21 / 10 / 2025 / Eu E Os Catioros

Eu sempre tive cães sob a minha guarda. Tarzan, Gita, Fofinha, Cloé, João foram alguns dos mais antigos e tantos e tantos outros. A minha mãe era cachorreira. Não podia ver um cãozinho perdido ou solto na vida que trazia para casa, mesmo quando não tínhamos tantos recursos. Dona Madalena pegava nos açougues carnes que seriam jogadas fora para que eu cortasse em pedaços e, misturadas a arroz com casca, então desprezado, fazer a comida da turma. O cheiro não era nada bom na grande panela e cortar bucho não era nada fácil. Mas como já era apaixonado por essas criaturas, não deixava de me esforçar para fazer a comida das crianças.

Como já realcei em outros textos, quem adota essas “pessoas”, sabe que terá um tempo menor de convivência devido a duração em anos menor delas. Então, é comum a tristeza nos abater vez ou outra diante das suas partidas. Mas vale a pena termos contato com esses seres especiais, verdadeiros educadores sentimentais. Com eles, aprendemos, mesmo nos pequenos gestos, olhares e comportamentos que podemos ser melhores do que somos. Como a homenagear a minha mãe, uma única vez resgatei um deles — o Alexandre. Já escrevi sobre ele. É o que aparece na primeira foto. Incialmente arredio, hoje me recebe de manhã ou quando volto pra casa com a alegria de quem é sabedor de que é amado. Com eles, me sinto uma pessoa melhor.

19 / 10 / 2025 / Librianos*

*2016. Dois desses cinco, nasceram no dia 9 de outubro. Um, em 1940. Outro, em 1961.

Quando mais novo, aos 8 anos, fiz uma versão para “Hey, Jude“, dos The Beatles. Não entendia nada de inglês, e a cadência da canção dava a entender que fosse de amor romântico. Mais tarde, soube que foi feita por Paul McCartney para Julian Lennon, filho de John, por causa do divórcio de seus pais, encorajando-o a enfrentar a vida e buscar na tristeza motivação para superá-la. Quando soube que Lennon nascera no dia 9 de outubro, assim como eu, o transformei em meu espelho.

Por algum motivo, eu achava que fosse morrer cedo, aos 33, como Cristo. Ou aos 40, quando Lennon foi assassinado. Poderia ser mais tarde, como Mário de Andrade, outro que nasceu na mesma data e nome do Parque Infantil que frequentei até os 12 anos — projeto dele quando foi Secretário da Educação do Município de São Paulo. No entanto, tendo já chegado aos 64 anos, já superei os 62 da morte do autor de Macunaíma. Esse desejo de identificação com meus ídolos, incluindo o Nazareno, um dos meus avatares favoritos, já superei. Mas a influência que exercem em mim continua forte e espero que possa ser minimamente interessante para honrar o dia em que nasceram.

18 / 10 / 2025 / Três Estações

Hoje, não presenciarei este poente… El Niño nublou o dia (tudo é culpa do El Niño desde sempre!) e a nebulosidade impedirá a visão do Sol boiando feito uma bolinha dourada nas águas avermelhadas do sangue da tarde que está a morrer… A não ser, é claro, que tenhamos uma terceira estação climática desde que se inaugurou a manhã…

17 / 10 / 2025 / Os Olhos Dela

como se entrasse num labirinto
dei de me perder nos olhos dela
parece que me tragavam para dentro de um mundo novo
perdido em antigas tramas de atração fatal
embarcado em nau amarrado ao mastro central
ouvia como que um canto de sereia em calmo mar
da boca que movia os lábios como se fossem ondas
de luz das águas profundas de seu olhar
meu coração batia como se montado em corcovo
de indomável cavalo selvagem em campos de pleno sol
bastava ver bater os cílios de seus olhos em miragem de morte
como se buscasse sugar a minha seiva de depauperada árvore
que tomba como se tivesse cortados caule e ramagem
forças naturais que se avultam em poder e vingança
ao mundo que tenta destruir a vida que palpita
no meu peito de homem velho
parte daqueles que sangram o sangue de escuro vermelho
marcando o chão da estrada na caminhada da terra de perdido brilho…

Foto por Ennie Horvath em Pexels.com

14 / 10 / 2025 / Reencontro*

*Em 2014, escrevi: “Voltando a ser adulto aqui no Face, se bem que com uma foto tirada em um lugar que me remete ao melhor da minha infância, junto ao Mar. Nessa faixa de areia, em vez de ser o velho, me torno um com os elementos — o fogo do Sol que me abrasa, a brisa do oceano que me refresca, a areia que me sustenta o pé (ainda que de forma deslizante) e a água salgada, que ainda será o futuro do Planeta Terra, assim como foi no passado”.