aciono a máquina do tempo… ao mesmo tempo que ouço “Wuthering Heights” a voz aguda e precisa de Kate Bush me conduz à lembrança da moça de cabelos esvoaçantes ela dança em minha imaginação em preto e branco memória de garoto na antiga televisão enquanto um vento cálido e reconfortante embala meu corpo estanque no ponto do coletivo que me levará para longe dos morros de cães uivantes do meu norte que contam suas histórias: “estou preso, quero sair!”… “estou na rua, quero um lar!”… “estou só, quero meu humano amor!”… “sou amado, gosto de latir!”… a cápsula-transporte se aproxima embarco rumo ao sul… no concerto sem conserto da vida imprecisa deixo a ventania levar minha dor uivada para destino incerto talvez rumo ao sul do homem que fui…
*Poema de 2019. Abaixo, a bela e talentosa Kate Bush, em clipe de 1978.
Eu, até os meus quatorze ou quinze anos, escutava muito mais músicas brasileiras do que estrangeiras. Corria o início dos anos 70. Era bastante fascinado pelas letras, que em conjunto com as belas melodias, compunham o meu acervo poético, para quem não tinha tanto acesso à literatura em versos para além dos livros didáticos do ginásio.
Entre os compositores que apreciava, Chico Buarque era um dos meus favoritos. As suas composições, falando das mulheres como se fora uma mulher, me influenciou grandemente. Eu, que apenas queria entender aquele ser que se expressa fortemente através de uma parte do corpo que os homens nem sequer imaginam o poder — o útero — o usei como referência em muitos aspectos. Quando ouvia “Com Açúcar, Com Afeto”, “Cotidiano” e “Sem Açúcar”, por exemplo, sabia que era apenas um contraponto, já que a minha mãe, minha referência imediata, não se parecia com aquelas mulheres aparentemente submissas. Mais recentemente, ao pesquisar “Mulheres De Atenas”, soube se tratar de uma passagem da peça teatral de Augusto Boal, de 1976, versando sobre uma mulher libertária — Lisa, Mulher Libertadora — que critica a sociedade patriarcal, em pleno Regime Militar.
Nos versos a seguir, que fiz para um projeto musical apenas iniciado, mas nunca levado adiante, tento me colocar no lugar de uma mulher. Espero que as minhas amigas sintam pelo menos um pouco representadas por eles. Se não, perdoe a intromissão nesse universo que tento compreender até sempre!
Uma Só Asa
Quem quer um anjo em sua vida, quem quer um amor? Que caia do céu, direto para você, um anjo transgressor?
Um anjo caiu em meu quintal e foi assim Uma luz, um estrondo… e um rapaz se ergueu Entre a garagem coberta e o canteiro do jardim De seus ombros largos, apenas uma asa, a outra se perdeu…
Quem quer um anjo em sua vida, quem quer um amor? Que caia do céu, direto para você, um anjo transgressor?
Vestia uma roupa muito branca, quase transparente Deixava entrever as formas de um corpo esguio Jeito de menino-homem, com a sua asa pendente Caminhando decidido, veio direto para mim, bravio
Quem quer um anjo em sua vida, quem quer um amor? Que caia do céu, direto para você, um anjo transgressor?
Não tive medo, não pensei neste tempo doentio Parece até que o esperava, o buscava em meu sonho Não aguardava que fosse um anjo vindo do vazio Mas senti que ele seria aquele ser que chegara risonho…
Quem quer um anjo em sua vida, quem quer um amor? Que caia do céu, direto para você, um anjo transgressor?
Ao se aproximar, pegou em minha mão, que tremia Beijou a minha testa e baixou os lábios até a minha boca Apenas entreabriu a sua e soprou que me queria Que já há algum tempo me observava e que chegara a nossa época…
Quem quer um anjo em sua vida, quem quer um amor? Que caia do céu, direto para você, um anjo transgressor?
Perguntei sobre a asa que não trazia, a que havia sumido Respondeu que começou a pensar apenas em mim e que caíra em casa Já amputado, porém feliz, pois fora atendido em seu pedido E dessa maneira, ganhei o meu homem, um anjo de uma só asa…
Quem quer um anjo em sua vida, quem quer um amor? Que caia do céu, direto para você, um anjo transgressor?”
ronco de motores rodovia movimentada motoqueiro fantasma sem capacete deve ser parado pária da sociedade calção chinelos camiseta pobre desce do cavalo se posiciona com respeito aqui é autoridade autoritarismo práticas de tempos passados por chefes no poder incensados não reclama não fala se cala continua sem voz além das muitas na sua cabeça tomo remédio olha as cartelas não queremos saber você é fora da lei eu só quero respeito não cometi crime nenhum está sem capacete nós estamos protegidos com os nossos somos senhores da vida e da morte você deve aprender e quem nos observa também fica assolado no chão nossas botas na sua canga vamos aplicar a nossa sentença culpado por ser brasileiro sem rumo sem ganho sem profissão para ganhar o pão um verme como tantos outros porque essa tortura? queria voltar para a casa vai para a nossa casa ambulante receberá a lição estamos em guerra contra quem nos interpõe representamos o topo do poder nunca mais repetirá a ousadia de contestar mataram mais de vinte no Rio um a mais ou a menos não sou bandido sou trabalhador tenho família filhos pai mãe primos todos tem ratos que se multiplicam olha a nossa viatura a chamamos de carro de dedetização eliminamos pragas as degustamos com pimenta me tirem daqui me desamarrem abram a caçamba não sou lixo sequer indigente sou gente ah! meus filhos mulher não estou aguentando me perdoem não consigo respirar estou deixando a escuridão vou para um lugar sem luz e sem resposta mesmo sendo de Santos Jesus até quando?
Umbaúba, Sergipe, em 26 de Maio de 2022 – dois anos depois da morte George Floyd em outro Hemisfério e outro “não consigo respirar”…
*Poema produzido em 2022, sob os auspícios de tempos obscuros.
Passageiro passo Eu e mais tantos coletivamente motorizados Por uma pracinha de uma única árvore larga Do tamanho do abraço de oito homens Nela uma placa propagandeia: “Alianças a moda antiga”… Terei lido errado Na rapidez da minha passagem? Uma lanchonete Uma igreja Um posto de gasolina Pontos comerciais à direita do meu olhar À esquerda Padaria Loja de tintas Uma oficina Quantas funções Serviços Precisões Consórcios Empresas Dos quais somos presas Não bastam as necessidades básicas Temos que adquirir novas e variadas Outras muitas Vender e comprar desejos de consumo Sem eles O que nos move? Amar? Atravessar pontes sem ultrapassar portais? Nos desvestirmos de roupas E posições sociais? Nos apoderarmos de emoções E sentimentos? De sermos mais do que o corpo Nos proporciona de prazer E transcender o gozo? Alcançar o prazer de ser Sem ter? O que somos além de animais Racionais que praticam irracionalidades Identidade e idade Cor e nacionalidade? Já buscou dentro si o universo E o multiverso? O que você É Sem o nome que carrega? A ouvir o som eterno do silêncio Consegue se imaginar sem tamanho Sem o apego ao ego Indefinido e infindo? Deixaria de ser servo E se tornar um com Deus?
Frida fala pelos olhos… Nasceu ressabiada de gestos bruscos, como se trouxesse abusos de vidas passadas… Passou a se aproximar aos poucos, a vencer a timidez, a se colocar embaixo de mesas, em cantos de sofás, junto aos nossos pés… Hoje, perdeu de vez as travas… Sentiu o frio chegar e arranhou a porta para entrar… Frida, outrora calada, vive agora a deitar falas com o seu olhar…
*Poema de 2016, para Frida, que nos deixou logo depois, pela veleidade de um motociclista que corria a 100Km/h em uma rua de bairro.