“7 de Setembro de 2021. Enquanto a tarde se desvanece, fico a pensar o quanto caminhamos para nos perdermos nesta encruzilhada a que chegamos. As pessoas que escolheram ir em direção ao abismo, mesmo que tenham perdido acompanhantes — os que pararam no meio, os que voltaram ou mesmo aqueles que buscaram outras veredas — querem que todo o povo despenque junto com elas, obedecendo a um líder insano, que deseja o aniquilamento de todos os progressos já realizados. Essa matriz assassina-suicida abomina a convivência entre os diferentes. Como somos um povo de vários matizes, deseja eliminar a diferença pela morte dos desiguais, dos excluídos, dos empobrecidos, das identidades multigêneros, das maiorias minoritárias em termos de poder de expressão. A minha expectativa, nem tenho mais esperança, é que o dia seguinte aconteça, aurora e crepúsculo, passando pelo pico solar. Que as crianças, como as que vejo agora, continuem a ter como única preocupação num feriado nacional, empinar pipas impulsionadas pelo vento refrescante que nos envolve agora. “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”…”.
O texto acima retratava a situação que vivíamos então, com a Pandemia fazendo o seu papel demolidor de certezas quanto ao mundo que conhecíamos e quanto continuação da Democracia como modelo de governo, atacada que estava sendo pelo então governante máximo do País, o Ignominioso Miliciano. Como a Terra é arredondada (levemente achatada nos Polos) ao contrário do que estava sendo alardeada pelo negacionistas que afirmavam que fosse plana (!), além do mais grave — negação de que vacinas salvam. Aliás, o atual responsável pela Saúde dos estadunidenses faz a mesma afirmação e combate a vacinação de maneira decisiva. Um retrocesso impensável produzido pelo movimento de Direita que, de forma impressionante, parece estar intrinsicamente associado a ignorância como estratégia de aliciamento dos não pensantes, talvez o maior número de pessoas — e olha que isso vai contra à minha tendência em pensar de forma sempre positiva sobre a Humanidade.
Há várias maneiras de viajar. É comum eu viajar mentalmente por lugares que apenas crio em minha imaginação. Esse é um expediente que utilizei muito quando mais novo, impedido por questões típicas de quem mal tinha recursos para me transportar de um bairro a outro. Vivia na Periferia (como ainda vivo), se bem que agora em condições de ir a muitos lugares que somente teria contato por imagens. O que me impede, como acontece com tantos, é a falta de tempo. Ao mesmo tempo, em meu trabalho me locomovo para várias cidades do Estado e até fora, mas ainda próximos em distância. Neste dia 6, estivemos em Votorantim, na região de Sorocaba em que estava em um lindo recanto onde sonorizamos pela Ortega Luz & Som uma festa de casamento.
Na antiga fazenda, transformada em local de evento, encontramos uma Figueira centenária. O local todo é bonito, mas ter contato com essa Figueira foi emocionante. Testemunha de tempos em que a dor dos escravizados sustentava a alegria dos fazendeiros, toquei o seu caule e conversei mentalmente com ela. Fiquei comovido.
A Marineide foi uma irmã reencontrada através do Facebook. Costumamos dizer que fomos deixados aqui neste planeta — ela, na Bahia, eu, em São Paulo — pela Nave-Mãe de nosso planeta original. Além dela, em Brasília, onde ela reside, havia Luiz Coutinho, também “encontrado” pelo Facebook através de seus textos perspicazes e bem escritos. Um veneziano nascido em Minhas Gerais, estivemos todos juntos no chão da Capital Federal em 2016. Na imagem acima, escolhi esta foto do crepúsculo no Planalto Central, diferente das suas referências arquitetônicas. Além de mim e as duas pessoas já citadas, Tânia e Lourival, esposo da Marineide também comparecem.
Em 2012 foi realizado o 1º ENBRATE, um Cruzeiro curto entre Santos e Rio de Janeiro, ida e volta pelo Litoral com a programação tendo como pauta a realização de palestras para atualização de profissionais de enfermagem de nível médio, aliado à diversão à bordo do Costa Fortuna, proporcionado pela ABRATE. A Tânia, profissional de Enfermagem, me levou para esse evento. Foram alguns dias em que relaxei e tive contato com o poder do Mar afastado da costa, além da vastidão do horizonte tendo o Sol durante o dia e a Lua e das Estrelas durante a noite.
Essa imagem foi realizada no passeio de escuna que fizemos — Tânia e eu — no início de outubro de 2021, por ocasião da comemoração dos meus 60 anos. Presente dado por minhas filhas, foram momentos memoráveis que espero um dia renovar em que passei alguns dias em Paraty. Além do mergulho pela história da região, mergulhei nas águas do Mar que banha a cidade que veio a se tornar Patrimônio da Humanidade.
Durante alguns anos, nosso pai, Sr. Ortega, eu e meu irmão, Humberto, fizemos viagens para Posadas, capital da província de Missiones, norte da Argentina, fronteira com o Paraguay. Nesta imagem, realizada em 1985, estávamos em Foz do Iguaçu, local de registro de nascimento do meu pai. Na verdade, ele era de origem paraguaia e seu pai, Sr. Humberto, o registrou em Foz. Essa viagem também é temporal, como quase todas que aqui coloquei.
As viagens mais frequentes que realizo são para encontrar o Mar. Vou ao Litoral Sul, mais especificamente à Praia Grande — que um dia foi chamada de Cidade dos Farofeiros por ser o ponto mais visitado pelos paulistanos em ônibus de excursão. Eles lotavam as ruas com eles e há uma imagem icônica em eles invadiam parte das praias. Atualmente, Praia Grande é uma cidade com grandes empreendimentos imobiliários, escolhidos por pessoas de poder maior aquisitivo. Foi uma grande transformação ao longo dos anos. Apesar da grande mudança da rua de areia ladeada por mangues até se tornar numa apinhada de prédios residenciais, ainda é por ela que volto a ser menino, o mesmo que vivia o dia inteiro vestido apenas com o calção de banho, passando boa parte do tempo na areia, a mergulhar seguidas vezes nas ondas que sempre que adentro, me carregam para os momentos mais felizes da minha vida.
*Texto e fotos postadas um dia depois por estar, justamente, em viagem de trabalho.
Em 2020, por ocasião da comemoração do 7 de Setembro, o Google colocou na página de buscas essa imagem ilustrativa. Perguntei: “O que é que é isso, Google? Hoje é aniversário de independência dos Estados Unidos ou do Brasil?
Sintomaticamente, tanto naquela época, como agora, há uma parcela de cidadãos que expressam seu amor ao País de Trump com muito mais fervor e admiração do que para o nosso. Não se importam de prejudicarem a nossa Pátria em busca de ganhos pessoais — tanto economicamente quanto pessoalmente. Aliás, muitos dessas personagens confundem uma coisa com a outra — família e Pátria — aduzindo ganhos econômicos como tempero indispensável. Afinal, tudo gira em torno do dinheiro, mesmo. A Ideologia passa longe dos projetos políticos para se tornarem mecanismos de apropriação de meios para faturamento financeiro. Enquanto isso, vamos tentando sobreviver a tanta negociação entre as forças que dominam o País — políticos que passeiam entre as demandas populares e os interesses particulares.
Eu priorizo o conforto antes de qualquer coisa. No caso de roupas e calçados, muito mais. Conforto tem a ver com vestimentas, chinelos, tênis e sapatos testados e aprovados no uso constante — ou seja, velharias. Camisetas, largas. Camisas, funcionais. Calças, sem apertar na cintura ou nas pernas. Cuecas, acolhedoras. Meias, as adequadas, ainda que ultimamente tenha misturado padrões e cores. Tento não estar tão dissonante em relação ao ambiente que eventualmente venha a frequentar e costumo ficar no limite entre o que é aceitável para mim e o que exige o local frequentado.
Casado, com filhas e esposa vigilantes, tento não as ofender e sempre pergunto se não estou muito fora do contexto quando saímos juntos. Quando vou sozinho para algum compromisso, a depender da circunstância, uso o basicão. No trabalho, que envolve o infalível “preto comendador” é perfeito porque fico invisível, principalmente para fazer os previsíveis “corres” inesperados para solucionar algum problema técnico ou de outra ordem.
No domingo, na montagem do equipamento de som e luz para o evento que interviríamos às 17h, achei que daria tempo para voltar para casa almoçar, mas devido à mudança de horário, tivemos que permanecer no local e eu estava vestido de forma supostamente inadequada por se tratar de um aniversário um tanto mais estiloso. Porém, o anfitrião, descontraído, disse não se importar com o que eu vestia — bermuda social e camiseta preta. Ajudava o fato de a apresentação ser de uma banda de pegada roqueira. Acabado o evento, na desmontagem, o meu tênis (que usava para algumas das minhas caminhadas) não aguentou o tranco e começou a abrir o solado. Seria um prenúncio do que viria a acontecer no dia seguinte?
Na segunda-feira, para ir ao meu compromisso, decidi usar velhos sapatos, confortáveis, bicos largos, conhecedores dos meus pés, afeitos aos seus formatos. Na ida, eu percebi que havia começado a abrir a lateral do esquerdo, mas achei que não seria um problema tão grande quanto o que se tornou com o aumento do rasgo como se fora uma gradual abertura de um portal quântico para o escape do pé da dimensão ao qual estava timidamente recolhido.
Para evitar que o solado não se descolasse, comecei a arrastar o pé esquerdo pela Praça da República, depois de ter saído do Metrô, como se fosse alguém com problema de locomoção. A minha dignidade estava sendo testada, se eu tivesse alguma. Afinal, ali ninguém me conhecia, ainda mais com máscara, e eu era apenas mais uma delas, perna esquerda dura, em meio a tantos desalentados e cambaleantes à minha volta.
Em dado momento, nem esse subterfúgio funcionou e meu pé finalmente atravessou a fronteira final. Tirei do pé o pobre sapato tão despedaçado quanto um coração magoado e caminhei um bom trecho descalço até a loja mais próxima. A meia preta, da cor do sapato, até que conseguiu mascarar para os outros pedestres a falta do “pé” que estava em minha mão. Os meus passos, bem mais regulares, fingiam saber para onde ia. Saí de lá com novos companheiros, firmes e reluzentes.
Um dia, tanto quanto um bom sapato velho, atravessarei o estágio derradeiro do uso funcional de minhas faculdades mentais e físicas e me deixarei ir, estiolado. Estimo que aconteça comigo algo muito mais digno do que ser atirado num cesto para coisas sem uso — um asilo. Ao final, espero receber um adeus tão sentido quanto ao que dei aos meus antigos calçados, deixados na lata do lixo.
Os caramelos têm aqui em casa o seu lugar de fala. Duas delas, são mãe e filha — Domitila, a primeira de cima para baixo e Dominic, sua filha, a primeira em sentido contrário. Esse registro é de 2021. Domitila já nos deixou. As outras “meninas”: Bethânia, Arya, Lolla, além de Dominic, estão vivas. Dominic não está tão bem. Os cerca de 14 anos já pesam na sua mobilidade, além de alguns outros probleminhas típicos da idade. E isso é uma situação de quem cuida de cães ou gatos ou de quaisquer outros animais de estimação, sofrem — o tempo de vida reduzido em relação aos seus cuidadores. É o caso da ideia da inversão da lógica temporal em que os “filhos” vivam mais do que os “pais”. Estes “pais” exercem várias vezes durante a vida a dissolução de conexões íntimas e importantes entre uns e outros. Ao mesmo tempo, não conseguem deixar de ter vontade de repeti-las durante a sua existência. Porque, creio, essas relações nos abastecem de uma energia que eu chamaria de “vital”. Curativa. Além dos caramelos acima, atualmente juntou-se o Alexandre, resgatado há três anos mais ou menos. Aliás, tirante a Dominic, que nasceu em casa, todos os outros foram acolhidos de resgaste da rua. E, apesar de não haver interesse (por enquanto) de haver outros resgastes, em todas as ocasiões houve o envolvimento de outros motivos aleatórios, sem intenção de fazê-lo. À conferir…