— Então, cachorrada, precisamos nos organizar e exigir certas regalias!
— Quem é você para liderar a turma, Bethânia? Eu sou a mais velha aqui!
— Eu sou a queridinha do papai e da mamãe, Domitila! Você sabe disso!
— Eu não gosto de você! Você implica comigo!
— Ah! Desculpa, Dominic… Tenho ciúme! Perco o controle!
— Tudo bem! Qual o seu plano? Como é que voltaremos a dormir na sala?
— Vocês, na sala! E eu, no quarto! É simples! Vamos recusar carinho!
— Eu gosto tanto de dar e receber carinho!
— Ah, Arya! Você é tão carente!
— Mas eu gosto…
— Todas nós temos que estar de acordo, Arya!
— Tá bom! Vou me esforçar…
— Ainda bem que ele não entende o que estamos falando… Tá lá, tirando foto… Ele nos ama…
— Nossa! Ele é tão fofo!
— E cuida de nós! Prepara e dá ração com misturinha…
— E faz um carinho tão gostoso! Olha! Ele vai descer…
— E aí, meninas? Está tudo bem com vocês? Vamos descer?
— Au! Au! Au! Sim! Sim! Sim!
— Au! Au! Quero carinho na cabeça, como só você sabe fazer!
— Au! Au! Passa a mão no meu pelo?
— Au! Au! Eu quero comidinha, de novo!
— Au! Au! Sai de perto dele, Dominic!
Categoria: Imagens
Projeto Fotográfico 6 On 6 / Vistas
Ver, rever, visto, revisto. Ser objeto de observação, observar. Ver verdadeiramente ou apenas passar os olhos sem se aprofundar. Vistas, certas imagens, ganham a dimensão de algo mais a depender de quem as vê. Carregadas de referências pessoais, ver algo é como se pudesse vê-lo para além da percepção imediata e restrita a esse algo — uma visão transcendente. Não vejo como possa ser de outra forma.
Uma coisa que me intriga é a visão dos outros animais em relação aos mesmos objetos e paisagens que vemos e como são interpretados, dentro de suas referências perceptivas. Que não se restringem apenas à visão, mas incorporam o olfato e o ouvido apurados, o que colabora para que apreendam de uma maneira mais completa o que apenas vislumbramos na superfície ou que valoramos por critérios idealizados. Essa riqueza perceptiva, fora de nosso alcance, é como se fosse uma overdose de vida. Todos os momentos são tão intensos em termos sensoriais que não seja de surpreender que durmam tão profundamente quando se sentem abrigados e seguros. (Periferia, em 2021)
Rua Santa Ephigênia, onde as antigas construções abrigam lojas de equipamentos de ponta em vários setores da tecnologia. É uma festa para os meus olhos, mas não nesse aspecto. Para mim, o que é precioso reside nas edificações… É comum aproveitar a abertura de algum portal do Tempo e viajar para o Passado. São breves instantes de percepção extra-sensorial em que capturo algum momento especial, testemunho a História a acontecer em décimos de milissegundos e volto a caminhar entre carros, pessoas e luzes de LED… (Voltando no Tempo, 2016)
A luz foi engolida por grossas camadas de nuvens escuras, repentinamente. O calor ameno deu lugar ao frio que se projetou por nossas peles desprotegidas. O ser humano vem a perceber, nesses momentos de humor ciclotímico do tempo, que é muito frágil diante do clima, diante da Terra. Será por inveja que queremos destrui-la? (São Caetano do Sul, 2015)
Observo do ponto que estou, no alto de um prédio, que o vento movimenta as nuvens como se fora ondas no mar, enquanto no recife de corais abaixo, pululam seres em suas fainas diárias de nadarem contra a corrente, em busca de alimento. (Comunidade de Paraisópolis, 2014)
Caminhando pelos calçadões do Centrão, costumo me perder em olhares por seus descaminhos confusionais de Tempo e Espaço. Assim como citei acima sobre a Santa Ephigênia, apesar de gostar de me sentir desconfortável por não estar onde estou, vez ou outra me sinto surpreendido por observar essas construções tão velhas quanto eu com um olhar novo. Neste caso, talvez seja pela fluídica árvore nova, a destoar do ambiente concreto. Depois de observar melhor, o edifício ao lado parece ter uma forma alternativa que só poderei confirmar ao voltar a vê-lo. Quanto ao prédio protagonista, é ele que sinto me observar por seus muitíssimos olhos. (Vista desde a vazia Rua Marconi, em 2021).
“Duque de Caxias, empunhando o seu sabre, cavalgando eternamente o seu cavalo. Conheci esse monumento ainda bem menino e ele continua por lá, impassível, rumo ao futuro.” — escrevi sobre essa imagem, em 2014. O monumento do Duque Caxias está estacionado na Praça Princesa Isabel. Ambos, são nomes de referência do Segundo Império. Enquanto a Redentora está sofrendo um cancelamento por parte do movimento negro, apesar de ter assinado a Abolição da Escravatura, a atuação de Caxias tem sido revisada como senhor da guerra. Guindado à condição de grande nome do Exército, talvez a sua fama de estrategista e honradez tenha sido convenientemente inflada ao logo do tempo para alimentar o herói. A praça em si, está ocupada por desvalidos, moradores de rua, drogados, pessoas que perderam a guerra contra o Sistema, escravizados pelo vício.
Participam:
Os Sapatos
Eu priorizo o conforto antes de qualquer coisa. No caso de roupas e calçados, muito mais. Conforto tem a ver com vestimentas, chinelos, tênis e sapatos testados e aprovados no uso constante — ou seja, velharias. Camisetas, largas. Camisas, funcionais. Calças, sem apertar na cintura ou nas pernas. Cuecas, acolhedoras. Meias, as adequadas, ainda que ultimamente tenha misturado padrões e cores. Tento não estar tão dissonante em relação ao ambiente que eventualmente venha a frequentar e costumo ficar no limite entre o que é aceitável para mim e o que exige o local frequentado.
Casado, com filhas e esposa vigilantes, tento não as ofender e sempre pergunto se não estou muito fora do contexto quando saímos juntos. Quando vou sozinho para algum compromisso, a depender da circunstância, uso o basicão. No trabalho, que envolve o infalível “preto comendador” é perfeito porque fico invisível, principalmente para fazer os previsíveis “corres” inesperados para solucionar algum problema técnico ou de outra ordem.
No domingo, na montagem do equipamento de som e luz para o evento que interviríamos às 17h, achei que daria tempo para voltar para casa almoçar, mas devido à mudança de horário, tivemos que permanecer no local e eu estava vestido de forma supostamente inadequada por se tratar de um aniversário um tanto mais estiloso. Porém, o anfitrião, descontraído, disse não se importar com o que eu vestia — bermuda social e camiseta preta. Ajudava o fato de a apresentação ser de uma banda de pegada roqueira. Acabado o evento, na desmontagem, o meu tênis (que usava para algumas das minhas caminhadas) não aguentou o tranco e começou a abrir o solado. Seria um prenúncio do que viria a acontecer no dia seguinte?
Na segunda-feira, para ir ao meu compromisso, decidi usar velhos sapatos, confortáveis, bicos largos, conhecedores dos meus pés, afeitos aos seus formatos. Na ida, eu percebi que havia começado a abrir a lateral do esquerdo, mas achei que não seria um problema tão grande quanto o que se tornou com o aumento do rasgo como se fora uma gradual abertura de um portal quântico para o escape do pé da dimensão ao qual estava timidamente recolhido.
Para evitar que o solado não se descolasse, comecei a arrastar o pé esquerdo pela Praça da República, depois de ter saído do Metrô, como se fosse alguém com problema de locomoção. A minha dignidade estava sendo testada, se eu tivesse alguma. Afinal, ali ninguém me conhecia, ainda mais com máscara, e eu era apenas mais uma delas, perna esquerda dura, em meio a tantos desalentados e cambaleantes à minha volta.
Em dado momento, nem esse subterfúgio funcionou e meu pé finalmente atravessou a fronteira final. Tirei do pé o pobre sapato tão despedaçado quanto um coração magoado e caminhei um bom trecho descalço até a loja mais próxima. A meia preta, da cor do sapato, até que conseguiu mascarar para os outros pedestres a falta do “pé” que estava em minha mão. Os meus passos, bem mais regulares, fingiam saber para onde ia. Saí de lá com novos companheiros, firmes e reluzentes.
Um dia, tanto quanto um bom sapato velho, atravessarei o estágio derradeiro do uso funcional de minhas faculdades mentais e físicas e me deixarei ir, estiolado. Estimo que aconteça comigo algo muito mais digno do que ser atirado num cesto para coisas sem uso — um asilo. Ao final, espero receber um adeus tão sentido quanto ao que dei aos meus antigos calçados, deixados na lata do lixo.
B.E.D.A. / Rave*
Há alguns anos, nós, da Ortega Luz & Som, fizemos uma Rave em um casarão da Avenida Paulista. Fiquei impressionado com o ambiente, que exalava outrora grandeza. Os pés direitos não tão altos quanto o de várias construções antigas que conhecia, mas que abrigava diversos ambientes que desativados-limpos, apenas imaginava para que serviriam. Nosso equipamento ficou abrigado da sanha dos convidados no que era provavelmente um dos banheiros.
Nas paredes desbotadas encontramos desenhos e motivos em papéis de parede, que representavam rostos, provavelmente dos antigos moradores. Nos era interditado subir ao sótão ou descer ao porão, onde estavam guardados os móveis da antiga mansão e o escritório da empresa que o alugava para eventos.
Procurei saber um pouco mais sobre aquele lugar. Soube que se tratava da “residência do Coronel Joaquim Franco de Mello. Localizada na Avenida Paulista, 1919, o imóvel é da família do agricultor e fundador da cidade de Lavínia, nome dado em homenagem à sua esposa. Viviam na residência com seus 3 filhos, Dr. Raul Franco de Mello, Dr. Raphael Franco de Mello e Dr. Rubens Franco de Mello. O palacete foi construído em 1905 pelo construtor licenciado Antônio Fernandes Pinto, cidadão português. A casa é o único exemplar remanescente da primeira fase residencial da Avenida Paulista (1891-1937). Está num terreno de 4720m², com uma grande área verde particular que a família Franco de Mello ainda mantém. O casarão tem 35 cômodos. Sua fachada é em estilo eclético, com influências da arquitetura da época de Luís XV nos enfeites rococó do frontão curvo e nos caixilhos das janelas e mansarda renascentista com telhas francesas e torreão” (Wikipédia).
Quanto à Rave em si… foram doze horas de loucura, loucura, loucura… Meu irmão, eu e meu traje nos recolhemos ao pequeno espaço inicial sem quase nenhuma possibilidade de escape, a não ser pela janela para ir aos banheiros químicos e só… Dessa “torre” protegida vislumbramos (ou imaginamos ver) às guerras de corpos em luta sôfrega em meio à semi-escuridão — homens-mulheres, mulheres-mulheres, homens-homens — apenas constatada por paredes que pareciam se mover. Perdi bastante de minha inocência naquela ocasião…
Buscando um pouco mais, encontrei uma página que mostra os vários palacetes construídos naquela que é considerada a “mais paulista das avenidas”, justamente porque representa essa voragem típica desta São Paulo que “ergue e destrói coisas belas”…
Participam do B.E.D.A.:
Lunna Guedes
Roseli Pedroso
Mariana Gouveia
Cláudia Leonardi
Darlene Regina
Adriana Aneli
B.E.D.A. / Naturalidades*
Sou um homem citadino. Sonho morrer junto ao mar, mas moro em uma metrópole — a maior do Hemisfério Sul — longe das águas. Mesmo amplamente impermeabilizada por asfalto, há oportunidades de presenciar a expressão natural da existência. A observação da Natureza nos oferece maiores oportunidades de reflexão quanto à Vida. Mesmo que eu possa vir a parecer desencantado, o que sinto é a nossa intrínseca pequenez, aliado à humildade que devemos ter diante dos ensinamentos que ela nos presta.
Os abraços que recebemos…
As amarras que a Vida tece…
Somos silhuetas sob o céu e o Sol…
Somos sombras vivas…
O que é nebuloso?
O que é claro?
O que passa?
O que fica?
O que temos?
O que vemos?
O que somos?…
Talvez, a soma de tudo isso…
Talvez nada…
*Postagem de 2016
Participam do B.E.D.A.:
Lunna Guedes
Roseli Pedroso
Mariana Gouveia
Adriana Aneli
Darlene Regina
Cláudia Leonardi














