varrer o quintal tarefa enfadonha? para mim um ritual faço com o prazer escatológico de quem reúne estrelas na varrição restos de galáxias que se chocam em auto consumação apocalíptica no chão jaz restos biológicos vestígios da morte etapa da vida renovada em movimentos necessários imprecisos distantes de nosso controle em meia hora passeio pela existência presença passagem passageira do feto à caveira num átimo em reinícios etapas a cada passo transfiro as folhagens para novo canteiro reposição de matéria orgânica imponho o ciclo natural do qual participamos aceito… a eternidade é um estado de espírito…
Texto de participante de BEDA: Blog Every Day August
Passei o sábado a resolver pequenos problemas de casa, junto com o Geraldo, um rapaz que me chama de senhor, apesar de lhe pedir que me chamasse pelo nome. A Lívia disse que era porque eu não quisesse parecer mais velho. Respondi que não me importava com isso. O que eu queria era estabelecer um tratamento que nos igualasse. Todas as vezes que ele vem em casa para fazer alguma obra, atualmente restrito à manutenção, conversamos bastante acerca das condições de trabalho e as atividades que envolvem o seu ofício. Procuro saber dos mecanismos de atividades que são básicas, mas muito mal remuneradas.
Tentando escapar do trabalho pesado da construção civil, Geraldo decidiu ser porteiro. Ficou apenas dois dias no emprego. Suas funções, descobriu, não se atinha somente em abrir e fechar o portão da garagem para carros e dos pedestres para as pessoas. Deveria receber pacotes, fazer listas para as serventes da limpeza, vigiar as crianças no playground, não demorar demais – dois segundos que fosse – para obedecer a alguma ordem dada pelos moradores e outros frequentadores. O acordado não havia sido aquele e o salário não valia a pena. Sujeito bem-intencionado, frequentador de igreja cujo pastor, ciente das maledicências do mundo, instrui aos seus apascentados seguir a palavra do Senhor, incluindo não aceitar a aceitar a equanimidade entre os gêneros, não consegue entender da razão de haver pessoas que o tratam como se fosse um anónimo, feito uma simples peça na engrenagem.
Tentei lhe explicar o processo da Escravidão como modelo de produção que perdurou por quatro séculos, impregnando as relações humanas de tal maneira que abraça as suas tramas invisíveis na alma do brasileiro. Poderia lhe falar do vazio afetivo que o Patriarcado causou aos homens, além do imenso mal causado à mulher. Entendo que talvez fosse demais para ele, mas não consegui me segurar. Ele me olhava desconfiado como a imaginar que eu estivesse totalmente rendido à patroa, na guerra declarada pelo controle absoluto de um ou de outra – como parecia encarar o casamento – em que o rei sente o poder ameaçado pela rainha.
Passamos boa parte do dia desde as 8h da manhã, a resolver o vazamento no quarto da Lívia, trocar uma torneira de jardim, uma mangueira rompida e a colocação de uma torneira elétrica na pia da cozinha. Os problemas que surgiram para uma tarefa e outra, foram as pecinhas – detalhes que faziam a diferença entre o sucesso e o insucesso na execução do trabalho. O veda-rosca, o conector de louça para a ligação elétrica, o extensor para se adequar o aquecedor entre a cuba e a parede, a torneira de duas esferas, o engate de mangueira flexível, a luva ¾ e o retentor ½ polegada, o selador de silicone – nomes extensos para pequenos itens.
Além dos grandes movimentos que devemos fazer como componentes da Sociedade para alcançarmos melhores relações humanas, temos que no propor à prática dos pequenos gestos, da palavra de apoio, do diálogo entre os membros de uma comunidade de semelhantes. Na experiência que teve no condomínio, Geraldo encontrou os típicos “senhores” que se aprazem em serem assim chamados. São pessoas que precisam rebaixar aos outros para se levantarem ao rés do chão. O funcionário, antes de um colaborador, é tratado como uma espécie de inimigo, alguém que precisa ser colocado em seu devido lugar – uma pecinha. Fundamental, mas que precisa se sentir desimportante para que o Sistema continue a sobreviver com o apoio inconsciente de quem dele participa.
Não sou Diego Rivera, mas Frida me ama… Neste estranho mês de julho, tenho pensado muito em minha mãe, que nasceu neste mesmo mês, há 85 anos. Ela está conosco apenas em espírito desde 2010. Por uma dessas “coincidências”, minha mãe chama-se Madalena, o mesmo nome de Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón, que nasceu na mesma data de 6 de julho, 25 anos antes da menina Nuñes Blanco. Frida, a minha, tem uma personalidade a ser desvendada por nós, que convivemos com esse ser com “olhinhos de avelã”, como diz a Romy, que, aliás, tem o nome inspirado em uma atriz que eu muito admiro. Todas as “nossas cãs” tem nomes fortes – Penépole (de Ulisses), Domitila (de Castro), Maria Betânia e Lolla (Corra) Lolla. São coisas do surrealismo que é viver…
*Texto de 2017
A minha irmã assiste ao programa Sr. Brasil, com Rolando Boldrin, mais uma forma de homenagem à minha mãe, que adorava assisti-lo nas manhãs de domingo. Em certa passagem, o grande Boldrin conta sobre um padre que vê um caboclo adentrar à sua igreja à luz do dia. O padre pergunta ao tal: “Veio confessar?” – Ao que o sujeito responde: “Não! Tô esperando juntar…”. Agora, eu pergunto: quantos pecados devemos juntar até nos redimirmos, afinal? Com a vida corrida de hoje, sabendo que iremos pecar, inevitavelmente, não vejo porque não fazermos liquidação de débitos, também nesse quesito.
Eu me lembro que para fazer a primeira comunhão, muito garoto que era, tinha que confessar as minhas faltas para o padre, que sorria a cada uma que disse ter cometido: briguei com a minha irmã, xinguei um colega na escola, desobedeci a ordem da minha mãe em não empinar pipa na rua… Como eu era pecador!
Um projeto sobre o qual matutava há algum tempo era o de me tatuar. Não via impedimento pela questão da idade, acostumado que estou a vivenciar situações que ocorrem tardiamente em minha vida. O que me impedia antes era que não encontrava a motivação devida para isso. O que me convenceu foi justamente a passagem do tempo que, além das cicatrizes eventuais, tatua seus sinais em nosso corpo a cada tique-taque do relógio. Queria que fossem referências imagéticas de passagens particularmente caras a mim. Passei a última quarta-feira na Freuas Tatoo Mansion sendo tatuado pelo traço delicado de Mônica Kaori.
Uma das tatuagens diz respeito a uma orquídea que demorou dez anos para florescer. A planta foi dada à Tânia por minha mãe. Ela a colocou pendurada na velha mangueira e, ao seu tempo, veio a mostrar toda a sua beleza. Registrei em foto e coloquei a imagem na capa do Facebook. Eu a nomeei de Flor de Madalena. Em uma pesquisa de imagem, encontrei similaridade com exemplares de Cattleya forbesii, talvez um híbrido.
Flor de Madalena, logo após ser tatuada
A segunda foi uma releitura de um tema recorrente de Vincent Van Gogh – os girassóis. A série Sun Flowers foi feita pelo pintor holandês para demonstrar que era possível criar variações de texturas da mesma cor, sem perder a eloquência do tema. Colocou dois desses quadros no quarto de Paul Gauguin, que morou com ele na Casa Amarela.Gauguin, impressionado, os considerou “completamente Vicent”, ficando com uma das cinco edições feitas pelo amigo. Uma delas foi queimada num incêndio na Segunda Guerra.
Vincent é marcante em minha vida porque quando vi as suas reproduções pela primeira vez, fiz um viagem para seu planeta, um que apenas lembrava a Terra. Mas era um outro, mais belo e tocante, ainda que vários de seus personagens fossem trabalhadores apresentados na faina cotidiana de sua realidade imediata. Ou talvez por isso mesmo. O amor por Van Gogh também atingiu a Lívia, minha caçula, que pediu para a mãe comprar uma reprodução de Sun Flowers ainda bem nova. Como referência, tatuou também um girassol na panturrilha da perna direita.
Releitura de Sun Flowers, logo após ser tatuada
No caso das minhas tatuagens, dei liberdade para a Mônica, uma jovem que gosta de desafios, criar em cima das imagens que passei. Com a Flor de Madalena destacou um dos ramos e o fez percorrer o meu antebraço frontal, entre desenhos das veias e o relevo dos promontórios musculares.
Flor de Madalena original
Quanto à reprodução de Vincent, por sua iniciativa a releitura ganhou uma perspectiva a laPietMondrian, outro holandês, do movimento neoplasticista, do início do Século XX, caracterizado por figuras geométricas. Acresce-se que sendo em variações de uma única cor – mais escura – a releitura ganha relevância por voltar à ideia central de quando os vasos com doze girassóis foram produzidos.
Reprodução de Sun Flowers
Nesse jogo de referências cruzadas, a série Sun Flowers foi realizada exatamente 100 anos antes do período de maior mudança na minha vida, agosto de 1988 – época em que comecei namorar a Tânia –, e início de 1989, quando nos casamos. À partir daquele mesmo ano, geramos girassóis humanos, que se voltaram para a luz do Sol e se tornaram pessoas luminosas – Romy, Ingrid e Lívia – pioneiras no quesito tatuagens na família. Que, por sinal, tem a minha mãe como um dos pontos de origem, a Madalena da flor. Com o meu olhar um tanto viajador, vejo reproduzir um ciclo de linhas visíveis e invisíveis que desenham o nosso caminho neste planeta…
Passageiro passo Eu e mais tantos coletivamente motorizados Por uma pracinha de uma única árvore larga Do tamanho do abraço de oito homens Nela uma placa propagandeia: “Alianças a moda antiga”… Terei lido errado Na rapidez da minha passagem? Uma lanchonete Uma igreja Um posto de gasolina Pontos comerciais à direita do meu olhar À esquerda Padaria Loja de tintas Uma oficina Quantas funções Serviços Precisões Consórcios Empresas Dos quais somos presas Não bastam as necessidades básicas Temos que adquirir novas e variadas Outras muitas Vender e comprar desejos de consumo Sem eles O que nos move? Amar? Atravessar pontes sem ultrapassar portais? Nos desvestirmos de roupas E posições sociais? Nos apoderarmos de emoções E sentimentos? De sermos mais do que o corpo Nos proporciona de prazer E transcender o gozo? Alcançar o prazer de ser Sem ter? O que somos além de animais Racionais que praticam irracionalidades Identidade e idade Cor e nacionalidade? Já buscou dentro si o universo E o multiverso? O que você É Sem o nome que carrega? A ouvir o som eterno do silêncio Consegue se imaginar sem tamanho Sem o apego ao ego Indefinido e infindo? Deixaria de ser servo E se tornar um com Deus?