Março

março das águas
mar aço
mar interno que extravasa
para os poros
dos olhos de quem é água
como eu
visualizo partes de mim
em todo lugar…

Clima*

visão do final de tarde
crepúsculo escavado em fogo…
duas horas depois noite feita
o clima mudou chuva se abateu
zona norte atingida
clima — palavra
que termina com o artigo “a” —
substantivo masculino
humor feminino…
indeterminado terrível exuberante.

*Baseado em texto de 2019

Imortal

sei que sou mortal morrerei um dia
mas há coisas que são imortais
enquanto vivos viveremos de saudade
e desejos de alcançar e perseverar
passeios no vazio nos encontros
e eventuais reencontros
ainda que nunca tenhamos nos ausentado
as lembranças sem nunca serem olvidadas
vontade de retornar aos âmagos animados
há momentos que não morrerão
imagino que gravados na consciência universal
um repertório infinito de dores e amores
vivências de alegrias e tristezas
grandiosidades e miudezas
sonhos
tudo recolhido e espargido pelas galáxias
mundos e sistemas solares
milhões de vezes reproduzidas em quem ama
submergido nos genes das humanidades universais
nesta terra que se desfigura em cada estação
em cada canto esquinas bares casas
casebres mansões peitos corações
em cada canto dolorido doloroso
em cada nota das flores que emitem mensagens sonoras
inaudíveis apenas para os insensíveis
o que tenho certeza é que o amor sobreviverá
marcado pelos átomos dispersos do planeta destruído
abarcado pela explosão do sol daqui a muitas idades
caminhantes pelos universos
embalados pela saudade…

Foto por Pixabay em Pexels.com

Os Dados Nos (A)Casos Do Amor


há crenças mesmo para quem não crê em nada
o que já é uma crença
há quem acredite de acaso no amor
que se transforma em caso quando o encontro se dá
há quem não acredite no amor
seria uma série de episódios esparsos
envolvendo sinais ações visões versões de fatos
afeições transitórias e fátuas
os corpos não ajudam atrapalham quando se tocam
reagem quimicamente os pelos se eriçam
as peles se pelam de calor fulgor de fogo
paixão querência desejo
falta versus falta a se completarem
as bocas respondem as línguas caladas mas ativas
os sexos a buscarem satisfação
os sentidos em explosão
busca de sentido que perde sentido e direção
as horas se perdem dos ponteiros
não creio em acaso mas nele boto fé
os dados sendo jogados à revelia de nossa sofreguidão
se encontrando em linhas de aparentes paralelas
contra todos os prognósticos dois corações
começam a bater no mesmo ritmo desenfreado
concorrendo para que um instante se torne eterno
marcando memórias recorrentes mesmo que apartadas
no tempo e no espaço
viver é viver de lembranças encontros desencontros
o amor um caso de acaso criado pelo destino
de nossos egos tontos…



Foto por Matthias Groeneveld em Pexels.com

Último Pensamento

ÚLTIMO PENSAMENTO

tudo poderia ficar para depois
mas as lembranças não adiam a estadia
enquanto os esquecimentos fazem morada permanente
não há mágoa mas há
para mim não vivo dias porém eternos minutos
passo a passo e em cada um deles para cada memória
aleatória
uma parte de sombra e perdas
porque não fui feito para interagir mal consigo
lhe dar comigo me olvido de mim
esqueço quem sou
para onde vou
não sei de onde vim
me sinto apartado do mundo mas nele vivo
quantas vezes no chuveiro olho para os meus pés
em contato com o piso alagado de reminiscências
que escoam pelo ralo
a água é meu elemento preferido principalmente a salina
nas ondas peito os enfrentamentos e afogo
meus desejos enquanto os afago
sim
eu os tenho sou movido por eles os refuto conscientemente
ainda que os concretize
na temporada junto ao mar chuvas constantes
raios que matam e ferem
após um dia em inquietude desejei ir para a areia
tarde em escuridão de nuvens carregadas
efeitos de zcas el niño la niña seres humanos
apesar disso entrei oceano adentro
me banhei de penitência pensando que talvez morresse
cercado de solidão a minha miopia imperante
meus últimos pensamentos na desconhecida
de todos
visão para outro estado de ser
talvez morresse naturalmente
fulminado por um raio
mas sobrevivi para continuar
a magoar…