06 / 11 / 2025 / Blogvember / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Inventário

Se eu fosse fazer um inventário, busquei em minha memória alguns objetos que me marcaram ao longo da minha vida. Nunca fui apegado a objetos. Pelo menos foi o que pensei até me deparar com coisas que assomaram a minha lembrança. Percebi que determinados artefatos, peças, trecos, ferramentas, dispositivos senti que fossem importantes. Eu, que tenho uma memória a qual chamo de randômica, do nada passei a me lembrar da primeira geladeira que tivemos em casa. Uma azul, de formas arredondadas, antiga, já na época que a adquirimos. Foi uma revolução poder guardar alimentos que seriam preservados geladinhos e não em temperatura ambiente no velho “guarda-comida”. Devia gastar horrores de energia.

Durante anos, tivemos uma TV Bandeirante de 14 polegadas PB. Por ela, acessamos o mundo do cinema, novelas, futebol, etc. Apenas em 1982, para a Copa do Mundo da Espanha, adquirimos um TV maior, de 18 polegadas em cores. Mas até hoje, é a antiguinha que representa melhor a minha infância.

Há três peças correlatas a uma função: tomar banho. Mas a primeira representa o acesso à água que utilizávamos para isso, lavar louça, regar as plantas das quais dependíamos para variar a alimentação, além de matar a nossa sede e dos bichos que criávamos, desde cachorros, gatos, porcos, galinhas e patos: é umA Carretilha — sobre a qual já fiz uma postagem. Com ela, puxava água do poço, já que durante anos não tivemos acesso à água encanada, bem como esgoto. Usávamos as tradicionais fossas pépticas.

Outro utensílio que usávamos bastante era um tacho onde esquentávamos a água num fogareiro improvisado com tijolos para tomarmos banho de canequinha. Em dias mais frios, tínhamos que ser rápidos no banho, já que às vezes a temperatura caía drasticamente, já que a região ficava próxima à mata da Serra da Cantareira.

Uma nova revolução se deu quando surgiu o chuveiro-regador. Com o dispositivo de abrir e fechar, quase nos sentíamos como que voltando a morar na Penha, no porão. O banheiro ficava do lado fora e era usado por nós e outras pessoas que moravam no terreno. O da imagem abaixo é semelhante, mas o meu pai dispôs de um cano transversal chumbado nas paredes lado a lado que sustentava o chuveiro-regador. E a bacia mostrada era bem parecida com a que utilizávamos.

Aliás, na foto acima, além da janela que ficava na mesma posição, surge o chão de vermelhão, outra característica semelhante a da nossa casa na época é o chão de vermelhão que pintava as nossas solas de chinelos e congas. Outra diferença é que as nossas paredes eram de cimento e tínhamos que tomar cuidado para não rasparmos os cotovelos nelas. Era ferimento na certa.

Por fim, outro item que permaneceu em minha lembrança foi a cama de molas na qual dormia. A minha mãe colocava papelão para fazer impedir que o colchão fosse rasgado por alguma mola solta. Além disso, como fiz xixi na cama até os 8 anos, ela envolvia o colchão com plástico, o que fazia com que eu acordasse um tanto suado. Foram anos em montava e desmontava a minha cama para dormir no corredor que era até um tanto largo e não impedia a passagem das outras pessoas da família.

O inventário acima, como se percebe, foi ocupado por artefatos simples e ligados firmemente ao estilo de vida simples que vivíamos. Recentemente, apesar da precariedade, percebi que foi uma época em que me sentia feliz de alguma maneira. Deu ensejo que valorizasse a condição em que vivo agora, além de me aproximar da maioria da população brasileira que ainda vive sob as mesmas condições. Viver como quase um garoto do campo fez com que percebesse a dimensão mágica de lidarmos com a Natureza e sabermos que devemos respeitá-la para que o suposto bem estar da população mundial não seja à custa do impacto de sua erradicação e, consequentemente, da nossa.

Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Cláudia Leonardi / Silvana Lopes

27 / 10 / 2025 / A Que Encerra

A Lívia foi a última a chegar. Mas a não menos importante para compor a nossa família. Hoje, completa 30 anos (!). Parece que foi outro dia que eu ficava insistindo para comer um pouco mais enquanto ela fazia manha. Das três, foi a que aceitou fazer natação e treinar basquete porque o pai esportista gostaria que fosse eventualmente uma atleta. As três irmãs são muito unidas e eu, ingenuamente me surpreendi ao saber que criaram um grupo de mensagens entre elas em que os pais talvez sejam um dos tópicos ou nem tanto. Não sei o que é pior…

Há um ano ou menos — não sou afeito ao calendário factual — alugou com o namorado Pablo um apartamento em que ensaiam a vida de casados. Como acontece frequentemente, deixou a filha Lolla Maria aos cuidados dos avós. Não porque não quisesse, mas porque ela não se adaptou ao espaço. Cheia de manias e de uma eterna fome, ficava latindo quando não encontrava seus humanos em casa.

Lolla Maria

O nome Lívia deriva de Liv Ullmman — atriz, diretora de cinema, além de escritora — por quem fui apaixonado quando jovem, assim como fui por Romy Sceneider e Ingrid Bergman, que deram nome às outras duas filhas. A minha paixão pelas mulheres não é apenas física, mas sou fascinado pelo poder que carregam e que os homens tentam de todas as maneiras obliterar. As mulheres que inspiraram a nomear as minhas filhas são exemplos de pessoas que marcaram seu tempo com comportamentos que fugiam ao estereótipo da mulher conformada com o papel tradicional da fêmea da espécie. Das três, apenas Liv vive e continua atuante como artista, depois de 60 anos de carreira.

Lívia & Pablo em seu apartamento

Talvez as minhas filhas sintam que eu esteja um tanto distantes delas, mas acho que devo dar espaço para que encontrem sem pressão os seus caminhos, façam as suas escolhas e tomem as suas decisões. Elas sabem que estarei sempre à disposição para apoiá-las no que quiserem. Eu desejo que a que encerra a fábrica Ortega alcance todos os seus propósitos, incluindo os artísticos, com a Elebonde, seu projeto de DJs com o Pablo. Quem sabe, um dia, não participem de um festival desses grandes por aí? De você, menina, eu não duvido de nada!

Elebonde em ação…

21 / 10 / 2025 / Eu E Os Catioros

Eu sempre tive cães sob a minha guarda. Tarzan, Gita, Fofinha, Cloé, João foram alguns dos mais antigos e tantos e tantos outros. A minha mãe era cachorreira. Não podia ver um cãozinho perdido ou solto na vida que trazia para casa, mesmo quando não tínhamos tantos recursos. Dona Madalena pegava nos açougues carnes que seriam jogadas fora para que eu cortasse em pedaços e, misturadas a arroz com casca, então desprezado, fazer a comida da turma. O cheiro não era nada bom na grande panela e cortar bucho não era nada fácil. Mas como já era apaixonado por essas criaturas, não deixava de me esforçar para fazer a comida das crianças.

Como já realcei em outros textos, quem adota essas “pessoas”, sabe que terá um tempo menor de convivência devido a duração em anos menor delas. Então, é comum a tristeza nos abater vez ou outra diante das suas partidas. Mas vale a pena termos contato com esses seres especiais, verdadeiros educadores sentimentais. Com eles, aprendemos, mesmo nos pequenos gestos, olhares e comportamentos que podemos ser melhores do que somos. Como a homenagear a minha mãe, uma única vez resgatei um deles — o Alexandre. Já escrevi sobre ele. É o que aparece na primeira foto. Incialmente arredio, hoje me recebe de manhã ou quando volto pra casa com a alegria de quem é sabedor de que é amado. Com eles, me sinto uma pessoa melhor.

19 / 10 / 2025 / Librianos*

*2016. Dois desses cinco, nasceram no dia 9 de outubro. Um, em 1940. Outro, em 1961.

Quando mais novo, aos 8 anos, fiz uma versão para “Hey, Jude“, dos The Beatles. Não entendia nada de inglês, e a cadência da canção dava a entender que fosse de amor romântico. Mais tarde, soube que foi feita por Paul McCartney para Julian Lennon, filho de John, por causa do divórcio de seus pais, encorajando-o a enfrentar a vida e buscar na tristeza motivação para superá-la. Quando soube que Lennon nascera no dia 9 de outubro, assim como eu, o transformei em meu espelho.

Por algum motivo, eu achava que fosse morrer cedo, aos 33, como Cristo. Ou aos 40, quando Lennon foi assassinado. Poderia ser mais tarde, como Mário de Andrade, outro que nasceu na mesma data e nome do Parque Infantil que frequentei até os 12 anos — projeto dele quando foi Secretário da Educação do Município de São Paulo. No entanto, tendo já chegado aos 64 anos, já superei os 62 da morte do autor de Macunaíma. Esse desejo de identificação com meus ídolos, incluindo o Nazareno, um dos meus avatares favoritos, já superei. Mas a influência que exercem em mim continua forte e espero que possa ser minimamente interessante para honrar o dia em que nasceram.

18 / 10 / 2025 / Três Estações

Hoje, não presenciarei este poente… El Niño nublou o dia (tudo é culpa do El Niño desde sempre!) e a nebulosidade impedirá a visão do Sol boiando feito uma bolinha dourada nas águas avermelhadas do sangue da tarde que está a morrer… A não ser, é claro, que tenhamos uma terceira estação climática desde que se inaugurou a manhã…