Deuses

No fulgor do instante 
em que nos separamos do  mundo
e entramos em outra dimensão…

No momento de corpos que se fundem,
fundam uma nova existência
e se aprofundam
no mar cósmico do gozo…

Na aceitação de que somos ingentes, 
a deitarmos entre estrelas que dançam, 
exclamas: “Pareces um deus!”…
Então,
me sinto teu,
me sinto tanto…
me sinto são…

Espalmo minhas mãos
contra a planta de teus pés –
beijo tua flor de lótus,
entoo preces
e te possuo…

Te sinto uma deusa…
Mais do que isso… 
Te sinto maior que tudo…
Te sinto Mulher…

Imagem: recorte de alto-relevo de um dos templos de Khajuharo, Índia, construídos entre 950 e 1050 do Ano Comum.

A Camisola

o descaso distancia as pessoas como se vivessem
em mundos diferentes
não quero que esse descaso me abrace
a ponto de viver longe de mim
quantas vezes não me surpreendo em me rever
diferente do que imagino ser?
se eu perdoo qualquer um ao se sentir impróprio
não devo me perdoar?
o que sinto é uma tremenda compaixão pela fraqueza
ou isso será capacidade de ser fiel à mim mesma?
para isso acontecer fiz um caminho penoso mas muito simples
não mentir para mim foi o primeiro passo
mas não deixo de desejar estar com outro
nele visto a fantasia como se nascesse com ela
a minha pele a lavo e a perfumo
estendo a camisola de seda que vestirei
leve como o ar que respiro
no quarto escuro
é quando vejo melhor abraço a minha fantasia
passearei com ela pela madrugada afora
a de hoje é de estar com dois
sei que farão o que me dará prazer
luminescentes vibram ao meu toque

separo três taças de vinho
levanto a camisola
e os deixo tocar as minhas reentrâncias
brinco com a possibilidade de me evitarem
de meu braço se distanciar a minha mão não tocar
o sino que me acordará para o gozo
quero fluir em rios de aventuras
meus brinquedos são melhores que homens
preocupados em serem dominadores
em troca de carinhos
eu era estuprada e fingia orgasmo
quase sempre

quase sempre
respondia com beijos desencarnados
salivados em seus paus desidratados
logo queria que fossem embora
que me deixassem só mais só
do que quando me encontravam
desisti de me entregar a estranhos seres
morfologicamente machos
instintivamente monstros
preferi me tornar só minha…

Foto por alirezamani wedding team em Pexels.com

A Engolidora De Mim

manhã de amena insolação café na mesa
pão crocante manteiga sem sal creme de ricota mel cereja
mamão uva geleia de morango chocolate e surpresa
com toda a delicadeza você se esgueira entre os pés
do tabernáculo sagrado da refeição matinal
abaixo da elevação ouvimos o som da água
descendo em correnteza que se choca entre as pedras
retumbante em dança música da natureza de ser
livre presente em se desfazer e se reagrupar
em poças filetes remansos limpos rebeldes
aproveita que estou apenas de calção
retira a proteção fico exposto à sua adoração
eu que já adivinhava a sua intenção
já sentia intumescer aquele que pensa por si só
e você ama que ele responda mesmo depois de tantos anos
a sua boca o beija passeia a língua por onde deseja o possui
estamos ao sul de qualquer norte a luz solar a invadir
a nossa intimidade fluida inocente sem mancha
enquanto reza busca a profundeza de si geme eu urro
sem testemunhas de tamanha beleza quase choro
não é pelo gozo não é pelo prazer não é pelo vazio que me preenche
não é pelo abandono à consciência de que sou um com o todo
com a sua entrega me tem sob seu controle
apenas consigo entender que sou possuído
enquanto me sinto liquefeito mole
passeio por outros mundos vívidos
me energizo me perco me integro me entrego
enquanto você me engole…
me deixa exangue me arranca um sorriso
quando agradece: “obrigada pelo gole!”…

Estaiada

Da ponte, a trama
Da cidade, o drama
Dos campos sem grama
Dos rios de lama
Da vida em programas
Dos corpos em chamas
Da luta pela fama
Do império da grana
Que aos corações inflama…