Dançando Em Mim

Não foi sob o luar,
na praia, mata ou montanha…
Foi na depressão,
plena escuridão,
prenha de minha solidão
semivivo entre semimortos,
iguais em devoção à profundeza rasa…

Mergulhado em mim,
eu era um Não em busca de Sim,
recusado,
a repelir qualquer luz
que me ofendesse o isolamento…

Distraído, fui pego de surpresa…
Tornei-me presa,
arrebatado,
sem pressa devorado
pela rústica delicadeza
de uma quimera
em corpo pequeno e ágil…

Eu,
imenso em nulidade,
tive meu universo iluminado
por estrela em céu sem lua,
planetas e sol.
A dançar,
chegou para me negar…

Ela me apresentou o amor,
recriou meu universo.
Passou a alimentar o meu corpo — sangue
submisso aos desejos,
a me tornar dependente de sua força rubra.

Quando o mundo acabar — massa de energia
absorvida por buracos negros,
ainda serei seu palco até o fim.
Coreografia da paixão — o amor
dançando em mim…

Foto por KoolShooters em Pexels.com

O Fantasma*

Dormi tarde
plena madrugada
às 4h
depois de um evento
(trabalho enquanto outros se divertem).
Forcei-me a acordar cedo
para ir jogar bola.
Enquanto tomava um café
sentei-me na sala
para ver um pouco de televisão
e
conversar com o fantasma da manhã.
O seu coração pulsava com vigor
no centro do corpo
e
apesar de rápido
foi um contato proveitoso —
ele me confirmou que tudo
é
Luz!

*Versos derivados de um texto de 2014

Sobre Navegar E Amar

Eu quero ser lido,

mas jamais decifrado…

Eu quero ser saboreado,

mas nunca perder o gosto…

Eu quero ser rio manso para ser navegado

e mar revolto que afunda embarcações…

Quando me mostrar indômito,

buscarei a comunhão…

Quando estiver sereno,

quero causar perturbação

dos sentidos e dos sentimentos…

Quero ser seu e emancipado de mim,

quando estiver consigo…

Barco jamais ancorado,

conduzir e ser conduzido…

Navegar e amar…

Foto por Mikhail Nilov em Pexels.com

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Páginas de Livros

Página da mais recente publicação de minha autoria — O Cão Branco. Está no formato de plaquete, uma alternativa interessante para projetos literários independentes como são os que eu pratico, sob os auspícios da Scenarium Livros Artesanais. Nessa edição, eu respondo a uma carta de Lunna Guedes, mencionando a experiência da tentativa de resgatar um cão provavelmente abandonado, a relacionando a um personagem de sua infância, um homem que ficou passeando em sua mente desde então, parado na Estação Ferroviária de Nervi, em Gênova, na Itália.

Eu me tornei escritor quando assumi que essa era a identificação pela qual queria ser conhecido. Publicar um livro apenas referendou o desejo de menino materializado no meu primeiro livro, que veio a se chamar REALidade, lançado em 2017. É constituído por crônicas que publicava nas redes sociais, além de algumas outras, inéditas. É uma edição que envelheceu bem. Gosto muita dela.

A minha atividade profissional implica em certo trabalho físico. Tenho uma pequena empresa de locação de equipamentos de som e luz para eventos festivos e/ou artísticos. Melhor dizendo, eu loco serviço de sonorização e iluminação. Trabalho com muitos artistas da música, do teatro e também em eventos empresariais. Frequento ambientes o mais diversos e não são poucas as vezes que volta e meia me chegam histórias das mais simples até as mais estranhas, ainda que verdadeiras. Instado por minha editora a incrementar uma história de abuso infantil, fui mergulhando nos meandros que envolvem o poder e a manipulação de pessoas através da minha personagem — Elizabeth Gonçalves — em Senzala, uma novela. Na foto das páginas não estranhem as minhas unhas sujas. Faz parte do rescaldo da manipulação dos equipamentos da minha atividade. Muito menos vergonhosas que o quadro que talvez pareça pintado em tintas fortes demais, mas que chegam a ficar distante da realidade dura e crua.

Eu gosto de poesia desde garoto. Eu me identificava, quando adolescente, com os poetas do Mal do Século (XIX) — Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela e Junqueira Freire. Adorava declamar Castro Alves e fui bastante apaixonado pela poesia de Gonçalves Dias, principalmente pelos versos de I-Juca-Pirama. Mais maduro, Mario de Andrade e Drumond de Andrade ocuparam a minha mente com as suas incursões na realidade. Eu sempre escrevi poesia. Assim como os poetas do final do Século XIX, incursionava pela dor de amor. Era um amor sem destinatária. As minhas musas eram idealizadas, muitas à partir de pessoais reais (que nunca souberam ser musas involuntárias), outras, atrizes do cinema e da televisão. Mais recentemente, fui escolhido à participar de um Coletivo patrocinado pela ScenariumANDARILHA. Fiquei feliz, ainda que tenha mudado bastante a minha escrita poética, tentando inovar nas imagens e nos temas. É um belo projeto que fiquei contente em participar.

RUA 2 foi o segundo livro que lancei. Foi escrito numa fase pessoal difícil, em que a seca temática foi bastante severa. Abertas as comportas, logo começou a fluir histórias relatadas através de minha experiência na Periferia da Zona Norte de São Paulo. Compostas por contos curtos, relatam situações comuns do cotidiano periférico, sempre com pontuação dramática, muitas vezes, violenta. Talvez resquícios da morte de meu pai, com quem tive várias diferenças ao longo da vida.

Uma das situações em que meu pai causou repercussão longeva em mim, foi a sua atitude em relação ao fato de que eu ter tido incontinência urinária até os meus oito anos, por aí. Apenas mais recentemente li que essa característica pode ser causada por sintoma exacerbado de Ansiedade. Aliás, apenas nos últimos anos eu aceitei que sempre fui ansioso. Essas crises de ansiedade acabou por gerar um isolamento voluntário por um mês que me salvou de uma crise mais severa. É claro que isso acabou no papel. Gerei mais um livro: Curso de Rio, Caminho do Mar — que não está nesta publicação, mas que me ajudou a sair do estado mental no qual estava mergulhado. Ajudou bastante mergulhar igualmente nas águas das praias de Ubatuba.

Participam:
Claudia Leonardi
 
Mariana Gouveia
Lunna Guedes
Roseli Pedroso 
Silvana Lopes

Deuses

No fulgor do instante 
em que nos separamos do  mundo
e entramos em outra dimensão…

No momento de corpos que se fundem,
fundam uma nova existência
e se aprofundam
no mar cósmico do gozo…

Na aceitação de que somos ingentes, 
a deitarmos entre estrelas que dançam, 
exclamas: “Pareces um deus!”…
Então,
me sinto teu,
me sinto tanto…
me sinto são…

Espalmo minhas mãos
contra a planta de teus pés –
beijo tua flor de lótus,
entoo preces
e te possuo…

Te sinto uma deusa…
Mais do que isso… 
Te sinto maior que tudo…
Te sinto Mulher…

Imagem: recorte de alto-relevo de um dos templos de Khajuharo, Índia, construídos entre 950 e 1050 do Ano Comum.