scenarium Livros Artesanais

BEDA / Viver Em Sampa

Moro na Periferia. Numa avenida perto de casa há uma grande árvore — uma seringueira — que toma conta de vários metros quadrados junto a um gradeado que cerca o Piscinão Guaraú. Ao passar por ela ontem, percebi que alguém utilizou de de alguns materiais como lona, madeira, cordas, panos e outros que não consegui identificar para fazer uma instalação feito uma casa na árvore. Toda criança sonha em construir uma casa na árvore, se isolar dos adultos para estabelecer um território livre. Neste caso, foi a necessidade (mãe da invenções) de dormir em segurança, longe de possíveis agressões que estimulou quem a ergueu.

Na Avenida Cásper Líbero, uma das mais importantes do Centro da cidade, durante muitos anos se destacou de forma negativa a presença de um edifício invadido em péssimo estado de conservação. Essa foto eu tirei em 2009. Atualmente, depois de ser amplamente reformado, o prédio está sendo ocupado por moradores em boas condições de estadia. Passo por ele de vez em quando e abençoo o fato de que aquela área tenha essa condição de ocupação. Afinal, a cidade tem que ver o Centrão revalorizado.

Sobre a imagem acima, o ator e escritor Manogon comentou:

“Das janelas turvas a visão distorcida de um mundo cão, esperanças perdidas nas penumbras de um vão. Pelas paredes sujas, tintas envelhecidas e já sem vestígios de cor, escorriam até o aroma azedo que exalava do boteco do seu Lindo (Arlindo de nome, mas que pelo contraste e antagonismo entre forma e nome, era zombeteiramente chamado apenas de Lindo). No acabamento do prédio, que já se encontrava em quase ruínas, descia junto ao esgoto, entre águas fétidas, gordurosas e boas doses de merda, os sonhos e anseios de moradores sem rostos, sem nomes, sem destino certo, muitos sem hora pra sair pro trabalho, outros sem trabalho pra sair a qualquer hora, alguns sem se dar o trabalho de saber hora pra voltar o que poderia ter um nome de casa. Janelas turvas. Luzes amarelas. Janela quebrada. Luzes vermelhas intermitentes. Um corpo no chão. A tinta vermelha escorrendo pela valeta, misturando-se à água fétida, indo embora com toda aquela merda.”

Manogon

BEDA / Tudo Passa?

Por uma dessas coincidências estranhas, encontrei pelo meu caminho dois motociclistas que apresentavam uma tatuagem no pescoço escrito “Tudo Passa”. As duas estavam tatuadas abaixo dos capacetes de tal maneira que dava para lê-las claramente. Nas duas ocasiões, as li porque estava sentado no carona de veículo que me conduzia. Portanto, do lado esquerdo do motociclista. Cheguei a pensar que fosse o mesmo motociclista, mas os pontos de contato ocorreram em distâncias díspares. Um, na Marginal Pinheiros — de trânsito parado — e outro no meu bairro, na Zona Norte, igualmente.

Para não apostar que o que fosse coincidência parecesse uma espécie de mensagem enviada pelo Destino, imaginei que a frase fosse uma espécie de divisa que os motociclistas usassem como uma referência da profissão de entregadores de aplicativo. Eu mesmo a usava e a projetava mentalmente para conseguir superar os períodos de trabalho pesado quando era funcionário de uma banda atuando “roadie”. Mas o que poderia perguntar é: “o tempo passa?”. Seria como um rio em que me posiciono num ponto e o tempo seria como a água que passa por mim? Ou sou eu que apesar de estar parado passo pelo tempo? Quando eu passei pelos motociclistas me tornei o tempo instantâneo em que gravei a frase “tudo passa”? Ou passamos juntos pelo tempo em que o trânsito estava parado?

Devaneios… pelos quais passo. Quem passa pelo o que? O que eu aprendi é que o tempo como uma espécie de fotografia a qual pode se acessar a imagem não tem exatamente esse poder de eternizar o seu significado. Não apenas porque o observador é diferente um de outro. Além disso, por trás do que se vê, há os movimentos invisíveis, a verdade oculta, o fato real que a construiu. Disso, eu sei…

Foto por Domenico Adornato em Pexels.com

BEDA / Quase Quebrado*

Quem disse que lavar roupa não é perigoso? Na quinta-feira, lavei roupa e a água que resultou da lavagem utilizei para lavar o chão da varanda do Boiler Laje, escadas e churrasqueira. Após terminar uma parte, lá estou eu de chinelão, distraído, a descer, quando piso errado na escada escorregadia e de uma queda vou ao chão, quatro metros abaixo, batendo costas, pernas e braços até o final dos degraus. Não bati a cabeça porque o judô praticado na infância sempre me ajudou a protegê-la em todas as muitas quedas desde então. Acudiu-me uma cavalheira, a Lívia e um cavalheiro, Pablo, seu namorado. Pensei que houvesse apenas escoriações superficiais, mas à noite não consegui dormir direito devido às dores que surgiram depois. Hoje, estou melhor. Mas tive que reviver na boca da Tânia, da Romy e da Ingrid, além da Lívia, poucas e boas. Acabei por me lembrar da minha mãe, Dona Madalena, que ralhava comigo todas as vezes que eu aparecia “quebrado” em casa por causa de carrinho de rolimã, patins ou futebol em campo de várzea ou quadra. Quase cheguei a confundir a dor aguda e passageira do corpo com a dor tênue e permanente da saudade. Se chorasse, talvez fosse mais pela última…

*Texto de Agosto de 2020

BEDA / O Camundongo E A Barata

Foto por Chris F em Pexels.com

Sou franciscano. Alio a uma perspectiva orientalista a minha visão de mundo essa postura em que até as ervas daninhas tem direito à existência. E baratas e camundongos. Falo sobre eles porque estão envolvidos em dois episódios recentes em que busquei preservá-los. Uma barata tentava entrar dentro de casa, eu a recolhi e a coloquei no jardim. Meia hora depois, a minha irmã pisou na bichinha com gosto, exclamando: “uma barata!”…

Mais tarde, à noite, um camundongo entrou dentro de casa e se dirigiu a um canto. Fui até onde se escondeu e fiz com que saísse correndo. Achei graça quando até derrapou na curva em direção a saída pela porta, exclamando: “Se manda, cara! Estou tentando salvá-lo!”

A minha crença é que todos os seres estão interligados à uma espécie de energia vital e apesar de estarmos em níveis diferentes de complexidade orgânica, deve existir o respeito a cada expressão de vida. Alguns dirão que há animais peçonhentos, outros que transmitem doenças como as próprias baratas e camundongos. Porém, há de se lembrar que as transmitem porque vivem na sujeira produzida pelo supostamente ser superior — nós mesmos.

De toda forma, vivemos todos em constante desenvolvimento energético e saber lidar com as gradações desse processo conscientemente é nosso grande destino.

Foto por Tim Heckmann em Pexels.com