Os Rastejantes

Seres de outros planetas, os encontramos todos os dias. Convivemos muitas vezes pacificamente com pessoas que provêm de outras esferas de percepção e atuam sob as leis de suas origens, apesar de viverem sobre continentes terráqueos. Há situações em que se torna inevitável o confronto, sendo todos nós tão diferentes uns dos outros. A partir do momento que convivemos na Terra, adotamos o comportamento humano como padrão, apesar dos tentáculos e ventosas mentais que assustam à primeira vista quem não está acostumado com os seus volteios por sobre as duas cabeças dos Rastejantes, materialistas, apesar de chamarem a si mesmos como místicos. É comum que os pensamentos primitivos que carregam desde os seus planetas interfiram na vida comum de todos nós, incluindo aqueles que buscam o convívio pacífico de todos os habitantes deste plano e no transcendente.  

Normalmente, eu procuro me afastar desses espécimes que exprimem em cada sentença o horror vibracional de sentimentos baixos e que declaram ódio aos diferentes, mesmo sabendo que precisam deles, os outros que correm na mesma raia. Curioso como se processa o pensamento de um adverso, quis entendê-lo. Quando toquei no venerável nome do senhor mitológico que governa o seu planeta, não foi surpresa que o tenha defendido como o ser mais edificante que já existiu – probo, honesto, religioso, benemérito. Apesar de estar vivendo mal, sentindo a precariedade que o fez deixar o seu planeta para viver no nosso, que lhe dá suporte mínimo de subsistência, o idolatra. Caso estivesse no mundo mitológico que o seu senhor diz existir, cairia nas tramas dos desvalidos, sem eira, nem beira, aliás, sem teto sequer, como tantos… cada vez mais.

Os Rastejantes advogam o plano de sustentação de seu líder, baseado na destilação do desamor e da conflagração – um inimigo sempre a vencer, uma ideia inclusiva sempre a combater, uma mentira sempre a prosperar. Ideologizar negativamente qualquer possibilidade de equivalência das classes sociais é garantido na inspiração da maledicência, mais aglutinadora do que bons propósitos, eficazmente tratados como se a bandeira da igualdade e a defesa de direitos fossem inescrupulosas – porque torna todos os habitantes no planeta não importa de qual estrela tenham vindo – como iguais. Isso não é tolerável para os seguidores desse ignominioso chefe de quadrilha interestelar, ladrão de consciências incautas. Infelizmente, deixamos prosperar o veneno da intolerância contumaz entre nós, sem regras. Ao contrário, as regras que ditam pressupõem a morte do adversário como solução.

Após chegar em casa vindo do trabalho, mesmo cansado, fiquei uns quinze minutos pensando como deve ser difícil para o Rastejante conviver com os diferentes da mesma casta – pois acredita nelas – e vê-las sorrir, apesar da dor; cantar, apesar da tristeza; a dançar, apesar do sofrimento de simplesmente andar. Ele acredita na iniciativa privada – já dirigiu uma casa de aliciamento de corpos para diversão – e não entende como, apesar de se sentir inferior, não seja incensado como a pessoa mais incrível que já existiu (assim como seu modelo), a sorrir para se sentir aceito. Reproduz as mensagens de esquadrões de soldados do seu governante sem pensar sobre elas, sem verificar a veracidade, sem contestar a procedência. Robótico como se não tivesse mente, vocifera palavras de ordens-cópias como se fosse uma máquina quebrada.

Apesar de minha tendência em aceitar todos em suas diferenças, percebo que não devo permitir que Ets maléficos invadam o meu planeta tão ferozmente – incendiando casas, devastando florestas, matando desfavorecidos, calando a cultura da diversidade. Ergo o meu escudo mental e tento me alhear dos Rastejantes e da ideologia quimérica de equalizar os que lhe são contrários. Agem através de milícias que auxiliam os pobres de espírito a prosperarem na intenção de tornarem o nosso mundo Terra arrasada. Que sejam combatidos para que um futuro plausível exista para todos nós, incluindo os próprios Rastejantes, porque defendo o direito de cada um pensar de sua maneira desde que não seja no propósito de fazer mal ao próximo.

3022

Viajei mil anos à frente. Errei, ao digitar a data. Teclei o ‘3” em vez do “2”… Por um instante, abateu-se sobre mim certa melancolia. Em um átimo, senti, em profundidade, o peso do esquecimento do que eu fui. Percebi que ninguém se lembrará da minha existência, apesar de haver a possibilidade que a minha descendência insista em vibrar em algum corpo do futuro.

O mais certo é que, caso a Terra não seja incinerada atomicamente por seus habitantes, os átomos que formaram a minha identidade estejam espalhados por campos de plantas, patas de animais ou pela água do mar, a formar novos jogos de referência com o planeta. O fogo de minha mente, apagado, não mais aquecerá qualquer saber… Ou seria o saber que ilumina a mente?

O meu espírito, segundo acredito, espero que esteja mergulhado em Deus… Ou no Universo (para mim, a mesma coisa), a compor a Força que nos rodeia, nos penetra, nos move e vibra com o Todo. Ainda assim, por mais que queira acreditar que permanecerei (ainda que não continue a existir como eu mesmo), fiquei triste, como nunca fiquei, com o meu passamento.

Intuí que, se fosse morrer hoje, por exemplo, teria quem se lembrasse de mim – irmãos, mulher, filhas, outros parentes, amigos e conhecidos. Com o tempo, a minha imagem, o que eu fiz, o que eu disse e escrevi, se perderia aos poucos… Mas, mesmo assim, seria uma existência prolongada por mais um tanto de anos…

Mil anos, simbolicamente, é uma eternidade. São várias eternidades… Estarei irremediavelmente morto em 3022. Mas a minha energia reverberará em outra forma e identidade de Vida. E se a Terra não estiver devastada, aportado em outro planeta.

Foto por Charlie CT em Pexels.com

Nos Tempos Da Faculdade De Educação Física*

Salto com o auxílio do plinto, na aula de Atletismo do Profº. José Luís Fernandes – 2010

Entre 2009 e 2013, fiz Licenciamento E Bacharelado Em Educação Física. Quando eu o iniciei tinha então 48 anos e fui incentivado pela Tânia, preocupada com possíveis sintomas da chamada “Síndrome do Ninho Vazio” pela ausência cada vez mais acentuada das nossas três meninas na minha rotina diária. Com dois cursos anteriores não terminados na área de Ciências HumanasHistória E Letras, na USP – decidi terminar o terceiro na área da Saúde justamente pelo desafio físico e cronológico: um velho entre os jovens. Até um tempo antes, pensava que ter feito o curso foi muito importante apenas para mim em termos de entendimento do corpo e seu funcionamento, já que acabei por não atuar na área, o que também nunca foi a minha intenção, apesar de ter surgido algumas oportunidades.

Com as Lembranças do Facebook surgindo de tempos em tempos, recuperei muitas mensagens enviadas por meus pares perguntando sobre todos os assuntos, cada vez mais estimulados pela atenção com a qual os atendia. Percebi que a minha maior missão não fora somente me aprimorar no autoconhecimento e desenvolvimento da consciência corporal, mas especialmente auxiliar os meus companheiros de turma da Educação Física, hoje atuantes como professores em escolas, instrutores em academias e “personal trainers“.

Logo no Primeiro Semestre, cheguei a sofrer restrições de alguns devido à minha curiosidade em fazer perguntas no final da aula, os impedindo de sair antes do término. Sintomaticamente, muitos deles foram ficando pelo caminho. Com a continuação do curso fui ganhando a confiança da turma e passando coordenar a realização de alguns trabalhos na parte teórica. Na parte prática, não ficava devendo (quase) nada aos demais alunos, excetuando aqueles que mesmo na idade deles talvez não conseguisse alcançar. graças à tecnologia dos modernos celulares, pude registrar grande parte da minha incursão rica em experiências com jovens em busca de um sonho. O texto abaixo é de 2013*, na fase final do curso.

“Pessoal, como alguns que me acompanham sabem, estou no oitavo e último semestre do curso de Educação Física. Uma das disciplinas que tenho na grade chama-se Psicologia Aplicada Ao Esporte. O esporte competitivo tem exigido e carreado cada vez mais recursos para que o atleta ou a equipe ao qual ele está inserido apresentem resultados satisfatórios frente aos grupos para os quais atuam – clubes, torcidas e patrocinadores.

Dessa forma, a Psicologia como disciplina tem amplo campo de atuação nessa área de atividade humana. Mas, como lembra o meu professor nessa disciplina, Ricardo Rico, não uma Psicologia independente das motivações e aspectos mentais e emocionais que movem os atletas, ou seja, a Psicologia que conhecemos aplicada no esporte, porém gerada no âmbito de competitividade extrema ou, como diria eu, a vida levada ao limite da exibição de força, aplicação (e transgressão) de regras, vibração, aprendizado de como vencer e (mais importante, porque ocorre com a maioria dos competidores) como perder – enfim, uma Psicologia do Esporte.

Na última segunda-feira, o meu grupo tinha que apresentar uma entrevista com um ‘Coach‘, um especialista cada vez mais requisitado para atuar de forma individual ou coletiva junto a grupos profissionais e/ou sociais que buscam alcançar realizar metas objetivas. Devido a vários motivos que não irei declinar, domingo de manhã ainda não havíamos conseguido a entrevista prometida e eu tive que recorrer, meio a contra gosto (porque poderia parecer que fosse um abuso de confiança), à minha lista de amigos ‘facebookianos‘ e um deles, o Alberto Centurião, se predispôs a responder o questionário que elaboramos.

Foi uma agradável surpresa para mim que uma pessoa do quilate de Centurião tenha se colocado tão generosamente à disposição para tal empreitada em um domingo de Dia das Mães, praticamente na hora do almoço dessa data especial. Ele foi consciencioso e prestativo de tal forma que me senti impelido a agradecer-lhe publicamente aqui neste espaço. Meu grupo e eu realizamos a apresentação da entrevista e, aparentemente, fomos bem na empreitada. Despeço-me agradecendo à mamãe do Centurião que merece um beijo grande e um abraço forte por ter forjado um homem como o seu filho”.

Emtardeser

Por trás da cortina diáfana
Se vai o Sol da nossa retina
Como um ser de olhar oblíquo
Incandescente e profícuo.

Caçador de nuvens, espero que o rei
Decaia, faça o percurso que decorei
Ao se inclinar, refaz um novo entardecer
Respiro luz, súdito entregue em tarde, ser…

BEDA / Cabeça De Cachorro*

Vivo em uma cidade que é um ser vivo. Mutante. Uma cabeça de cachorro autônoma a ganhar vida como se fosse contaminada por um agente químico que faz caminhar seres inanimados. Como vem a ser desproporcionalmente grande, o seu corpo-cabeça é esquartejado em partes para ser mais bem compreendida. Fatalmente, falhamos nesse intento. Ela é um organismo incompreensível em seu dinamismo energético que se estende de dentro para fora tanto quanto ao contrário, entropicamente. Não a compreendemos totalmente porque enquanto a vemos crescer de um lado, a percebemos necrosar em outras frações, de outro.

A terra existe, mas em sua maior parte é coberta por asfalto, cimento, plástico, madeira morta e metal. A minha cidade se espraia em retângulos, círculos, pirâmides e figuras assimétricas, a se consubstanciar em diferentes facetas, a se organizar em cidadelas e favelas. A Natureza é um acontecimento. Artificialmente, só se manifesta como distúrbio, em nebulosidade e água, em muito ou pouco calor, a luz do sol a se reproduzir em espelhos, a chuva a afogar as emoções. Desviamos as suas veias e artérias, canalizamos o seu sangue e o envenenamos. Expomos os seus órgãos ao ar. Invadimos as suas entranhas.

Percorremos caminhos artificiais para chegarmos a cada célula de seu organismo.  E, nos mesmos, somos organismos menores, gregários – comensais e autóctones. Estabelecemos relações de inquilinismo e simbiose, predatismo e parasitismo. Todos os seus organismos dependentes detêm, em algum momento de suas vidas, algumas dessas prerrogativas. Mas com frequência, todos servimos como substrato de sobrevivência ao monstro que urra em milhões de vozes enquanto nos consome. Cedo ou tarde, deixaremos o seu solo mais fértil, em escamações e ossos. Inutilmente. Nem como adubo serviremos…

Todavia, há o amor, ainda que coisificado pelo organograma geral que insiste em nos conduzir as diretrizes… O amor é buscado como se fosse a melhor fruta a ser adquirida nas feiras livres, o melhor carro a ser conduzido pelas avenidas, a melhor roupa a se vestir pelas calçadas da Paulista. Se todos nós pudéssemos perceber que mais do que amor, há o amar, tão diferente em cada olhar, em cada andar, em cada falar. Se pudéssemos saber nos entregar, nos identificar amados e amantes. Se pudéssemos saber alcançar, ao amar, as nuvens por sobre as nuvens de fumaça das fábricas e do vapor dos motores. Se pudéssemos beijar o Sol e devolver o calor de amar em igual proporção…

Então, e só então, escaparíamos de uma cidade que nos aprisiona e a refundaríamos mais do que imensa, grandiosa em sua melhor tradução, para além de esquinas e praças, parques e estádios, shoppings e dancings. Ocuparíamos os logradouros em danças loucas, avessas às regras, feito crianças travessas. Amaríamos por sermos além do que estamos ou temos. Seríamos felizes proprietários da felicidade, seguidores da alegria, a brincar. Nos tornaríamos inimigos da violência e da solidão, da fome e do ódio. Espalharíamos a virose do abraço apertado, da dissenção apartada. Bandeirantes de nova era, o que éramos se esqueceria. Matar não mais… Morrer, talvez, depois de amar demais…

*Texto de 2017

Participam do BEDA: Lunna Guedes / Alê Helga / Mariana Gouveia / Cláudia Leonardi / Darlene Regina