Há músicas em que eu me ouço quando as ouço
Há canções das quais eu gosto, sem entender
O significado das letras ou a intenção do compositor
Mesmo quando cantadas na minha língua
Há canções que admiro pela esperteza de suas saídas
Quando pareciam não me levar a lugar algum
E há melodias que, sem dizer palavra, me conduzem
Para o outro lado do verso e do Universo
Há músicas que se tornam a nossa trilha sonora
Mesmo quando não indique quem realmente somos
(Sou Quereres, por exemplo)
Aquelas que talvez digam o que pensamos
Quando nós mesmos não sabemos o que pensamos
E há canções que apenas muito tempo depois
Perceberemos o quanto nos representaram
Em determinada etapa de nossa vida
Ou ainda aquelas que ouvimos repetidas vezes
Até fazer sentido somente em alguma trilha futura
Que estaremos percorrendo
Quando eu não amava
Eu me emocionava com os amores possíveis e impossíveis
Sem saber dizer porque era intenso o amor que se proclamava
Quando um desse amores sem sentido (para quem não amava)
Se fazia amor compreensível pela força de sua letra
Era um achado tão raro, tão absorvente, que passava a repercutir
Os seus ecos amorosos pelos anos afora da minha existência…
Categoria: Poemas
O Espelho*
Em casa, tenho um espelho favorito.
Não por acaso, é o mais antigo.
É meu amigo.
Ele sempre está a me mostrar a minha melhor face.
É como se não incorporasse as minhas rugas,
outras marcas da idade na pele
e os sinais de todos os dissabores por quais já passei.
Nesse espelho, sou melhor.
Fico bem, mesmo muito mais velho e envelhecido.
Não pareço tão envilecido
pelas falhas de caráter as quais reconheço
e aquelas que nem sequer suspeito – as que detecto
quando sou posto diante das diversas situações da vida…
Logo, lembro de Dorian Gray, conquanto o quadro se inverta.
Enquanto eu me degrado fisicamente,
o espelho ainda sustenta o olhar do sujeito sonhador,
crente em melhores dias para todos…
Tento ser convencido pelo nobre
que se posta do lado oposto
que o amor ainda é a melhor solução para contrabalançar o mal…
Mas já não consigo amar a todos e qualquer um…
Termino sempre a minha inspeção visual
com a nítida sensação de que estou condenado
ao desprezo do tempo que passa, enquanto a senilidade
jamais alcançará a alta imagem pessoal
do meu espelho favorito…
*Poema de 2017, com imagem de 2023.
Instante Dos Namorados*
Naquele momento,
olhos nos olhos,
nós nos surpreendemos amantes…
Flor de lótus…
Corpos isolados que se fundem,
tão unidos, que se confundem…
Busca do âmago do outro em si,
espraiando-se em fluídos…
Em um átimo,
o mundo todo se aparta…
nos devoramos e nos regurgitamos
em um parto,
com dor e prazer…
Para cada dia dos namorados inventado,
existe aquele tempo verdadeiro
em que tudo acontece em um instante…
Que se faz presente para todo o sempre,
amém!
Imagem: Foto por Edward Eyer em Pexels.com
*Poema de 2016
Cheiro De Mulher*
Domingo frio e chuvoso e, logo cedo, começo a pensar, por efeito dos poemas que postei ontem e no dia anterior, que faziam parte de um projeto musical que não foi adiante, sobre a possibilidade de um homem conseguir se colocar no lugar de uma mulher e tentar descrever emoções e sentimentos que são tão particularmente delas, que só podemos, como homens, arranhar.
A minha voz é masculina e, ouso dizer, para horror de algumas pessoas que confundem essa consciência masculina de macho, com machismo, que eu me sinto muito confortável em ser um homem, ciente de todos os defeitos que isso possa acarretar, incluindo a não percepção correta do mundo como um todo. Ainda que a vergonha causada ao meu gênero pelos machistas de plantão me entristeça profundamente, quando não me enoje de tal maneira que penso em pedir desculpas a cada mulher que passe.
Eu não me importo ou, de outra parte, até apoio quando alguém se aceita não conformado com o seu gênero e decide se identificar como de outro gênero. Todos mais próximos de mim sabem o quanto admiro quem tem essa disposição em ser aquilo que sente ser. Tenho amigos queridíssimos que se declaram, se posicionam, “se vestem” e se mostram aquilo que sentem ser. Eu, de minha parte, amo às mulheres e tenho certa inveja de alguns predicados especiais que elas detêm, como o de sentir cheiros, por mais discretos que sejam. Adiante, no último poema da trilogia, sou eu, homem, que expressa se apaixonar por um cheiro de mulher.
CHEIRO DE MULHER
Passei pela multidão e entre tantos, a senti
Entretanto, ao procura-la, não a vi
Absorvi seu aroma por minha narina
Respirei um novo ar, que mudou minha sina
Não era Chanel Nº 5 ou qualquer outro perfume
Era o seu cheiro de mulher, em profundidade e volume
Envolvente, penetrante, extasiante e traiçoeiro
Porque logo que o senti, o perdi, o tomei por derradeiro
Como encontrá-la, como procurá-la no povaréu?
Como perseguir a fragrância que me deixou ao léu?
Quem sabe, um dia, em meus braços não a tomarei?
Então, em vez de possuí-la apenas por um sentido, por inteira a sentirei…
*Texto publicado no Facebook em 2015
Projeto Fotográfico 6 On 6 / Sobre Os Meus Eus
Muitos, sou.
A cada idade, fui alguns.
Caminhei pela luz da escuridão
e pelas manchas escuras do Sol.
Naveguei por mares azuis
e ares transcendentais.
Viajei por mim e pelo sim.
Passei por vãos e nãos.
Fui profundo e raso.
Nunca deixei de ser nós.
Ainda que todos sós…


Os Pataxó são um povo indígena brasileiro de língua da família maxakali, do tronco macro-jê. Em sua totalidade, os índios conhecidos sob o etnônimo englobante Pataxó Hãhãhãe abarcam, hoje, as etnias Baenã, Pataxó Hãhãhãe, Kamakã, Tupinambá, Kariri-Sapuyá e Gueren. Apesar de se expressarem na língua portuguesa, alguns grupos conservam seu idioma original, a língua Patxôhã. Praticam o “Xamanismo” e o Cristianismo. Vivem no sul da Bahia e em 2010, totalizavam 13.588 pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro De Geografia E Estatística. A Ingrid trouxe da região onde os portugueses desembarcaram pela primeira vez em Pindorama esse colar de contas. A minha ascendência indígena me permite usá-lo para além de objeto decorativo, por carregar vários significados. Para mim, é como voltar para a kijeme.
Participam: Roseli Pedroso / Suzana Martins / Mariana Gouveia / Lunna Guedes





