Velhinho

eu acordei hoje velho
quase sempre acordo jovem
e só restabeleço o que sou
ao surgir do outro lado do espelho
sonhei que era criança
foi um sonhinho-lembrancinha
menino pequeno queria ser crescido
ficava indignado egoísta queria
me sentar sozinho no banco do ônibus
minha mãe puxava para o colo entre
suas pernas de pelos mal aparados
pinicavam deixa os outros se sentarem
queria ficar na janela vendo o mundo
passar rápido mais rápido menos rápido
às vezes o mundo parava
minha mente continuava antecipava
surpresas

voltei velho fui à feira
quando garoto gostava de falar com velho
o velho de hoje puxa assunto quase
ninguém lhe responde olham
desconfiança ou indiferença
na banca de frutas um velho de longos
cabelos e barbas brancas puxa fumaça
de um apequenado cigarro de palha
seu olhar é mais profundo
do que uma fossa oceânica de tantas turbulências
acalmadas na escuridão
passo por um bar velhos jogam dominó
perdem partidas ganham idade
um deles olha para as peças
como se fossem pedaços da vida
que insistiam em não serem encontradas
respira pesado
ar que pouco permanece e se esvai
mais um ser antigo caminha
com seu velho cão
comem do mesmo pão
são amigos pais filhos irmãos
qualquer um que partir antes
levará consigo seu ente querido
darão adeus às mútuas lembranças
esquecidos

desconsolado desço a angélica
por uma travessa chego ao portão lateral
cemitério da consolação
me movo entre pedras me perco
revisito jazigos pássaros cantam
persigo ruelas ventos sopram
pareço ouvir vozes dos que se foram
admiro mausoléus árvores respiram
o sol ilumina o tempo construções desabam
em silêncio registro estátuas vivas os mortos falam
piso sobre lágrimas que já secaram
acalmo os meus pensamentos divago
tropeço em mim busco solução
os eternos moradores respondem desde o chão
calma… tudo está em dissolução…

Foto: imagem pessoal de um mausoléu do Cemitério da Consolação.

Poética

A Poesia tem um poder circular
Sanguínea, etérea, cíclica, cinética
Mística e concreta, razão e paixão
Inspiradora, desestabilizadora, transcendente
Nos mata e nos faz viver o amor
E, do prazer, o gozo, a dor
O preenchimento e o vazio
Nos exalta e nos falta
É e, em sendo, deixa de ser
Para no fim encontrar sentido
Sem direção, livre ou rimada
No começo de tudo, no nada…

Foto por Yaroslav Shuraev em Pexels.com

BEDA / Paixões & Loucura

Assim como águas passadas movem moinhos…
Quando me encontro perdido é quando me encontro
Porque não me canso de me procurar
Em meu âmago sinto que prefiro me arrepender
Do que fiz do que não fiz
As consequências são escolhas por mais que não as controlemos
Mesmo porque quase nunca controlamos nada
“Sempre” e “nunca” decidi não usar mais certa vez
E por isso vivo me contradizendo
Quase sei o que não sei… aprendi
Desconhecer é um caminho sem volta
Desconhecer o mundo, o outro, a si
É como renascer a cada manhã
Novo e ignorante de sua essência
Mas ciente do que seja essencial… respirar
Como se sabe?… respirando
De obviedades também se vive
Como morrer, a maior obviedade que existe…